quinta-feira, 20 de maio de 2010

A REPÚBLICA PORTUGUESA É MONÁRQUICA

É uma simples constatação. Com a implantação da República em 1910 só houve uma ligeira alteração. Sim, uma. Deixou de haver, no mais alto cargo do país, um rei, de nomeação automática, para passar a haver um presidente da república eleito, primeiro por um colégio eleitoral e depois por eleição directa dos cidadãos. Mas só isso. De resto, a monarquia manteve-se. Mais com os defeitos da monarquia do que com as virtudes. E o pior defeito da monarquia portuguesa era a qualidade da nobreza, clientela dos corredores dos paços. O rei distribuía favores, sinecuras, títulos, bens terrenos, glórias virtuais de contos de fadas, e mais que não havia, mantendo assim uma clientela ociosa, pindérica e incompetente. A república continuou a distribuir favores, sinecuras, títulos, bens terrenos, glórias virtuais de contos de fadas, e mais que não havia, e nem há, mantendo assim uma clientela ociosa, pindérica e incompetente. A nobreza de hoje são os militantes dos partidos, clientela voraz, que tudo abocanha e delapida, na ânsia de encher o bandulho. Ah! A nobreza antiga anda por aí servindo-se desta nova nobreza. Têm vantagem, pois têm outra escola. E os novos no poder, gostam de bajular esses antigos. Julgam que o contacto os faz brilhar. Lembram-se do Soares? Lembram-se da lista do protocolo de estado? E nunca repararam nas exibições das esposas desses monárquicos por essas autarquias e capitais, e por demais empresas públicas? Esta república é monárquica. Pindérica, mas monárquica.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

DESNORTE

Começa-se a sentir uma desorientação geral. Elites há muito que são necessárias. No palco, e não sentados no aconchego do sofá. Chegou-se a um ponto muito depauperado na representação do interesse dos povos. Estou por aqui a remoer o facto do anterior Secretário do Tesouro Britânico, Liam Byrne, ter deixado uma carta para o seu sucessor, David Laws, com uma única frase: «Caro Secretário, lamento informá-lo que já não há dinheiro». A notícia que me elucidou de tal facto pode ser conferida aqui. Poderia escrever páginas sobre a atitude dos políticos dos últimos 20, 30 anos. Mas seria um exercício de inutilidades, pois todos os continentes foram tramados por esses amadores, facilmente manietados, como o foram, por agentes de interesses diversos, mas sempre gananciosos e sem escrúpulos.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O DRAMA NOS AÇORES NÃO É PENSAR-SE PEQUENO. É PENSAR-SE FECHADO.

Pensar-se pequeno é relativo, não é um problema. Pensar-se em função da realidade da dimensão, não é castrador, é realismo. Pensar-se pequeno, quando ajustado, dimensionado, e, sobretudo, ponderado tem de ser salutar. Agora pensar-se fechado é dramático. Pensar-se olhando para o umbigo, com ante olhos, ignorando a realidade envolvente, dinâmica e progressiva, é um passaporte para a asneira, para o enclausuramento e para a estagnação. Fechado é imóvel. E subsidiar-se o que é imóvel não o faz locomover-se.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

POUPANÇA É CONFIANÇA

A poupança surge na base da confiança. Depois haverá ponderações de carácter económico e financeiro. Mas a base é a confiança. Se não houver confiança, há temor pelo destino das poupanças. Quem poupa fá-lo na expectativa que a sua poupança esteja intacta no futuro. Não vai poupar no receio que as suas economias sejam sugadas pelas necessidades governamentais, fruto de má gestão e erros grosseiros dos governos. A Argentina é um exemplo recente do que aconteceu às poupanças das pessoas. Desvalorização, congelamento de poupanças, etc., não são um anseio, legitimo, das pessoas. Para se apelar à poupança é necessário ter uma conduta que não mereça desconfiança nem suscite dúvidas. E tem de se dar um exemplo de conduta que não clame por hipocrisia. Ou seja, tem de se ser merecedor de confiança. Sempre que não se confia, não se poupa. E não há volta a dar.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

E OS QUE FIZERAM AS ASNEIRAS QUE LEVARAM O PAÍS A ESTE ESTADO, SAEM IMPUNES?

É o que toda a gente pergunta. O crime compensa? Ou será que os portugueses, todos, são mesmo culpados por suportarem alegremente dirigentes incompetentes?

segunda-feira, 26 de abril de 2010

EU JÁ VIVI O VOSSO FUTURO

Já têm dois ou três anos estas palavras do escritor russo, e dissidente soviético,Vladimir Bukovsky. Ñunca é demais recordar. E estamos numa boa altura para o recordar.

A URSS era governada por quinze pessoas não eleitas que se cooptavam mutuamente e não tinham que responder perante ninguém. A UE é governada por duas dúzias de pessoas que se reúnem à porta fechada e, também não têm que responder perante ninguém, sendo politicamente impunes.
Poderá dizer-se que a UE tem um Parlamento. A URSS também tinha uma espécie de Parlamento, o Soviete Supremo. Nós, (na URSS) aprovávamos, sem discussão, as decisões do Politburo, como na prática acontece no Parlamento Europeu, em que o uso da palavra concedido a cada grupo está limitado, frequentemente, a um minuto por cada interveniente.
Na UE há centenas de milhares de eurocratas com vencimentos muito elevados, com prémios e privilégios enormes e, com imunidade judicial vitalícia, sendo apenas transferidos de um posto para outro, façam bem ou façam mal. Não é a URSS escarrada?
A URSS foi criada sob coacção, muitas vezes pela via da ocupação militar. No caso da Europa está a criar-se uma UE, não sob a força das armas, mas pelo constrangimento e pelo terror económicos.
Para poder continuar a existir, a URSS expandiu-se de forma crescente. Desde que deixou de crescer, começou a desabar. Suspeito que venha a acontecer o mesmo com a UE. Proclamou-se que o objectivo da URSS era criar uma nova entidade histórica: o Povo Soviético. Era necessário esquecer as nacionalidades, as tradições e os costumes. O mesmo acontece com a UE parece. A UE não quer que sejais ingleses ou franceses, pretende dar-vos uma nova identidade: ser «europeus», reprimindo os vosso sentimentos nacionais e, forçar-vos a viver numa comunidade multinacional. Setenta e três anos deste sistema na URSS acabaram em mais conflitos étnicos, como não aconteceu em nenhuma outra parte do mundo.
Um dos objectivos «grandiosos» da URSS era destruir os estados-nação. É exactamente isso que vemos na Europa, hoje. Bruxelas tem a intenção de fagocitar os estados-nação para que deixem de existir.
O sistema soviético era corrupto de alto a baixo. Acontece a mesma coisa na UE. Os procedimentos antidemocráticos que víamos na URSS florescem na UE. Os que se lhe opõem ou os denunciam são amordaçados ou punidos. Nada mudou. Na URSS tínhamos o «goulag». Creio que ele também existe na UE. Um goulag intelectual, designado por «politicamente correcto». Experimentai dizer o que pensais sobre questões como a raça e a sexualidade. Se as vossas opiniões não forem «boas», «politicamente correctas», sereis ostracizados. É o começo do «goulag». É o princípio da perda da vossa liberdade. Na URSS pensava-se que só um estado federal evitaria a guerra. Dizem-nos exactamente a mesma coisa na UE. Em resumo, é a mesma ideologia em ambos os sistemas. A UE é o velho modelo soviético vestido à moda ocidental. Mas, como a URSS, a UE traz consigo os germes da sua própria destruição. Desgraçadamente, quando ela desabar, porque irá desabar, deixará atrás de si um imenso descalabro e enormes problemas económicos e étnicos. O antigo sistema soviético era irreformável. Do mesmo modo, a UE também o é. (…)
Eu já vivi o vosso «futuro»…

quarta-feira, 21 de abril de 2010

E a Alemanha veio ao de cima desde a reunificação.

Conectando algumas opiniões dissipa-se o nevoeiro.:

Eu detesto teorias da conspiração, mas esta preocupação, para não dizer perseguição, das agências de rating à economia portuguesa, que representa apenas 1% na economia europeia, faz pensar que o que está verdadeiramente em causa é o euro. Depois da Grécia, segue-se Portugal. A seguir virá provavelmente Espanha, depois a Irlanda, quem sabe a Itália... Como se tem visto, o euro está a acusar esta instabilidade e tem-se vindo a depreciar face ao dólar.
É claro que parte da responsabilidade cabe à própria União Europeia. A resistência da Alemanha, por razões de política interna, em apoiar a Grécia está na base da turbulência. Frases vindas de Berlim como "não vamos deixar a Grécia afogar-se, mas em vez de soltar já a bóia de salvação, vamos primeiro procurar que chegue a terra sozinha" são de uma enorme irresponsabilidade. Depois, a ideia de envolver o FMI no apoio aos gregos transmite uma imagem de impotência e incapacidade da União Europeia para ajudar os membros do euro a resolver os seus problemas, sendo necessário recorrer a ajuda externa. O que daí decorre, obviamente, é que o bloco europeu não é capaz de defender a sua moeda, pelo que o ataque ao euro vai certamente prosseguir, testando os limites da resistência da eurolândia.
NICOLAU SANTOS, no Expresso de 27 de Março

Ou me engano muito ou mandar a Grécia para os braços do FMI é um verdadeiro 'golpe de misericórdia'. Como os gregos não parecem ter o discernimento de concluírem eles próprios que não podem continuar no euro, e os alemães querem evitar o que não deixaria de ser considerada uma falta de cortesia, mandando-os embora, ou me engano muito, ou o FMI acabará por resolver o problema.
DANIEL BESSA Texto publicado na edição do Expresso de 27 de Março de 2010


O ministro das Finanças da Alemanha (e a seguir Angela Merkel) propôs que países da eurozona que não cumprissem as suas obrigações de rigor pudessem ser expulsos dela. A ministra das Finanças de França verberou a política macroeconómica da Alemanha: salários baixos e exportações altas prejudicam a França e os outros parceiros do euro. Porque o eixo franco-alemão não sobreviveria a confrontação constante os desequilíbrios existentes terão de ser corrigidos. Será difícil e a cigarra vai ganhar um pouco mais à formiga. Entretanto, o vice-primeiro-ministro grego, furioso com tiradas moralistas de Berlim, acusou os alemães de nunca terem devolvido o ouro roubado ao Banco da Grécia durante a ocupação nazi. A culpa ainda não está expiada.
José Cutileiro
Texto publicado na edição do Expresso de 20 de Março de 2010

O general inglês lorde Ismay, primeiro secretário-geral da NATO, a quem perguntaram para que servia a organização, respondeu: Para ter os americanos dentro, os russos fora e os alemães em baixo. (…) Os americanos já não estão tão dentro da Europa Ocidental quanto Ismay entendia ser prudente que estivessem. Os russos, por sua vez, já não estão tão fora dela quanto Ismay gostaria de os ver. (…) E a Alemanha veio ao de cima desde a reunificação. (…)… convém lembrar que o projecto europeu começou com a Alemanha de rastos e desenvolveu-se enquanto ela ganbava forças. A questão que se põe é - como vai a construção europeia adaptar-se a uma Alemanha forte? Ou, melhor, como vai uma Alemanha forte adaptar-se à construção europeia? Não sabemos ainda.

José Cutileiro
Texto publicado na edição do Expresso de 27 de Março de 2010




terça-feira, 13 de abril de 2010

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A MAIOR AMEAÇA À AUTONOMIA É A NÃO SUSTENTABILIDADE

O que põe em causa a autonomia regional, aqui ou em qualquer lado, é a falta de sustentabilidade. E entende-se por sustentabilidade a existência de condições, nas áreas económicas, sociais e políticas, que permitam uma não dependência absoluta económica que viabilize a manutenção de uma sociedade e, desse modo, a possibilidade política da decisão. E sempre por esta ordem, que é imutável nos tempos. Os Açores, com uma sociedade fragmentada e dispersa, por multi-insular, têm uma certa dificuldade em suster uma massa crítica, com uma dimensão assaz suficiente, para manter um dinamismo económico. Por isso a atenção melindrosa que deve existir para as vias de desenvolvimento. Que vias e que meios? Estude-se e atente-se, mas sem demagogias, sem populismos e sem incompetências. A economia precisa de pessoas, mas as pessoas para se manterem dentro de uma determinada economia precisam de um certo bem-estar. Caso contrário migram para outros lugares em busca desse bem-estar, que é um anseio natural. E há sempre o impasse de dar-se prioridade a um, o qual depende de dar-se prioridade ao outro. Quando se estaca neste dilema, a sustentabilidade periga. Não se investe porque não há pessoas, e as pessoas não investem porque não há economia válida. Há postos de trabalho a deslocarem-se para o Continente, e no seu rasto há pessoas a deslocarem-se para o Continente, porque as suas vidas não têm viabilidade nos Açores. Esta problemática é muito perceptível com o movimento migratório das ilhas mais pequenas para as maiores e para o Continente, quando não é o ambicionado movimento emigratório. Se o passado é memória, o futuro é esperança. Só que um existe e o outro ainda não.

sábado, 10 de abril de 2010

HÁ ESPERANÇA NA JUVENTUDE SE .......

Começar a aparecer na ribalta jovens como esta canadiana, para ouvir e ver aqui.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

EMOCIONALMENTE INFANTILIZADOS

Recebi por mail. E aqui publico, tal e qual.
PASSEIO SOCRÁTICO
Frei Betto

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão.
Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?'
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...' 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação!'
Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos:
'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...
A palavra hoje é 'entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, calçar este tênis, ­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de um analista ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.
O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático. ' Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:

"Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz !"

sábado, 3 de abril de 2010

EM PORTUGAL NENHUM DEPUTADO TEM ESTA CORAGEM

Mas no Brasil, pelo menos uma mulher, e que mulher, que é deputada, tem. Vejam e ouçam aqui.
E depois vejam segunda vez. E façam comparações.

sexta-feira, 19 de março de 2010

JÁ NÃO CHEGA

«Riqueza em Portugal já não chega para pagar dívidas ao estrangeiro.»
É o titulo da notícia, aqui, do Diário Económico.

segunda-feira, 15 de março de 2010

TEMPOS SIMILARES







Em Março de 2007 já publiquei a capa desta revista. Repito hoje porque se deve reflectir na data da revista e na legenda da foto. Vivemos tempos de crise, de que temos uma boa imagem no artigo citado no post anterior.
São tempos para reflexão. Reflictam mas não me citem o passado. O que fomos, fomos. Mas já não somos. Discursos sobre pseudo glórias não nos levam a lado nenhum. Fazem-se demasiados discursos sobre como fomos grandes, sem que nunca se diga qual a escala de grandeza por onde se pautam nessas afirmações.
Temos de reflectir no que somos, hoje. Porque estamos na situação em que estamos. Não serve só falarmos de medidas de austeridade. Deve-se exigir as razões da má gestão e pedir responsabilidades a quem tomou medidas erradas. Ou continuamos a pactuar com as impunidades e os enriquecimentos ilícitos? E para que é que eu estou para aqui preocupado com estas questões? Para nada. A maioria dos portugueses preocupa-se é com os resultados do futebol e com a cor do carro dos jogadores. Ah!, e também com o que comem ao almoço antes dos jogos. Que deve ser algo importante, por as televisões estarem sempre a falar nisso, mas eu não percebo a importância do tema.
Tenho receio pelo futuro. É um tema constante por aqui. Temo que os mais novos irão pagar um preço demasiado elevado pela estupidez das gerações anteriores. Não só económico. O preço mais caro será pago pelo mau uso, actual, da democracia.

E FOI DITO

Por Rui Moreira, no JN de 13.03.2010, no excelente artigo «DAR O DITO POR NÃO DITO». A ler aqui. Um retrato real deste governo.

segunda-feira, 8 de março de 2010

SUCESSO OU FELICIDADE?

Pode ser um problema que se ponha. Hoje em dia a educação e a instrução das crianças, dos jovens, tem muito a componente do sucesso. Nenhuma componente para a felicidade. E aqui estou sempre a referir-me à civilização ocidental, tal como é aceite este conceito. Circula muito na net um mail, com várias variantes, com o tema «Como é que nós sobrevivemos?». E esta sobrevivência tem a ver com os cuidados e cautelas que hoje existem, e que há uns 30 e mais anos não existiam. As pessoas eram mais pobres, com menos utensílios para consumir, mais solidárias e mais livres. Isto pode parecer estranho. Mas as crianças, há 30 e muitos anos atrás, eram mais soltas na sua criação. O espaço público não lhes estava vedado e, no meio das suas obrigações, que incluíam estudar e trabalhar, tinham tempo para brincar. Eu disse trabalhar? Disse. Trabalhar ainda não era um estigma para a juventude. Corria-se, pulava-se, esfolava-se e ria-se. Depois também não se tinha competição na escola. Se alguém tinha um 14, ainda bem. Se alguém tinha um 10, ainda bem, também. Ter negativa é que era triste, e não fazia a alegria dos outros a infelicidade de alguém. Os professores também ainda não eram ignorantes. Não se buscava um tal de sucesso com avidez, nem cupidez. Vivia-se a vida. E era-se feliz, sem que se buscasse essa felicidade na extremidade de qualquer arco-íris. Talvez para as raparigas esses tempos ainda não fossem tão bons, porque não lhes era dada a liberdade que os rapazes tinham. Hoje esse problema não se põe para elas.
Mas hoje qual é a existência das crianças e dos jovens? Tiraram-lhes a liberdade. Já não brincam. Há por aí uns gurus da educação, com padrões estereotipados, que deturparam os objectivos da educação. As crianças têm de ser sempre vigiadas. A segurança impõe isso. Deixou-se chegar a insegurança e a ineficiência da justiça ao actual estado. Não usam o espaço público, a não ser em manifestações de manada, e para serem cool, sempre na perspectiva do pai, ou da mãe, ou de ambos se ainda estiverem casados. Depois a criança tem de ter sucesso. Ou seja, tem de vir a ter um percurso para ganhar muito dinheiro, para ter um muito bom carro, para exibir, uma muito boa casa, que na prática pouco usa, por só lá dormir, uma casa no Algarve, onde se esfalfa para lá chegar no seu muito bom carro, para voltar ainda mais cansado do que foi. E tem de ter uma parafernália de objectos eléctricos e electrónicos para exibir às visitas, mesmo que pouco proveito tire deles, e é quando os sabe manejar em pleno. E para alcançar esse sucesso tem de competir. Mesmo que não queira nem lhe apeteça. Tem de competir. Que é o que os paizinhos fazem com as suas crianças, competem com os outros pais. E competem na escola, na música, no ballet, na ginástica, na natação, na esgrima, no coro da igreja e na má educação. Competem. Não brincam. Sempre fechados em casa, onde são feitos prisioneiros da segurança, do conforto, e da competição. Têm tudo ao seu dispor para se poderem valorizar, no seu sucesso, lá em casa. Têm uma vida vazia de existência. Vivem um mundo virtual. Começam mal e acabam pior. Podem ganhar dinheiro, mas não se realizam. Podem ter sucesso, mas não passam de uns patifezinhos. E depois serão incapazes de se relacionarem de forma estável e não virtual. Irão sempre reproduzir, nos filhos, que entretanto terão no acaso, ou para fazerem parte do sucesso exibicionista, já no limite biológico para o fazerem, os mesmos modelos idiotas com que foram criados. Em cidades frias de humanismo, egoístas, onde só se pode subsistir na rua integrando um bando. Aqueles cujos pais não tiveram sucesso, ou dinheiro, esses estão mesmo na rua. Não competem, lutam. Têm de sobreviver. Para isso, lutam. Os de sucesso, egoístas, pouco lhes importam os da rua. Eles, formatados, vão tentar ter tudo. A qualquer preço. Carro, casa, filhos, posição, marido/mulher com influência e um par. No fundo, infelizes. Prisioneiros dum sistema que alimentam. Estragando uma sociedade que só podia evoluir com homens livres.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O PERIGO DA HISTÓRIA ÚNICA

AQUI

MEDINA CARREIRA DISSE TUDO, EM ENTREVISTA

O DR. Medina Carreira disse tudo o que havia para dizer sobre Portugal em meia hora. Está dito. Ponto final. Pode ver aqui, com calma, no site da RTP. Ouvir e analisar. Meditar sobre o assunto. Ninguém pode é ignorar o estado do país. Poder, até podem, mas depois não se queixem.

quinta-feira, 4 de março de 2010

NADA DE NOVO

Um excelente poema de uma boa amiga, datado de 1999. Já publicado no seu blog, O JARDIM DA ASPÁSIA.


CARTA @ AMIG@

Olá, Amig@, resolvi escrever-te
só para dizer... que não há nada de novo.

Olha, saí, meti-me no carro
e chegando ao semáforo seguinte
vi o mesmo pedinte
com que há anos deparo.
Dei-lhe uma moeda de vinte.

Na fila de trânsito,
vi as mesmas caras agressivas
por dentro dos vidros embaciados.
Sorrisos não vi, nem expressões vivas:
só olhares cansados.

Também quis entrar no café,
mas era tal a fumaça lá dentro
que achei melhor adiar o momento
e fugi dali a sete pés.

Deu-me para comprar o jornal,
mas também não sei para quê:
já ontem, na TV, disseram tudo igual.

Parece que o principal
é que caiu um avião no Mar do Norte.
Mas olha, tiveram sorte:
dos noventa só morreram vinte e tal,
incluindo um doente de Sida, por sinal,
a quem já tinham lido a sentença de morte.

Os pais do rapaz até deram graças
por ele ir de repente
e não o verem mais pela casa
a morrer lentamente.
Das famílias dos outros vinte e tal
é que não sei o que disseram,
não vinha no jornal,
talvez não tenha sido tão sensacional.

Como vês, vai tudo normal.

Passei ali pelos arredores
e lá estavam os arrumadores
à porta do Centro Comercial
a arrumarem os senhores doutores.
Também estavam uns ciganos vendedores
discutindo com eles um espaço vital
para estenderem no chão uns cobertores
onde exporem o material.
Mas apareceu um carro da polícia
e debandaram todos por igual.

Enfim, virão tempos melhores.

De saúde, olha, vou assim-assim,
uns dias pior, outros menos mal.
Que se há-de fazer? É fatal.

E assim cheguei ao fim.
Como vês, não há nada de especial.
Fica bem, ou, pelo menos, tu também, menos mal.

Beijinhos da

L.

(Leonor 1999)

quarta-feira, 3 de março de 2010

QUERIDA PÁTRIA

Um ex-combatente o escreveu. Está publicado aqui, no blog dos ex-combatentes da Guiné, e não só. Todos os ex-combatentes, estou certo, se revêem neste poema. E com mais certeza subscrevem o que ele expressa. A opinião sobre os políticos actuais é, de certeza absoluta, a mesma.


QUERIDA PÁTRIA

Ó meu querido País
Que tanto te tenho amado
Eu tanto por ti sofri
Só por ti eu ter lutado …

Querida Pátria Portuguesa
Dos tempos que por ti lutei
Passando fome e sede
E por ti também chorei …

Portugal minha Pátria
Que linda Bandeira é
Por ela também lutei
Fui para a guerra prá Guiné …

SANGUE SUOR E LÁGRIMAS
Sacrifícios sem igual
Gritos de raiva e de dor
Pra defender Portugal …

Sangue colorindo o chão
Tanto sangue derramado
Foi essa nossa missão
Por ter Portugal honrado …

Foi sangue nos combates
Lá na guerra derramado
Mas eu cumpri o que jurei
Pela Pátria ser Soldado …

Suor tanto suor
Em caminhadas a pé
Suor e tanto suor
Pela Pátria na Guiné …

Suor pelo clima
Naquele perigo então
Foi o sangue e o suor
Pra defender a Nação …

Lágrimas de sofrimento
Para a Pátria defender
Eram lágrimas de tristeza
Por camaradas morrer …

Lágrimas na juventude
Por nossa Pátria amar
Naquela guerra maldita
Lá naquele Ultramar …

Por ti Pátria lutei
E jurei por ti morrer
Como tantos camaradas
Na Guiné a combater …

Até fome eu passei
Sacrifícios sem igual
Com camaradas cantei
O Hino de Portugal …

Em matas eu caminhei
Em picadas percorri
Por ti Portugal lutei
Cansado não desisti …

Angola Guiné Moçambique
O sofrimento constante
Lutando por ti ó Pátria
E tu Pátria distante …

Dias e noites caminhei
No cacimbo e ao calor
Só Deus sabe o que passei
Lutei por ti com amor …

Por ti eu não tinha medo
Naquela guerra metido
Quando à Pátria regressei
Senti meu dever cumprido …

Naquela guerra metido
Rapazes da mesma idade
Foram anos que perdemos
Sem gozar a mocidade …

Hoje velhos combatentes
Cansados mas a combater
A Pátria nos desprezou
E só nos quer ver morrer …

Cansadinhos vamos vendo
Os heróis que na verdade
É quem anda a roubar
A matar e é cobarde …

Ó nossa Pátria querida
Não fomos heróis e lutámos
Com traumas hoje vivemos
Tristes mas ainda te amamos …

Hoje velhos combatentes
Temos Lutas a travar
Porque a Pátria que amamos
Essa nada nos quer dar …

Sucessivos governantes
Prometem e nada dão
Querem tudo para eles
São abutres da Nação …

Nesta Pátria os heróis
São os que jogam à bola
Que lutam pelo País
De calção e camisola …

Os heróis deste País
Com fortunas lá na terra
São heróis que jogam bola
E nós não fomos na guerra …

Nós não fomos heróis
Mas com bravura lutámos
Pela Pátria demos tudo
E traumatizados ficámos …

Nós não fomos heróis
Da guerra que não se esquece
A Pátria nada nos dá
A Pátria nem nos conhece …

Governantes que prometem
Só porque não nos quer ver
Sabem pois ser mentirosos
Não sabem o que é combater …

Não sabem o que é a guerra
Atacam bem de palavras
Não conhecem os heróis
E mesmo as espingardas …

Não vivemos em paz
E com a idade a avançar
Exigimos o que é nosso
Estamos sempre a lutar …

Nós que estamos cansados
Devíamos de descansar
E a Pátria que defendemos
Ela nos está a matar …

A Nossa familia sofre
Por nos ver a nós sofrer
A familia é a mesma
Que nos viu ir combater …

Estes nossos governantes
Que nos tentam iludir
Mandam outro para a guerra
Mas eram eles a ir …

Muitos de nós na miséria
Com ompostos a pagar
Para abutres do governo
Que ganham sem trabalhar …

Somos nós ex-combatentes
Camaradas da Nação
E os que não nos conhece
Sabem que temos razão …

Somos Nós deste País
Que mal nos tem tratado
ORGULHOSOS COMBATENTES
POR TER PORTUGAL HONRADO …

Albino Silva
Soldado Maqueiro
N.º 011004/67
CCS/BCaç 2845
GUINÉ 68/70
__________