terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
O MAL TEM SEMPRE ENTUSIASTAS APOIANTES
O mal tem sempre adeptos que o
apoiam e sustentam. Em qualquer das facetas em que se apresente. É visível a
crispação em que o mundo vive. Há sempre gente a apoiar uns contra outros, e vice-versa.
Há um certo maniqueísmo na sociedade, onde os cidadãos têm uma tendência para
se sentirem certos, e correctos, no que amam e no que decidem, consequentemente
no que apoiam, julgando todos os que têm outro entendimento como absolutamente
errados, sendo assim opositores, quiçá inimigos. O futebol é sempre um bom
exemplo, embora sempre grotesco. A política entendida pelos cidadãos, e não
pelos que exercem na política a sua actividade, também é um bom exemplo do
maniqueísmo. Agora os cidadãos nas suas escolhas, quando votam, seja para
clubes de futebol ou de campismo, como também em votações para eleger pessoas
para governarem os países, tanto podem escolher o bem como o mal. Eu gostaria
de relembrar que nos últimos 150 anos, as escolhas livres e democráticas de
cidadãos nem sempre tiveram bons resultados. Lembro Hitler, Mussolini e outros
que chegaram ao exercício do poder democraticamente através de eleições livres.
Eu diria que todo o bandido tem os seus adoradores e os seus detractores. Às
vezes até temos exemplos de facínoras, presos perpetuamente, que têm
seguidores, ou fãs. Alguns até têm quem, já depois de sentenciados, sem nunca
os terem conhecido, se apaixonem por eles, e com eles se casem. Há para tudo na
prateleira.
Assim,
ditadores podem sempre surgir através do voto. E vão surgir. Aqui e ali, sem
demorar muito. Vão ter os seus seguidores e adeptos fervorosos. Normalmente têm
algo em comum, seja em que continente estiverem. São sempre cleptocratas. E, de
entre as suas vítimas, haverá sempre cinquenta por cento que os apoiarão
indefectivelmente, quarenta por cento que acobardados se calarão, e dez por
cento que se oporão. E o planeta gira, o universo move-se, mas o mal
persistirá, sempre e sempre devidamente apoiado pelas suas vítimas, que são os
maiores fornecedores de capacidade para o mal.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
ENCANTAMENTO
Há mais de dez anos escrevi este artigo, que me solicitaram, para uma revista recém criada, de que já nem o nome lembro. Era para ser publicada no nº 4, mas não resistiu após o nº 3. se não estou em erro. Desencantei-o há dias. Revi o texto, e aqui o publico.
Encantamento
É a primeira
emoção que inunda a sensibilidade de quem vê, pela primeira vez, a ilha. Vindo
de fora, a ilha induz, na percepção do forasteiro, o encanto. Rompida a bruma
pelo avião, só os olhos comunicam com a ilha, só eles interagem com os
contornos e as cores que a ilha, qual mestre do oculto, permite à observação.
Imagina-se, então, os que se aproximam de barco, para quem a ilha surge como um
sonho flutuando que esgaça as neblinas. Porque, para um ilhéu, a ilha sempre
flutua suspensa no tempo.
Actualmente a
ilha começa sempre por ser uma, ou várias, fotografias coloridas com bons
ângulos, de boas perspectivas, em bonitos dias. O papel da impressão da revista
também ilude. A projecção do sonho está feita. Parte-se do sonho para o
encantamento. E o primeiro contacto, aquele que impressiona, é encantamento.
Pôr os pés na ilha, a sempre encantada, é a concretização do sonho.
A ilha é
sempre um local idílico. Recolhido o fruto da primeira impressão, é com ele que
o forasteiro caminha na ilha. Mas caminha entre realidades vividas cuja
absorção escapa à gravação na película da primeira impressão. Há uma barreira
transparente que inibe a percepção real por aquele que foi tocado pelo
encantamento. E essa barreira é muito mais contundente nos dias solarengos do
que nos dias brumosos das ilhas. O forasteiro, todo aquele que chega vindo de além-mar,
passeia-se entre as pessoas e paisagens, construções e animais. Passeia-se
usufruindo do clamor dos seus sentidos, atendendo, assim, muito pouco aos
pontos que, ligados entre si, lhe dariam a composição da realidade, que
substituirá a alheia. O forasteiro cruza-se com outras pessoas, alguns
forasteiros e outros, mais, ilhéus. Mas com estes cruza-se como se fluíssem em
planos diferentes. O ilhéu mostrar-se-á sempre com um sorriso anódino, ou um
semblante natural e candidamente cerrado. Não deixará transparecer, de forma a
que seja perceptível por forasteiros, emoções ou esgares. São foro interno. Se
a teoria dos mundos paralelos tivesse demonstração, ter-se-ia de começar esse
exercício pela ilha. O forasteiro vê os limites físicos da ilha, nos alcantilados
ou nas praias, em horizontes de flutuação. Nunca se apercebe do que limita o
ilhéu. Vagueia pela ilha, o forasteiro, prendendo em película, hodiernamente
mais em pixéis, pedaços da sua concepção de ilha. Só pedaços. O alcance da sua perspectiva,
empolada pelo encantamento inicial, é sempre impotente para abarcar tudo o que
os seus sentidos, globalmente, apreendem. Cores, contrastes, colapsos,
recônditos e muitos pormenores que há muito perderam o interesse dos ilhéus.
Captam ali, além, mas sempre o que lhes motiva o idílico. As pessoas,
abstraindo os próprios, não constam das fotografias porque não se coadunam com
o entendimento do idílico pelo forasteiro. As paisagens e os animais, sim. O
forasteiro consumirá o seu tempo de estadia sem se aperceber da realidade da
vivência do ilhéu. Este tudo fará para que o forasteiro, se resuma à paisagem,
se embriague de beleza e de ténue, sem que possa estabelecer contacto com toda
a dramatologia insular. De forma estranha, também o, reduzido, contacto que
estabelecem, forçosamente, entre eles, flutua, tal qual a ilha, esgaçando as neblinas.
Uma aberta nunca corresponde a um solarengo duradoiro. E tudo o que, ao
forasteiro, é permitido observar se passa sempre entre neblinas, dependendo da
sorte a oportunidade de uma boa observação.
O forasteiro
retornará, encantado, num avião que romperá as brumas para atingir a limpidez
das alturas. Regressa encantado para mergulhar no desencanto das rotinas da sua
vida, tentando não esquecer que, durante o tempo de uma semana, ou duas, viveu
um encanto.
Os forasteiros
que vão restando por mais tempo têm a oportunidade de, muito lentamente, saírem
do encantatório e viverem a rotina das suas vidas. Diluem-se no seio das brumas
com os demais ilhéus com que se fundem.
sexta-feira, 20 de julho de 2018
RETORNO. HÁ O PERIGO DE FALHARMOS?
Reactivei hoje. Passaram 7 anos de interregno. Desde o último post muita água passou debaixo da ponte. Portugal não melhorou e o mundo muito menos. Retorno hoje por causa uma reflexão do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, actual Presidente da República. Julgo que ele já se apercebeu que com tanta exposição e tanta afectividade, deixou de ser ouvido. É o que acontece quando uma pessoa aparece demasiado e dá palpites sobre qualquer coisa e sobre tudo. Já não lhe ligam, e só o querem para abrilhantar eventos. Também já canta em eventos musicais. Mas por tudo isto, e porque reflectiu preocupações, viu-se impelido a escrever um artigo de opinião no Jornal Público, em 16 de Junho de 2018 sobre as assimetrias entre o resto do país e a Grande Zona Metropolitana de Lisboa, a falta de solidariedade entre nacionais e a viabilidade do país. Podem ler o artigo aqui. O Professor Marcelo Rebelo de Sousa está muito
consciente da ameaça que paira sobre a viabilidade de Portugal, e teme, com
muita pertinência, que o país claudique no seu desempenho. Destaco aqui duas passagens do artigo: “Até ao
fim da próxima legislatura se perceberá se somos ou não capazes de corrigir as
assimetrias existentes, de ultrapassar as desigualdades que teimam em
permanecer” ; “ Se formos
capazes de fazer reviver até 2023 o que importa que reviva, Portugal será
diferente. Se não formos capazes perdemos uma oportunidade histórica e
condenamos alguns portugáis a
serem muito ignorados, muito esquecidos, muito menosprezados e isso significa
que falhámos como país”. Será que vamos falhar? Eu não sou um optimista. Mas também não vejo optimismo no artigo do Presidente. Só uma chamada de atenção, onde nem esperança vislumbro.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
ENTRE A GRÉCIA E PORTUGAL O FOSSO TEM MUITO DE COMUM
Ao passar pela Grécia, e comparando-a com Portugal, Ferreira De Castro diz: «Os pequenos povos, que não são ricos, sabem mais geografia e sentem melhor o universo do que os grandes; mas, em geral, grandeza é, para eles, apenas uma sensação. Sonham muito alto, mas só sabem realizar mediocremente. Às vezes dá-se, porém como que uma explosão de todas as ansiedades recalcadas e, então, eles superam, em isolados feitos, não só o próprio meio físico em que vivem, mas, até, os actos dos grandes povos.»
Ferreira de Castro, A Volta ao Mundo, I Volume.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
ENTRE A HONESTIDADE E A ILUSÃO
Mas vocês próprios não estão certos do que realmente querem: querem conforto, consolação, compensação, e no entanto, ao mesmo tempo, querem algo que é infinitamente maior que a compensação e o conforto. A vossa mente está tão confusa que num momento vocês confiam numa autoridade que lhes oferece compensação e conforto e, no momento seguinte, voltam-se para outra que lhes nega conforto. A vossa vida portanto torna-se numa refinada e hipócrita existência, uma vida de confusão. Tentem descobrir o que realmente pensam; não finjam pensar o que acham que devem pensar; então, se estiverem conscientes, totalmente vivos no que estão a fazer, saberão por vocês próprios, sem auto-análise, o que realmente desejam. Se forem totalmente responsáveis nos vossos actos, saberão então sem auto-análise o que realmente procuram. Este processo de descoberta não precisa de grande força de vontade, de grande vigor, mas apenas de interesse em descobrir o que pensam, descobrir se realmente são honestos ou se vivem numa ilusão.
Jiddu Krishnamurti in " A ARTE DE ESCUTAR"
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Jiddu Krishnamurti in " A ARTE DE ESCUTAR"
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domingo, 19 de junho de 2011
APENAS DURAMOS
Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe. Portanto, só existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos, apenas duramos.
Padre António Vieira.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
A CRISE NÃO É SÓ FINANCEIRA! HÁ MUITA CRISE PARA LÁ DA FINANÇA
La guerra en Libia, que está poniendo de manifiesto los reducidos límites del poderío militar europeo, ha servido de pretexto al secretario estadounidense de Defensa, Robert Gates, para advertir en tono testamentario y frontal a los aliados de Estados Unidos de que la OTAN puede acabar convertida, más pronto que tarde, en una alianza militar irrelevante y sin futuro.
Interessante artigo do EL PAÍS, aqui,sobre a falência da NATO, ou do entendimento político sobre a NATO, que no fundo espelha o descalabro da Europa. É o resultado da incapacidade da Europa em não encontrar políticos capazes, nem ter um projecto válido, credível e execuível de futuro comum.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
domingo, 29 de maio de 2011
TALENTOS PUJANTES
Sebo subentendia obtusidade... Ora neste Ministério sobrava c talento. Incontestavelmente havia aí talentos pujantes...
- Essa é outra! - gritou Ega atirando os braços ao ar.
- E extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm «imenso talento», a oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparate que fazem, um «talento de primeira ordem»! Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de «robustíssimos talentos»! De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este facto supracómico: um país governado «com imenso talento», que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!
O conde sorria com bonomia e superioridade a estes exageros de fantasista. E Carlos, ansioso por ser amável, atalhou acendendo o charuto no dele:
- Que pasta preferia você, Gouvarinho, se os seus amigos subissem? A dos Estrangeiros, está claro ...
O conde fez um largo gesto de abnegação. Era pouco natural que os seus amigos necessitassem da sua experiencia política, Ele tornara-se sobretudo num homem de estudo e de teoria. Além disso não sabia bem se as ocupações da sua casa, a sua saúde, os seus hábitos lhe permitiriam tomar 0 fardo do governo. Em todo o caso, decerto a pasta dos Estrangeires não o tentava ...
- Essa nunca! - prosseguiu ele, muito compenetrado. Para se poder falar de alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, é necessário ter por trás um exército de duzentos mil homens e uma esquadra com torpedos. Nós, infelizmente, somos fracos ... E eu, para papéis subalternos, para que venha um Bismarck, um Gladstone, dizer-me «há-de ser assim», não estou! .. Pois não acha, Steinbroken?
- Essa é outra! - gritou Ega atirando os braços ao ar.
- E extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm «imenso talento», a oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparate que fazem, um «talento de primeira ordem»! Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de «robustíssimos talentos»! De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este facto supracómico: um país governado «com imenso talento», que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!
O conde sorria com bonomia e superioridade a estes exageros de fantasista. E Carlos, ansioso por ser amável, atalhou acendendo o charuto no dele:
- Que pasta preferia você, Gouvarinho, se os seus amigos subissem? A dos Estrangeiros, está claro ...
O conde fez um largo gesto de abnegação. Era pouco natural que os seus amigos necessitassem da sua experiencia política, Ele tornara-se sobretudo num homem de estudo e de teoria. Além disso não sabia bem se as ocupações da sua casa, a sua saúde, os seus hábitos lhe permitiriam tomar 0 fardo do governo. Em todo o caso, decerto a pasta dos Estrangeires não o tentava ...
- Essa nunca! - prosseguiu ele, muito compenetrado. Para se poder falar de alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, é necessário ter por trás um exército de duzentos mil homens e uma esquadra com torpedos. Nós, infelizmente, somos fracos ... E eu, para papéis subalternos, para que venha um Bismarck, um Gladstone, dizer-me «há-de ser assim», não estou! .. Pois não acha, Steinbroken?
Eça de Queiróz, in "Os Maias"
terça-feira, 17 de maio de 2011
A ÚNICA OCUPAÇÃO É COBRAR O IMPOSTO E FAZER O EMPRÉSTIMO
- Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... 0 empréstimo faz-se ou não se faz?
E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico.
O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que 0 empréstimo tinha de se realizar «absolutamente». Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta - «cobrar 0 imposto» e «fazer 0 empréstimo». E assim se havia de continuar...
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, 0 país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.
- Num galopezinho muito seguro e muito a direito disse 0 Cohen, sorrindo. - Ah, sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável: é como quem faz uma soma.. ,
Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hem!
E todos escutavam 0 Cohen. Ega, depois de lhe encher 0 cálice de novo, fincara os cotovelos na mesa para lhe beber melhor as palavras.
- A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela - continuava 0 Cohen - que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir 0 país ...
In "Os Maias" de Eça de Queiróz.
E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico.
O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que 0 empréstimo tinha de se realizar «absolutamente». Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta - «cobrar 0 imposto» e «fazer 0 empréstimo». E assim se havia de continuar...
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, 0 país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.
- Num galopezinho muito seguro e muito a direito disse 0 Cohen, sorrindo. - Ah, sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável: é como quem faz uma soma.. ,
Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hem!
E todos escutavam 0 Cohen. Ega, depois de lhe encher 0 cálice de novo, fincara os cotovelos na mesa para lhe beber melhor as palavras.
- A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela - continuava 0 Cohen - que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir 0 país ...
In "Os Maias" de Eça de Queiróz.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
O FUTURO ESTÁ MUITO NUBLADO
Vejam aqui, analisado por quem sabe e tem competência para o fazer. O Blog que cito é o DESMITOS com link aí ao lado.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
A DEBILIDADE DA PALAVRA
Quer nos EUA quer na Europa, a crise económica e financeira tem presença evidente na debilidade da palavra com que, mudados agora os tempos, lideravam os consensos ou intervinham com poder e resultados. Ao mesmo tempo que os europeus, aos quais pertence governar em época de debilidade efectiva, os americanos estão ainda a sofrer essa debilitação, mas nos dois casos a referência a efeitos colaterais vindos do exterior faz parte do discurso oficial, prejudicando a capacidade de ver e assumir que partilham a crise do Ocidente em decadência.
In «A debilidade partilhada» no DN, por Adriano Moreira, aqui.
terça-feira, 26 de abril de 2011
A SOCIEDADE PORTUGUESA ESTÁ FRACTURADA
Em Portugal vive-se a política como se vive o futebol: com paixão e nenhuma racionalidade. O meu clube ou partido é o melhor e está absolutamente certo, é a atitude comum da maioria dos cidadãos. Que denotam uma incapacidade democrática porque são incapazes de entender o outro, e de perceber que a riqueza democrática está no convívio das diversidades em prol do bem comum e na persecução de uma boa gestão da res publica. Há uma tendência ditatorial para imporem os seus pontos de vista, para ditarem as regras que gostariam que os outros fossem obrigados a cumprir. Ao acharem-se donos de verdades absolutas e prenhes de certezas blindadas comportam-se como potenciais ditadorezinhos demonstrando, em simultâneo, uma ignorância política e democrática.
Nos últimos tempos apercebi-me, e os comentários de hoje aos discursos de ontem, bem como às reacções pífias de ontem, reforçaram essa minha percepção, que a sociedade portuguesa está fracturada radicalmente. Tal como o está no futebol. Temo, por isso, que estejamos a rumar para uma mini guerra civil onde os custos vão ser muito pesados, incluindo a perda numerosa de vidas humanas.
Nos últimos tempos apercebi-me, e os comentários de hoje aos discursos de ontem, bem como às reacções pífias de ontem, reforçaram essa minha percepção, que a sociedade portuguesa está fracturada radicalmente. Tal como o está no futebol. Temo, por isso, que estejamos a rumar para uma mini guerra civil onde os custos vão ser muito pesados, incluindo a perda numerosa de vidas humanas.
domingo, 24 de abril de 2011
O EXERCÍCIO CÍVICO DA CIDADANIA
O exercício da democracia não pode ser feito sem partidos ou qualquer outra forma de associação cívica para exercer a cidadania de forma organizada. O problema das democracias ocidentais, e não só ocidentais, na actualidade, é que os partidos têm a identidade actual forjada no pós guerra mundial, e consubstanciada sobretudo pelas gerações universitárias da década de sessenta. Criaram casulos que permitiram que os partidos fossem tomados a partir do interior, por pessoas sem idoneidade, ou por grupos com interesses obscuros ou, simplesmente, por oportunistas ambiciosos prontos a venderem-se a quem mais pagasse. Este é o drama da vulnerabilidade da democracia, que é o uso das regras democráticas para se usurpar o poder democrático para fins contrário à boa gestão da «res publica». Na década de 80 iniciou-se, em grande escala, uma alteração no equilíbrio mundial, na ordem mundial, com a difusão da informática e a queda do muro de Berlim. São dois vértices que impunham uma renovação de estratégias, objectivos e práticas, agora com uma identidade forjada a partir destes vértices e com o abandono da visão partidária do pós guerra. Infelizmente tal não aconteceu e os partidos e as democracias viram-se embrulhados num vórtice de evoluções tecnológicas, sociais e económicas que os deixaram mais frágeis, e cada vez mais sujeitos a pessoas menos preparadas para cargos governativos e submetidas ao jugo das pressões partidárias e económicas. As populações, por várias razões, alhearam-se no empenho do exercício da cidadania. O resultado está à vista. Estamos à beira, com uma margem de segurança já muito estreita, de um colapso social e político com custos enormes de vidas humanas, representando um retrocesso social e político sobre o alcançado após duas grandes guerras no século XX. Mas sem organização associativa para o exercício da cidadania não há democracia que resista. Tem é de haver formas de não deixar que as regras democráticas possam ser pervertidas a partir do âmago da democracia.
sábado, 23 de abril de 2011
UMA CRISE ANTECIPADAMENTE ANUNCIADA
Hoje é Sábado de Páscoa. Amanhã dia da ressurreição. Mas para este país não há ressurreição. A crise não vai levar a uma renovação do país. O país está com demasiadas feridas, para além das dívidas que estes governos fizeram. Eu diria que o país está ferido de morte. Criaram-se demasiadas assimetrias. Há muitas diferenças de tratamento para com os cidadãos. Há cidadãos de primeira, de terceira e de quarta. Isto vai fazer com que a aplicação das medidas de austeridade leve a revoltas e a ódios. Há cidadãos que partem já em desvantagem, não têm defesas nenhumas para aguentar a crise. Estes políticos actuais, por quem não se pode ter respeito nem consideração, continuam a candidatar-se para governar o país, com capacidade que demonstraram não ter, e não vão ter. Porque se tivessem não tinham conduzido o país para o buraco. O futuro não é auspicioso. Temo que Portugal acabe por mergulhar numa guerra civil. E tudo será inútil porque esta crise já tinha sido anunciada há vários anos, porque viam que a rota era para o abismo. E viram e denunciaram isso Medina Carreira, Hernâni Lopes, Vitor Bento, Silva Lopes, Braga de Macedo, e muitos mais em jornais, revistas, rádios e televisões. E alguns escreveram livros que estão publicados. Este primeiro-ministro, enquanto conduzia o país para esta situação, chamava-os de catastrofistas e bota abaixistas. Viu-se quem tinha razão. E não vamos ressurgir. Vai-nos faltar muita coisa, sobretudo a juventude que se sente ludibriada e que está a abandonar o país. Vão-nos faltar cérebros muito em breve. Foi um crime o que fizeram a Portugal. E aos portugueses.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
AGORA TODOS VAMOS PAGAR A FACTURA DAS NOSSAS NEGLIGÊNCIAS CÍVICAS
Retomo hoje a escrita neste blog, passados 3 meses. Com este comentáro que fiz num outro blog
A história do nosso país, desde 1850 (+/-) versa em continuo sobre maus políticos, desastrosos gestores da res (coisa) pública. Também de um povo incapaz de fazer as melhores opções, quase sempre pela ignorância. Este é o povo de que todos falamos como se não fizéssemos parte dele, e que criticamos as opções eleitorais deles, como se não fossemos também culpados pelas nossas opções ou pelas nossas demissões. Somos todos bons treinadores de bancada incapazes de fazer uma boa jogada no campo, ou mesmo de perceber as regras na sua plenitude. Sempre fomos nos acomodando, ninguém se quer aborrecer, sempre criticamos no café ou na paragem do autocarro, mas nunca intervimos civicamente nem solidariamente. Somos todos, MAS TODOS, uns acachapados. Tentamos sempre viver sem esforço cívico, esperando que a coisa corra bem. Nunca corre. Analisem a história, desde 1850. Vivemos sempre com a corda na garganta e nunca fazemos nada para mudar a estrutura do país e sairmos desse ciclo vicioso. Só houve um período mais longo sem o espectro da bancarrota, que infelizmente foi um período ditatorial, que sem ser dos piores do século XX, não deixou de ter custos tremendos. A pergunta que se põe sempre é se aprendemos alguma coisa com a história. Pois não aprendemos. Se sairmos desta crise é uma questão de tempo para voltarmos às mesmas asneiras. Não temos emenda. Nós todos. Não é só criticar e ficar de fora. Estamos todos dentro. Quando eu critico os portugueses, incluo-me. Nós não nos esforçámos para fazer o país melhor. Nós todos deixámos que alguns dirigissem o barco sem estarem habilitados para o fazerem. Nós todos aceitámos passivamente que a corrupção grassasse. Nós todos ficámos no aconchego de um doce embalo a ver tudo a ruir ao longo de anos na educação, na justiça, etc., e nada fizemos para travar a queda. Os avisos foram sendo feitos e ninguém quis ouvir. Agora todos vamos pagar a factura das nossas negligências cívicas. Mas está tudo na história.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
AGORA LIDAMOS COM UM PÚBLICO CONSUMIDOR E JORNALISTAS VENDEDORES
Entre 15 e 18 de Novembro de 2010 houve "the 4th edition of the International Symposium on Journalism and Information" em Estrasburgo. Philippe Lefait disse: «Encontramo-nos numa fase crítica. Antigamente os cidadãos eram questionados pelos jornalistas. Agora lidamos com um público consumidor e jornalistas vendedores.» In "Courrier Internacional".
domingo, 9 de janeiro de 2011
PACIFISMO NÃO GARANTE PAZ
Já tenho referido muitas vezes esta questão. O fim do serviço militar obrigatório, a falta de qualidade da instrução pública e o seu fraco grau de exigência, a que se junta a deterioração da qualidade da política e dos politicos, irão provar que o título deste post é exequível a não muito longo prazo.
E falo nisto por causa do artigo do Prof. Adriano Moreira "Entre a Paz e a Ameaça" publicado no DN em 23.11.10. E dele destaco esta frase:
«o espírito europeu pareceu subitamente convertido ao pacifismo secularmente pregado sem êxito»
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
LUCIDEZ REFLEXIVA
Próprio do intelectual, no mais autêntico sentido da palavra, foi sempre opor a reflexão - liberdade do pensamento que se pensa pensando o próprio e o alheio -, à pressão das forças ou dos poderes dominantes no tempo e no lugar. Para sermos mais rigorosos, deveremos antes dizer: à pressão da dialéctica das forças ou dos poderes dominantes. Efectivamente, há uma dialéctica impositiva que atrai muitas pessoas a rejeições e opções, mas que a lucidez reflexiva, quando não a sabedoria arcaica ainda vivaz no inconsciente colectivo, mostra processar-se tangencial ao pleno movimento do homem, do cosmos e do espírito.
(...)
Nos países ibéricos ou ibero-americano, tal dialéctica de irreflexões ou des-razões, provocada pelo desequilíbrio de uma educação que deixou de estar vinculada à filosofia para se enfeudar à política, enquanto esta se absolutizou como fim, foi a responsável pelo estado de guerra total ou virtual em que passámos a viver a partir de meados do século XVlll.
(...)
Nos países ibéricos ou ibero-americano, tal dialéctica de irreflexões ou des-razões, provocada pelo desequilíbrio de uma educação que deixou de estar vinculada à filosofia para se enfeudar à política, enquanto esta se absolutizou como fim, foi a responsável pelo estado de guerra total ou virtual em que passámos a viver a partir de meados do século XVlll.
Dois trechos retirados do prólogo de «O ESPÍRITO DA CULTURA PORTUGUESA», de 1966. Uma grande obra de um GRANDE português: António Quadros. Ao lado está um link para um blog que lhe é dedicado. Recomendo a leitura, na integra, desse prólogo. E depois o livro todo, obviamente. Só estes dois trechos dão para uma reflexão sobre a política e sobre a instrução pública. E podemos aquilatar do desastre que foi o tratamento displicente da disciplina de filosofia no ensino.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
A CONTENÇÃO NÃO É SUFICIENTE SEM AUMENTO DE RIQUEZA
Se não se for inovador de forma a aumentar a riqueza nacional, aumentar o produto e incrementar o valor acrescentado, não há salvação só com a contenção da despesa. Os aumentos dos impostos, sobretudo do IVA, fará com que haja uma forte contracção no consumo, logo um aumento ainda maior de desemprego, que não atinge a função pública, sempre protegida na despesa, pois terá sempre que haver dinheiro para pagar os seus ordenados. Lembro mais uma vez que as médias das pensões dos trabalhadores é de 397 Euros (ver aqui) e a média das pensões dos funcionários públicos é de 1.346 Euros (ver aqui). Esta diferença explica muita coisa, para além de que, e reforço, os funcionários públicos não sofrem o desemprego. Alguém anda a ser penalizado para a existência deste abismo.
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