domingo, 22 de outubro de 2006

AINDA O DEBATE SOBRE O IBERISMO

O Público de hoje dá um grande espaço à questão da União Ibérica. O debate anda por aí. A ler com muita atenção. De todos os artigos publicados hoje, destaco o trecho final de um, «CONTRA "Com a Catalunha já temos que chegue"», da autoria de K.G.:

Juntar Portugal ao mapa seria complicar ainda mais uma Espanha que já é complicada. E, sobre isso, Miguel Ángel Bastenier, do El País, só tem uma coisa a dizer: não, gracias. "Com a Catalunha já temos que chegue."Melhor seria que os espanhóis descobrissem, primeiro, quem são. Ramon Font diz que a autodefinição nacional "coloca grandes problemas do foro psiquiátrico". Não faltam reflexões em torno desse tema obsessivo, mas ninguém parece ter uma resposta para a pergunta: "O que é ser espanhol?". Portugal, dizem, tem uma relação mais saudável "com a pátria". "Para começar, Portugal é um país homogéneo, toda a gente fala português, ninguém fala basco e catalão, felizmente", diz Bastenier. "Os espanhóis ainda não decidiram o que são, o que é uma grande vergonha. E Portugal viria dividir ainda mais Espanha. Porque se acrescentava outra Catalunha. O que temos já é insuportável, não nos deixam viver. E eu sou de Barcelona, falo catalão, mas sou espanhol, caramba! Costumo dizer que se Espanha não tivesse esses problemas havia de ganhar muitos prémios Nobel, de ciência e de medicina. Mas estamos o dia todo ocupados com esta seca da Catalunha e do País Basco e não podemos dedicar-nos a nada! À literatura sim, porque a literatura nasce da dor. Assim sendo, Espanha tem uma grande literatura, como tem Portugal... Mas a ciência precisa de tempo livre. Por isso, Espanha tem uma grande literatura e uma merda de ciência."

UM RETRATO POSSÍVEL DE PORTUGAL

Entre outros retratos é o que nos é dado pela juventude. A actual juventude, na sua quase totalidade, ambiciona ser jogador de futebol, actor de telenovela ou cantor de sucesso. São os horizontes que alcançam. Todos a imitar a Floribella, ou lá como se chama a miúda, a irem a tudo o que é concurso idiota para exibirem os dotes, e escolas de futebol que garantam o estrelato internacional. E a satisfazerem o orgulho dos pais, sentados nas bancadas, com os óculos de sol no alto da tola. Portugal ainda vai estar nos lugares de destaque nos pódios.

sábado, 21 de outubro de 2006

A EUROPA COMEÇA EM ESPANHA

Basta pensar em Portugal. Como nenhum outro factor, a posição periférica de Portugal determinou o atraso e a semibarbárie em que sempre vivemos. Mesmo hoje o essencial não mudou. Se dantes se costumava dizer que a Europa começava nos Pirenéus, começa agora, para nossa desgraça, na fronteira de Espanha. A mais longa ditadura do Ocidente, o mais velho império colonial, a anacrónica extravagância do PREC e o Estado corporativo e parasitário que a democracia produziu deviam ter educado uma geração. Não educaram.
VPV, no Público de ontem.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

DESEMPREGADOS. OS QUE DIÁRIAMENTE SÃO A PROVA QUE DESMENTE O DISCURSO OFICIAL E O CRAVO NA CONSCIÊNCIA DOS REINVIDICADORES ACONCHEGADOS NA SEGURANÇA D


Do artigo publicado, aqui, no Público, hoje, de Carla Machado, destaco:



O Francisco foi despedido da empresa onde trabalhava.
(…)

O Francisco viu-se na rua, com uma magra compensação pelos seus muitos anos de trabalho. Inicialmente não se preocupou em demasia. Afinal, tinha experiência, formação, excelentes cartas de recomendação. E, sobretudo, era bom no que fazia.
Bateu a várias portas mas, estranhamente, poucas se abriram.
(…)
Até que um dia, com um olhar compadecido, uma das responsáveis pela selecção de uma das inúmeras empresas a que já tinha ido - jovem, tão jovem que mal parecia saída do secundário -, acabou por lhe confessar: "Sabe, não é nada contra si, nem tem nada a ver com o seu currículo. É que o doutor é... desculpe... demasiado velho! E as empresas não querem contratar gente da sua idade, que já tem experiência e normalmente exige melhores salários e mais direitos. Querem gente nova, que faz tudo para começar, mesmo que seja trabalhar 10 horas por dia quase de borla, está a entender?" Entendeu. E parou de procurar. Foi para casa, calçou os chinelos, sentou-se à frente da televisão.
(…)
O Francisco tem 37 anos. Estaremos mesmo preparados para o arrumar na gaveta dos desperdícios?

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

EM MARCHA PELA IBÉRIA

Actualizei o post "sobre o iberismo" que tinha colocado aqui. As sondagens de um lado e de outro, o que se tem escrito sobre o tema, bem como o desespero que graça em Portugal, levaram-me a incluir todo o artigo. Vão reflectindo.
Mas é bom estarem atentos a várias opiniões, sobretudo as espanholas. Aqui podem consultar algumas de um forum digital do "El Pais". Vejam esta: Podrían, pero no sería una alianza muy fuerte, más bien algo mediocre en comparación al resto de potencias y teniendo en cuenta que Portugal no pasa por su mejor momento que digamos. palermo

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

MODERNISMO

O modernismo antimoderno

«É necessário ser-se completamente moderno", escreveu Arthur Rim­baud. Uns sessenta anos mais tarde, Gombrowicz não estava muito certo de que isso fosse verdadeiramente necessário. Em Ferdydurke (editado na Polónia em 1938), a família Lejeune é dominada pela filha, uma «liceal moderna". É doida por telefones; ignora os autores clássicos; na presença do cavalheiro que se encontra de visita a casa, «limita-se a olhar para ele e, agarrando com os dentes uma chave de fendas que tinha na mão direi­ta, cumprimenta-o com a mão esquerda com a maior das desfaçatezes".
A mãe também é moderna; é membro do «comité para a protecção dos recém-nascidos»; é militante contra a pena de morte e pela liberdade dos costumes; «ostensivamente, com um passo desenvolto, dirige-se aos lavabos", saindo de lá «mais arrogante do que tinha entrado»; à medida que vai envelhecendo, a modernidade torna-se para ela indispensável enquanto única «substituta da juventude".
E o pai? Também ele é moderno; não pensa nada, mas faz por agra­dar em tudo à filha e à mulher.
Gombrowicz reflectiu em Ferdydurke a principal viragem que se pro­duziu durante o século xx: até essa altura, a humanidade estava dividida em duas partes, os que defendiam o status quo e os que o queriam mu­dar; ora, a aceleração da História teve as suas consequências: ao passo que, antigamente, os homens viviam no mesmo cenário de uma sociedade que se ia transformando muito lentamente, chegara entretanto o momen­to em que, de repente, eles começaram a sentir a História movimentar-se sob os seus próprios pés, como se fosse um tapete rolante – o status quo encontrava-se em movimento! De imediato, estar de acordo com o status quo era a mesma coisa do que estar de acordo com a História que se movimenta! Resumidamente, passou a poder ser-se ao mesmo tempo progressista e conservador, conformista e revoltado!
Tendo sido apelidado de reaccionário por Sartre e os seus, Camus encontrou a célebre resposta para aqueles que tinham «colocado a poltrona na direcção da história»; Camus estava certo, somente não sabia que essa preciosa poltrona estava montada sobre rodas e que, desde já há uns tempos a essa parte, toda a gente empurrava para a frente os liceais modernos, as suas mães e os seus pais, da mesma maneira que todos os que se batiam contra a pena de morte, todos os membros dos comités para a defesa dos recém-nascidos e, claro está, todos os políticos que, ao empurrarem a poltrona, viravam as suas faces risonhas na direcção do povo que corria atrás deles e que, por sua vez, também ia rindo, sabendo perfeitamente que só aqueles que se regozijam por serem modernos é que são autenticamente modernos.
Foi então que alguns dos herdeiros de Rimbaud compreenderam esta coisa espantosa: hoje em dia, o único modernismo digno deste nome é o modernismo antimoderno
.
Milan Kundera, in "A Cortina".

VAI-SE DIZENDO

«Não se trata aqui de "ameaças". O resto do mundo não forma simplesmente um bloco antiocidental. O que está a acabar é o tempo em que os ocidentais eram os únicos a crescer, a desembarcar e a ensinar - o tempo em que a responsabilidade pelo mundo era nossa. Os hábitos, porém, não morrem facilmente. Dá-nos sempre jeito reduzir as dificuldades do universo às "idiotices" de Bush, às provocações do Papa ou até às reencarnações exóticas do velho marxismo. Sem Bush, o Papa ou os nossos radicalismos universitários, tudo andaria excelentemente. Eis a receita para dormir bem. Por quem os sinos dobram?»

Rui Ramos, in Público, hoje, aqui.

«A incriminação do chamado "negacionismo" é uma estupidez e uma violência. Atinge a liberdade de pensamento e de expressão no seu próprio cerne e provoca uma inaceitável interferência da política sobre a História.»

Vasco Graça Moura, in DN, hoje, aqui.


«O aumento de impostos do ano passado foi um erro tremendo para a economia; a vertente da competitividade na política fiscal tem estado absolutamente ausente das opções de política (outro erro crasso); a contenção na despesa pública tem sido inexistente e, na parte em que tem existido é, em grande medida, feita à custa do investimento; a descida do défice baseia-se mais na subida da receita do que na redução da despesa; consolidação da despesa é algo que, virtualmente, não existe – nem poderia existir, face a anúncios de medidas (de que sobressaem o PRA-CE e o Simplex) que, depois, não só têm (muitas) partes não concretizadas, como as que o são, são-no tardiamente e fora do calendário inicialmente previsto.
(...)
Existem cerca de 740 mil funcionários públicos em Portugal. E o peso das suas remunerações no PIB equivale a mais de 14% – número que compara com menos de 10% em Espanha, na Irlanda ou na Áustria, 10% na Holanda, pouco mais de 12% na Grécia, ou menos de 11%, em média, na União Europeia.
A conclusão óbvia é que o peso das remunerações dos funcionários públicos na nossa economia é excessivo, comparando com os padrões europeus. E se é excessivo, pode ser reduzido actuando nas duas vertentes que existem: no "preço" (neste caso, os salários) e/ou na "quantidade" (o número de funcionários)
.»

Miguel Frasquilho, in Jornal de Negócios, 17.10.2006, aqui.

terça-feira, 17 de outubro de 2006

O VÉU DA IGNORÂNCIA

«Para tornar a situação internacional ainda mais preocupante, do ponto de vista da paz e segurança, do que resulta dos factos que podem ser dados por fiáveis, cresce a preocupação sobre a cortina de ignorância que vai sendo tecida em mais de um domínio das relações internacionais, e que corta o acesso das populações interessadas ao conhecimento da realidade.»
A Ler todo o artigo de Adriano Moreira, Hoje, aqui no DN.

MICROCREDITOS Y ECONOMIA DE LA POBREZA

Do blog de Jorge Rojas transcrevo, sempre com a devida vénia, este post:
«MICROCREDITOS Y ECONOMIA DE LA POBREZA
Ayer se entregó el Nobel de la Paz a Muhammad Yunus economista de Blangladesh creador de Grameen un banco que otorga microcreditos a pobres.La idea se ha extendido por tdo el mundo,màs bien por el 3er mundo.Presta 25 US a una mujer o un hoimbre(la mayoria de las usuarias son mujeres).Esto soluciona el problema?Polemico el punto.La idea la han tomado Instituciones de credito o ONG de todo el mundo.Una critica es que es un medio del sistema financiero para incorporar millones de personas a este aumentando la ya enorme economia informal.Otra,que es un alivio,loable pero que deja igual y sin tocar las causas estrcturales de la pobreza.En Haiti hay una experienciadescrita en Global Exchange conclusion solo es alternativa para la capa superior de los pobres,para los extremadamente pobres es una carga y simplemente no pueden pagar.La experiencia que fué exitosa en las ciudades,se extendió al campo.Aqui es exito es relativo.Primero los riesgos son mayores,luego aqui no funciona el corto plazo porque la naturaleza tiene sus tiempos,pueden ser decadas.Otra lo que necesita un agricultor no es un microcredito es un buen credito.Luego está toda la distorsion del mercado agricola mundial.Por eso la solucion a la pobreza que es 70% rural es màs compleja sobre todo enAmerica latina con una inequidad tan grande en la distribucion de la escasa tierra agricola.Pese a todo aliviar es mucho mejor que no hacer nada y el premio a Yunnus es merecido,ademàs que su lucha tiene no tiene que ver con luchas armadas sino tratar de hacer las paces entre ricos y pobres.Lo que no es facil.»

HÁ HORÁRIOS DE 40 HORAS SEMANAIS NA FUNÇÃO PÚBLICA?

Ou seja, de 8 horas diárias?
A propósito, leiam este artigo de Luísa Bessa publicado a 13 deste mês no Jornal de Negócios
«Quis o acaso, ou talvez não, que no mesmo dia em que desfilaram em Lisboa largos milhares de trabalhadores da função pública, tenha sido assinado um novo contrato colectivo no sector têxtil.
Com o acordo agora negociado entre uma das mais poderosas associações empresariais e a federação sindical da CGTP é a segunda vez, num ano, que o têxtil dá lições a muito boa gente.
Expliquemo-nos. Em Maio, a associação do vestuário já tinha assinado um acordo classificado como "histórico" com a mesma federação sindical. Histórico porque contemplava, pela primeira vez no sector, a possibilidade de alargamento da jornada semanal até às 50 horas com retribuição em tempo. Uma velha reivindicação das empresas que, cada vez mais obrigadas a trabalhar para encomendas pequenas, tinham necessidade de corresponder aos picos de trabalho sem o custo correspondente ao pagamento das horas extraordinárias conforme previsto na lei.
Seis meses mais tarde, a outra grande associação do sector, que reúne sobretudo a indústria têxtil pesada, acaba por justificar por que razão não chegou a acordo na mesma ocasião. É que, além do alargamento do horário semanal de trabalho até às 55 horas, também com a possibilidade de retribuição em tempo, obteve uma profunda reclassificação profissional dentro do sector. As categorias profissionais reduziram-se de mais de 700 para meia centena. Um ajustamento notável, que diz bem do que mudou no mundo das empresas no espaço de quase 30 anos, pois que a anterior classificação datava de 1977. E mantinha-se em vigor apesar da verdadeira revolução tecnológica que aconteceu entretanto.
A obtenção destes acordos, duramente negociados ao longo de vários meses, dizem-nos várias coisas importantes.
Uma delas é que mesmo os sindicatos da "linha dura", como são tradicionalmente os da CGTP e em particular nestes sectores, são capazes de revelar grande flexibilidade quando percebem que têm de o fazer para garantir os postos de trabalho. E isso é fácil de perceber num sector que ainda representa perto de 200 mil trabalhadores mas que, desde o ano 2000, perdeu cerca de 25%da sua força de trabalho. Não é todos os dias que ouvimos os sindicatos e os patrões unidos a clamarem pela "modernização" das empresas, mas foi isso que aconteceu.
Porque os representantes dos trabalhadores do têxtil sabem que a alternativa é continuar a assistir ao encerramento das fábricas e que, perante a concorrência acrescida da China e de outros países em desenvolvimento, a sobrevivência das empresas portuguesas passa por factores competitivos como as pequenas séries e a resposta rápida onde a flexibilidade é indispensável.
Se os trabalhadores do sector têxtil, que estão entre os que têm das mais baixas remunerações à escala nacional perceberam, porque é que outros não perceberam?
E, sobretudo, porque é que na Função Pública as coisas chegaram onde chegaram?
Descontando os erros de comunicação e um natural sentimento de revolta, por serem, há demasiado tempo, os bodes expiatórios do que corre mal no país, a
grande diferença entre os 700 mil da função pública e os 200 mil da têxtil é que uns sabem que têm emprego garantido para toda a vida e outros sabem que o podem perder a qualquer momento. São dois mundos (cada vez mais) de costas voltadas.»

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

IRRESPONSABILIDADE NA GOVERNAÇÃO

No Público de hoje, aqui, um artigo muito interessante de Paulo Ferreira de que destaco a parte final:
«E foram centenas de milhares de milhões de euros de privatizações canalizados para amortizar a dívida pública. Para que serviu tanto dinheiro? Para nada. Foi dinheiro queimado, triturado pela máquina infernal do Estado, pelas corporações e pela incompetência ou passividade de muitos governantes dos últimos dez anos.
Os 3,7 por cento de défice de que o Governo se orgulha para daqui a um ano estão ainda acima dos três por cento de 1997. E a dívida pública de 69,3 por cento prevista para 2007 compara com os 59,1 por cento de há dez anos...Foi uma década absolutamente perdida. A próxima será melhor? Não temos essa garantia. O discurso e o esboço reformista deste governo podem levar-nos, precipitadamente, a pensar que sim. Mas atenção: das mudanças estruturais iniciadas, que vão na direcção certa, nenhuma chegou a um ponto de não retorno. Nada de melhor está garantido, de forma consistente, para a saúde das finanças públicas nos próximos anos. Isso só será uma realidade quando os mecanismos em vigor forem à prova de fenómenos de irresponsabilidade na governação. E nessa matéria o país está no mesmo ponto em que se encontrava há dez anos. Continuam a sobrar, por isso, motivos de preocupação. »

domingo, 15 de outubro de 2006

E BARRANCOS?

Já tem melhores acessibilidades? Tem melhor acesso aos meios de saúde? Tem melhor Escola? Tem mais atenção do poder da Capital? Os “meninos” que faziam aquelas manifestações contra as touradas de morte também fizeram alguma manifestação para melhorar as condições das pessoas que lá vivem? Claro que nada. Deixou de ser mediático, deixou de ser politicamente correcto. Os patetas dos “meninos” só têm coragem e engenho para fazer umas palermices “politicamente correctas”, porque é chique e dá “status” no meio e covil onde se movem. As pessoas nunca lhes interessaram para nada. Nem as de Barrancos nem nenhumas. São só amantes de causas chiques onde intervêm como “marias” que vão com as outras.

SUPERFICIALIDADES

Do artigo do António Barreto, aqui no Público de hoje, destaco:
«Mas, com o tempo, tem-se também percebido que a técnica do primeiro-ministro se tem limitado ao superficial. Nunca ir até ao fim parece ser a sua regra. Ferir um pouco tudo e todos, mas nunca ir ao fundo das coisas, pois é aí que se fazem os inimigos irrecuperáveis. A actual reforma da Segurança Social, feita com vinte anos de atraso, é um exemplo interessante: foi obra das mesmas pessoas que, há meia dúzia de anos, fizeram uma outra, para Guterres e Sócrates, considerada suficiente para "cem anos"! É um bom exemplo do que é a superficialidade.
(...)
Mas esperemos. Dentro de pouco mais de um ano, com novas eleições à vista, veremos se até o efémero e a superficialidade são ou não sacrificados à demagogia. Como já aconteceu antes. Tantas vezes! »

sábado, 14 de outubro de 2006

SEM MOLA DE CARÁCTER OU DE INTELIGÊNCIA

“ Em Portugal há só um homem – que é sempre o mesmo ou sob a forma de dândi, ou de padre, ou de amanuense, ou de capitão: é um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te ir: sem mola de carácter ou de inteligência, que resista contra as circunstâncias. É o homem que eu pinto – sob os seus costumes diversos, casaca ou batina. E é o português verdadeiro. É o português que tem feito este Portugal que vemos “

Eça em carta a Fialho de Almeida.

Assim, Portugal é já mais compreensível.

ASTRONOMIA. UM SINAL POSITIVO

Não resisto a transcrever a notícia vinda no Público de ontem, porque há oásis no meio do deserto português:


«Astronomia portuguesa sofreu um Big Bang desde a década de 90
Teresa Firmino

Artigos publicados por astrónomos a trabalhar em Portugal têm mais citações do que a média mundial, revela estudo a apresentar hoje na Fundação Gulbenkian
Até 1990, a comunidade de astrónomos em Portugal praticamente não existia, ao ponto de nesse ano só ter publicado três artigos em revistas astronómicas internacionais. Dezasseis anos depois, vive-se uma espécie de Big Bang. O número de artigos publicados por ano oscila entre 72 e 74, desde 2003, revela um estudo que será apresentado hoje num encontro internacional na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.O número de artigos não chega para mostrar a evolução estrondosa, porque esses artigos poderiam não ter relevância. Há que ver o número de citações internacionais que cada artigo recebe em artigos de outros cientistas. A surpresa é que é superior à média mundial."O índice de citações dos artigos publicados por astrónomos e astrofísicos residentes em Portugal, portugueses e estrangeiros, é bastante elevado. Ultrapassa a média mundial", sublinha Miguel Avillez, presidente da Sociedade Portuguesa de Astronomia (SPA). "A nossa média é de 11,9 citações por artigo, enquanto a média mundial é de 10,8 citações por artigo."Neste estudo, a SPA contabilizou os artigos publicados nas revistas de astronomia e astrofísica mais importantes (Astrophysical Journal, Astronomical Journal, Astronomy & Astrophysics, Monthly Notices of the Royal Astronomical Society e Icarus). Viu que foram publicados 528 artigos, desde 1990, que foram citados 6313 vezes até ao último sábado, segundo os dados do Instituto para a Informação Científica (ISI), nos Estados Unidos, reconhecido como a referência para a recolha de dados sobre a produção científica mundial."Comparando com as outras áreas científicas, a astronomia e a astrofísica fica em terceiro lugar no índice de impacto por artigo, imediatamente atrás da biologia molecular e da imunologia", refere Miguel Avillez, baseando-se ainda nos dados do ISI. O número de artigos tem vindo a subir desde 1990, ano em que Portugal assinou um acordo de pré-adesão ao Observatório Europeu do Sul (ESO), organização europeia de astronomia com telescópios no Chile. "A partir de 1995, começou a haver para cima de 15 artigos por ano e veio a crescer até 74 artigos em 2003, mantendo-se agora estável", sublinha Miguel Avillez. O pico de citações foi em 2000, com 1140.Alguns factores são apontados para o Big Bang da astronomia portuguesa ou, nas palavras de Miguel Avillez, esta "evolução quase vertiginosa". "Foi fundamentalmente importante para o desenvolvimento da astronomia e astrofísica o acordo de pré-adesão ao ESO, que definiu a criação de um grupo de investigadores e financiamento para projectos e infra-estruturas." Por causa desse acordo, que se materializou na adesão de Portugal ao ESO como membro de pleno direito em 2000, a maioria dos astrónomos em Portugal foi fazer o doutoramento no estrangeiro. E teve acesso aos telescópios do ESO. A adesão plena de Portugal à Agência Espacial Europeia, em 2000, abriu por sua vez o mundo dos telescópios espaciais aos investigadores portugueses. Para Miguel Avillez, o tipo de atitude e de formação dos astrónomos também contribuiu para todos estes números. "O doutoramento é visto como um processo de aprendizagem e como o trabalho de toda uma vida, e as relações internacionais mantêm-se muito grandes."Ter começado uma área praticamente de raiz e ser uma comunidade muito jovem (a maioria com menos de 40 anos) também ajudou. "Não têm os vícios do sistema." Foi uma "surpresa", refere o cientista, ter ocorrido uma evolução tão rápida. "Quando o Estado português definiu a astronomia e astrofísica como áreas prioritárias, e injectou dinheiro, houve um crescimento muito rápido, em pouco mais de sete ou oito anos."Quantos são, afinal, os astrónomos a trabalhar no país? Cerca de 50: 28 com lugares permanentes em universidades e institutos politécnicos e cerca de 20 com uma situação precária de emprego (têm bolsas de pós-doutoramento). Estes dados, e outros, vão ser apresentados no encontro Astronomia e Astrofísica em Portugal - Impacto e Perspectivas Futuras. O caso português tem chamado a atenção no estrangeiro, razão por que será o presidente da Sociedade Europeia de Astronomia, Joachim Krautter, a relatar os dados do estudo sobre o impacto científico da astronomia portuguesa a nível internacional. Irão fazer parte do livro branco da astronomia portuguesa
. »

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

DOCUMENTÁRIO

Só para informar que já está disponível a votação online no festival de videojornalismo de berlim, no qual a Afterburn tem um documentário a concorrer, chamado "Maria". Para votar basta clicarem neste link
(é o 1º da lista), verem o filme e, se gostarem, é só clicar nas 5 estrelas que dizem public voting.
Mas sobretudo vejam o documentário. Vejam a Esperança.

AGUENTÁVEL

Aqui, no Público de hoje, de VPV. Destaco:

«As "reformas" que por aí se apregoam como exemplo de coragem política, além de impostas por Bruxelas, são "reformas" de superfície e, por natureza, reversíveis. Quando não há dinheiro, não há dinheiro e a "estratégia" de Sócrates não passa do reconhecimento desse facto básico. Sócrates nunca pensou em reduzir ou redefinir o Estado-providência que nos levou ao presente aperto e, tarde ou cedo, nos levará ao desastre. Pensou, e pensa, em o tornar mais barato. Um Estado-providência que gaste menos com a Segurança Social, a Saúde, a Educação e o funcionalismo é, supõe ele, aguentável. Será inevitavelmente um Estado-providência degradado e pobre. Não interessa. Basta que exista para o mundo continuar em ordem. Na "ordem" do "modelo europeu" e do "socialismo", como compete.»

PROBLEMA FUNDO

Hoje, aqui no Público, o artigo de Miguel Júdice de que destaco:

«Mas o problema é mais fundo e mais grave do que isso. Temos dois milhões de pobres em Portugal. Temos uma mentalidade assistencial que vem do Estado Novo. Temos uma cultura instalada quase até ao genes de que é inaceitável um novo emprego pior remunerado e mais duro do que o anterior. Os processos de deslocalização e a concorrência internacional vão acentuar-se. O Estado vai ter de despedir mais cedo ou mais tarde pessoas e, sobretudo, as câmaras vão deixar de ter condições para dar os empregos que a iniciativa privada não cria em muitas localidades. Onerar mais as empresas privadas só irá acentuar os problemas. E os recursos estatais são escassos, são escassíssimos, e cada vez o vão ser mais.Por isso Portugal está em face de um dilema estratégico, com importantes consequências políticas e fracturante em termos ideológicos: deve o Estado alocar recursos sociais orientando-os para a inclusão social dos sectores mais desfavorecidos, mais desprotegidos, mais carenciados e menos capazes de se organizarem para exigirem? Ou deve o Estado - por redistribuição, emprego garantido, reformas relativamente generosas - apoiar os sectores mais favorecidos dos desfavorecidos, os que atingiram a classe média e os prazeres a isso ligados, entre os quais se inclui grande parte do funcionalismo público administrativo?
(...)
Assobiar para o lado, pensar que miraculosamente a retoma económica vai decidir por nós, adiar para a geração seguinte, não leva a lado nenhum. Ou melhor: leva a um beco sem saída.»

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

IRREALISMO POLÍTICO

Hoje, aqui no Público, Medina Carreira mais uma vez põe a nu o estado do país. A ler obrigatoriamente. Mas aqui ficam alguns destaques desse artigo:


«É notória a gravidade da nossa crise financeira pública.
(…)
A uma economia em queda prolongada (2) correspondeu a explosão das despesas públicas. As consequências não poderiam ser diversas das que foram. Agora, já com mais de uma década de atraso, há que corrigir os efeitos deste irrealismo político. Porque os governos não são hoje capazes de provocar o crescimento económico, são mais responsáveis pela moderação dos gastos.
(…)
Sem a expectativa fundada de uma solução económica e de uma maior margem de manobra fiscal torna-se imperativa uma reforma profunda e urgente das políticas de despesas públicas. Tarde ou cedo o Estado enfrentará uma crise financeira séria, que os valores deficitários das projecções deixam entrever.
(…)
Por outro lado, a manutenção do regime da repartição, tal como se pretende, irá limitar-se a diferir novas crises e novas reformas: por cada uma, haverá novas injustiças e um maior descrédito para o sistema.
(…)
Não nos iludamos porque estamos numa situação em que vigora a "tirania das circunstâncias": é secundário se se é de direita ou de esquerda, liberal ou conservador, representante da economia de mercado ou do socialismo. O mais grave problema que enfrentamos hoje é o do Estado: não se sustenta com a economia que temos e outra é irrealizável em tempo útil. Resta repensá-lo e reorganizá-lo. Os números com que fundamento esta posição podem ser discutidos, sempre com outros números. Mas, em circunstâncias normais, não se afastarão muito da realidade. E eles indiciam a existência de sérias ameaças a que só os néscios e os irresponsáveis podem ser indiferentes. Seja como for, ninguém poderá dizer que a gravidade da situação escapou a todos
.»

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

A CARICATA APREENSÃO DE ARMAS EM S. MIGUEL

E ridícula. É noticiada com imprecisões e com muitos exageros. O que é “habitual”. Como diz o lema deste blog, a mistura explosiva de ignorância e poder há-de explodir-nos na cara, de que é reflexo o citado “habitual”.
A notícia refere um coronel do exército, na reserva e ligado ao Museu Militar existente em Ponta Delgada.
Quero aqui afirmar que esse coronel é uma pessoa séria, honesta e íntegra. Sobre o carácter da pessoa é o que basta dizer.
E é alguém a quem a cidade de Ponta Delgada muito deve, nem que seja só pela criação do Museu Militar, que é, em última análise, a causa desta “apreensão de armas” e dos incómodos por que passa a pessoa em causa. É devido ao seu empenhamento, persistência e dedicação que o museu existe, o que enriquece em muito a cidade de Ponta Delgada, embora muita gente não se aperceba disso. Nesse seu empenho e gosto licenciou-se em História, a fim de melhor se habilitar para a tarefa que lhe consumia a paixão.
As armas apreendidas, umas manifestadas, e outras ainda não, são todas de colecção. O que era do domínio público, pois quem o conhecia e com ele lidava sabia da existência de “tal arsenal”. Incluindo oficiais e a sua hierarquia. “Tal arsenal” é museológico. Faz parte do seu percurso com a criação do museu, da sua consolidação e projecção ulterior. Não era de forma alguma para equipar nenhum gang, como aqueles que andam a assaltar à mão armada, e até a assassinar cidadãos, e cujos arsenais a polícia nunca apreende. Esses sim, não são museológicos, e servem para uso em fins ilícitos.
Também não seriam para nenhuma revolução. Não teriam sequer alcance para terem eficácia num levantamento armado.
Por tudo isto, e por ser do conhecimento informal dos seus superiores hierárquicos a existência dessas armas, considero a apreensão e detenção como caricatas. Terá havido, talvez, da parte do senhor coronel uma ingenuidade em, por um lado, não ter tratado mais cedo da questão burocrática da manifestação das armas, e isto apesar do prazo para se efectuar esse manifesto ainda estar a correr, e por outro o de não ter avaliado bem o alcance de algum “amigo de peito”.
Para concluir, e pela forma como isto foi tratado, gostaria de dizer que, na linha do post “ATÉ QUE ENFIM. UM BOM ARTIGO QUE PÕE O DEDO NA TECLA CERTA SOBRE A ROBLEMÁTICA DA POLÍCIA”, aqui colocado no passado Domingo, acho que está a haver uma inversão de valores. Parece que os cidadãos cumpridores dos seus deveres cívicos é que são os bandidos e os malfeitores as vítimas. Há sempre um tratamento jornalístico que põe os malfeitores como os coitadinhos, os polícias como carrascos, verdugos, e as vítimas, que não têm interesse nenhum, como necessárias para elevarem os malfeitores a anjinhos de altar. Há aqui algo muito errado nas “informações”.
Só espero que, quando esta agitação deste episódio terminar, e certamente que depois de tudo esclarecido e normalizado dará nada, as “informações” noticiem como deve ser o desfecho, seja ele qual for.