sábado, 10 de maio de 2008

A FOME INFAME

Este é o título do artigo de Boaventura de Sousa Santos, publicado na Visão de 8/5/2008. Muito pertinente. Eis aqui um trecho:
O escândalo, finalmente, estalou na opinião pública: a substituição da agricul­tura familiar, camponesa, orientada para a auto­-suficiência alimentar e os mercados locais, pela grande agro-indús­tria, orientada para a monocultura de pro­dutos de exportação (flores ou tomates), longe de resolver o problema alimentar do mundo, agravou-o. Cerca de um sexto da humanidade passa fome; segundo o Banco Mundial, 33 países estão à beira de uma crise alimentar grave; mesmo nos países mais desenvolvidos, os bancos alimen­tares estão a perder as suas reservas; e voltaram as revoltas da fome.
A opinião pública está a ser desinforma­da sobre esta matéria, para que se não dê conta do que se está a passar.
Porque é explosivo: a fome do mundo é a nova grande fonte de lucros do grande capital finan­ceiro e os lucros aumentam na mesma proporção que a fome. A fome no mundo não é um fenómeno novo. Ficaram fa­mosas na Europa as revoltas da fome, desde a Idade Média até ao século XIX. O que é novo são as suas causas e o modo como as principais são ocultadas.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

A CUPIDEZ DO LUCRO

Reparei que a sociedade aberta estava ameaçada nos Estados Unidos por outra tendência: as actividades que costumavam ser vistas como profissões estavam a transformar-se em negócios. Isto aplicava-se a profis­sões como o direito e a medicina - já para não falar da política. Quando as profissões se transformam em negócios concentrados no lucro, as exigências profis­sionais ficam em perigo; isto, por sua vez, reforça a falta de valores característica das sociedades abertas. A minha preocupação derivava directamente da minha estrutura conceptual. Levou-me a criar projectos sobre as profissões ligadas ao direito e à medicina. Os pro­jectos ganharam então vida própria e foram aplicados em várias actividades importantes, mas não contribuí­ram muito para resolver o problema que levara à sua criação. A justiça criminal acabou por ser o campo onde a fundação americana mostrou realmente o seu vigor, por causa do historial da sua liderança em ter­mos de direitos humanos e liberdades civis e também por haver tanto que fazer.
Mas a falta de respeito pelos valores profissionais tornou-se ainda mais pronunciada do que era quando alargámos os nossos projectos às profissões ligadas à ciência e à academia. Os direitos de propriedade inte­lectual tinham transformado o pensamento em pro­priedade. A investigação é feita mais com o objectivo de gerar riqueza do que puro conhecimento, e a aca­demia está a perder a sua identidade como um fim em si mesmo. A corrida aos direitos de propriedade inte­lectual inibe a busca da verdade.
Para piorar as coisas, a ciência e a academia estão a sofrer ataques motivados por ideologias. Na ciência, os defensores da concepção inteligente* exploraram a tolerância de hipóteses alternativas reivindicando a mesma importância para a sua teoria não científica; na academia, um grupo de direita aproveitou a luta por um melhor equilíbrio racial e sexual para exigir a diversidade política, introduzindo assim os partidos políticos no recrutamento académico. As universidades têm dificuldade em resistir porque as quotas raciais e sexuais debilitaram o princípio de recrutamento baseado exclusivamente no mérito.
Tal como a mentalidade dos negócios entrou em áreas a que não pertence propriamente, a política faz agora o mesmo. Estas tendências colocam em perigo a sociedade aberta.
George Soros, in " A ERA DA FALIBILIDADE"

AUTORITARISMO DA MEDIOCRIDADE

Portugal é o único país do Ocidente em que o autoritarismo, acompanhado ou não pela insignificância e a mediocridade, é uma recomendação decisiva para o eleitorado. E Portugal é o único país do Ocidente que espera do Estado a sua salvação. A política não criou um português diferente, como tanta gente (boa e má) sonhou: um português tolerante, democrático, solidário, com autonomia e iniciativa. A política mascarou o português que por aí anda com alguns sinais de civilização. No resto não tocou.
VPV, hoje, no Público.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

DECORAR CHÁVENAS DE CAFÉ

Esta tese, necessariamente marcada com uma tonalidade ensaística, é uma tentativa simples e despretensiosa de conseguir algum contentamento num tempo triste. Numa época, em que os versos de Femando Pessoa servem o propósito fácil e comercial de decorar chávenas de café e panos de loiça, sem que deles se colha qualquer outro fruto, nós sentimos a necessidade de pensar alto e partilhar, através da escrita, estes nossos pensamentos.
Este trecho está na introdução da dissertação de mestrado de Sara Massa, intitulada "DIÁLOGOS ABSURDOS - O silêncio traduzido em gritos pelos monstros de Samuel Beckett".
Uma dissertação a ler com muita atenção.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

LEALDADE

Lealdade nunca é subserviência. São duas coisas muito diferentes. E tem mais: os subservientes jamais são leais, pois não passam de cobardes num jogo constante de obediências no objectivo de apurar proveitos, quantas vezes indignos.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

AS ASAS DO PORTUGUÊS

Um excelente artigo de José Eduardo Agualusa intitulado "EÇA DE QUEIRÓS E AS ASAS DO PORTUGUÊS", publicado na revista LER nº 69, deste mês. Artigo que deve ser lido na íntegra. Mas relevo aqui três passagens desse artigo:



Hoje debruço-me sobre Portugal de uma va­randa mais vasta - a Eternidade - e de novo me aflige o desdouro. Não que Portugal esteja pior do que há cem anos; está todavia mais pequeno. Já nem é bem um país – é um resumo.
(...)
Hoje erramos em ponto pequeno, e ainda por cima por imitação. Além disso, sendo minúsculos, ainda guardamos a memória do tempo em que fomos grandes, e isso é pior do que ser pequeno sem jamais ter sido grande. É um destino em tudo idêntico ao da bela mulher que envelhece.
(*)
(...)
Há tempos passeava eu, placidamente, era um fim de tarde lento e melancólico, junto aos fortes portões do Paraíso, quando vi chegar um português. Via-se pela alma que fora um homem sem maldade. Também se via, olhando melhor, que fora inteiramente sem maldade, não por um esfor­ço de vontade, mas por pura preguiça. São Pedro recebeu-o com um fatigado abraço - lembrem-se que findava o dia - e estendeu-lhe um par de asas. O português protestou: «E que farei eu com essas asas?» São Pedro, encolhendo os ombros magros: «Ora, filho, voa!» O português recuou, aterrado: «Ah não! Isso é que não pode ser! Fique lá o senhor com as asas que eu se vim para aqui foi para descansar.» E assim vamos nós.

(*)Sobre este tema da memória do termos sido, já tenho, recorridamente, divagado por aqui. O último, alguns postes abaixo, foi "O passado cabe todo num livro de 600 páginas"


domingo, 4 de maio de 2008

O DESEMPREGO ULTRAPASSA, E MUITO, A FRIEZA DOS NÚMEROS. SÃO PESSOAS.

Sobre o desemprego destaco um trecho de um bom artigo do Pacheco Pereira, retirado do seu blog ABRUPTO.

Mas nem por não se ter qualquer solução a curto prazo, a sociedade, nós todos, devemos deixar de olhar para cada um destes desempregos colectivos de mulheres sem a preocupação de vermos e sentirmos a devastação que ele tem por trás, o atraso social que isto significa para Portugal. Estas mulheres não vão educar os seus filhos da mesma maneira, vão reproduzir melhor o Portugal antigo do que preparar o novo. Elas sentem que falharam, tinham algumas ilusões que perderam. Mas nós falhamos mais se não temos a consciência de fazer alguma coisa. Porque se pode, na acção cívica, no voluntariado, no mundo empresarial, na política, fazer muita coisa por estas mulheres. O que é preciso é vê-las e à sua condição e não as cobrir com o manto diáfano da inevitabilidade. A começar pelo Governo, que mais uma vez se vai voltar para o betão e não para as pessoas.
(Versão do Público, de 3 de Maio de 2008.)

sábado, 3 de maio de 2008

PELOS EX-COMBATENTES

Aqui vai o

DISCURSO DO EXMO. GENERAL VASCO ROCHA VIEIRA, NA COMEMORAÇÃO DO 90.º ANIVERSÁRIO DA BATALHA DE LA LYS, BATALHA - 9 de Abril de 2008, DIA DO COMBATENTE

"Vivemos tempos de crise.
São tempos em que se esquecem valores, em que se afirmam antagonismos sem sentido de comunidade, em que se foge para o individualismo como pretexto para não assumir a responsabilidade de defender a colectividade.
São tempos de máscaras e aparências, em que se esquece o valor do serviço e o respeito pela realidade.
São tempos sem glória.
São tempos em que as lamentações das vítimas esquecem os exemplos dos heróis.
São tempos que ignoram o passado da independência e anunciam um futuro sem liberdade.
São tempos de resignação e de fatalismo.
O que o presente nos mostra exige que se diga que não queremos ir por aí, que não vamos por aí.
Entre a ilusão que nos engana e a realidade que nos interpela e desafia, temos de saber escolher a verdade efectiva das coisas.
Temos de saber construir o futuro com a nossa vontade, enfrentando a verdade das coisas e das forças, vendo-as como elas são, e não como, por ingenuidade ou por desalento, gostaríamos que fossem.
Estes também são tempos para voltarmos aos valores essenciais, para defender a memória dos que construíram Portugal independente, para honrarmos a responsabilidade de deixar aos sucessores mais do que aquilo que herdamos dos que nos antecederam.
É por tudo isto que estes não podem continuar a ser tempos de resignação e de fatalismo.
Perante dois camaradas nossos, tombados em combate em terras da Europa e em terras de África, afirmamos e honramos aqueles que, sujeitos à condição militar, venceram a luta pelo prestígio pagando como preço a própria vida.
Todos os que tombaram em combate, todos os que perderam uma parte da sua vida em nome do dever militar, têm o direito à nossa homenagem.
É isso que distingue os homens livres dos escravos.
Pouco importa se venceram ou perderam a guerra em que morreram.
Quem combate, quando combate, não conhece o fim da História.
Não tem a distância do crítico, nem a serenidade do historiador.
É sujeito da condição militar, prossegue os desígnios da política pelos meios extremos da guerra.
Não teme a morte, porque sabe que só quem não tem medo da morte pode afirmar a vida, para ele e para os seus.
Quem combate não declarou a guerra.
Combate porque essa é a sua condição militar, combate para que a sua pátria não venha a ser terra de escravos.
Combate para que os que detêm a responsabilidade política conduzam os destinos do país até aos tempos de paz, de desenvolvimento e de cooperação.
Combate para que a guerra tenha um fim.
Faz a guerra com a finalidade na paz.
Mas não haverá paz, só haverá escravatura e dependência, se não assumir essa responsabilidade de fazer a guerra.
Foi esse o caminho que escolheu quando aceitou assumir a condição militar.
Todas as sociedades que se organizaram até atingirem a condição de serem independentes, de serem habitadas por homens livres e não por escravos, assentaram em três pilares, em três funções constituintes e integradoras, formadoras da sua identidade: o agricultor, o religioso, o guerreiro – o que trabalha a terra, o que trabalha as ideias, o que trabalha as armas e assume o combate.
A evolução das civilizações e das culturas foi alterando estas designações, mas não alterou os seus conteúdos e os seus valores, não alterou o papel integrador destas três funções.
A subsistência material da comunidade, a condução da evolução da sociedade dentro de uma visão do mundo e realizando o critério da justiça, a defesa dos valores e das liberdades de todos os que vivem nesse território, podem designar-se hoje como economia, como política e como defesa, mas estes três pilares continuam a ser os factores constituintes da independência e da liberdade.
Nenhum desses pilares existe sem os outros, todos são necessários para que a comunidade nacional produza riqueza, afirme a sua independência, garanta a sua liberdade, defenda os seus valores.
Os que esquecem esta interrelação, os que ignoram a necessidade dos três vectores, condenam-se a perder tudo: a autonomia económica, a independência política, a liberdade cívica, o sentido dos valores.Condenam-se à pobreza, à subordinação, à escravatura, à perda do futuro.Estes são riscos reais que se configuram nestes tempos de crise.
Ignorá-los, esquecer a exigência da mobilização para os enfrentar, seria um acto de traição.Traição à Pátria, certamente.Mas também traição a nós próprios, traição ao que nos foi deixado em herança, traição aos nossos valores de independência e de liberdade, traição ao nosso sentido de dignidade.
Perante dois portugueses sem nome, que morreram cumprindo a obrigação da sua condição de militar, devemos-lhes a determinação e a mobilização com que se poderá vencer estes riscos reais com que estamos confrontados.
Para que o seu sacrifício não tenha sido em vão, somos nós que temos de preservar os valores da condição militar, aceitando o combate quando isso é inevitável para não sermos condenados a um destino de escravos.
Escravos de outros poderes ou escravos das ilusões, escravos de ideologias ou escravos de fantasias, escravos de compradores ou escravos de credores, mas sempre sem liberdade, sem identidade e sem dignidade, sem voz e sem direitos.
Os combatentes que se reúnem aqui, hoje, vindos das mais diversas partes de Portugal, renovam o seu compromisso de honra para com a Pátria, prestando homenagem aos que morreram em seu nome para que haja liberdade e independência.
Os que aqui estão, combatentes do nosso tempo, ganharam o direito, pelo seu sacrifício e pela sua lealdade, a que lhes seja reconhecido o mérito, a coragem e a dedicação de quem soube assumir as suas responsabilidades.
Nos tempos de crise, como são os que vivemos, tudo parece complexo, intrincado, irresolúvel, irremediável.
Não é assim, não tem de ser assim.
E só será assim se nos faltar a vontade, se perdermos o sentido da dignidade, se abandonarmos o valor da liberdade.
As crises têm uma origem, têm uma trajectória, têm um diagnóstico, têm uma terapêutica, têm um tratamento.
É neste quadro que a condição militar, assumida no juramento que é feito por cada elemento das Forças Armadas, ganha um peso simbólico superior.
A função militar, a responsabilidade pela defesa, é apenas um dos alicerces em que assenta uma sociedade independente e livre.
Não se substitui aos outros alicerces, às outras funções, mas é sua obrigação contribuir para que as outras funções tenham todas as condições para se cumprirem.
Se cada um – produtor, político, soldado – for fiel às obrigações da sua função, se cada um aceitar todas as responsabilidades da sua condição, se cada um respeitar o juramento que faz perante todos os outros de que defenderá a independência e a liberdade, encontraremos as respostas para as dificuldades, seremos capazes de superar a crise.
Esse será o resultado do regular funcionamento das instituições democráticas, conjugando, com inteligência, com realismo e com determinação, o produtor, o político e o soldado – isto é, o crescimento económico, a orientação estratégica na resolução dos conflitos de interesses e a defesa da independência e da liberdade.
E é no estrito respeito pelas normas do regular funcionamento das instituições democráticas que os que são sujeitos da condição militar, por opção de vida e por fidelidade a um juramento de honra, têm legitimidade para esperar dos responsáveis políticos as condições necessárias para o efectivo cumprimento das missões que lhes são atribuídas.
As sociedades precisam da instituição que, na obediência da condição militar, tem por valor superior a sua defesa.
No quadro da sua estrita responsabilidade de defesa da independência e da liberdade nacionais, as Forças Armadas não escolhem as missões que lhes são atribuídas pelos responsáveis políticos.É aos responsáveis políticos que pertence a responsabilidade de fazerem corresponder as missões que atribuem aos militares com os meios que põem a disposição dos que colocam em risco as vidas para as cumprirem.
A unidade das Forças Armadas, condição essencial para que cumpra a sua função de defesa da unidade nacional, não pode, em nenhuma circunstância, ser posta em causa ou em dúvida.
Mas a dignidade das Forças Armadas exige que ao seu quadro de missões corresponda o adequado sistema de meios.
Junto aos túmulos de dois soldados, renovamos o juramento que nos integrou na condição militar.
Como sempre, em tempos de estabilidade e em tempos de crise, a unidade das Forças Armadas é uma condição necessária para a defesa da independência, para a garantia da liberdade e para o regular funcionamento das instituições democráticas.
Outros contribuirão para que a esta condição necessária se juntem as condições suficientes para que os portugueses possam construir o seu futuro por afirmação da sua vontade e dos seus valores.Viva Portugal."

A NOSSA CRUZ SÃO SEMPRE ELES, OS MEDÍOCRES

«Há um ou outro videirinho, um ou outro aventureiro, um ou outro louco - um grande homem ou uma grande mulher não há. Quem vai perder tempo com as mediocridade que, só Deus sabe porquê, nos pastoreiam hoje?E que têm elas para oferecer, além de uma retórica morta e desprezível.
(...)
Quando por acaso "adere" a um partido, a juventude que por aí anda quer, como lhe compete, um emprego. Não se lhe pode pedir que queira diferente ou queira mais.
(...)
Agora, com a democracia estabilizada e a economia de mercado, o indivíduo não pertence a "parte" alguma e não partilha nenhum destino. Aprendeu a desconfiar do Estado e da mítica igualdade que o Estado pretende estabelecer; e, sobretudo, a contar exclusivamente consigo. Não vê a política como um encontro e uma comunidade. Vê a política como um negócio e uma questão de clientelas. Não se interessa? Claro que não se interessa.»
VPV, hoje, no Público.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

E A NOSSA GEOESTRATÉGIA

A propósito do post anterior, este trecho do Prof. Adriano Moreira publicado no DN em 30.12.2003:

No caso português, parece que a relação com o mar está a exigir atenção, e é inquestionável que ela interessa de maneira essencial à identidade nacional. São já muitos os aspectos em que se desdobra o risco de erosão, a começar pelo conflito entre o europeísmo e o americanismo. Não parece dispensável assumir que o afastamento dos mais poderosos Estados da frente marítima europeia de solidariedade atlântica, obrigará os restantes a reflectir sobre a relação entre a sua condição economicamente periférica, e a sua geografia de fronteira entre as duas concepções estratégicas. A questão do mar e da identidade está envolvida no processo, dependente de interesses exógenos que não a terão em conta. O tema das capacidades, e a definição de força naval ganham em relevância e exigência de um conceito estratégico nacional até agora de difícil concretização. Por outro lado, o tema das autonomias e da outra Europa, para um país que tem a nossa estrutura geográfica, exige um empenho que inclui o esforço pela manutenção de uma presença efectiva no mar, e pela defesa e reforço da identidade em resposta a uma conjuntura volátil. Tão volátil, que os efeitos dos compromissos europeus sobre a zona económica exclusiva parecem ter surpreendido até os informados, impondo avaliar com urgência a dimensão que resta da frota pesqueira, a relação desta com a dependência de recursos, e o efeito sobre a consistência da presença do mar na identidade portuguesa.

ESPAÇO VITAL

É um conceito muito caro a quem se interessa por geoestratégia. Hoje, no Público, vem esta notícia sobre uma comunicação feita pelo director da CIA numa universidade, sobre a qual não se pode deixar de reflectir:
O crescimento populacional e a maré cheia da imigração são os novos desafios que os Estados Unidos terão de enfrentar no próximo meio século, considerou o director da CIA, Michael Hayden, num discurso na Universidade do Kansas. Em 2050, o número de seres humanos na Terra deve subir dos actuais 6700 milhões para 9000 milhões. Nos próximos 40 anos, disse Hayden, citado pelo jornal The Washington Post, o crescimento projectado de 33 por cento da população será um dos factores mais significativos para a segurança no século XXI. A pressão populacional reduzirá os recursos e alimentará movimentos extremistas e de insurreição civil em vários pontos do globo, disse Hayden. "A maior parte do crescimento populacional será nos países com menos condições para o suportar." Espera-se que a população do Níger e da Libéria triplique nos próximos 40 anos. A pressão para garantir alimentos, abrigo e emprego para tantos milhões de pessoas "pode fazer com que muitos se sintam atraídos pela violência ou pelo extremismo", considera o director da agência de espionagem norte-americana. Nesta visão da CIA, os países mais ricos, as divisões étnicas e raciais, sublinhadas pela imigração, podem criar problemas de segurança, em especial nos países europeus com muitos imigrantes muçulmanos. Por outro lado, Hayden considera que a Europa e os EUA vão continuar a divergir na forma como lidam com o terrorismo. "Eles [os europeus] tendem a não vê-lo como nós, como um grande desafio internacional. Encaram o terrorismo mais como um problema de vigilância policial." A terceira tendência para os próximos 50 anos identificada por Hayden é a da emergência da China como uma potência económica e militar. Mas isso não tem de ser uma ameaça: "Se Pequim começar a aceitar mais responsabilidades no sistema internacional, manter-nos-emos num caminho competitivo mas construtivo."

segunda-feira, 28 de abril de 2008

sábado, 26 de abril de 2008

25 DE ABRIL É A DATA DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS MEDÍOCRES

A mediocridade instalou-se em Portugal.

domingo, 20 de abril de 2008

O PASSADO CABE TODO NUM LIVRO DE 600 PÁGINAS, ENTALADO NUMA PRATELEIRA.


Um amigo meu não gostou da frase com que terminei o post anterior. Pode-se não gostar, mas é a realidade para onde nos encaminhamos. O nosso passado sobrevive nos discursos de circunstância, para fatalmente referirem que “nós já fomos” isto e aquilo. Fomos, mas nunca que somos ou seremos. Falta a crença. E falta muito o querer. Sobretudo a um povo que vive acossado entre manobras de vigaristas sem escrúpulos.
Por isso o passado já só vive nas páginas de livros e nas saudades nostálgicas de alguns. Que até chegam a ter saudades de si próprios, do que foram face ao que se transformaram, nuns acomodados. E a juventude desligou-se da memória do país. Não lê, não estuda e até já tem professores que são ignorantes. O que era previsível. A ignorância vai reproduzindo-se. E o tal livro cada vez mais entalado na prateleira. E se a juventude não tem memória colectiva, também não tem valores pátrios nem futuro colectivo. Irá ficar, bem como o país, à mercê das contingências externas, mas sem referências que a permitam posicionar-se face a essas contingências. Dramático? Não. A evolução dos povos determina que há sempre uma decadência algures no percurso. Já somos um país velho e sem garra. Se esvaímos a boa seiva, naturalmente que a árvore tenderá a definhar. É da natureza. A não ser que haja um bom tratamento “botânico” por “agrónomo” credível, a árvore definhará sem remissão. Ficará o livro com uma memória encerrada nas suas páginas.

sábado, 19 de abril de 2008

SE O PAÍS NÃO SE ORGULHA DE SI ... ...


É óbvio que não pode passar da cepa torta. Os portugueses estão cada vez mais mesquinhos e pouco solidários. E sempre muito burgessos. Não há forma de evoluir neste quadro. Ou mudam as atitudes perante a vida e perante os outros e a sociedade em geral, ou o futuro será uma triste história.
Há falta de solidariedade entre os portugueses. Existem grupos que têm mais capacidade de reivindicar, exercendo até chantagem, e pouco se importando com os outros, ou com o que os outros terão de pagar para eles poderem viver bem melhor do que os que, obrigatoriamente, têm de os sustentar. E o país também não é uniformemente solidário. Já por aqui o tenho afirmado. Vivemos tempos de egoísmo acérrimo e feroz. A maneira como o país trata o interior é reveladora do mau carácter de uma parte da população portuguesa. Retiram-lhes tudo o que é possível retirar, como escolas, hospitais e demais estruturas necessárias. Depois para irem buscar electricidade destroem-lhes a paisagem e os recursos, danificando o meio ambiente. É o caso da barragem no Tua. Não faz falta nenhuma aos que por lá vivem, mas sim aos de Lisboa. Mas não fazem nenhuma barragem que destrua Lisboa e arredores. Destroem o interior. Lisboa e arredores absorvem tudo o que podem do país. E nada dão em troca. A solidariedade nacional há muito que morreu. Assim como a verdade sobre o estado do país. Bem como a honra que antigamente se fazia questão de se exibir. Assim morreu a esperança no país. Não há nada para se exibir como orgulho. Alguns ainda falam do passado, mas isso fica tudo contido num livro de 400 a 600 páginas, algures numa prateleira, que os mais novos já não lêem.

terça-feira, 15 de abril de 2008

PATRIOTISMO EMOCIONAL

Continuando com António Quadros. Não deixem de ler os dois volumes dessa obra.

“O patriotismo emocional é um fogo de palha, que ora se inflama à notícia de um efeito desportivo, ora se afunda por completo ao aceitar sem um assomo de resistência as leis, os actos de governação, as propostas politicas, culturais ou estéticas mais radicalmente avessas aos interesses nacionais, à vontade de regeneração segunda a identidade portuguesa ou às traves mestras da nossa estrutura cultural.”

António Quadros (in, Portugal Razão e Mistério)

Muito adequado aos últimos tempos que se estão vivendo.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

VENCIDA A AUTO-DIVINIZAÇÃO EGOLÁTRICA

Uma reportagem, hoje, da RTP1 sugeria que a Maçonaria iria dialogar com a Igreja Católica. O que me inspirou para transcrever aqui este texto do António Quadros, retirado do blog que lhe é dedicado e com link aí ao lado:
"Meu Eu, meu Deus: vencida a auto-divinização egolátrica, quebrada a casca do ensimesmamento pequenamente lírico e empecido, o eu pode tornar-se espelho de transcendência, caminho de diálogo com algo que o excede «ser mediador» para uma outra e a mesma realidade: a do Deus que nos fala e em nós fala no nosso próprio ideal, no nosso próprio movimento, ainda que o investamos de outros nomes, ou a do Deus que por vezes ao longo da jornada, mais cedo ou mais tarde, dificilmente, penosamente, agraciadamente, aprendemos a reconhecer sob mil máscaras que permitem a nossa liberdade..."

terça-feira, 8 de abril de 2008

FRASES CONEXAS

«Vivemos tempos de crise. São tempos de máscaras e aparências, em que se esquece o valor do serviço e o respeito pela realidade. São tempos que ignoram o passado da independência e anunciam um futuro sem liberdade»

Gen. Rocha Vieira, in Correio da Manhã de 6.4.2008, aqui


«Num mundo menos tolerante e mais pobre o adquirido do Maio de 1968 não sobrevive.»

Pacheco Pereira, in Público de 5.4.2008, aqui.



«No fim, como é sabido, a Igreja prevaleceu, produziu Salazar e gozou meio século de uma quase absoluta hegemonia.»

VPV, in Público de 6.4.2008, aqui.
Mas o curioso é que a propósito desta frase de VPV se compare com a capa de uma revista de 1918 que coloquei aqui.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

INFANTILIZAÇÃO DA SOCIEDADE

Hoje, no Público, aqui, o dr. Pedro Afonso, médico psiqiatra, publica um artigo com o título "Os alunos, os professores e a infantilização da sociedade", que eu considero excelente, e que põe as coisas na sua devida dimensão. Aqui deixo o trecho que acho muito significativo do artigo:


(...)
A desautorização dos professores e a demissão dos pais do exercício da sua autoridade educativa, para além de conduzir a atitudes e comportamentos anti-sociais, proporciona a estruturação de personalidades imaturas e com falhas na adaptação social.
Verificamos que na educação das crianças e dos jovens há cada vez mais uma ausência de limites. Existe, por vezes, a noção errada de que a tolerância é o maior dos bens e que os limites, impostos pelas regras, são actos de repressão. Porém, a permissividade excessiva e a ausência de limites na educação são também provas de desamor e de abandono. Neste contexto, a família tem um papel fundamental. Educar obriga muitas vezes a dizer "não" e isso leva muitas vezes a reacções, do lado dos filhos, que são difíceis de presenciar.
Evidentemente que muitas vezes torna-se mais fácil dizer "sim" do que ter que lidar com uma briga ou um amuo. Mas quem disse que educar não dá trabalho? Uma das consequências da ausência de limites na educação é a falta de capacidade para lidar com a frustração. Estes jovens tornam-se impulsivos, incapazes de esperar, procurando a todo o custo a gratificação imediata e a satisfação dos seus desejos. Não é pois de estranhar que, diante uma contrariedade imposta por um professor, a agressividade surja como uma reacção natural.
É curioso constatar que, ao contrário daquilo que seria de supor, o excesso de tolerância na educação das crianças e dos jovens transforma-os precisamente em indivíduos pouco tolerantes. Para se viver em sociedade é necessário aprender regras, é necessário perceber que a minha liberdade termina quando atinge a liberdade do outro. Por isso, a inexistência de normas e limites incita ao individualismo e a um narcisismo intolerável.A capacidade de ouvir o outro também se aprende. Com efeito, para assistir convenientemente a uma aula é necessário que haja quietude e silêncio. Ora, uma grande parte dos nossos jovens não suportam o silêncio. Num mudo repleto de estímulos e de excesso de comunicação, os jovens não conseguem largar o telemóvel, não sabem estar consigo próprios, receando o vazio da solidão.
Para alguns jovens, os professores – tal como os pais – são vistos como figuras autoritárias, repressoras e desprezíveis. Esta atitude pueril reflecte uma falta de interesse e um desdém pelo conhecimento que a educação proporciona. Na verdade, muitos são incapazes de compreender que é o seu próprio futuro que está em jogo. De resto, esta imaturidade transfere-se para a vida adulta, levando a que se tornem adultos inconstantes, inadaptados, revoltados, atribuindo frequentemente à sociedade as razões do seu infortúnio.Fala-se muito na necessidade de educação sexual nas escolas, mas fala-se pouco de educação cívica. Esta é uma matéria na qual a escola tem uma palavra a dizer. Penso que deveria obrigatoriamente fazer parte da formação dos jovens nas escolas uma experiência de voluntariado. De outro modo, como é que será possível criar uma consciência social nos jovens, se não se integra a solidariedade como um elemento da sua formação? Esta falha formativa pode criar uma "infantilização da sociedade", em que o Estado é visto como uma espécie de pai que tem que nos proteger, garantir todos os direitos, e o único responsável pelo nosso destino.
Os jovens estão cada vez mais afastados da religião e das ideologias políticas. Há uma pressão enorme, por parte da sociedade, para o consumismo e para o hedonismo. Todavia, sabemos que o Homem tem outras aspirações, além dos aspectos materiais e da procura da satisfação dos desejos imediatos. Existem outros valores que devem ser ensinados e transmitidos aos nossos jovens. Mas, infelizmente, vivemos cada vez mais numa sociedade light, na qual vinga a cultura da superficialidade, a procura do prazer imediato e o individualismo.
(...)

terça-feira, 1 de abril de 2008

SEM

A vida sem fé é um túnel sem fim, mas sem esperança é um corredor às escuras que não leva a parte nenhuma.
Fernanda de Castro, in " Ao Fim da Memória - Ivol."