quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

HÁ TEXTOS CALADOS

Há um livro interessante de ler. Que não implica concordância com o autor. Mas que se deve ler com espírito crítico. E refiro-me aqui, e hoje, “ÀS MINHAS MEMÓRIAS DE SALAZAR” de Marcello Caetano. É muito interessante, e nada inédita, as suas impressões sobre Humberto Delgado. Nas páginas 254 e 255 da Edição da VERBO, 1977. A história do século XX ainda não está feita. Anda, por enquanto, a ser manipulada ao sabor dos interesses das correntes em voga. É preciso muita paciência de investigação para tirar a espuma da demagogia da superfície da verdade. Será preciso que não haja ninguém vivo dos nascidos antes de 1980 para que se possa fazer luz sobre essa parte da história de Portugal. Não sei se valerá a pena, nessa altura, pois Portugal deve estar, então, um estado muito exíguo e sem peso da historiografia portuguesa. Nada de anormal, pois tudo tende a ter um fim. No meu tempo de vida vi nascerem estados, desaparecerem outros, fundirem-se outros e desintegrarem-se ainda outros. É a dinâmica humana.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

VIVEMOS NUM MUNDO DE FICÇÃO

Recomendo a leitura deste post. Vale a pena reler.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

CIVISMO. A NOSSA DEBILIDADE

Não vou comentar o que se passa em Portugal. Anda por aí sobejamente documentado. E explicado. Há numerosos e bons conhecedores das questões em causa a opinar e a comentar. A crise é grave. E a falta de vergonha também. Poderia dizer que a actual situação de Portugal não faz sentido. Mas há o problema do deficit de civismo, de rigor público e de patriotismo dos portugueses. E é esse deficit que faz todo o sentido para o torpor do momento. No enquadramento actual a situação só pode piorar. Para melhorar era preciso dar uma volta radical à política, e nos políticos portugueses. Mas o tal deficit não tem capacidade para tal e, assim, inibe que os portugueses possam demonstrar que têm “tomates”. Já tiveram. Já. Mas hoje os portugueses já conjugam tudo no passado. Não têm futuro. Vivem do passado sem serem capazes de viabilizar um futuro. A ignorância e a iliteracia, conscientemente provocada e alimentada por todos os governos desde a década de 80, tem agora, e daqui para a frente, os seus resultados. Passar sem saber, equivalências de esmola, e professores já fruto destes resultados, só podia conduzir ao deficit. Não há luz ao fundo túnel. Nós nem temos túnel, pois o que temos é um poço.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

OPINAR, SÓ OPINAR.

Os novos tempos, que exigem uma nova definição de um conceito estratégico nacional, mas resistem a deixar ver os contornos dos desafies do futuro que nos visita, ou até já vive entre nós, todavia fizeram saber que os combatentes não são dispensáveis, e que as forças armadas continuam a ser exigidas para participar na implantação e manutenção da paz pelo direito.
Ninguém, no exercício das responsabilidades efectivas do poder político, no espaço europeu e fora dele, sabe com segurança dizer a respeito da nova ordem mundial nada de mais rigoroso do que opinar que acabou a antiga.
Da alocução do Prof. Adriano Moreira proferida aquando a inauguração do monumento aos combatentes. Este trecho, que aqui destaquei, considero-o uma das boas definições do conceito de geoestratégia.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O POVO PORTUGUÊS VAI MORRENDO

E já há muito tempo. De um blog muito interessante, dos ex-combatentes na Guiné, que os mais novos deveriam consultar para aprenderem, aqui, tirei a seguinte transcrição:
Não trouxeram o corpo do Viegas para Mansoa, meteram-no na urna e seguiu de barco para Bissau. Tenho sido eu a tratar das coisas dele, fui-lhe mexer na mala e fazer o espólio de todos os seus pertences para enviar à família. Possuía tão pouco, algumas quinquilharias e uma roupita tão pobre! O povo português vai morrendo, o nosso David foi apenas mais um.
Os ex-combatentes não foram bem ouvidos pelo país. E o país está hoje a pagar por isso. Claro que os políticos, jovens e ambiciosos, sem escrúpulos e sem convicções, não gostam dos ex-combatentes nem do que eles dizem. Nem querem saber do que eles sentem. Não percebem que os ex-combatentes sentem Portugal. Os soldados sempre lutaram para dar tempo e espaço à política, a fim de resolver os problemas. Infelizmente os políticos, ou por incompetência ou por má-fé, ou ainda por estupidez, não resolvem. Sobretudo sempre tem faltado aos políticos, em Portugal e não só, a visão estratégica e geoestratégica para as boas decisões pacíficas e de desenvolvimento. Que tem de ser global. Até lá, até se atingir esse patamar, continuará a haver guerras, má distribuição da riqueza e muito sofrimento para muitas populações. Melhores políticos necessitam-se para este planeta. E novos modelos. Este modelo de democracia que se quer impor e dinamizar por todo o lado já provou que, facilmente, fica nas mãos de corruptos e vigaristas. Que depois manipulam as regras da democracia a seu belo prazer e impunidade. É um bug deste modelo de democracia, que permite a falha da segurança das regras e, como consequência, a minagem a partir do seu âmago.
Do excelente blog dedicado a António Quadros, com link aí ao lado, remato com esta citação, de lá extraída, do post de 26/1/2010 :
Só o futuro tem realidade atêntica (sic), porque lhe fazemos face constantemente.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

SERÁ QUE A ESPANHA ESTÁ PREPARADA PARA TOMAR CONTA DE PORTUGAL?

Pelo andar da carruagem vai-se tornar inevitável. Portugal vem demonstrando, ou seja, os portugueses, que é um país a tender para ser um estado falhado. É um país velho, já sem alma. É incapaz de se governar.
A pergunta é se a Espanha está preparada para tomar conta de Portugal. E se estiver, se o quererá. Acrescentar problemas aos que já tem não deve ser a ambição do momento. Embora seja uma saudosa ambição.
Quando o desastre se consumar não vai haver culpados. No fundo os portugueses são todos culpados. Por puro oportunismo e egoísmo, todos colaboraram para o desastre. E ainda continuam a forçar mais o escavar do buraco. Enquanto não acabarem com o que resta não descansam. E há grupos profissionais que contribuem bastante para o afundamento. Porque os outros deixam. Portugal já vive no estertor. É uma agonia lenta, que a todos vai atrofiando.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

ADOPÇÃO

Queria chamar a vossa atenção para um artigo, sobre este tema, de Rui Moreira, aqui, no JN de 16.01.2010. Discutível, mas muito interessante, e sobretudo sensato.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O PAÍS VAI FALIR

Na senda em que desliza é o resultado que se espera. Não é pessimismo. É realismo. E não vai haver culpados. É o óbvio.
Poderíamos perguntar pelo país. Mas esse é já muito velho. A alma portuguesa também já se extinguiu. Existem, aqui e ali, alguns cidadãos que ainda contêm na sua alma muitas partículas dessa alma portuguesa. Mas o seu número é reduzido e disperso para que chegue a fazer massa crítica em prol de obstar à extinção da alma portuguesa. Pelo que afirmo que já se extinguiu.
E quem são hoje os portugueses? São, não um povo, mas uma população imbecilizada. Que a ruralidade da década de 60 do século passado, que conheci bem, não era. Mas que a ruralidade urbana actual é. Esfumou-se a elite nacional. Diluiu-se a competência. Deu-se mérito à mediocridade. Eu vi ao longo de anos as pessoas transformarem-se em seres matreiros, manhosos, nada solidários e profundamente egoístas. São os portugueses de hoje. Em que cada um, ou cada grupo profissional da função pública, tenta sacar o máximo em tempo possível antes do estertor. Preferiram afundar o país. Sem nenhum pejo de consciência. Apoiaram corruptos e guindaram-nos ao poder na mira de também poderem esfolar algum. Apoiaram a corrupção como oportunistas que são, que foi no que a maioria dos portugueses se tornou. É essa maioria oportunista que condiciona o destino do país. Porque promove o poder. Todos seremos penalizados. Alguns já se terão defendido da penalização que aí vem. Mas nem todos puderam sacar dinheiro depositá-lo na Suiça, ou algo similar. Vai-se passar fome em Portugal. Ninguém tratou da defesa nacional. Agora já é tarde. Já estamos em agonia. Só se aguarda, e ao que parece alegremente, pelo último suspiro. E há quem vá comemorar uma república, para elogiar esta. Nem percebo o que é que vão festejar. Só se for a incompetência dos esbanjadores e a destruição do país.


Queria aqui deixar 2 citações:
1- A atenção fixada nos defeitos das eventuais virtudes não será a mais habilitada a avaliar os méritos dos programas, e seguramente não é a mais inspiradora da confiança sem a qual nenhum regime político funciona com equilíbrio e mobilização das vontades da sociedade civil.
(Adriano Moreira, no DN de 6 de Outubro de 2009, no artigo «A CONFIANÇA»)

2- O Governo é cada vez mais incapaz de compreender, quanto mais resolver, a situação nacional. A oposição revela-se inábil para apresentar alternativa credível. Os grupos de pressão fecham-se em egoísmo paralisante e envenenam a vida nacional. A classe política, degradada pela incapacidade da administração e da justiça, embrulha-se em mediocridade, dedicando-se a temas mesquinhos e abstrusos. Até a Europa anda sem rumo e o mundo, mergulhado na crise financeira, não consegue consensos cruciais.
Não admira o desânimo, desinteresse, cinismo dos cidadãos. As novas gerações queixam-se do sistema sem futuro que os pais criaram na revolução e que os condena ao emprego precário. Multiplicam-se as queixas, escândalos, intrigas, fúrias, desconfianças. Apela-se a um Salazar que venha pôr isto na ordem. Portugal está desanimado.
(João César das Neves, ontem no DN, no artigo «Portugal Desanimado»)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

CINTO APERTADO.

O José Eduardo Moniz estreia-se hoje, com um artigo de opinião, no "Diário Económico". Da estreia transcrevo aqui um trecho:
Nada que me faça pensar que o destino do País está em vias de mudar. Economia estagnada, desemprego confirmado acima dos 10%, défice a ultrapassar os 9% (de acordo com espíritos tolerantes na análise dos números), endividamento firme em valores comprometedores para o presente e o futuro. Em suma, dados que apontam para um retrato do qual a esperança se afasta, como um bem que nem tão cedo deixará de ser bastante escasso e que, portanto, permanece muito longe dos olhos e, mais ainda, dos corações.

Quantas gerações vão continuar a ter de viver com o cinto afivelado uns furos a menos do que aquilo que efectivamente seria suposto perante o real empobrecimento que mina Portugal e que tudo corrói? Os medíocres desempenhos de vários sectores industriais, os queixumes de largas faixas de comerciantes, as reclamações de muitas pequenas e médias empresas sobem de tom, de dia para dia, tornando mais evidente a falta de solidez e competitividade da nossa economia. Paira no ar a noção de que há um intransponível mar de problemas sem solução à vista e que ficará como herança para os nossos filhos e netos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

OUVIR A ANÁLISE SERENA

Este video vem do site, aqui, dedicado ao testemunho de Jiddu Krishnamurti. Quem não souber, peça para lhe traduzirem. Sobretudo reflictam sobre o que ele diz das sociedades. Especialmente quando ele diz que a crise não é política, nem económica, nem de guerra, mas é do mais profundo das nossas almas. Eu, corroborando-o, diria que a crise é de valores.

O QUE É QUE DAR LIBERDADE DE VOTO, OU NÃO, AOS DEPUTADOS TEM DE REPUBLICANO?

Expliquem. E se possível, bem. A tertúlia das comemorações da implantação da República devia dizer algo sobre este tema.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

VIVEM-SE TEMPOS DE OBSCURANTISMO

Os portugueses estão muito mais atentos a programas sobre futebol do que a programas sobre economia, finanças, ou mesmo sobre debates acerca do estado do país. O ensino projecta cada vez mais ignorância, e valida competências muito dúbias. Que cidadania temos, afinal? Com que eleitores conscientes contamos? E os políticos assim instruídos e eleitos servem para quê?

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A INCAPACIDADE DO AUTO RECONHECIMENTO

Muita gente anseia ocupar cargos e desempenhar funções sem se aperceberem que não têm competências para tal, e nem qualidades formais e morais. E não se apercebem por incapacidade de auto avaliação, por formação deficiente, por educação transviada do correcto, por ambição imoral, por absorção de maus exemplos e associação de interesses duvidosos. O problema maior é que depois ocupam, mesmo, os cargos. Isso é o desastre do país.
O mundo gira sempre numa luta constante entre o caos e a ordem. Em Portugal ganha sempre o caos. Quando a ordem se instala é sempre muito dura.

domingo, 3 de janeiro de 2010

LEMBRAM-SE DO QUE ACONTECEU À BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA?

Já foi há uns séculos atrás. Mas parece que se vai assistir novamente a episódios semelhantes. O culto da ignorância está instalado.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

HOJE, AINDA, NENHUM POLÍTICO DISSE NENHUMA ASNEIRA

São aqui 14 horas. E os rapazes da política ainda não disseram parvoíces. É bom quando estão calados. Temo que quebrem o silêncio rapidamente e estraguem esta serenidade. Este ano Portugal vai celebrar a implantação da República. É de comemorar. Agora os rapazes da República é que não sei se têm algo para comemorar, devido ao comportamento que têm tido e ao esbanjamento que têm proporcionado. Compare-se bem a 1ª e a actual República. Desperdiçam, desperdiçam até ao insustentável. Prometem com o que não têm e frustram o futuro dos cidadãos. Navegamos de crise em crise até à exaustão do país. Um dia, nem estado exíguo será.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

PROVINCIANISMO

Hoje gostaria que analisassem, já que estamos em final de ano, este texto do Fernando Pessoa, de 1932, e intitulado "O CASO MENTAL PORTUGUÊS". Encontra-se publicado em TEXTOS DE INTERVENÇÃO SOCIAL E CULTURAL, pela Europa-América. E depois de analisarem reflictam sobre o ano que vem e sobre o que nos espera. Gostaria de vos desejar, apesar de tudo, um BOM Ano Novo.



Se fosse preciso usar de uma só palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade, portuguesa, a palavra seria «provincianismo». Como todas as definições simples esta, que, é muito simples, precisa, depois de feita, de uma explicação complexa.
Darei essa explicação em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto é, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer país, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer país entende-se, sem dúvida, a mentalidade das três camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vi da mental - a camada baixa, a que é uso chamar povo; a camada média, a que não é uso chamar nada, excepto, neste caso, por engano, burguesia, e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor' compreensão, por élite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui ia em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás, que sejam sempre erradas. Por natureza, forma Q povo um bloco, onde não há mentalmente indivíduos; ia o pensamento é individual.
O que caracteriza a segunda camada que não é a burguesia, é a capacidade de reflectir, porém sem ideias próprias; de criticar, porém com ideias de outrem. Na classe média mental, o indivíduo, que mentalmente já existe, sabe já escolher - por ideias e não por instinto - entre duas ideias ou doutrinas que lhe apresentem; não sabe, porém, contrapor a ambas uma terceira, que seja própria. Quando, aqui e ali, neste ou naquele, fica uma opinião média entre duas doutrinas, isso não representa um cuidado crítico, mas uma hesitação mental.
O que caracteriza a terceira camada, o escol, é, como é de ver por contraste com as outras duas, a capacidade de criticar com ideias próprias. Importa, porém, notar que essas ideias próprias podem não ser fundamentais. O indivíduo do escol pode, por exemplo, aceitar inteiramente uma doutrina alheia; aceita-a, porém, criticamente, e, quando a defende, defende-a com argumentos seus - os que o levaram a aceitá-la - e não, como fará o mental da classe média, com os argumentos originais dos criadores ou expositores dessas doutrinas.
Esta divisão em camadas mentais, embora coincida em parte com a divisão em camadas sociais - económicas ou outras - não se ajusta exactamente a essa. Muita gente das aristocracias de história e de dinheiro pertence mentalmente ao povo. Bastantes operários, sobretudo das cidades, pertencem à classe média mental. Um homem de génio ou de talento, ainda que nascido de camponeses, pertence de nascença ao escol.
Quando, portanto, digo que a palavra: «provincianismo» define, sem outra que a condicione, o estado mental presente no povo português, digo que essa palavra «provincianismo», que mais adiante definirei, define a mentalidade do povo português em todas as três camadas que a compõem. Como, porém, a primeira e a segunda camadas mentais não podem por natureza ser superiores ao escol, basta que eu prove o provincianismo do nosso escol presente, para que fique provado o provincianismo mental da generalidade danação.
Os homens, desde que entre eles se levantou a ilusão ou realidade chamada civilização, passaram a viver, em relação a ela, de uma de três maneiras, que definirei por símbolos, dizendo que vivem ou como os campónios, ou como provincianos, ou como citadinos. Não se esqueça que trato de estados mentais e não geográficos, e que portanto o campónio ou o provinciano pode ter vivido sempre em cidade, e o citadino sempre no que lhe é natural desterro.
Ora a civilização consiste simplesmente na substituição do artificial ao natural no uso e correnteza da vida. Tudo quanto constitui a civilização, por mais natural que nos hoje pareça, são escrito, renegam a naturalidade original dos pés e da prosa falada.
A artificialidade, porém, é de dois tipos. Há aquela acumulada através das eras, e que, tendo-a já encontrado quando nascemos, achamos natural; e há aquela que todos os dias se vai acrescentando à primeira. A esta segunda é uso chamar "progresso» e dizer que é "moderno» o que vem dela. Ora o campónio, o provinciano e o citadino diferençam-se entre si pelas suas diferentes reacções a esta segunda artificia1idade.
O que chamei campónio sente violentamente a artificialidade do progresso; por isso se sente mal nele e com ele, e intimamente o detesta. Até das conveniências e das comodidades do progres¬so se serve constrangido, a ponto de, por vezes, e em desproveito próprio, se esquivar a servir-se delas. E o homem dos «bons tempos», entendendo-se por isso os da sua mocidade, se é já idoso, ou os da mocidade dos bisavós, se é simplesmente párvuo.
No pólo oposto, ó citadino não sente a artificialidade do progresso. Para ele é como se fosse natural. Serve-se do que é dele, portanto, sem constrangimento nem apreço. Por isso o não ama nem desama: é-lhe indiferente. Viveu sempre (física ou mentalmente) em grandes cidades; viu nascer, mudar e passar (real ou idealmente) as modas e a novidade das invenções; são pois para ele aspectos correntes, e por isso incolores, de uma coisa continuamente já sabida, como as pessoas com quem convivemos, ainda que de dia para dia sejam realmente diversas, são todavia para nós idealmente sempre as mesmas.
Situado mentalmente entre os dois, o provinciano sente, sim, a artificialidade do progresso, mas por isso mesmo o ama. Para o seu espírito deserto, mas incompletamente desperto, o artificial novo, que é o progresso, é atraente como novidade, mas ainda contido como artificial. E, porque é sentido simultaneamente como artificial é sentido como atraente, e é por artificial que é amado. O amor às grandes cidades, às novas modas, às «últimas novidades», é o característico distintivo do provinciano.
Se de aqui se concluir que a grande maioria da humanidade civilizada é composta de provincianos, ter-se-á concluído bem, porque assim é. Nas nações deveras civilizadas, o escol escapa, porém, em grande parte, e por sua mesma natureza, ao provincianismo. A tragédia mental de Portugal presente é que, como veremos, o nosso escol é estruturalmente provinciano.
Não se estabeleça, pois seria erro, analogia, por justaposição, entre as duas classificações, que se fizeram, de camadas e tipos mentais. A primeira, de sociologia estática, define estados mentais em si mesmos; a segunda, de sociologia dinâmica, define estados de adaptação mental ao ambiente. Há gente do povo mental que é citadina em suas relações com a civilização. Há gente do escol, e do melhor escol - homens de génio e de talento - , que é campónio nessas relações.
Pelas características indicadas como as do provinciano, imediatamente se verifica que a mentalidade dele tem uma semelhança perfeita com a da criança. A reacção do provinciano, às suas artificialidades, que são as novidades sociais, é igual à da criança às suas artificialidades, que são os brinquedos. Ambos as amam espontaneamente, e porque são artificiais.
Ora o que distingue a mentalidade da criança é, na inteligência, o espírito de imitação; na emoção, a vivacidade pobre; na vontade, a impulsividade incoordenada. São estes, portanto, os característicos que iremos achar no provinciano; fruto, na criança, da falta de desenvolvimento civilizacional, e assim ambos efeitos da mesma causa - a falta de desenvolvimento. A criança é, como o provinciano, um espírito desperto, mas incompletamente desperto.
São estes característicos que distinguirão o provinciano do campónio e do citadino. No campónio, semelhante ao animal, a imitação existe, mas à superfície, e não, como na criança e no provinciano, vinda do fundo da alma; a emoção é pobre, porém não é vivaz, pois é concentrada e não dispersa; a vontade, se de facto é impulsiva, tem contudo a coordenação fechada do instinto, que substitui na prática, salvo em matéria complexa, a coordenação aberta da razão. No citadino, semelhante ao homem adulto, não há imitação, mas aproveitamento dos exemplos alheios, e a isso se chama, quando prático, experiência, quando teórico, cultura; a emoção, ainda quando não seja vivaz, é contudo rica, porque complexa, e é complexa por ser complexo quem a terá; a vontade, filha da inteligência e não do impulso, é coordenada, tanto que, ainda quando faleça, falece coordenadamente, em propósitos frustes mas idealmente sistematizados.
Percorramos, olhando sem óculos de qualquer grau ou cor, a paisagem que nos apresentam as produções e improduções do nosso escol. Nelas verificaremos, pormenor a pormenor, aqueles característicos que vimos serem distintivos do provinciano.
Comecemos por não deixar de ver que o escol se compõe de duas camadas - os homens de inteligência, que formam a sua maioria, e os homens de génio e de talento, que formam a sua minoria, o escol do escol, por assim dizer. Aos primeiros exigimos espírito crítico; aos segundos exigimos originalidade, que é, em certo modo, um espírito crítico involuntário. Façamos pois incidir a análise que nos propusemos fazer, primeiro sobre o pequeno escol, que são os homens de génio e de talento, depois sobre grande escol.
Temos, é certo, alguns escritores e artistas que são homens de talento; se algum deles o é de génio, não sabemos, nem para o caso importa. Nesses, evidentemente, não se pode revelar em luto o espírito de imitação, pois isso importaria a ausência de originalidade, e esta a ausência de talento. Esses nossos escritores e artistas são, porém, originais uma só vez, que é a inevitável. Depois disso, não evoluem, não crescem; fixado esse primeiro momento, vivem parasitas de si mesmo, plagiando-se indefinidamente. A tal ponto isto é assim, que não há, por exemplo, poeta nosso presente - dos célebres, pelo menos - que não fique completamente lido quando incompletamente lido, em que a parte não seja igual ao todo. E se em um ou outro se nota, em certa altura, o que parece ser uma modificação da sua «maneira», a análise revelará que a modificação foi regressiva: o poeta ou perdeu a originalidade e assim ficou diferente pelo processo simples de ficar inferior, ou decidiu começar a imitar outros por impotência de progredir de dentro, ou resolveu, por cansaço, atrelar a carroça do seu estro ao burro de uma doutrina externa, como o catolicismo ou o internacionalismo. Descrevo abstractamente, mas os casos que descrevo são concretos; não preciso de explicar, porque não junto a cada exemplo o nome do indivíduo que mo fornece.
O mesmo provincianismo se nota na esfera da emoção. A pobreza, a monotonia da emoção nos nossos homens de talento literário e artístico, salta ao coração e confrange a inteligência. Emoção viva, sim, como aliás era de esperar, mas sempre a mesma, sempre simples, sempre simples emoção, sem auxílio crítico da inteligência ou da cultura, A ironia emotiva, a subtileza passional, a contradição no sentimento - não as encontrareis em nenhum dos nossos poetas emotivos, e são quase todos emotivos. Escrevem, em matéria do que sentem, como escreveria o pai Adão, se tivesse dado à humanidade, além do mau exemplo já sabido, o, ainda pior, de escrever.
A demonstração fica completa quando conduzimos a análise à região da vontade. Os nossos escritores e artistas são incapazes do meditar uma obra antes de a fazer, desconhecem o que seja a coordenação, pela vontade intelectual, dos elementos fornecidos emoção, não sabem o que é a disposição das matérias, ignoram que um poema, por exemplo, não é mais que uma carne de emoção cobrindo um esqueleto de raciocínio. Nenhuma capaci¬dade de atenção e concentração, nenhuma potência de esforço meditado, nenhuma faculdade de inibição, Escrevem ou artistam ao sabor da chamada «inspiração», que não é mais que um impulso complexo do subconsciente que cumpre sempre submeter, por uma aplicação centrípeta da vontade, à transmutação alquímica da consciência. Produzem como Deus é servido, e Deus fica mal servido. Não sei de poeta português de hoje que, construtivamente, seja de confiança para além do soneto.
Ora feitos estes reparos analíticos quanto ao estado mental nossos homens de talento, é inútil alongar este breve estudo, tratando com igual pormenor a maioria do escol. Se o escol do escol é assim, como não será o não escol do escol? Há, porém, um característico comum a ambos esses elementos da nossa camada mental superior, que aos dois irmana, e, irmanados, define: é a ausência de ideias gerais e, portanto, do espírito crítico e filosófico que provém de as ter. O nosso escol político não tem ideias excepto sobre política, e as que tem sobre politica são servilmente plagiadas do estrangeiro - aceites, não porque sejam boas, mas porque são francesas ou italianas, ou russas, ou o quer que seja. O nosso escol literário é ainda pior: nem sobre literatura tem ideias. Seria trágico, à força de deixar de ser cómico, o resultado de uma investigação sobre, por exemplo, as ideias dos nossos poetas célebres. Já não quero que se submetesse qualquer deles ao enxovalho de lhe perguntar o que é a filosofia de Kant ou a teoria da evolução. Bastaria submetê-lo ao enxovalho maior de lhe perguntar o que é o ritmo.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

PÓSTUMOS NATAIS

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito


In “OBRA POÉTICA” de David Mourão-Ferreira

Todo o poema aqui

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O QUE É SIMPLES É INFINITAMENTE SUBTIL

Para mim existe uma realidade, uma imensa verdade viva; e para a compreender, tem que haver total simplicidade de pensamento. O que é simples é infinitamente subtil, o que é simples é muito delicado. Existe uma grande delicadeza, uma infinita subtileza e delicadeza, e se usarem as palavras apenas como um meio de chegar a essa delicadeza, a essa simplicidade de pensamento, então receio que não irão compreender o que quero transmitir. Mas se usarem o significado das palavras como uma ponte para atravessar, então as palavras não se tornarão uma ilusão na qual a mente se perde.


Jiddu Krishnamurti, Ojai, California, 10ª Palestra - 29 de Junho de 1934

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

QUAL A DISTÂNCIA QUE NOS SEPARA DA GRÉCIA?

Um facto interessante que observámos nos últimos dias foi o impacte que a percepção das dificuldades financeiras da Grécia teve no ambiente económico em Portugal e não só.
Para ler na íntegra, aqui o artigo CRIME E CASTIGO de João Ferreira do Amaral no Diário Económico.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

INSATISFAÇÃO

(…) A maior parte das pessoas no mundo está aprisionada numa espécie de insatisfação, e está constantemente à procura de satisfação. Isto é, a sua procura de satisfação é uma procura de um oposto. Ora a insatisfação, o descontentamento, surge do sentimento de vazio, do sentimento de solidão, de tédio, e quando têm esta insatisfação procuram preencher o vácuo, o vazio na vossa vida. Quando estão insatisfeitos estão constantemente à procura de algo que substitua isso que lhes causa insatisfação, algo que sirva de substituto, algo que lhes dê satisfação. Voltam-se para uma série de consecuções, uma série de sucessos, para preencher o vazio doloroso na vossa mente e no vosso coração. É isto o que a maior parte de vocês está a tentar fazer. Se houver medo, procuram coragem que esperam que lhes dê contentamento, felicidade.
Nesta procura do oposto, estão a ser destruídos sentimentos profundos. Estão a tornar-se cada vez mais superficiais, cada vez mais vazios, porque todo o vosso conceito de satisfação, de felicidade, é um conceito de substituição. O anseio, o desejo ardente da maior parte das pessoas é pelo oposto. No vosso desejo ardente de consecução perseguem ideais espirituais, ou procuram ter títulos mundanos conferidos, e ambos significam exactamente a mesma coisa. (…)

Jiddu Krishnamurti, A Arte de escutar, palestra a 1 de Janeiro de 1934 em Adyar