terça-feira, 31 de outubro de 2006

UM PAÍS MENOS ALEGRE

No "SOL", de 14.10.2006, por josé António Saraiva

«A atracção pela morte é um dos sinais da decadência. Portugal deveria estar, neste momento, a discutir o quê? Seguramente, o modo de combater o envelhecimento da população. Um país velho é um país mais doente. Um país mais pessimista. Um país menos alegre. Um país menos produtivo. Um país menos viável - porque aquilo que paga as pensões dos idosos sãoos impostos dos que trabalham. Era esta, portanto, uma das questões que Portugal deveria estar adebater. E a tentar resolver. Como? Obviamente, promovendo os nascimentos.»
Isto é estratégico. Mas como eu venho dizendo, em Portugal nenhum governante tem uma visão de estratégia, nem sequer uma ideiazinha do que isso é.
E o meu amigo Pedro "N" diria que isso é um problema porque há muita mal amada. No que eu também concordo. Se ele fosse ouvido com mais atenção, poupava-se muito dinheiro e muita frustração.

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

EXCEPÇÕES

Já repararam na percentagem de sinais de trânsito, de proibição, que têm acoplado uma tabuleta com excepções à proibição que ostentam? E se julgam que isto não tem nada a var com o país, enganam-se. Tem tudo. Um país onde nada se cumpre e nada é para cumprir.

domingo, 29 de outubro de 2006

PROPONHO UM EXERCÍCIO TEÓRICO


Vamos supor uma estrada a que atribuo um valor de cem mil contos, apenas para poder atribuir, proporcionalmente, valores a outras operações relacionadas. E tudo num quadro sem inflações, para não ter de entrar com grandes cálculos financeiros e económicos de que não sou mestre.
Posto isto passemos ao exercício.
Uma estrada de custo de cem mil contos. Necessitaria de uma manutenção anual de dois mil contos e, em cada dez anos, uma manutenção extraordinária de vinte mil contos. O que daria que, se não houvesse aumento de tráfego rodoviário que justificasse uma expansão, a estrada se mantivesse sempre operacional nas devidas condições.
Mas a realidade em Portugal daria outras contas. Primeiro não custaria cem mil contos,mas sim uns 130 mil contos, porque há as comissões a que as construtoras estão sujeitas pela benesse da adjudicação, que já subiu de 3% para 5%, e por isso se defendem na “derrapagem” dos custos, onde incluem as moras nos pagamentos das tranches.
Depois nunca se orçamenta e se gasta dinheiro nas pequenas manutenções. Há que aplicar noutros foclores, porque para o “povo”. Logo a estrada começaria a deteriorar-se em progressão geométrica, o que levaria a que no sexto ano de vida tivesse de ter uma intervenção de manutenção de 50 mil contos. Se tivesse tido uma manutenção normal o custo no décimo ano seria de 40 mil contos. Mas há que contar também com os prejuízos que todas as viaturas que por lá circulariam iam sofrendo por utilizar a estrada. E também contar com o prejuízo sofrido pelo que ficaria por fazer, porque como não orçamentavam nada para a manutenção, quando fosse inevitável fazê-lo, iriam tirar dinheiro que estava orçamentado para outra função qualquer, prejudicando esses objectivos.
Tudo isto resultaria numa conjugação de prejuízos que, normalmente, não vejo contabilizados.
Isto não passa de um mero exercício teórico, mas com certeza reflecte como em Portugal se gere mal a res publica, ou seja, a coisa pública.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

PAGADOR UTILIZADOR. HÁ DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS?

Rui Moreira escreve hoje um artigo no Público, aqui, onde me suscitou a questão do pagador utilizador. Ele terminou assim:

Fica a ideia que a decisão foi tomada porque promete um encaixe potencial de milhões para os cofres do Estado. Ora, se há um problema orçamental que limita o investimento público, é lícito perguntar por que é que este mesmo Governo insiste em obras faraónicas que não são sequer consensuais. Pior, fica-se com a ideia, numa altura em que as nossas contas públicas não as aconselham, que essas obras induzem esta política precipitada, que escapou a uma análise de custo e benefício global. É pena, porque a questão das Scut é séria e escuda-se no princípio tão em voga do utilizador-pagador que deveria suscitar, por uma vez, uma discussão profunda sobre as funções do Estado.

Ora eu ponho outra questão. A do pagador utilizador. Se os bem pensantes dos governos falam amiúde em utilizador pagador, eu, pensando bem, invoco o conceito de pagador utilizador. Se eu pago impostos para o Estado é para ser utilizador de serviços que o Estado me devia prestar. Se quem utiliza deve pagar, logo quem paga deve utilizar. Só que os melros dos governos entendem que devem ser utilizadores dos nossos dinheiros, mas que não nos devem prestar serviços, porque querem utilizar esses dinheiros em mordomias e prebendas, sem serem obrigados a prestar serviços. Entendem que o dinheiro dos impostos é para pagar ordenados e outras coisas lá à malta que vive do Estado e que o cidadão se quiser os serviços porque já pagou, o deve pagar novamente no acto da prestação do serviço. Dois pesos e duas medidas. Ai este país.

terça-feira, 24 de outubro de 2006

PARA REFLECTIR PROFUNDAMENTE

António Barreto, no artigo " SEM FIM À VISTA",que escreveu para o Público, aqui, encerrou assim:

O Ministério da Educação e os sindicatos de professores são os maiores obstáculos e os mais temíveis inimigos da educação. Coligam-se de vez em quando e daí vem prejuízo para os estudantes e seus pais. Guerreiam-se a maior parte do tempo e daí resultam danos para os estudantes e seus pais. Enquanto estes adversários não destroçarem, não conheceremos progresso educativo e cultural.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

REPENSAR. REPENSAR

De uma amiga, no Brasil, recebi, por email, esta carta. E fiquei inquieto. Com a prestação das duas gerações que me precederam, com a minha e com as duas seguintes. Ainda estou a reflectir.

DIGA NÃO A REELEIÇÃO


CARTA PARA O CHICO BUARQUE
28.10, 0h - sugestão para repetir neste dia
por José Danon, no Estadão

Chico, você foi, é e será sempre meu herói. Pelo que você foi, pelo que você é e pelo que creio que continuará sendo. Por isso mesmo, ao ver você declarar que vai votar no Lula "por falta de opção", tomei a liberdade de lhe apresentar o que, na opinião do seu mais devoto e incondicional admirador, pode ser uma opção.

Eu também votei no Lula contra o Collor. Tanto pelo que epresentava o Lula como pelo que representava o Collor. Eu também acreditava no Lula. E até aprendi várias coisas com ele, como citar ditos da mãe. Minha mãe costumava lembrar a piada do bêbado que contava como se tinha machucado tanto.
Cambaleante, ele explicava: "Eu vi dois touros e duas árvores, os que eram e os que não eram. Corri e subi na árvore que não era, aí veio o touro que era e me pegou." Acho que nós votamos no Lula que não era, aí veio o Lula que era e nos pegou.

Chico, meu mestre, acho que nós, na nossa idade, fizemos a nossa parte. Se a fizemos bem feita ou mal feita, já é uma outra história. Quando a fizemos, acreditávamos que era a correta. Mas desconfio que nossa geração não foi tão bem-sucedida, afinal. Menos em função dos valores que temos defendido e mais em razão dos resultados que temos obtido. Creio que hoje nossa principal função será a de disseminar a mensagem adequada aos jovens que vão gerenciar o mundo a partir de agora. Eles que façam mais e melhor do que fizemos, principalmente porque o que deixamos para eles não foi grande coisa.
Deixamos um governo que tem o cinismo de olimpicamente perdoar os
companheiros que erraram" quando a corrupção é descoberta.

Desculpe, senhor, acho que não entendi. Como é, mesmo? Erraram? Ora, Chico.
O erro é uma falha acidental, involuntária, uma tentativa frustrada ou malsucedida de acertar. Podemos dizer que errou o Parreira na estratégia de jogo, que erramos nós ao votarmos no Lula, mas não que tenham errado os zésdirceus, os marcosvalérios, os genoinos, dudas, gushikens, waldomiros, delúbios, paloccis, okamottos, adalbertos das cuecas, lulinhas, beneditasdasilva, burattis, professoresluizinhos, silvinhos, joãopaulocunhas berzoinis, hamiltonlacerdas, lorenzettis, bargas, expeditovelosos, vedoins,
freuds e mais uma centena de exemplares dessa espécie tão abundante, desafortunadamente tão preservada do risco de extinção por seu tratador.
Esses não erraram. Cometeram crimes. Não são desatentos ou equivocados. São criminosos. Não merecem carinho e consolo, merecem cadeia.

Obviamente, não perguntarei se você se lembra da ditadura militar. Mas perguntarei se você não tem uma sensação de déjà vu nos rompantes de nosso presidente, na prepotência dos companheiros, na irritação com a imprensa quando a notícia não é a favor. Não é exagero, pergunte ao Larry Rother do New York Times, que, a propósito, não havia publicado nenhuma mentira. Nem mesmo o Bush, com sua peculiar e texana soberba, tem ousado ameaçar jornalistas por publicarem o que quer que seja. Pergunte ao Michael Moore. E
olhe que, no caso do Bush, fazem mais que simples e despretensiosas alusões aos seus hábitos ou preferências alcoólicas no happy hour do expediente.

Mas devo concordar plenamente com o Lula ao menos numa questão em especial:
quando acusa a elite de ameaçá-lo, ele tem razão. Explica o Aurélio Buarque de Hollanda que elite, do francês élite, significa "o que há de melhor em uma sociedade, minoria prestigiada, constituída pelos indivíduos mais aptos"
Poxa! Na mosca. Ele sabe que seus inimigos são as pessoas do povo mais informadas, com capacidade de análise, com condições de avaliar a eficiência e honestidade de suas ações. E não seria a primeira vez que essa mesma elite faz esse serviço. Essa elite lutou pela independência do Brasil, pela República, pelo fim da ditadura, pelas diretas-já, pela defenestração do Collor e até mesmo para tirar o Lula das grades da ditadura em 1980, onde
passou 31 dias. Mas ela é a inimiga de hoje. E eu acho que é justamente aí que nós entramos.

Nós, que neste país tivemos o privilégio de aprender a ler, de comer diariamente, de ter pais dispostos a se sacrificar para que pudéssemos ser capazes de pensar com independência, como é próprio das elites - o que, a propósito, não considero uma ofensa -, não deveríamos deixar como herança para os mais jovens presentes de grego como Lula, Chávez, Evo Morales, Fidel - herói do Lula, que fuzila os insatisfeitos que tentam desesperadamente escapar de sua "democracia". Nossa herança deveria ser a experiência que acumulamos como justo castigo por admitirmos passivamente ser governados pelo Lula, pelo Chávez, pelo Evo e pelo Fidel, juntamente com a sabedoria de poder fazer dessa experiência um antídoto para esse globalizado veneno.
Nossa melhor herança será o sinal que deixaremos para quem vem depois, um claro sinal de que permanentemente apoiaremos a ética e a honestidade e repudiaremos o contrário disto. Da mesma forma que elegemos o bom, destronamos o ruim, mesmo que o bom e o ruim sejam representados pela mesma pessoa em tempos distintos.

Assim como o maior mal que a inflação causa é o da supressão da referência dos parâmetros do valor material das coisas, o maior mal que a impunidade causa é o da perda de referência dos parâmetros de justiça social. Aceitar passivamente a livre ação do desonesto é ser cúmplice do bandido, condenando a vítima a pagar pelo malfeito. Temos opção. A opção é destronar o ruim. Se o oposto será bom, veremos depois. Se o oposto tampouco servir, também o destronaremos. A nossa tolerância zero contra a sacanagem evitará que as passagens importantes de nossa História, nesse sanatório geral, terminem por desbotar-se na memória de nossas novas gerações.

Aí, sim, Chico, acho que cada paralelepípedo da velha cidade, no dia 29 de
outubro, vai se arrepiar.

Seu admirador número 1,

Zé Danon


José Danon é economista e consultor de empresas

domingo, 22 de outubro de 2006

AINDA O DEBATE SOBRE O IBERISMO

O Público de hoje dá um grande espaço à questão da União Ibérica. O debate anda por aí. A ler com muita atenção. De todos os artigos publicados hoje, destaco o trecho final de um, «CONTRA "Com a Catalunha já temos que chegue"», da autoria de K.G.:

Juntar Portugal ao mapa seria complicar ainda mais uma Espanha que já é complicada. E, sobre isso, Miguel Ángel Bastenier, do El País, só tem uma coisa a dizer: não, gracias. "Com a Catalunha já temos que chegue."Melhor seria que os espanhóis descobrissem, primeiro, quem são. Ramon Font diz que a autodefinição nacional "coloca grandes problemas do foro psiquiátrico". Não faltam reflexões em torno desse tema obsessivo, mas ninguém parece ter uma resposta para a pergunta: "O que é ser espanhol?". Portugal, dizem, tem uma relação mais saudável "com a pátria". "Para começar, Portugal é um país homogéneo, toda a gente fala português, ninguém fala basco e catalão, felizmente", diz Bastenier. "Os espanhóis ainda não decidiram o que são, o que é uma grande vergonha. E Portugal viria dividir ainda mais Espanha. Porque se acrescentava outra Catalunha. O que temos já é insuportável, não nos deixam viver. E eu sou de Barcelona, falo catalão, mas sou espanhol, caramba! Costumo dizer que se Espanha não tivesse esses problemas havia de ganhar muitos prémios Nobel, de ciência e de medicina. Mas estamos o dia todo ocupados com esta seca da Catalunha e do País Basco e não podemos dedicar-nos a nada! À literatura sim, porque a literatura nasce da dor. Assim sendo, Espanha tem uma grande literatura, como tem Portugal... Mas a ciência precisa de tempo livre. Por isso, Espanha tem uma grande literatura e uma merda de ciência."

UM RETRATO POSSÍVEL DE PORTUGAL

Entre outros retratos é o que nos é dado pela juventude. A actual juventude, na sua quase totalidade, ambiciona ser jogador de futebol, actor de telenovela ou cantor de sucesso. São os horizontes que alcançam. Todos a imitar a Floribella, ou lá como se chama a miúda, a irem a tudo o que é concurso idiota para exibirem os dotes, e escolas de futebol que garantam o estrelato internacional. E a satisfazerem o orgulho dos pais, sentados nas bancadas, com os óculos de sol no alto da tola. Portugal ainda vai estar nos lugares de destaque nos pódios.

sábado, 21 de outubro de 2006

A EUROPA COMEÇA EM ESPANHA

Basta pensar em Portugal. Como nenhum outro factor, a posição periférica de Portugal determinou o atraso e a semibarbárie em que sempre vivemos. Mesmo hoje o essencial não mudou. Se dantes se costumava dizer que a Europa começava nos Pirenéus, começa agora, para nossa desgraça, na fronteira de Espanha. A mais longa ditadura do Ocidente, o mais velho império colonial, a anacrónica extravagância do PREC e o Estado corporativo e parasitário que a democracia produziu deviam ter educado uma geração. Não educaram.
VPV, no Público de ontem.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

DESEMPREGADOS. OS QUE DIÁRIAMENTE SÃO A PROVA QUE DESMENTE O DISCURSO OFICIAL E O CRAVO NA CONSCIÊNCIA DOS REINVIDICADORES ACONCHEGADOS NA SEGURANÇA D


Do artigo publicado, aqui, no Público, hoje, de Carla Machado, destaco:



O Francisco foi despedido da empresa onde trabalhava.
(…)

O Francisco viu-se na rua, com uma magra compensação pelos seus muitos anos de trabalho. Inicialmente não se preocupou em demasia. Afinal, tinha experiência, formação, excelentes cartas de recomendação. E, sobretudo, era bom no que fazia.
Bateu a várias portas mas, estranhamente, poucas se abriram.
(…)
Até que um dia, com um olhar compadecido, uma das responsáveis pela selecção de uma das inúmeras empresas a que já tinha ido - jovem, tão jovem que mal parecia saída do secundário -, acabou por lhe confessar: "Sabe, não é nada contra si, nem tem nada a ver com o seu currículo. É que o doutor é... desculpe... demasiado velho! E as empresas não querem contratar gente da sua idade, que já tem experiência e normalmente exige melhores salários e mais direitos. Querem gente nova, que faz tudo para começar, mesmo que seja trabalhar 10 horas por dia quase de borla, está a entender?" Entendeu. E parou de procurar. Foi para casa, calçou os chinelos, sentou-se à frente da televisão.
(…)
O Francisco tem 37 anos. Estaremos mesmo preparados para o arrumar na gaveta dos desperdícios?

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

EM MARCHA PELA IBÉRIA

Actualizei o post "sobre o iberismo" que tinha colocado aqui. As sondagens de um lado e de outro, o que se tem escrito sobre o tema, bem como o desespero que graça em Portugal, levaram-me a incluir todo o artigo. Vão reflectindo.
Mas é bom estarem atentos a várias opiniões, sobretudo as espanholas. Aqui podem consultar algumas de um forum digital do "El Pais". Vejam esta: Podrían, pero no sería una alianza muy fuerte, más bien algo mediocre en comparación al resto de potencias y teniendo en cuenta que Portugal no pasa por su mejor momento que digamos. palermo

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

MODERNISMO

O modernismo antimoderno

«É necessário ser-se completamente moderno", escreveu Arthur Rim­baud. Uns sessenta anos mais tarde, Gombrowicz não estava muito certo de que isso fosse verdadeiramente necessário. Em Ferdydurke (editado na Polónia em 1938), a família Lejeune é dominada pela filha, uma «liceal moderna". É doida por telefones; ignora os autores clássicos; na presença do cavalheiro que se encontra de visita a casa, «limita-se a olhar para ele e, agarrando com os dentes uma chave de fendas que tinha na mão direi­ta, cumprimenta-o com a mão esquerda com a maior das desfaçatezes".
A mãe também é moderna; é membro do «comité para a protecção dos recém-nascidos»; é militante contra a pena de morte e pela liberdade dos costumes; «ostensivamente, com um passo desenvolto, dirige-se aos lavabos", saindo de lá «mais arrogante do que tinha entrado»; à medida que vai envelhecendo, a modernidade torna-se para ela indispensável enquanto única «substituta da juventude".
E o pai? Também ele é moderno; não pensa nada, mas faz por agra­dar em tudo à filha e à mulher.
Gombrowicz reflectiu em Ferdydurke a principal viragem que se pro­duziu durante o século xx: até essa altura, a humanidade estava dividida em duas partes, os que defendiam o status quo e os que o queriam mu­dar; ora, a aceleração da História teve as suas consequências: ao passo que, antigamente, os homens viviam no mesmo cenário de uma sociedade que se ia transformando muito lentamente, chegara entretanto o momen­to em que, de repente, eles começaram a sentir a História movimentar-se sob os seus próprios pés, como se fosse um tapete rolante – o status quo encontrava-se em movimento! De imediato, estar de acordo com o status quo era a mesma coisa do que estar de acordo com a História que se movimenta! Resumidamente, passou a poder ser-se ao mesmo tempo progressista e conservador, conformista e revoltado!
Tendo sido apelidado de reaccionário por Sartre e os seus, Camus encontrou a célebre resposta para aqueles que tinham «colocado a poltrona na direcção da história»; Camus estava certo, somente não sabia que essa preciosa poltrona estava montada sobre rodas e que, desde já há uns tempos a essa parte, toda a gente empurrava para a frente os liceais modernos, as suas mães e os seus pais, da mesma maneira que todos os que se batiam contra a pena de morte, todos os membros dos comités para a defesa dos recém-nascidos e, claro está, todos os políticos que, ao empurrarem a poltrona, viravam as suas faces risonhas na direcção do povo que corria atrás deles e que, por sua vez, também ia rindo, sabendo perfeitamente que só aqueles que se regozijam por serem modernos é que são autenticamente modernos.
Foi então que alguns dos herdeiros de Rimbaud compreenderam esta coisa espantosa: hoje em dia, o único modernismo digno deste nome é o modernismo antimoderno
.
Milan Kundera, in "A Cortina".

VAI-SE DIZENDO

«Não se trata aqui de "ameaças". O resto do mundo não forma simplesmente um bloco antiocidental. O que está a acabar é o tempo em que os ocidentais eram os únicos a crescer, a desembarcar e a ensinar - o tempo em que a responsabilidade pelo mundo era nossa. Os hábitos, porém, não morrem facilmente. Dá-nos sempre jeito reduzir as dificuldades do universo às "idiotices" de Bush, às provocações do Papa ou até às reencarnações exóticas do velho marxismo. Sem Bush, o Papa ou os nossos radicalismos universitários, tudo andaria excelentemente. Eis a receita para dormir bem. Por quem os sinos dobram?»

Rui Ramos, in Público, hoje, aqui.

«A incriminação do chamado "negacionismo" é uma estupidez e uma violência. Atinge a liberdade de pensamento e de expressão no seu próprio cerne e provoca uma inaceitável interferência da política sobre a História.»

Vasco Graça Moura, in DN, hoje, aqui.


«O aumento de impostos do ano passado foi um erro tremendo para a economia; a vertente da competitividade na política fiscal tem estado absolutamente ausente das opções de política (outro erro crasso); a contenção na despesa pública tem sido inexistente e, na parte em que tem existido é, em grande medida, feita à custa do investimento; a descida do défice baseia-se mais na subida da receita do que na redução da despesa; consolidação da despesa é algo que, virtualmente, não existe – nem poderia existir, face a anúncios de medidas (de que sobressaem o PRA-CE e o Simplex) que, depois, não só têm (muitas) partes não concretizadas, como as que o são, são-no tardiamente e fora do calendário inicialmente previsto.
(...)
Existem cerca de 740 mil funcionários públicos em Portugal. E o peso das suas remunerações no PIB equivale a mais de 14% – número que compara com menos de 10% em Espanha, na Irlanda ou na Áustria, 10% na Holanda, pouco mais de 12% na Grécia, ou menos de 11%, em média, na União Europeia.
A conclusão óbvia é que o peso das remunerações dos funcionários públicos na nossa economia é excessivo, comparando com os padrões europeus. E se é excessivo, pode ser reduzido actuando nas duas vertentes que existem: no "preço" (neste caso, os salários) e/ou na "quantidade" (o número de funcionários)
.»

Miguel Frasquilho, in Jornal de Negócios, 17.10.2006, aqui.

terça-feira, 17 de outubro de 2006

O VÉU DA IGNORÂNCIA

«Para tornar a situação internacional ainda mais preocupante, do ponto de vista da paz e segurança, do que resulta dos factos que podem ser dados por fiáveis, cresce a preocupação sobre a cortina de ignorância que vai sendo tecida em mais de um domínio das relações internacionais, e que corta o acesso das populações interessadas ao conhecimento da realidade.»
A Ler todo o artigo de Adriano Moreira, Hoje, aqui no DN.

MICROCREDITOS Y ECONOMIA DE LA POBREZA

Do blog de Jorge Rojas transcrevo, sempre com a devida vénia, este post:
«MICROCREDITOS Y ECONOMIA DE LA POBREZA
Ayer se entregó el Nobel de la Paz a Muhammad Yunus economista de Blangladesh creador de Grameen un banco que otorga microcreditos a pobres.La idea se ha extendido por tdo el mundo,màs bien por el 3er mundo.Presta 25 US a una mujer o un hoimbre(la mayoria de las usuarias son mujeres).Esto soluciona el problema?Polemico el punto.La idea la han tomado Instituciones de credito o ONG de todo el mundo.Una critica es que es un medio del sistema financiero para incorporar millones de personas a este aumentando la ya enorme economia informal.Otra,que es un alivio,loable pero que deja igual y sin tocar las causas estrcturales de la pobreza.En Haiti hay una experienciadescrita en Global Exchange conclusion solo es alternativa para la capa superior de los pobres,para los extremadamente pobres es una carga y simplemente no pueden pagar.La experiencia que fué exitosa en las ciudades,se extendió al campo.Aqui es exito es relativo.Primero los riesgos son mayores,luego aqui no funciona el corto plazo porque la naturaleza tiene sus tiempos,pueden ser decadas.Otra lo que necesita un agricultor no es un microcredito es un buen credito.Luego está toda la distorsion del mercado agricola mundial.Por eso la solucion a la pobreza que es 70% rural es màs compleja sobre todo enAmerica latina con una inequidad tan grande en la distribucion de la escasa tierra agricola.Pese a todo aliviar es mucho mejor que no hacer nada y el premio a Yunnus es merecido,ademàs que su lucha tiene no tiene que ver con luchas armadas sino tratar de hacer las paces entre ricos y pobres.Lo que no es facil.»

HÁ HORÁRIOS DE 40 HORAS SEMANAIS NA FUNÇÃO PÚBLICA?

Ou seja, de 8 horas diárias?
A propósito, leiam este artigo de Luísa Bessa publicado a 13 deste mês no Jornal de Negócios
«Quis o acaso, ou talvez não, que no mesmo dia em que desfilaram em Lisboa largos milhares de trabalhadores da função pública, tenha sido assinado um novo contrato colectivo no sector têxtil.
Com o acordo agora negociado entre uma das mais poderosas associações empresariais e a federação sindical da CGTP é a segunda vez, num ano, que o têxtil dá lições a muito boa gente.
Expliquemo-nos. Em Maio, a associação do vestuário já tinha assinado um acordo classificado como "histórico" com a mesma federação sindical. Histórico porque contemplava, pela primeira vez no sector, a possibilidade de alargamento da jornada semanal até às 50 horas com retribuição em tempo. Uma velha reivindicação das empresas que, cada vez mais obrigadas a trabalhar para encomendas pequenas, tinham necessidade de corresponder aos picos de trabalho sem o custo correspondente ao pagamento das horas extraordinárias conforme previsto na lei.
Seis meses mais tarde, a outra grande associação do sector, que reúne sobretudo a indústria têxtil pesada, acaba por justificar por que razão não chegou a acordo na mesma ocasião. É que, além do alargamento do horário semanal de trabalho até às 55 horas, também com a possibilidade de retribuição em tempo, obteve uma profunda reclassificação profissional dentro do sector. As categorias profissionais reduziram-se de mais de 700 para meia centena. Um ajustamento notável, que diz bem do que mudou no mundo das empresas no espaço de quase 30 anos, pois que a anterior classificação datava de 1977. E mantinha-se em vigor apesar da verdadeira revolução tecnológica que aconteceu entretanto.
A obtenção destes acordos, duramente negociados ao longo de vários meses, dizem-nos várias coisas importantes.
Uma delas é que mesmo os sindicatos da "linha dura", como são tradicionalmente os da CGTP e em particular nestes sectores, são capazes de revelar grande flexibilidade quando percebem que têm de o fazer para garantir os postos de trabalho. E isso é fácil de perceber num sector que ainda representa perto de 200 mil trabalhadores mas que, desde o ano 2000, perdeu cerca de 25%da sua força de trabalho. Não é todos os dias que ouvimos os sindicatos e os patrões unidos a clamarem pela "modernização" das empresas, mas foi isso que aconteceu.
Porque os representantes dos trabalhadores do têxtil sabem que a alternativa é continuar a assistir ao encerramento das fábricas e que, perante a concorrência acrescida da China e de outros países em desenvolvimento, a sobrevivência das empresas portuguesas passa por factores competitivos como as pequenas séries e a resposta rápida onde a flexibilidade é indispensável.
Se os trabalhadores do sector têxtil, que estão entre os que têm das mais baixas remunerações à escala nacional perceberam, porque é que outros não perceberam?
E, sobretudo, porque é que na Função Pública as coisas chegaram onde chegaram?
Descontando os erros de comunicação e um natural sentimento de revolta, por serem, há demasiado tempo, os bodes expiatórios do que corre mal no país, a
grande diferença entre os 700 mil da função pública e os 200 mil da têxtil é que uns sabem que têm emprego garantido para toda a vida e outros sabem que o podem perder a qualquer momento. São dois mundos (cada vez mais) de costas voltadas.»

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

IRRESPONSABILIDADE NA GOVERNAÇÃO

No Público de hoje, aqui, um artigo muito interessante de Paulo Ferreira de que destaco a parte final:
«E foram centenas de milhares de milhões de euros de privatizações canalizados para amortizar a dívida pública. Para que serviu tanto dinheiro? Para nada. Foi dinheiro queimado, triturado pela máquina infernal do Estado, pelas corporações e pela incompetência ou passividade de muitos governantes dos últimos dez anos.
Os 3,7 por cento de défice de que o Governo se orgulha para daqui a um ano estão ainda acima dos três por cento de 1997. E a dívida pública de 69,3 por cento prevista para 2007 compara com os 59,1 por cento de há dez anos...Foi uma década absolutamente perdida. A próxima será melhor? Não temos essa garantia. O discurso e o esboço reformista deste governo podem levar-nos, precipitadamente, a pensar que sim. Mas atenção: das mudanças estruturais iniciadas, que vão na direcção certa, nenhuma chegou a um ponto de não retorno. Nada de melhor está garantido, de forma consistente, para a saúde das finanças públicas nos próximos anos. Isso só será uma realidade quando os mecanismos em vigor forem à prova de fenómenos de irresponsabilidade na governação. E nessa matéria o país está no mesmo ponto em que se encontrava há dez anos. Continuam a sobrar, por isso, motivos de preocupação. »

domingo, 15 de outubro de 2006

E BARRANCOS?

Já tem melhores acessibilidades? Tem melhor acesso aos meios de saúde? Tem melhor Escola? Tem mais atenção do poder da Capital? Os “meninos” que faziam aquelas manifestações contra as touradas de morte também fizeram alguma manifestação para melhorar as condições das pessoas que lá vivem? Claro que nada. Deixou de ser mediático, deixou de ser politicamente correcto. Os patetas dos “meninos” só têm coragem e engenho para fazer umas palermices “politicamente correctas”, porque é chique e dá “status” no meio e covil onde se movem. As pessoas nunca lhes interessaram para nada. Nem as de Barrancos nem nenhumas. São só amantes de causas chiques onde intervêm como “marias” que vão com as outras.

SUPERFICIALIDADES

Do artigo do António Barreto, aqui no Público de hoje, destaco:
«Mas, com o tempo, tem-se também percebido que a técnica do primeiro-ministro se tem limitado ao superficial. Nunca ir até ao fim parece ser a sua regra. Ferir um pouco tudo e todos, mas nunca ir ao fundo das coisas, pois é aí que se fazem os inimigos irrecuperáveis. A actual reforma da Segurança Social, feita com vinte anos de atraso, é um exemplo interessante: foi obra das mesmas pessoas que, há meia dúzia de anos, fizeram uma outra, para Guterres e Sócrates, considerada suficiente para "cem anos"! É um bom exemplo do que é a superficialidade.
(...)
Mas esperemos. Dentro de pouco mais de um ano, com novas eleições à vista, veremos se até o efémero e a superficialidade são ou não sacrificados à demagogia. Como já aconteceu antes. Tantas vezes! »

sábado, 14 de outubro de 2006

SEM MOLA DE CARÁCTER OU DE INTELIGÊNCIA

“ Em Portugal há só um homem – que é sempre o mesmo ou sob a forma de dândi, ou de padre, ou de amanuense, ou de capitão: é um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te ir: sem mola de carácter ou de inteligência, que resista contra as circunstâncias. É o homem que eu pinto – sob os seus costumes diversos, casaca ou batina. E é o português verdadeiro. É o português que tem feito este Portugal que vemos “

Eça em carta a Fialho de Almeida.

Assim, Portugal é já mais compreensível.