segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

ESTATISMO PANTANOSO


António Quadros, publicou na revista «57», em 11.06.52, um ensaio «Os Três Problemas Portugueses». Já aqui nos tínhamos referido a essa revista a propósito do «Manifesto Sobre a Pátria», também de António Quadros. O blog dedicado a António Quadros tem o link aí ao lado. E é muito interessante este ensaio do qual pomos aqui um pequeno trecho. Mas é delicioso podermos aprender com quem sabe. E António Quadros sabia, e o seu saber é actual e muito proveitoso. O triste é poucos aprenderem. Já decepcionante é muitos nem sequer saberem ensinar (Mas isto é outra cantiga não avaliada). Mas leiam o ensaio todo. E depois façam as vossas reflexões. Meditem sobre os tempos hodiernos. Eu continuarei a divagar por aqui até que a mistura de ignorância e poder nos faça explodir. Mas leiam o trecho e depois todo o ensaio:


Ora é este terreno comum que exactamente contestamos e pomos em causa. Há quatrocentos anos que, entre nós, mudam os regimes, as estruturas e as forças dominantes, mas na realidade pouco ou nada se modificou no tipo de estatismo em que pantanosamente mergulhamos.E isto porque o nosso pensamento político, há quatrocentos anos que não é criador, mas aderente. Queremos dizer que, incapazes de criar doutrina política, necessariamente derivada de uma filosofia e de uma visão do mundo, os nossos políticos se limitam a lutar pela adesão do pais a este ou aquela doutrina, forjada por outros a partir de circunstâncias históricas, ideológicas e sociais inteiramente diversas das nossas. Qual é o partido político que, nos últimos séculos, pôde ou soube postular uma teoria própria e original? Portugal é pensado como um pequeno e triste astro sem luz própria, reflectindo a sombra e o sol dos outros, e por isso todos os nossos movimentos de reacção e acção, sejam a Contra-Reforma e o Iluminismo, sejam o Absolutismo e o Liberalismo, sejam a Monarquia constitucional e a República, sejam as outras teses e antíteses que se lhes seguiram, tiveram de comum, a ideia concordante da menoridade da pátria, incapaz de teorizar pelas próprias vias, sistemas de filosofia, de educação e de política.
(...)
Ora estes problemas andam de tal forma obscurecidos por ambiguidades artificiais, o drama consequente é de tal modo menorizado por proposições sentimentais e volitivas, o essencial é tantas vezes ocultado pelo acessório, que a maioria das pessoas cada vez sabe menos o que há-de pensar, quando não se encontra filiada em qualquer organização que por eles pense.
A pequena política é a grande dissolutora das mais belas e verdadeiras ideias humanas, porque não quer reconhecer a hierarquia dos problemas e a lógica das relações entre o menor e o maior. Assim, a mediocridade é o plano em que se agita, o superior é arrastado ao nível do inferior, as mais fecundas concepções filosóficas são degradadas em nome dos interesses imediatos, circundantes, egoístas e pragmáticos. Crescem os actos puramente utilitários, as atitudes provincianas, as ilusões utópicas, os partidarismos irreflectidos, as subordinações confessas ou inconfessas, e é tudo isto, toda esta gama de detritos provindo de ideias e crenças moribundas, que está alimentando e envenenando um número majoritário de portugueses."

1 comentário:

Mirim disse...

Não é para este teu escrito!É para o "Foguetabraze",que relata um escrito do Mário Crespo.É uma delícia...infelizmente.