domingo, 30 de março de 2008

A FORMA PASSIVA

Aliás, a solidão, a grande, a dolorosa, a difícil, não é esta, povoada de sol e mar, de pássaros, de árvores e de arbustos: é a da cidade em que as pessoas se acotovelam, se agridem, se odeiam (a indiferença é a a forma passiva do ódio).
Fernanda de Castro, in " Ao Fim da Memória - Ivol."

sexta-feira, 28 de março de 2008

POR VALES E MONTES

Mas, e as pessoas? Lisboa está longe! O Porto também! Nas encostas até os cemitérios vão ficando desertos.

quinta-feira, 27 de março de 2008

PROCURA DA POESIA

PROCURA DA POESIA


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
Não aquece nem ilumina.


As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.


Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.


Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem: rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.


O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.


Não dramatizes, não invoques, não indagues.
Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.


Não recomponhas tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que .se partiu, cristal não era.


Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.


Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço



Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 25 de março de 2008

quinta-feira, 13 de março de 2008

ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.

Este poema é, para mim, dos melhores poemas escritos nos últimos anos. Não digo qual é a chave do poema. Mas está na alma. Obrigado Aspásia por me deixar publicá-lo aqui. E visitem a poesia da Aspásia. Vão, de certeza, surpreender-se.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO TRANSMITE TESE,
NÃO FAZ EXEGESE,
NÃO DÁ CATEQUESE,
NÃO DIZ SIM NEM NÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO QUER SER SINCERO,
NÃO TRAZ DESESPERO,
FOI FRUTO DO MERO
VAGUEAR DA MÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO É VERDADEIRO,
NÃO É CORPO INTEIRO,
SAIU DO TINTEIRO
SEM QUALQUER RAZÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO PRETENDE OBTER
DAQUELE QUE O LER,
APLAUSO, OU SEQUER
LEVE APROVAÇÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO SENTE CALOR,
NÃO GRITA DE DOR,
NÃO MORRE DE AMOR,
NÃO VIVE EM PAIXÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NUNCA TEVE NORTE,
NEM AZAR, NEM SORTE…
E VAI PARA A MORTE
SEM PEDIR PERDÃO.
***
Aspásia 98

segunda-feira, 10 de março de 2008

LIBERDADE


Tendes, ó homens, a LIBERDADE de vossas ações nunca a de suas consequências. (Pietro Ubaldi)

domingo, 9 de março de 2008

ADMIRO MUITO A MULHER PORTUGUESA


Não só porque também é bonita. Admiro-a mais pelo baluarte que é desta sociedade deslassada. Pela sua capacidade de trabalho, de ternura, de resistência e de paciência. Admiro-a também como amante dedicada. Como mãe sofrida. Admiro o seu sorriso ao fim do dia, como se cada dia fosse excelso de felicidade, apesar de quem aturam. E do que aturam. Sempre resistentes. Sempre pilares. Eu tenho a felicidade de ser casado com uma mulher portuguesa

quinta-feira, 6 de março de 2008

A SOCIEDADE PORTUGUESA DESLASSOU

Ontem ouvi esta frase dita pelo Dr. José Amaral no programa Clube do Jornalista na RTP2. Programa interessante com mais o Dr. Silva Lopes e o Dr. Basilio Horta. Deslassou. O termo traduz bem a quebra de solidariedade no seio da sociedade portuguesa. Os grupos de interesses, ou corporativos, lutam por vantagens sem terem em conta o contexto envolvente, e sem se preocuparem com as consequências negativas que possam ter sobre outros cidadãos. Infelizmente os sucessivos governos, enredando-se nas tramas chantagiosas de grupos de classes, tem contribuído para essa quebra de solidariedade nacional.
A sociedade portuguesa deslassou. Bela frase. Que melhor síntese para o grande problema.

terça-feira, 4 de março de 2008

QUE MAIS A DIZER?

Vasco Pulido Valente escreveu este artigo, no Publico, na passada Sexta-feira. Estava para pôr aqui um trecho. Mas ele só tem nexo na totalidade:
Mal-estar difuso
Alexandre Herculano, o maior "intelectual" do liberalismo, que passara pelo exílio e combatera no cerco do Porto, deixou, já em agonia, um último juízo sobre a Pátria: "Isto dá vontade de morrer." D. Carlos, que foi de facto o último rei e o último reformador da Monarquia, achava Portugal uma "piolheira" e os portugueses, fatalmente, uma "choldra". Os republicanos não estimavam nem o país, nem a República e acabaram, quase sem excepção, "desiludidos". Basta ler uma dúzia de páginas dos Discursos para constatar o infinito desprezo que Salazar tinha por nós. Do PREC ficou o absurdo cadáver do PC. E esta democracia anda agora a chorar abjectamente o seu fracasso. Verdade que a famosa frase de Herculano é apócrifa (inventada por Bulhão Pato) e que D. Carlos só em privado se alargava sobre o seu reino. De qualquer maneira, não há dúvida de que Portugal sempre gostou muito pouco de si próprio.Com uma certa razão, convém admitir. Desde o princípio do século XVIII que Portugal quis ser "como a Europa" e até hoje infelizmente não conseguiu. A cada revolução, a cada guerra civil, a cada regime, o indígena prestável, alfabeto e "modernizante" supunha que chegara "o dia". E "o dia" invariavelmente não chegava. A sociedade ia, como é óbvio, mudando: devagar, com dificuldade, aos sacões. Só que a distância que nos separava da Europa não diminuía. Os modelos não faltavam: ou modelo universal da França (até à República); ou os mais modestos modelos de países pequenos como a Bélgica no século XIX e a Suécia a seguir. O português copiava com devoção o que via "lá fora". Mas não saía da sua inferioridade e do seu atraso. No meio desta persistente desgraça, Portugal julgou três vezes que se aproximava da Europa: durante os primeiros tempos da "Regeneração", durante o "fontismo" e durante o "cavaquismo". Ao todo, trinta e tal anos de uma ordem política "civilizada" e de um crescimento económico razoável. Mesmo assim, os fundamentos destes raríssimos milagres não eram sólidos. Nos três casos (embora com um ligeiro atraso), uma crise financeira pôs fim à festa e voltou a velha angústia nacional, a que por aí se convencionou chamar "mal-estar difuso". O "mal-estar difuso" é simplesmente o regresso à realidade. Portugal não tem meios para o Estado-providência e a espécie de vida que os portugueses reclamam. E, como não tem, toda a gente se agita e ninguém faz nada com sentido. Esta fase também é conhecida.