Não vou comentar para não nublar as palavras do Prof. Medina Carreira no programa Negócios da Semana da SIC Noticias. Oiçam com muita atenção este programa, aqui.
sexta-feira, 4 de julho de 2008
terça-feira, 1 de julho de 2008
SOBRE O DEVER
Escreve Helena Matos um excelente artigo, hoje no Público, aqui, intitulado «Os juízes não vão ao futebol?». Excelente e a não perder.
Dois trechos a destacar:
A esta mesma hora gostaria de saber onde estão e o que têm para dizer aqueles que, há treze anos, se opuseram à construção da barragem de Foz Côa. A barragem do Sabor tornou-se mais ou menos inevitável desde que se suspendeu Foz Côa. Na época ninguém fez contas aos custos económicos e ambientais da suspensão da barragem de Foz Côa. Um desses custos está agora aí na construção da barragem do Baixo Sabor e no quase apagamento do que aconteceu em Foz Côa.
(...)
Afinal quando foi a última vez que ouvimos um líder político falar de dever e deveres? De brio? E mais raramente ainda o que aconteceu à noção de responsabilidade dos altos cargos da administração pública?
Dois trechos a destacar:
A esta mesma hora gostaria de saber onde estão e o que têm para dizer aqueles que, há treze anos, se opuseram à construção da barragem de Foz Côa. A barragem do Sabor tornou-se mais ou menos inevitável desde que se suspendeu Foz Côa. Na época ninguém fez contas aos custos económicos e ambientais da suspensão da barragem de Foz Côa. Um desses custos está agora aí na construção da barragem do Baixo Sabor e no quase apagamento do que aconteceu em Foz Côa.
(...)
Afinal quando foi a última vez que ouvimos um líder político falar de dever e deveres? De brio? E mais raramente ainda o que aconteceu à noção de responsabilidade dos altos cargos da administração pública?
sábado, 28 de junho de 2008
SÉCULO XXI
Mas o mais surpreendente é o facto de grande parte da população deste “Portugal Profundo” viver, de forma atávica, ainda em certa harmonia com o espírito destes lugares e enquadrada numa cosmovisão religiosa do mundo, absolutamente natural para ela. Esta ligação com os lugares é mantida através de tradições, cultos e lendas, mantendo-se ainda vivos imensos vestígios de uma integração arcaica do homem no cosmos, o que constitui um tesouro inestimável num mundo em fase acelerada de dessacralização (diríamos mesmo bestialização) da vida humana. Todavia, o homem é um ser religioso por natureza (mesmo os sistemas chamados ateus têm os seus ídolos e as suas mitologias) pelo que, actualmente, e como reacção natural, emergem violentamente as chamadas patologias do sagrado sob a forma de superstições religiosas alimentadas por líderes 'muito pouco religiosos', e por grupos espiritualistas que seduzem o homem-exterior em lugar de proporcionarem a emergência da alma interior, o que é naturalmente doloroso para os hábitos entrópicos da personalidade. Com clarividência e alguma ironia, Carl Gustav Jung afirmou, em 1944: "Na realidade, não hesitamos em fazer as coisas mais absurdas a fim de escaparmos à nossa própria alma. Pratica-se a ioga indiana de qualquer escola, seguem-se regimes alimentares, aprende-se de cor a teosofia, rezam-se mecanicamente os textos místicos da literatura universal - tudo isto porque já não se consegue conviver consigo próprio e porque falta fé em que algo de útil possa brotar de nossa própria alma. Pouco a pouco esta última tomou-se aquela Nazaré da qual nada de bom se pode esperar, vai-se portanto procurá-la nos quatro cantos da terra: quanto mais distante e exótico, melhor". O eminente psicólogo colocou bem o dedo na ferida: o homem do terceiro milénio tem de restabelecer o diálogo com o seu inconsciente, tem de trazer à consciência o seu mundo mítico a fim de se auto-realizar, ou seja, deve levar a bom termo o seu processo de individuação abrindo-se à sua interioridade e dimensão espiritual. Por isso, André Malraux afirmou: "o século XXI será espiritual ou não será!".
Paulo Alexandre Loução, in "Portugal - Terra de Mistérios"
sábado, 21 de junho de 2008
O PROBLEMA ACTUAL DA UNIÃO EUROPEIA
O problema da União Europeia é o desfasamento que existe entre os políticos e as populações. A tentativa feita de aprovarem o Tratado de Lisboa à revelia das populações pode redundar no fracasso, a prazo, da União. Se as populações não estiverem envolvidas nos objectivos da União, mais tarde ou mais cedo, o preço vai ser pago. Não consultarem as populações nem auscultarem os seus anseios, determina, sem sombra de dúvidas, que não há sintonia entre as políticas e as aspirações das populações. E que não há confiança das populações nos seus políticos. Por isso estes fogem, como o diabo da cruz, das consultas populares. Mas, a prazo, augura-se o colapso “desta” Europa artificial. E é artificial porque não corresponde às perspectivas das populações europeias. Em boa verdade, sem consulta geral, não se sabe bem o que a população europeia pensa sobre a União Europeia e o que pretende para o futuro dessa União
sexta-feira, 20 de junho de 2008
HÁ FRASES ELUCIDATIVAS DOS DESASTRES
Uns dias depois do início do Euro 2008 ouvi um jornalista, de televisão (o que faz a sua diferença), dizer, em directo, por causa de haver muitos jornalistas não portugueses à volta da selecção portuguesa, que « o mundo estava rendido aos pés de Portugal». Claro que presunção e água benta cada um toma a que quer, mas elucida como há derrotas pré anunciadas. A de ontem só pecou por tardia. Mas a parvoíce dos declamadores de baboseiras vai continuar. Hoje, dia dos discursos de redenção, não vão faltar frases imbecis. Mas um estado que tende, rapidamente, para estado exíguo, nunca tem ninguém rendido a seus pés em nenhum aspecto. Só a mediocridade nacional tem essa capacidade de visão.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
A MEDIOCRIDADE É A CONSTANTE DA EQUAÇÃO PORTUGUESA ACTUAL
O grande problema nacional é a mediocridade e a resignação à mediocridade.
José Saramago, em entrevista ao Público de 15.06.2008.
José Saramago, em entrevista ao Público de 15.06.2008.
terça-feira, 17 de junho de 2008
DE GARGALHAR! OU ENTÃO DE CHORAR.
Helena Matos há muito que me habituou a excelentes artigos. Hoje, no Público, o seu artigo "A GARGALHADA" está acutilante. Destaco os seguintes trechos:
Ninguém se levantou, ninguém pediu a palavra para dizer ao secretário de Estado que os presentes, ou pelo menos alguns deles, não consideram que a integração nas escolas comuns seja benéfica para todas as crianças deficientes. Não aconteceu nada daquilo que seria previsível numa democracia. Simplesmente os presentes desataram a rir. Este riso é o mais claro sintoma do descrédito que se instalou na sociedade portuguesa.
(...)
Agora que o sortilégio se quebrou, os outrora beatíficos assistentes riem. Não por falta de educação. Muito menos por desprezo. Riem com aquele riso que se cruza com o choro e que nos diz que já não há nada a fazer.
(...)
Entretanto os cidadãos estão presos entre as gargalhadas de uns e as milícias dos outros. Mas ao contrário do que José Sócrates declarou na Assembleia da República, o Estado não está frágil. O Estado simplesmente esvaziou-se das suas funções tradicionais, o que levou a que os mais fracos não só ficassem ainda mais fracos, como a que se instaurasse um sentimento de impunidade. Este é o Estado que não só não consegue ter uma justiça credível, como fez da negação do crime uma verdade oficial. Um Estado que reduziu os cidadãos à condição de contribuintes. Um Estado que não consegue ter um discurso adulto e claro sobre o papel das suas forças armadas. O Estado que detesta as pequenas e médias empresas, mas que adora atribuir estatutos PIN à meia dúzia dos seus eleitos. O Estado que Sócrates sentiu frágil é o Estado forte que faz andar as suas forças policiais de café em café a ver se alguém está a fumar, mas que depois é de facto incapaz de impedir um bloqueio de estradas. Até há algumas semanas seria mais provável que o Estado português se assanhasse para apurar a cor das facas, a qualidade do carvão, o tipo de grelhadores e a marca dos detergentes usados no churrasco feito pelos camionistas para celebrar o fim do bloqueio do que com o bloqueio propriamente dito. O Estado não só não está frágil, como tem usado e abusado da sua força contra os cidadãos. O que era e é frágil, muito frágil mesmo, são as ideias que residem na cabeça de quem nos tem governado. Na verdade nem são ideias. São simplesmente castelos erguidos pela propaganda. A realidade murcha-os e o sopro duma gargalhada fá-los ruir.
segunda-feira, 16 de junho de 2008
UMA FRASE A MEDITAR
Os factos estão a confirmar o aviso que a utopia das sociedades afluentes e consumistas fez esquecer. Mas a mensagem da mansidão dificilmente será reverenciada se os factos confirmarem os alarmes.
Adriano Moreira, DN, 10 de Junho de 2008.
A geoestratégia terá de ter sempre em conta os avisos bem ponderados.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
PORTUGAL TERRA DE MILAGRES
No entanto, o que é isso tudo junto, se se confirmar que houve milagre lá para os lados de Vitorino de Piães, Ponte de Lima, a terra de Ana Maria, a funcionária de junta de freguesia que o país todo viu entrevada nas televisões devido a lombalgia e cervicalgia degenerativas. Agora o presidente da junta - haverá em Portugal alguém mais importante do que um presidente da junta? - diz-se desconfiado, porque lhe disseram que a senhora "já anda, conduz e vai à missa". Milagre? Conto do vigário? Efabulação mediática? Abuso de poder?Nada disso.
Hoje, do editorial do Público, por José Manuel Fernandes.
quarta-feira, 11 de junho de 2008
A DESESPERANÇA DA JUVENTUDE
Muitas vezes temos por aqui divagado sobre o futuro, se é que o futuro seja algo sobre que possamos divagar, sobre os anseios e frustrações da juventude. É um tema recorrente. Ontem o Presidente da República referiu que um país onde as instituições não sejam fiáveis, que não cresça e não inove, criando riqueza e oportunidades para todos, que não tenha uma escola de onde saiam elites capazes de integrar a sociedade do conhecimento e lidar com as tecnologias mais avançadas, nem confia no seu próprio futuro, dificilmente vencerá. Mas ele foi 1º Ministro durante anos e teve um Ministro da Educação que foi o Couto dos Santos. Já o devia ter entendido então.
E lembrei-me de Lawrence Grossberg. Da Actual do Expresso, de Sábado passado, de um texto de António Guerreiro, destaco um trecho significativo:
E lembrei-me de Lawrence Grossberg. Da Actual do Expresso, de Sábado passado, de um texto de António Guerreiro, destaco um trecho significativo:
Hoje, as pessoas não só acham que não vale a pena gastar dinheiro com os jovens como há mesmo uma ideia bastante difundida de que são potencialmente criminosos. A imagem idealizada da juventude dissociou-se dos próprios jovens.» E acrescenta: «O futuro entrou em colapso, desapareceu ou já só existe como imagem catastrófica. Os estudantes, e os jovens em geral, têm um grande receio, quanto ao seu futuro, coisa que não acontecia na minha geração. E esta luta pelo futuro consome tudo. O problema, hoje, é o da sobrevivência, não há espaço nem tempo para a imaginação.»
sábado, 7 de junho de 2008
ESTA ATÉ DÓI
'A penalização por não participares na política, é acabares a ser governado pelos teus inferiores'.
Platão
quinta-feira, 5 de junho de 2008
POLÍTICA
A política foi primeiro a arte de impedir as pessoas de se intrometerem naquilo que lhes diz respeito. Em época posterior, acrescentaram-lhe a arte de forçar as pessoas a decidir sobre o que não entendem.
Paul Valéry, in "Olhares Sobre o Mundo Moderno"
sexta-feira, 30 de maio de 2008
O NOSSO PATRIOTISMO
O patriotismo emocional é um fogo de palha, que ora se inflama à notícia de um efeito desportivo, ora se afunda por completo ao aceitar sem um assomo de resistência as leis, os actos de governação, as propostas políticas, culturais ou estéticas mais radicalmente avessas aos interesses nacionais, à vontade de regeneração segundo a identidade portuguesa ou às traves mestras da nossa estrutura cultural.
O patriotismo familiar, habitual e espontâneo não é suficiente para fundamentar uma convicção patriótica resistente, coerente e à prova de todos os exteriores, modas e ideologias deformadoras. Ele exige na verdade, ao seu nível e para além dele, a religação àquilo a que poderíamos chamar o patriotismo racional de elites conscientes do significado dos valores que nele se representam. A comunhão colectiva do patriotismo, para não degenerar em fanatismo, em psicologia de rebanho ou em vacuidade sentimental à flor da pele, depende da capacidade intelectual de uma geração para formular a sua própria patriosofia: religação a um centro axiológico, intelectual e criacionista do qual derivem, como em círculos que se esbatem quanto mais dele se afastem, as formas mais ou menos despertas de tal convicção.O que na realidade se esbateu ou desapareceu quase por completo entre nós não foi o patriotismo emocional que, por ser insuficiente, é muitas vezes manipulado por ideólogos e demagogos de má fé, foi a relação fundamental da substância e dos princípios da identidade pátria com a sua razão teleológica em movimento, relação que um dia corporizou no projecto áureo português, centro vital e motor de tradição lusíada, e que aguarda a reactivação ou a renovação sempre possíveis desde que se cumpram as imprescindíveis condições.
O patriotismo familiar, habitual e espontâneo não é suficiente para fundamentar uma convicção patriótica resistente, coerente e à prova de todos os exteriores, modas e ideologias deformadoras. Ele exige na verdade, ao seu nível e para além dele, a religação àquilo a que poderíamos chamar o patriotismo racional de elites conscientes do significado dos valores que nele se representam. A comunhão colectiva do patriotismo, para não degenerar em fanatismo, em psicologia de rebanho ou em vacuidade sentimental à flor da pele, depende da capacidade intelectual de uma geração para formular a sua própria patriosofia: religação a um centro axiológico, intelectual e criacionista do qual derivem, como em círculos que se esbatem quanto mais dele se afastem, as formas mais ou menos despertas de tal convicção.O que na realidade se esbateu ou desapareceu quase por completo entre nós não foi o patriotismo emocional que, por ser insuficiente, é muitas vezes manipulado por ideólogos e demagogos de má fé, foi a relação fundamental da substância e dos princípios da identidade pátria com a sua razão teleológica em movimento, relação que um dia corporizou no projecto áureo português, centro vital e motor de tradição lusíada, e que aguarda a reactivação ou a renovação sempre possíveis desde que se cumpram as imprescindíveis condições.
António Quadros, in "PORTUGAL, Razão e Mistério - I"
O muito que eu devo a este português, que nunca conheci. Infelizmente, julgo que a grande maioria dos portugueses não conhece nada da sua obra. O que faz de todos nós um povo paupérrimo.
NINGUÉM
Ninguém, das dezenas de pessoas que por este blog passou, colocou um comentário ao facto de um bébé de 15 dias ter ido para Lisboa sem a sua mãe, para o hospital D. Estefânia. Eu já sabia que a fome, as guerras, as misérias e os desplantes servidos a acompanhar o jantar pelos telejornais, estupidificam as populações. Mas não esperava que retirassem a capacidade de se indignarem. Estava enganado. Já se perdeu essa capacidade. Paciência. É a vida.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
HOJE, UM BÉBÉ ...
Foi para Lisboa, para o Hospital da Estefânia. Tem 15 dias. A mãe não foi, por falta de capacidade económica, e a ajuda da assistência social é insuficiente para estar em Lisboa. Um bebé de 15 dias foi sem a sua mãe. Quando, no continente, criticarem algumas coisas nas ilhas, e algumas até serão justas, pensem primeiro no que é a insularidade, sobretudo num país como o nosso. Em que os deputados se auto-aumentam nas despesas de representação. Mas representam o quê?
segunda-feira, 26 de maio de 2008
E PORQUE É QUE NÃO SE FALA DE QUEM CONDUZIU O PAÍS PARA O DÉFICE EXCESSIVO?
Todo o mundo fala dos sacrifícios que o país tem de fazer, em reduzir o défice, etc.. Mas dos culpados que, por políticas totalmente erradas e desajustadas da realidade, conduziram o pais para esse beco, ninguém fala. Todos assobiam para o lado como se não fosse nada com eles. É a vida, foi a única resposta que ouvi sobre o assunto. Podem fazer asneiras que o povo só pode julgar nas eleições. E asneira feita, paciência. Culpados? Que é isso? E o país não se revolta? “Gentinha morna”, como nos classificou Mercia Eliade, no seu «Diário Português».
sexta-feira, 23 de maio de 2008
ESBOROAR
É, quanto a mim, o termo que melhor define o Portugal actual. As pontes caem. O interior despovoa-se. Não há nenhuma estratégia nacional seja para o que for. E internacional é melhor nem falar. A ignorância passou a ser apanágio do ensino. Dos professores e dos alunos. Não temos frota. Não temos governantes capazes. Não se faz manutenção eficaz das estruturas existentes. Já não temos vergonha. Temos 1/5 da população mergulhada na pobreza absoluta. E mais 2/5 a caminho dela. Os ministros mentem e os portugueses já acham normal. Portugal está em guerra civil nas estradas. Mas não com a corrupção. Os monumentos, parcos e serôdios estão no desmazelo. Um tribunal, relativamente novo tem de ser abandonado por que pode desmoronar. Não há culpas, e nunca responsáveis. Os orçamentos é que derrapam. O país está a esboroar-se. É o termo certo. ESBOROAR. E só me lembrei de um pai chinês que desfazia em pó, esboroando, com as suas mãos, os materiais com que a escola, que sepultou o seu filho, tinha sido construída. O que falta para os pais portugueses fazerem o mesmo?
quinta-feira, 22 de maio de 2008
O CAMINHO
Andamos sempre a deambular à volta da grandeza ou da pequenez de Portugal. No fundo o máximo que podemos aspirar é discutir se somos ou não o último dos 25. Que caminhos percorremos até aqui chegar? VPV deu uma excelente resposta a esta deambulação no seu último artigo no Público Domingo passado:
Um dia, em 1977 ou 1978, Diogo Freitas do Amaral, um jovem patriota de grande fervor, disse que um povo - como o nosso -, que tinha descoberto o caminho marítimo para a Índia, era com certeza capaz de descobrir o caminho para o desenvolvimento. Nunca me esqueci desta frase, porque, no fundo, se descobrimos o caminho marítimo para a Índia, foi precisamente porque não descobrimos o caminho para o desenvolvimento.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
NOS TEMPOS DO ABSURDO
Continuando na linha que venho desenvolvendo não posso deixar de colocar aqui um trecho de uma entrevista, no Expresso do passado Sábado, a D. Manuel Martins.
A forma de actuar da Igreja mudou...
Hoje, a nossa Igreja é um arquipélago. Vive-se para a liturgia, não é evangelizadora. Acho que a Igreja não está a «funcionar», a comportar-se como Jesus quer. Já ninguém sai da missa «incomodado» na sua consciência com a liturgia... A Igreja perdeu a capacidade de «sujar» as mãos com a vida dos homens. A Igreja deveria manifestar-se mais. Por vezes, acredita mais no Belmiro de Azevedo e outros, anda pendurada em dependências... A Igreja evangeliza por sinais e a nossa, em Portugal, não tem dado sinais.
Que sinais são precisos?
Que a Igreja seja pobre. Gostava de uma Igreja que não condenasse, que dialogasse, que derrubasse muros, que comungasse os problemas do mundo, que ouvisse os clamores das pessoas e lhes soubesse responder. Quero uma Igreja que aprenda com o mundo e descubra uma maneira nova de estar.
Como é que a Igreja deveria estar no mundo?
No ano 2000 (Ano do Jubileu do Cristianismo), os bispos queriam dar um sinal; Achei que deveríamos ter encerrado as igrejas para fazer uma reflexão de renovação. Senão enquista-se, torna-se empresa. Gostava, que os pobres notassem que a Igreja está incomodada com a sua situação... Os bispos deveriam reunir-se para reflectir os problemas que existem, como deveríamos sensibilizar as comunidades. Mas nas assembleias episcopais vão discutir mais um catecismo, mais uma edição da Bíblia. O arcebispo de Braga (presidente g Conferência Episcopal) lamenta-se que o Governo quer a Igreja na sacristia; só quando se sente que «tocam» na Igreja é que se diz alto que não está bem... É preciso que Igreja se converta ela mesma à dignidade humana. Nas homilias fala-se dos marginais, mas não se faz nada com eles.
E porquê tanta inacção?
Preferimos andar «nisto», que não incomoda da ninguém... As pessoas da Igreja já perderam capacidade de protesto. Por exemplo perante a lei de trabalho que querem colocar em vigor, não percebo como é que a Igreja se cala, diante de uma agressão tão grande aos direitos da pessoa humana! É iníquo a Igreja calar-se. Dói-me que a Igreja ande entretida com coisas outras e não se empenhe numa questão tão importante para a vida da população, do país. Antes de tudo, é preciso que a Igreja se converta a ela mesma. A Igreja tem de estar num esforço permanente de reconversão. Depois Ela tem de sair para a rua, para que povo note que está ao serviço do Homem. Toda esta descoberta da dignidade funda-se na democracia, que passa pela vivência e pelo testemunho de uma descoberta de valores e estamos muito longe de qualquer coisa a que se possa chamar de democracia
terça-feira, 13 de maio de 2008
SEMPRE CONSTANTE
O tempo é constante mudança. A percepção que temos desse tempo, da intuição dessa constância e da inflexibilidade dessa mudança é que nos predispõe para o futuro. Se distinguimos o suficiente, então vamos na onda. Senão, vamos empurrados pelas vagas sucessivas das ondas. Arreigados a um conservadorismo de tempos estáveis, seremos arrastados pela avalanche determinada pelo fluir das pressões acumuladas, e resultantes dos egoísmos de partilha. Eterno é o tempo, mas constante nessa eternidade é a mudança. Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar. Assim se badalava na década de 60. Mas ignorámos. Era mais cómodo. Diria mesmo que era mais aconchegante, mais fetal. Não ousámos e nem lutámos pela defesa de princípios. Agora parece que já ninguém tem coragem para o fazer. Defenderam princípios, mas quiseram enriquecer. Ou simplesmente enriqueceram descurando os princípios. O eterno antagonismo. Princípios e enriquecimento não são compatíveis.
(Como não fazem comentários, apesar de por aqui passarem a ler, julgo que estes temas não são agradáveis. Julgo que futebol facilitaria mais.)
E hoje volta a citar uma excelente dissertação, "DIÁLOGOS ABSURDOS - O silêncio traduzido em gritos pelos monstros de Samuel Beckett", de Sara Massa. Espero que seja a última citação dela. A próxima será a minha crítica sobre a excelente dissertação.
(Como não fazem comentários, apesar de por aqui passarem a ler, julgo que estes temas não são agradáveis. Julgo que futebol facilitaria mais.)
E hoje volta a citar uma excelente dissertação, "DIÁLOGOS ABSURDOS - O silêncio traduzido em gritos pelos monstros de Samuel Beckett", de Sara Massa. Espero que seja a última citação dela. A próxima será a minha crítica sobre a excelente dissertação.
As personagens beckettianas revelam-se através do seu próprio discurso, na primeira pessoa (segundo um modelo autodiegético), de modo fragmentário e de difícil compreensão, estendendo o seu discurso por tempos e espaços indefinidos, e esquecendo-se, ainda que propositadamente, de agir. A verdade é que todas parecem estar conscientes do absurdo que está subjacente à nossa existência e, por conseguinte, buscam, incessantemente, mas com naturalidade, o silêncio e o nada. O que Beckett nos mostra é, em última análise, um reflexo daquilo que realmente somos, mas aquilo que mais nos espanta ao lê-lo, hoje, é a dificuldade que a humanidade manifesta em se rever naquelas personagens monstruosamente belas.
É hora de nos olharmos com coragem neste espelho que são as obras de Samuel Beckett. Só quem se conhece pode conhecer os outros e pode permitir-se sonhar compreender melhor o mundo. Deixarmo-nos esquecer, alienarmo-nos das reflexões mais sérias e, por isso, mais exigentes sobre a natureza e responsabilidade humanas, e ignorarmos que a nossa dignidade reside única e exclusivamente na capacidade de pensar o tempo é o mesmo que desumanizarmo-nos, embrutecermo -nos, deixarmos de ser um belo monstro, para nos transformarmos em mais um dos autómatos amontoados nas sucatas deste planeta. Não o faremos. Tentaremos compreendere-nos). Beckett acredita que temos de continuar. Continuemos...
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