sexta-feira, 2 de maio de 2008

E A NOSSA GEOESTRATÉGIA

A propósito do post anterior, este trecho do Prof. Adriano Moreira publicado no DN em 30.12.2003:

No caso português, parece que a relação com o mar está a exigir atenção, e é inquestionável que ela interessa de maneira essencial à identidade nacional. São já muitos os aspectos em que se desdobra o risco de erosão, a começar pelo conflito entre o europeísmo e o americanismo. Não parece dispensável assumir que o afastamento dos mais poderosos Estados da frente marítima europeia de solidariedade atlântica, obrigará os restantes a reflectir sobre a relação entre a sua condição economicamente periférica, e a sua geografia de fronteira entre as duas concepções estratégicas. A questão do mar e da identidade está envolvida no processo, dependente de interesses exógenos que não a terão em conta. O tema das capacidades, e a definição de força naval ganham em relevância e exigência de um conceito estratégico nacional até agora de difícil concretização. Por outro lado, o tema das autonomias e da outra Europa, para um país que tem a nossa estrutura geográfica, exige um empenho que inclui o esforço pela manutenção de uma presença efectiva no mar, e pela defesa e reforço da identidade em resposta a uma conjuntura volátil. Tão volátil, que os efeitos dos compromissos europeus sobre a zona económica exclusiva parecem ter surpreendido até os informados, impondo avaliar com urgência a dimensão que resta da frota pesqueira, a relação desta com a dependência de recursos, e o efeito sobre a consistência da presença do mar na identidade portuguesa.

ESPAÇO VITAL

É um conceito muito caro a quem se interessa por geoestratégia. Hoje, no Público, vem esta notícia sobre uma comunicação feita pelo director da CIA numa universidade, sobre a qual não se pode deixar de reflectir:
O crescimento populacional e a maré cheia da imigração são os novos desafios que os Estados Unidos terão de enfrentar no próximo meio século, considerou o director da CIA, Michael Hayden, num discurso na Universidade do Kansas. Em 2050, o número de seres humanos na Terra deve subir dos actuais 6700 milhões para 9000 milhões. Nos próximos 40 anos, disse Hayden, citado pelo jornal The Washington Post, o crescimento projectado de 33 por cento da população será um dos factores mais significativos para a segurança no século XXI. A pressão populacional reduzirá os recursos e alimentará movimentos extremistas e de insurreição civil em vários pontos do globo, disse Hayden. "A maior parte do crescimento populacional será nos países com menos condições para o suportar." Espera-se que a população do Níger e da Libéria triplique nos próximos 40 anos. A pressão para garantir alimentos, abrigo e emprego para tantos milhões de pessoas "pode fazer com que muitos se sintam atraídos pela violência ou pelo extremismo", considera o director da agência de espionagem norte-americana. Nesta visão da CIA, os países mais ricos, as divisões étnicas e raciais, sublinhadas pela imigração, podem criar problemas de segurança, em especial nos países europeus com muitos imigrantes muçulmanos. Por outro lado, Hayden considera que a Europa e os EUA vão continuar a divergir na forma como lidam com o terrorismo. "Eles [os europeus] tendem a não vê-lo como nós, como um grande desafio internacional. Encaram o terrorismo mais como um problema de vigilância policial." A terceira tendência para os próximos 50 anos identificada por Hayden é a da emergência da China como uma potência económica e militar. Mas isso não tem de ser uma ameaça: "Se Pequim começar a aceitar mais responsabilidades no sistema internacional, manter-nos-emos num caminho competitivo mas construtivo."

segunda-feira, 28 de abril de 2008

sábado, 26 de abril de 2008

25 DE ABRIL É A DATA DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS MEDÍOCRES

A mediocridade instalou-se em Portugal.

domingo, 20 de abril de 2008

O PASSADO CABE TODO NUM LIVRO DE 600 PÁGINAS, ENTALADO NUMA PRATELEIRA.


Um amigo meu não gostou da frase com que terminei o post anterior. Pode-se não gostar, mas é a realidade para onde nos encaminhamos. O nosso passado sobrevive nos discursos de circunstância, para fatalmente referirem que “nós já fomos” isto e aquilo. Fomos, mas nunca que somos ou seremos. Falta a crença. E falta muito o querer. Sobretudo a um povo que vive acossado entre manobras de vigaristas sem escrúpulos.
Por isso o passado já só vive nas páginas de livros e nas saudades nostálgicas de alguns. Que até chegam a ter saudades de si próprios, do que foram face ao que se transformaram, nuns acomodados. E a juventude desligou-se da memória do país. Não lê, não estuda e até já tem professores que são ignorantes. O que era previsível. A ignorância vai reproduzindo-se. E o tal livro cada vez mais entalado na prateleira. E se a juventude não tem memória colectiva, também não tem valores pátrios nem futuro colectivo. Irá ficar, bem como o país, à mercê das contingências externas, mas sem referências que a permitam posicionar-se face a essas contingências. Dramático? Não. A evolução dos povos determina que há sempre uma decadência algures no percurso. Já somos um país velho e sem garra. Se esvaímos a boa seiva, naturalmente que a árvore tenderá a definhar. É da natureza. A não ser que haja um bom tratamento “botânico” por “agrónomo” credível, a árvore definhará sem remissão. Ficará o livro com uma memória encerrada nas suas páginas.

sábado, 19 de abril de 2008

SE O PAÍS NÃO SE ORGULHA DE SI ... ...


É óbvio que não pode passar da cepa torta. Os portugueses estão cada vez mais mesquinhos e pouco solidários. E sempre muito burgessos. Não há forma de evoluir neste quadro. Ou mudam as atitudes perante a vida e perante os outros e a sociedade em geral, ou o futuro será uma triste história.
Há falta de solidariedade entre os portugueses. Existem grupos que têm mais capacidade de reivindicar, exercendo até chantagem, e pouco se importando com os outros, ou com o que os outros terão de pagar para eles poderem viver bem melhor do que os que, obrigatoriamente, têm de os sustentar. E o país também não é uniformemente solidário. Já por aqui o tenho afirmado. Vivemos tempos de egoísmo acérrimo e feroz. A maneira como o país trata o interior é reveladora do mau carácter de uma parte da população portuguesa. Retiram-lhes tudo o que é possível retirar, como escolas, hospitais e demais estruturas necessárias. Depois para irem buscar electricidade destroem-lhes a paisagem e os recursos, danificando o meio ambiente. É o caso da barragem no Tua. Não faz falta nenhuma aos que por lá vivem, mas sim aos de Lisboa. Mas não fazem nenhuma barragem que destrua Lisboa e arredores. Destroem o interior. Lisboa e arredores absorvem tudo o que podem do país. E nada dão em troca. A solidariedade nacional há muito que morreu. Assim como a verdade sobre o estado do país. Bem como a honra que antigamente se fazia questão de se exibir. Assim morreu a esperança no país. Não há nada para se exibir como orgulho. Alguns ainda falam do passado, mas isso fica tudo contido num livro de 400 a 600 páginas, algures numa prateleira, que os mais novos já não lêem.

terça-feira, 15 de abril de 2008

PATRIOTISMO EMOCIONAL

Continuando com António Quadros. Não deixem de ler os dois volumes dessa obra.

“O patriotismo emocional é um fogo de palha, que ora se inflama à notícia de um efeito desportivo, ora se afunda por completo ao aceitar sem um assomo de resistência as leis, os actos de governação, as propostas politicas, culturais ou estéticas mais radicalmente avessas aos interesses nacionais, à vontade de regeneração segunda a identidade portuguesa ou às traves mestras da nossa estrutura cultural.”

António Quadros (in, Portugal Razão e Mistério)

Muito adequado aos últimos tempos que se estão vivendo.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

VENCIDA A AUTO-DIVINIZAÇÃO EGOLÁTRICA

Uma reportagem, hoje, da RTP1 sugeria que a Maçonaria iria dialogar com a Igreja Católica. O que me inspirou para transcrever aqui este texto do António Quadros, retirado do blog que lhe é dedicado e com link aí ao lado:
"Meu Eu, meu Deus: vencida a auto-divinização egolátrica, quebrada a casca do ensimesmamento pequenamente lírico e empecido, o eu pode tornar-se espelho de transcendência, caminho de diálogo com algo que o excede «ser mediador» para uma outra e a mesma realidade: a do Deus que nos fala e em nós fala no nosso próprio ideal, no nosso próprio movimento, ainda que o investamos de outros nomes, ou a do Deus que por vezes ao longo da jornada, mais cedo ou mais tarde, dificilmente, penosamente, agraciadamente, aprendemos a reconhecer sob mil máscaras que permitem a nossa liberdade..."

terça-feira, 8 de abril de 2008

FRASES CONEXAS

«Vivemos tempos de crise. São tempos de máscaras e aparências, em que se esquece o valor do serviço e o respeito pela realidade. São tempos que ignoram o passado da independência e anunciam um futuro sem liberdade»

Gen. Rocha Vieira, in Correio da Manhã de 6.4.2008, aqui


«Num mundo menos tolerante e mais pobre o adquirido do Maio de 1968 não sobrevive.»

Pacheco Pereira, in Público de 5.4.2008, aqui.



«No fim, como é sabido, a Igreja prevaleceu, produziu Salazar e gozou meio século de uma quase absoluta hegemonia.»

VPV, in Público de 6.4.2008, aqui.
Mas o curioso é que a propósito desta frase de VPV se compare com a capa de uma revista de 1918 que coloquei aqui.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

INFANTILIZAÇÃO DA SOCIEDADE

Hoje, no Público, aqui, o dr. Pedro Afonso, médico psiqiatra, publica um artigo com o título "Os alunos, os professores e a infantilização da sociedade", que eu considero excelente, e que põe as coisas na sua devida dimensão. Aqui deixo o trecho que acho muito significativo do artigo:


(...)
A desautorização dos professores e a demissão dos pais do exercício da sua autoridade educativa, para além de conduzir a atitudes e comportamentos anti-sociais, proporciona a estruturação de personalidades imaturas e com falhas na adaptação social.
Verificamos que na educação das crianças e dos jovens há cada vez mais uma ausência de limites. Existe, por vezes, a noção errada de que a tolerância é o maior dos bens e que os limites, impostos pelas regras, são actos de repressão. Porém, a permissividade excessiva e a ausência de limites na educação são também provas de desamor e de abandono. Neste contexto, a família tem um papel fundamental. Educar obriga muitas vezes a dizer "não" e isso leva muitas vezes a reacções, do lado dos filhos, que são difíceis de presenciar.
Evidentemente que muitas vezes torna-se mais fácil dizer "sim" do que ter que lidar com uma briga ou um amuo. Mas quem disse que educar não dá trabalho? Uma das consequências da ausência de limites na educação é a falta de capacidade para lidar com a frustração. Estes jovens tornam-se impulsivos, incapazes de esperar, procurando a todo o custo a gratificação imediata e a satisfação dos seus desejos. Não é pois de estranhar que, diante uma contrariedade imposta por um professor, a agressividade surja como uma reacção natural.
É curioso constatar que, ao contrário daquilo que seria de supor, o excesso de tolerância na educação das crianças e dos jovens transforma-os precisamente em indivíduos pouco tolerantes. Para se viver em sociedade é necessário aprender regras, é necessário perceber que a minha liberdade termina quando atinge a liberdade do outro. Por isso, a inexistência de normas e limites incita ao individualismo e a um narcisismo intolerável.A capacidade de ouvir o outro também se aprende. Com efeito, para assistir convenientemente a uma aula é necessário que haja quietude e silêncio. Ora, uma grande parte dos nossos jovens não suportam o silêncio. Num mudo repleto de estímulos e de excesso de comunicação, os jovens não conseguem largar o telemóvel, não sabem estar consigo próprios, receando o vazio da solidão.
Para alguns jovens, os professores – tal como os pais – são vistos como figuras autoritárias, repressoras e desprezíveis. Esta atitude pueril reflecte uma falta de interesse e um desdém pelo conhecimento que a educação proporciona. Na verdade, muitos são incapazes de compreender que é o seu próprio futuro que está em jogo. De resto, esta imaturidade transfere-se para a vida adulta, levando a que se tornem adultos inconstantes, inadaptados, revoltados, atribuindo frequentemente à sociedade as razões do seu infortúnio.Fala-se muito na necessidade de educação sexual nas escolas, mas fala-se pouco de educação cívica. Esta é uma matéria na qual a escola tem uma palavra a dizer. Penso que deveria obrigatoriamente fazer parte da formação dos jovens nas escolas uma experiência de voluntariado. De outro modo, como é que será possível criar uma consciência social nos jovens, se não se integra a solidariedade como um elemento da sua formação? Esta falha formativa pode criar uma "infantilização da sociedade", em que o Estado é visto como uma espécie de pai que tem que nos proteger, garantir todos os direitos, e o único responsável pelo nosso destino.
Os jovens estão cada vez mais afastados da religião e das ideologias políticas. Há uma pressão enorme, por parte da sociedade, para o consumismo e para o hedonismo. Todavia, sabemos que o Homem tem outras aspirações, além dos aspectos materiais e da procura da satisfação dos desejos imediatos. Existem outros valores que devem ser ensinados e transmitidos aos nossos jovens. Mas, infelizmente, vivemos cada vez mais numa sociedade light, na qual vinga a cultura da superficialidade, a procura do prazer imediato e o individualismo.
(...)

terça-feira, 1 de abril de 2008

SEM

A vida sem fé é um túnel sem fim, mas sem esperança é um corredor às escuras que não leva a parte nenhuma.
Fernanda de Castro, in " Ao Fim da Memória - Ivol."

domingo, 30 de março de 2008

A FORMA PASSIVA

Aliás, a solidão, a grande, a dolorosa, a difícil, não é esta, povoada de sol e mar, de pássaros, de árvores e de arbustos: é a da cidade em que as pessoas se acotovelam, se agridem, se odeiam (a indiferença é a a forma passiva do ódio).
Fernanda de Castro, in " Ao Fim da Memória - Ivol."

sexta-feira, 28 de março de 2008

POR VALES E MONTES

Mas, e as pessoas? Lisboa está longe! O Porto também! Nas encostas até os cemitérios vão ficando desertos.

quinta-feira, 27 de março de 2008

PROCURA DA POESIA

PROCURA DA POESIA


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
Não aquece nem ilumina.


As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.


Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.


Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem: rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.


O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.


Não dramatizes, não invoques, não indagues.
Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.


Não recomponhas tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que .se partiu, cristal não era.


Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.


Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço



Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 25 de março de 2008

ANDEI PELO PRIMEVO EMBRIONÁRIO


Na Serra do Açor, mirando Piódão.

quinta-feira, 13 de março de 2008

ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.

Este poema é, para mim, dos melhores poemas escritos nos últimos anos. Não digo qual é a chave do poema. Mas está na alma. Obrigado Aspásia por me deixar publicá-lo aqui. E visitem a poesia da Aspásia. Vão, de certeza, surpreender-se.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO TRANSMITE TESE,
NÃO FAZ EXEGESE,
NÃO DÁ CATEQUESE,
NÃO DIZ SIM NEM NÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO QUER SER SINCERO,
NÃO TRAZ DESESPERO,
FOI FRUTO DO MERO
VAGUEAR DA MÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO É VERDADEIRO,
NÃO É CORPO INTEIRO,
SAIU DO TINTEIRO
SEM QUALQUER RAZÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO PRETENDE OBTER
DAQUELE QUE O LER,
APLAUSO, OU SEQUER
LEVE APROVAÇÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO SENTE CALOR,
NÃO GRITA DE DOR,
NÃO MORRE DE AMOR,
NÃO VIVE EM PAIXÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NUNCA TEVE NORTE,
NEM AZAR, NEM SORTE…
E VAI PARA A MORTE
SEM PEDIR PERDÃO.
***
Aspásia 98

segunda-feira, 10 de março de 2008

LIBERDADE


Tendes, ó homens, a LIBERDADE de vossas ações nunca a de suas consequências. (Pietro Ubaldi)

domingo, 9 de março de 2008

ADMIRO MUITO A MULHER PORTUGUESA


Não só porque também é bonita. Admiro-a mais pelo baluarte que é desta sociedade deslassada. Pela sua capacidade de trabalho, de ternura, de resistência e de paciência. Admiro-a também como amante dedicada. Como mãe sofrida. Admiro o seu sorriso ao fim do dia, como se cada dia fosse excelso de felicidade, apesar de quem aturam. E do que aturam. Sempre resistentes. Sempre pilares. Eu tenho a felicidade de ser casado com uma mulher portuguesa

quinta-feira, 6 de março de 2008

A SOCIEDADE PORTUGUESA DESLASSOU

Ontem ouvi esta frase dita pelo Dr. José Amaral no programa Clube do Jornalista na RTP2. Programa interessante com mais o Dr. Silva Lopes e o Dr. Basilio Horta. Deslassou. O termo traduz bem a quebra de solidariedade no seio da sociedade portuguesa. Os grupos de interesses, ou corporativos, lutam por vantagens sem terem em conta o contexto envolvente, e sem se preocuparem com as consequências negativas que possam ter sobre outros cidadãos. Infelizmente os sucessivos governos, enredando-se nas tramas chantagiosas de grupos de classes, tem contribuído para essa quebra de solidariedade nacional.
A sociedade portuguesa deslassou. Bela frase. Que melhor síntese para o grande problema.

terça-feira, 4 de março de 2008

QUE MAIS A DIZER?

Vasco Pulido Valente escreveu este artigo, no Publico, na passada Sexta-feira. Estava para pôr aqui um trecho. Mas ele só tem nexo na totalidade:
Mal-estar difuso
Alexandre Herculano, o maior "intelectual" do liberalismo, que passara pelo exílio e combatera no cerco do Porto, deixou, já em agonia, um último juízo sobre a Pátria: "Isto dá vontade de morrer." D. Carlos, que foi de facto o último rei e o último reformador da Monarquia, achava Portugal uma "piolheira" e os portugueses, fatalmente, uma "choldra". Os republicanos não estimavam nem o país, nem a República e acabaram, quase sem excepção, "desiludidos". Basta ler uma dúzia de páginas dos Discursos para constatar o infinito desprezo que Salazar tinha por nós. Do PREC ficou o absurdo cadáver do PC. E esta democracia anda agora a chorar abjectamente o seu fracasso. Verdade que a famosa frase de Herculano é apócrifa (inventada por Bulhão Pato) e que D. Carlos só em privado se alargava sobre o seu reino. De qualquer maneira, não há dúvida de que Portugal sempre gostou muito pouco de si próprio.Com uma certa razão, convém admitir. Desde o princípio do século XVIII que Portugal quis ser "como a Europa" e até hoje infelizmente não conseguiu. A cada revolução, a cada guerra civil, a cada regime, o indígena prestável, alfabeto e "modernizante" supunha que chegara "o dia". E "o dia" invariavelmente não chegava. A sociedade ia, como é óbvio, mudando: devagar, com dificuldade, aos sacões. Só que a distância que nos separava da Europa não diminuía. Os modelos não faltavam: ou modelo universal da França (até à República); ou os mais modestos modelos de países pequenos como a Bélgica no século XIX e a Suécia a seguir. O português copiava com devoção o que via "lá fora". Mas não saía da sua inferioridade e do seu atraso. No meio desta persistente desgraça, Portugal julgou três vezes que se aproximava da Europa: durante os primeiros tempos da "Regeneração", durante o "fontismo" e durante o "cavaquismo". Ao todo, trinta e tal anos de uma ordem política "civilizada" e de um crescimento económico razoável. Mesmo assim, os fundamentos destes raríssimos milagres não eram sólidos. Nos três casos (embora com um ligeiro atraso), uma crise financeira pôs fim à festa e voltou a velha angústia nacional, a que por aí se convencionou chamar "mal-estar difuso". O "mal-estar difuso" é simplesmente o regresso à realidade. Portugal não tem meios para o Estado-providência e a espécie de vida que os portugueses reclamam. E, como não tem, toda a gente se agita e ninguém faz nada com sentido. Esta fase também é conhecida.