sexta-feira, 15 de maio de 2020
LIBERDADE E QUESTÕES SOCIAIS
LIBERDADE E QUESTÕES SOCIAIS
A liberdade é uma atitude e um estado
de espírito que tem vários patamares. O primeiro, e o mais importante, é a
assumpção de um indivíduo ser livre perante si próprio. Sendo livre perante os
seus próprios temores, os seus próprios vícios, os seus preconceitos e as suas
ambições, o indivíduo não se sujeita. A liberdade é a capacidade individual de
não sujeição. A diminuição, ou a diluição desta capacidade, coloca o indivíduo
na dependência de uma, ou múltiplas, manipulações. A expressão escravo do vício
pode ser expandida para escravo dos temores, dos preconceitos e das ambições.
Todavia não se pode escamotear que a fragilidade da sobrevivência da vida é um
factor que diminui, de forma exponencial, a capacidade de não sujeição. Manter
a liberdade por iniciativa própria, e não por obstar à sonegação dela por
outrem, é algo sempre difícil. Um carácter solidamente fortificado em valores é
a via para um cidadão ser livre com dignidade.
Este
problema da liberdade é uma constante na história da humanidade. E uma luta
permanente, na carne e no espírito. Da evolução dessa luta resulta um
desenvolvimento do pensamento político-social que vem a ter uma expressão
exequível com a Revolução Francesa, já nos finais do século dezoito. Que ficou
plasmada na trilogia de liberdade, igualdade e fraternidade. Doravante a
questão seria a consubstanciação dessa trilogia. A liberdade foi, e ainda é,
uma pugna que, apesar de ter sido alicerçada na Declaração dos Direitos do
Homem e do Cidadão, está muito longe de ser uma realidade das sociedades. Assim
como os dois outros parâmetros da trilogia. Cada um deles não pode funcionar em
pleno independente dos outros. A igualdade foi, basicamente, estigmatizada na
igualdade perante a lei. Que embora pareça uma medida de grande alcance, a sua
execução prática perante a justiça tem sido um desastre. A documentação do
desastre é diária, e em todo o planeta, com a agravante que as sociedades,
enquanto corpos colectivos, outorgam a desigualdade. E isto tudo porque a fraternidade,
o terceiro parâmetro, nunca passou de uma palavra inscrita numa declaração. A
ausência de fraternidade é o colapso desta trilogia que brotou da Revolução
Francesa. A falta de valores e falhas de carácter individuais fizeram das
sociedades actuais um conjunto de indivíduos sujeitos aos egoísmos, às
ambições, aos vícios e aos temores. Logo são vulneráveis a manipulações de quem
detiver o poder para os manipular. Hoje deparamo-nos com sociedades sujeitas,
não livres, com muito poucos cidadãos que lutem, com denodo, pela liberdade. As
novas tecnologias de informação são um elemento precioso para as manipulações
das sociedades.
Todas
as grandes questões sociais, hodiernas, dependem da existência, ou da gradação
de ausência, dos elementos da trilogia. A realização pessoal, e digna, de cada
indivíduo é cada vez mais perturbada, e posta em causa, por forças opressoras
ás garantias e direitos individuais, porque estes são escolhos nos interesses
que professam essas forças. Começar-se-ia pela família. Hoje uma instituição
desfigurada, sufocada e agonizante. Porque, actualmente, a sobrevivência dos
indivíduos, perante o trabalho e os interesses financeiros, leva-os a
sacrificarem não só a constituição de famílias novas, como a, quando já
constituídas, penalizarem o conforto e desenvolvimento harmonioso de todos os
membros da família. A consequência permanente é o ruir da estrutura familiar, a
interrupção da passagem do testemunho de valores, a não formação sã dos
caracteres dos filhos e banalização do entendimento da trilogia saída da
Revolução Francesa. A sobrevivência torna os cidadãos rudes, egoístas e
desvalorizados. Tudo o que é incompatível com a igualdade e a fraternidade.
Chegou-se ao início do século XXI com a liberdade, a igualdade e a fraternidade
como meras figuras de retórica. Duas outras grandes questões sociais soçobraram
à voracidade dos interesses do real poder, que nunca coincide com os poderes
públicos: a instrução pública e a saúde. A instrução foi sendo degradada, num
percurso que atendesse aos interesses do poder real, de forma a ser mais
manobrável, e menos dispendioso, a manipulação das sociedades. E assim poderem
diluir a liberdade geral, sobretudo a do pensamento, já que a pressão sobre
sobrevivência, naturalmente, se encarrega de degradar, a já, anteriormente,
frágil igualdade e estéril fraternidade. A saúde é um instrumento para se
lapidar as arestas de resistência. Para além de ser um excelente meio de
enriquecimento do poder real, e depauperamento das populações e dos poderes políticos.
Outra grande questão social hodierna é o empobrecimento. Mas isso é
sobrevivência. As sociedades sujeitam-se a empobrecer, cada dia mais, na
esperança, fortuita, da sobrevivência. Poder-se-ia invocar que algumas
sociedades estão melhorando, não estão empobrecendo. O que é um facto, pois
estão, felizmente, a melhorar a sua capacidade económica. Mas é uma quimera com
um preço. Não alcançam mais liberdade, não almejam igualdade e, também, não
protagonizam fraternidade. Quando a aplicação do princípio dos vasos
comunicantes se concluir, todos estarão no sufoco para onde foram canalizados.
Como
contrariar a pressão do sufoco que está sendo feito sobre os direitos e as
garantias dos cidadãos, de uma forma geral? Lutando contra a pressão. O que só
será possível se os cidadãos, consciente e íntegros, não sucumbirem às
tentações das ambições, e não venderem os seus valores. Não só os cidadãos mas
instituições, públicas e privadas, que se formaram, ou foram constituídas, para
velarem pelos direitos e garantias dos indivíduos. Porque se, como cada vez
mais se constata, as instituições forem tomadas por cidadãos que buscam a
satisfação das suas ambições, e se predispõem à sujeição dos interesses do
poder real, traindo as instituições que os acolheram como membros lutadores de
causas, as lutas, integras, pelas causas da liberdade, tornar-se-ão cada vez
mais difíceis e menos vitoriosas.
Nenhuma
questão social terá solução se não for conduzida com liberdade. Nenhuma
liberdade frutificará se não for assumida como um valor de dignidade humana. Nenhum
homem lutará por nenhuma questão social se, perante si, não se assumir como
livre. Faz cada vez mais sentido a expressão de Ciprião de Figueiredo, «antes
morrer livres do que em paz sujeitos». O mundo vindouro será o fruto que sobreviver
da luta pela liberdade contra a opressão do poder real actual. E os valores que
se assumem pela liberdade fazem, hoje e amanhã, toda a diferença
Ponta Delgada, 8 de Janeiro, de
2012-01-31
José A. G. Grave
Etiquetas:
Fraternidade,
Igualdade,
Liberdade
domingo, 26 de abril de 2020
A importância estratégica de um canal regional de televisão para a sustentabilidade de uma autonomia administrativa arquipelágica
“A importância
estratégica de um canal regional de televisão para a sustentabilidade de uma
autonomia administrativa arquipelágica”
Num arquipélago é caracteristico, de quem os habita, uma noção forte de fronteira
e da existência do outro. Não existe uma fronteira de linha ténue, que permite
o contacto e a permeabilidade, antes pelo contrário, pois existem duas
fronteiras, à saída e à chegada, bem demarcadas pelas diferenças fisicas
entre os dois lados da fronteira, que impede a facilidade do contacto, para
além de se assemelhar a uma fronteira de guerra com o imenso espaço da terra de
ninguém, o mar insular. Esta circunstância modela não só o
relacionamento das sociedades em cada insula, bem como o de toda a sociedade
arquipelágica. Este factor geográfico sempre manteve as sociedades
arquipelágicas sob tensão, sobretudo pelo desconhecimento do outro que está
para lá da sua fronteira, da terra de ninguém e da fronteira do outro. As ilhas estão sempre
distantes, mesmo que
geográficamente estejam perto de outra ilha. Não há vizinhança entre ilhas por
impedimento do mar, pelo que não há convivio nem confraternização, sendo que
esta ausência gera desconfiança. Só o conhecimento sobre a vivência do outro
permite que a desconfiança se abata, e um convivio são seja possível.
E como se faz esse conhecimento? Um pouco
por leitura. Mas é um vector ténue, pois as imprensas insulares não têm grande
disseminação nos arquipélagos. De uma maneira geral acabam sempre por ser
paroquiais. E, como tal, pouco contribuem para o conhecimento do outro, mas
instilam a desconfiança comum aos bairrismos. Comunmente são as sua páginas
alimentadas por escribas defensores acérrimos dos interresses das suas ruas,
elevadas à dignidade de horizontes.
Outro meio é o rádio. Tem mais impacto, o qual lhe é dado
pelo imediato da disseminação da informação. Todavia esta capacidade é limitada
também pelo carácter paroquial que a sua pequena dimensão objectiva. E a
possibilidade que cada ilha tem de deter uma, ou mais, estações de rádio, justificado pelo
baixo custo do material para emitir, agrava a deterioração da qualidade e o
incremento do bairrismo.
Uma
outra via de divulgar conhecimento, e muita activa de há cinco para cá, é a
net. De fácil
aquisição e maneio. Com um caráter individual. E com uma disseminação
explosiva. Todavia, é assaz perceptível no mundo da blogosfera insular que existe uma guerra
de paixões bairristas, muitas vezes longe de uma racionalidade objectiva,
distorcendo intencionalmente as realidades e agudizando conflitos de percepção
do outro.
A televisão é a outra via, a mais capaz de pôr cada um em
contacto com a realidade do outro. O que pode ser dito tem de ser confirmado
com o que se vê. É esta capacidade de se ver a existência do outro que faz da
televisão o meio ideal para se esbater conflitos e se poder dialogar com
argumentos concretos. A governabilidade dos arquipélagos passa, hoje, por esta
capacidade da televisão. O que é uma realidade para os arquipelagos do Pacífico
e do Atlântico. Os arquipélagos de Cabo-Verde, Canárias e Açores comungam,
neste panorama, de uma realidade idêntica.
Mas centremo-nos no nosso Arquipélago e na sua autonomia
político-administrativa. Até porque os Açores são um caso peculiar. É uma região administrativa sem capital. Porque foi
essa a intenção. Até 1975 os Açores nunca tiveram uma unidade administrativa, se exceptuarmos um
curto período na era
pombalina. E depois de 1975 a existência de uma unidade, mas sem capital e com
a governabilidade dividida, na prática ancestral, de três polos de sediação de
poder. Para além do exercicio dos três poderes democráticos estar
polarizado de forma a sobrepor-se, na medida do possível, e a contentar a
prática ancestral, também a administração está tresmalhada por esses três polos
e fragmentada por todas as ilhas. Acresce a tudo isto a legislação eleitoral
regional que atribui a distribuição de mandatos parlamentares, por ilha, de
forma altamente distorcida face à proporção demográfica de cada ilha,
penalizando e corrompendo, assim, a essência democrática da representação
parlamentar. Esta prática de sediação do poder por três pólos condiciona o poder
executivo de tal forma, que este fica refém do jogo de equilíbrios entre as
forças políticas, sociais e económicas de cada ilha. Estas podem intervir em conjunto,
e com actuação solidária, por cada ilha, ou cada uma por si, se o social tiver
peso suficiente para influir ou o económico para condicionar. O político nunca
age isolado de um dos outros, nem em sistemas ditatoriais. Um exemplo, e bem
significativo, da tripolaridade é a universidade. Na ilha Terceira há toda uma estrutura
duplicada dos órgãos da academia. Havendo uma semana académica em data diferente
da existente em Ponta Delgada, para haver distinção e não subordinação. Para
além das tunas, associações e outras manifestações. Sendo certo que o corpo
discente, e quiçá o docente, não conhece nem comunga com o de Ponta Delgada. Só
a televisão, com as suas reportagens, põe uns perante os outros, permitindo,
assim, que tenham conhecimento do outro fomentando alguma possibilidade de
partilha. Mas há dois exemplos que elucidam bem o papel fulcral da televisão
regional no acesso ao conhecimento do outro e da partilha. E foco-os porque têm
origem nas duas ilhas com maior demografia, e, por isso, tradicionalmente mais
adversárias.
Um tem a ver com os Romeiros, que era uma prática só
existente na Ilha de S. Miguel, e que de há três anos a esta parte se realiza
também na ilha Terceira copiando a tradição de S. Miguel, de onde se deslocam
mestres de romeiros para ensinar a prática dessa tradição. Em sentido contrário
as touradas à corda, que só se praticavam nas ilhas do ex-distrito de Angra do
Heroísmo, mas com peso quase absoluto na ilha Terceira. Também de há três anos
para cá se estão a realizar na Ilha de S. Miguel. Isto só é possível porque a
televisão permitiu a visão e o entendimento da realidade do outro,
possibilitando, assim, a partilha.
Até ao aparecimento da
televisão em 1975 os açoreanos entendiam-se como tal por habitarem no mesmo
arquipélago. Todavia não se entendiam como unidade regional. Entendiam-se e
identificavam-se como ilha, mais tenuemente como pertencentes a um distrito,
porque as necessidades administrativas a isso obrigavam, mas não como
pertencentes a uma unidade regional arquipelágica. É a televisão que vem
introduzir esse conceito na cimentação do relacionamento a todos os níveis,
permitindo a assumpção da identidade regional e, consequentemente, a existência
de um governo regional. Também os professores Medeiros Ferreira e Machado Pires,
partilham este entendimento sobre o papel de relevo da televisão na autonomia.
A chave é o conhecimento do outro. É esse conhecimento que induz um tratamento
de harmonia nas relações inter-ilhas e a gestão dos conflitos sem se seccionar
nenhuma via de diálogo.
Também é a televisão que permite passar para o exterior da região a
realidade interna. Não só divulga a realidade insular para as outras ilhas como
também para o todo nacional, obstando que o todo nacional desconheça a parte
insular. Os problemas locais têm mais expressão televisiva na região do que no
plano nacional. Exemplo acutilante e imediato é a campanha autárquica nos
Açores, onde todos os concelhos terão expressão na televisão regional, enquanto
tal não acontece aos concelhos no Continente.
Aqui chegados não podemos
deixar de afirmar que a televisão regional é crucial e estratégica para a
autonomia regional arquipelágica. Se fosse extinto haveria sempre a
possibilidade real de um retrocesso do entendimento regional da identidade
açoreana pela parte dos açoreanos insulares, instalando-se novamente a terra de
ninguém entre as fronteiras.
Todavia um canal regional de
televisão sofre sempre de dois problemas graves. Um é interno, pois como é
frágil por actuar numa área dispersa e com interesses divergentes, se dirigida
de forma incompetente, poderá, para além de não cumprir a sua função, agravar a
desarmonia a que as ilhas são propensas. O outro é externo, que é a percepção
que os poderes políticos têm da televisão. Se tiverem uma visão redutora do
papel interventivo da televisão junto da sociedade insular, poderão asfixiá-la
na manipulação que dela fazem, cerceando o desenvolvimento das populações. Se
se alhearem da real importância da televisão poderão fazer colapsar a autonomia
político-administrativa. O equilíbrio entre estas duas posições é o garante do
desenvolvimento articulado e sustentado da autonomia.
Estratégia é o plano de acção
no terreno. Geoestratégia é o plano de acção face ao enquadramento geográfico.
O relacionamento inter-ilhas num arquipélago é geoestratégia à escala. Um canal
de televisão é uma ferramenta estratégica e um meio de desenvolvimento num
arquipélago que é um conglomerado divergente numa união de facto. Por isso
imprescindível para a sustentabilidade de uma unidade regional.
PDL, Fevereiro de 2010
segunda-feira, 16 de março de 2020
SEMPRE ATRÁS DO PREJUÍZO
SEMPRE ATRÁS DO
PREJUÍZO
Portugal
é um país que é gerido andando sempre atrás do prejuízo. Nesta crise concreta
que hoje se vive (16/03/2020) percebe-se bem que se andam a tomar medidas com
duas semanas de atraso. Um bom gestor, quer privado, quer gestor da coisa pública,
deve gerir à frente do prejuízo. Desde Dezembro que se andava a ver o exemplo
da China. A propósito, repare-se no caso de Macau que ao 4º (quarto) infectado
encerrou tudo e todos. Conteve a disseminação do vírus e há muitos dias que não
regista novos casos. De seguida tivemos o exemplo da Itália que relaxou a tomar
medidas, que são sempre constrangedoras e impopulares, e pagou, e está a pagar
um preço muito elevado. Em Portugal levou-se muito tempo a tomar medidas, e a
assobiar para o lado. Está-se a ver o resultado. Como é costume pensaram
primeiro no dinheiro. Não se fechar por causa do turismo, da restauração, e
etc.. Os negócios em questão. Com aquela falta de visão de estratégia. Se
fechassem cedo podiam continuar com o negócio mais tarde. Mais tarde vão ter
mesmo que fechar, radicalmente, com a agravante de depois faltar clientela, ou
por terem morrido, ou por que, desconfiados, deixarão de frequentar e consumir.
Tudo isto pelo eterno defeito dos últimos 40 anos em que só se governa em
navegação à vista, ou seja, em função dos resultados eleitorais. Para tal não
convém tomar medidas impopulares e desmotivadoras dos negócios partidários. Mas
a factura vai chegar, e vai ser pesada. Aguardem.
Depois
temos a gestão da crise em si. Em Espanha já estão em quarentena, tendo as
forças policiais e militares em acção no terreno. Em Portugal, há muito em
crise sem ajuda nenhuma do covid19, será algo difícil de implementar com
eficácia. Porque não há respeito nenhum à autoridade. Foi um trabalho,
constante, ao longo de anos, o minar o respeito à autoridade do estado. A
justiça em muito contribuiu para tal, protegendo o bandido e perseguindo os
polícias, desautorizando-os. Temos agora esta problemática com alguns juízes da
Relação de Lisboa que, com certeza irá trazer alguma luz ao tema. Só luz,
porque consequências não haverá, pois desde logo quem julga quem? Alguns
ministros que passaram pelo MAI não perceberam qual era o papel da GNR,
confundindo-a com a polícia. Desastre após desastre, nunca esquecendo a
descapitalização das instituições, o que muito desmoraliza. Só foram pródigos em
soltar os cordões à bolsa para a criação da Alta Autoridade para a Protecção
Civil, bem como para programas tecnológicos associados, caríssimos e
ineficientes, a fazer fé nos jornais ao longo dos anos. E não se percebe porque
é que esta alta autoridade não foi extinta de imediato a seguir aos incêndios
de Pedrógão e adjacentes. Depois temos as forças armadas. Que em tempos
funcionavam como reserva moral da nação. Hoje já não. O que preocupa o sempre
esclarecido professor Adriano Moreira. Alguns generais, há pouco tempo,
escreveram uma carta ao Presidente da República, chamando a atenção para a falência
das forças armadas, por múltiplas razões. Mas falida a reserva moral, de que os
muitos casos que pululam no seio delas, e não só Tancos, que além da questão
factual expõe o exército ao ridículo, que podem clamar? Com tudo isto, e
reconhecendo-se uma natural indisciplina de cidadania aos portugueses, alguém
acha que as forças militares e paramilitares podem impor alguma autoridade
delegada do ESTADO? E isto vai resultar em quê? Desastre.
Outra
lição a tirar é gerir-se só em função do dinheiro. Sem se ter atenção aos centros
de decisão. Tenho ouvido a muito políticos profissionais, que nunca trabalharam
na vida verdadeiramente, empregarem chavões sobre a mobilidade laboral, as exigências
da globalização, rentabilidade do investimento, eficácia de meios, com muita
utilização da palavra alavancagem, que dita por eles que nada sabem de física,
nem são capazes de calcular as forças intervenientes nos extremos da alavanca,
nem as distâncias ao ponto de apoio. Com isso deixou-se na mão da China a incumbência
de produzir muita coisa, sobretudo miudezas, para abastecer o mundo. Só que
agora a China teve de travar a produção por ser, também ela, vitima desta
pandemia. E de repente faltam as máscaras de protecção e demais material
hospitalar. E outras coisas, que não se fabricam já na Europa. E agora, já que
não pensaram antes, como vão resolver? É o nacional desenrascanço? Eu lembro-me
de um jornal regional, de uma região que me é muito querida, publicar, muito
ufano, há já uns largos anos, que determinado empresário tinha ido para a
Chinar montar uma fábrica de seringas. Seria muito mais rentável, ao que
parecia. Diminuía-se a empregabilidade em Portugal, mas o empresário teria
muito mais rentabilidade. Mas ficámos dependentes, de miudezas, da China. E
agora. Isto faz-me lembrar a Manutenção Militar, que antigamente tinha uma
capacidade de abastecer o país, em caso de grave crise, que impedia carência
grave na população. Extinguiram-na. Muitos não descansaram enquanto não o
fizeram. O Laboratório Militar esteve na calha para ser extinto. Antes desta
crise já tinha demonstrado a sua importância na crise de medicamentos
oncológicos. Mas os políticos têm objectivos que a razão não entende. Ou então
entende …, mas isto é Portugal.
Leio
os jornais e vejo que ninguém liga às instruções dadas. No aeroporto são
ajuntamentos para além do recomendável e saem sem haver controlo sanitário e
consequente quarentena. Os turistas, que vão e vêm, sem passarem cartuxo. Li
algures que são bruscos e até malcriados, quando lhes chamam a atenção para as
recomendações e ditames das autoridades. Há aqueles que impedidos de
desembarcar em Lisboa, o fizeram em Cádis, e vieram para Lisboa de autocarro.
Não percebi o circo. Mais valia tê-los deixado desembarcar de vez para
o aeroporto. É só encenações. Mas enfim, o poder é cénico. A juventude tem uma
falta de respeito por tudo isto que nos faz temer, bastante, pelo futuro.
Conclui-se que há muita dificuldade em se impor autoridade. Paciência, veremos
no que isto vai dar.
Mas, nesta crise, estamos muito atrasados
na imposição de medidas drásticas. (O eleitorado, a que não se pode
desagradar). Devíamos já fazer o que a Espanha está fazendo, sem estar à espera
de chegar aos números a que a Espanha já chegou, para então se actuar. O
Presidente convocou ontem o Conselho de Estado para Quarta-feira. Porque não
para hoje? Porque perder ainda mais dois dias? Por causa dos incêndios de Pedrógão,
que citámos antes, o Presidente Marcelo publicou um artigo em 2018 em que
disse:« Se formos capazes de fazer reviver até 2023 o que importa que reviva,
Portugal será diferente. Se não formos capazes perdemos uma oportunidade
histórica e condenamos alguns portugáis a serem muito
ignorados, muito esquecidos, muito menosprezados e isso significa que falhámos
como país.» Estamos já em 2020, não antevejo essa capacidade de fazer reviver o
que importa, pelo que acho que falhámos. Espero bem que, como pessimista
militante que sou, estar bem enganado e que os anseios do Senhor Presidente se
concretizem. Mas a gestão desta crise não realça isso. E nunca esquecendo o seu
discurso de Ano Novo no Corvo. Voltarei à análise do artigo e do discurso
noutra ocasião.
Devo realçar aqui, e hoje, sem tecer
loas, que os Governos Regionais da Madeira e dos Açores se adiantaram ao da
República em medidas que conduzissem a eficácia. Não sei qual o resultado que
vai advir, mas reconheço o mérito, e destaco que nos Açores são 9 ilhas com
dificuldades acrescidas para se gerir a questão. Mas na condicionante actual o
Governo Regional, e restante administração pública, estão a cumprir bem ao seu
nível. Gostaria de vir a dizer mais tarde que a
incúria não foi fatal para muitos.
terça-feira, 7 de maio de 2019
A FRAGILIDADE PORTUGUESA
Esta fragilidade pode-se avaliar
de vários ângulos. Mas hoje vou só referir aqui um episódio que demonstra bem
isso. O jornal espanhol ABC levantou uma questão sobre a viagem de Fernão de Magalhães.
Podem ver aqui
o entendimento espanhol. A Espanha tem mais poder, convicção, determinação e
empenho que Portugal, mas sobretudo, tem na governança gente mais capaz, ou
mesmo só capaz, o que em Portugal está muito longe de acontecer. Os últimos 30
anos têm demonstrado que as pessoas não estão à altura para os cargos que ocupam.
Os escândalos sucessivos, e com uma justiça inoperante, são a evidência. Portugal
é frágil, e os portugueses insistem em votar nos de sempre, que fragilizam,
cada vez mais, Portugal.
Quanto à viagem de Magalhães, embora
em Portugal se invoque que foi a ciência portuguesa na viagem, podem, e muito
bem, os espanhóis dizer que o feito é espanhol. Foi a Espanha, com os seus
navios e suas gentes, que realizou a viagem. Fernão de Magalhães nasceu em
Portugal mas, também ele, terá sido vitima de algo muito comum neste país: o
mérito não é reconhecido e as pessoas capazes são escorraçadas, para assim se
dar lugar e prebendas às nulidades.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
O MAL TEM SEMPRE ENTUSIASTAS APOIANTES
O mal tem sempre adeptos que o
apoiam e sustentam. Em qualquer das facetas em que se apresente. É visível a
crispação em que o mundo vive. Há sempre gente a apoiar uns contra outros, e vice-versa.
Há um certo maniqueísmo na sociedade, onde os cidadãos têm uma tendência para
se sentirem certos, e correctos, no que amam e no que decidem, consequentemente
no que apoiam, julgando todos os que têm outro entendimento como absolutamente
errados, sendo assim opositores, quiçá inimigos. O futebol é sempre um bom
exemplo, embora sempre grotesco. A política entendida pelos cidadãos, e não
pelos que exercem na política a sua actividade, também é um bom exemplo do
maniqueísmo. Agora os cidadãos nas suas escolhas, quando votam, seja para
clubes de futebol ou de campismo, como também em votações para eleger pessoas
para governarem os países, tanto podem escolher o bem como o mal. Eu gostaria
de relembrar que nos últimos 150 anos, as escolhas livres e democráticas de
cidadãos nem sempre tiveram bons resultados. Lembro Hitler, Mussolini e outros
que chegaram ao exercício do poder democraticamente através de eleições livres.
Eu diria que todo o bandido tem os seus adoradores e os seus detractores. Às
vezes até temos exemplos de facínoras, presos perpetuamente, que têm
seguidores, ou fãs. Alguns até têm quem, já depois de sentenciados, sem nunca
os terem conhecido, se apaixonem por eles, e com eles se casem. Há para tudo na
prateleira.
Assim,
ditadores podem sempre surgir através do voto. E vão surgir. Aqui e ali, sem
demorar muito. Vão ter os seus seguidores e adeptos fervorosos. Normalmente têm
algo em comum, seja em que continente estiverem. São sempre cleptocratas. E, de
entre as suas vítimas, haverá sempre cinquenta por cento que os apoiarão
indefectivelmente, quarenta por cento que acobardados se calarão, e dez por
cento que se oporão. E o planeta gira, o universo move-se, mas o mal
persistirá, sempre e sempre devidamente apoiado pelas suas vítimas, que são os
maiores fornecedores de capacidade para o mal.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
ENCANTAMENTO
Há mais de dez anos escrevi este artigo, que me solicitaram, para uma revista recém criada, de que já nem o nome lembro. Era para ser publicada no nº 4, mas não resistiu após o nº 3. se não estou em erro. Desencantei-o há dias. Revi o texto, e aqui o publico.
Encantamento
É a primeira
emoção que inunda a sensibilidade de quem vê, pela primeira vez, a ilha. Vindo
de fora, a ilha induz, na percepção do forasteiro, o encanto. Rompida a bruma
pelo avião, só os olhos comunicam com a ilha, só eles interagem com os
contornos e as cores que a ilha, qual mestre do oculto, permite à observação.
Imagina-se, então, os que se aproximam de barco, para quem a ilha surge como um
sonho flutuando que esgaça as neblinas. Porque, para um ilhéu, a ilha sempre
flutua suspensa no tempo.
Actualmente a
ilha começa sempre por ser uma, ou várias, fotografias coloridas com bons
ângulos, de boas perspectivas, em bonitos dias. O papel da impressão da revista
também ilude. A projecção do sonho está feita. Parte-se do sonho para o
encantamento. E o primeiro contacto, aquele que impressiona, é encantamento.
Pôr os pés na ilha, a sempre encantada, é a concretização do sonho.
A ilha é
sempre um local idílico. Recolhido o fruto da primeira impressão, é com ele que
o forasteiro caminha na ilha. Mas caminha entre realidades vividas cuja
absorção escapa à gravação na película da primeira impressão. Há uma barreira
transparente que inibe a percepção real por aquele que foi tocado pelo
encantamento. E essa barreira é muito mais contundente nos dias solarengos do
que nos dias brumosos das ilhas. O forasteiro, todo aquele que chega vindo de além-mar,
passeia-se entre as pessoas e paisagens, construções e animais. Passeia-se
usufruindo do clamor dos seus sentidos, atendendo, assim, muito pouco aos
pontos que, ligados entre si, lhe dariam a composição da realidade, que
substituirá a alheia. O forasteiro cruza-se com outras pessoas, alguns
forasteiros e outros, mais, ilhéus. Mas com estes cruza-se como se fluíssem em
planos diferentes. O ilhéu mostrar-se-á sempre com um sorriso anódino, ou um
semblante natural e candidamente cerrado. Não deixará transparecer, de forma a
que seja perceptível por forasteiros, emoções ou esgares. São foro interno. Se
a teoria dos mundos paralelos tivesse demonstração, ter-se-ia de começar esse
exercício pela ilha. O forasteiro vê os limites físicos da ilha, nos alcantilados
ou nas praias, em horizontes de flutuação. Nunca se apercebe do que limita o
ilhéu. Vagueia pela ilha, o forasteiro, prendendo em película, hodiernamente
mais em pixéis, pedaços da sua concepção de ilha. Só pedaços. O alcance da sua perspectiva,
empolada pelo encantamento inicial, é sempre impotente para abarcar tudo o que
os seus sentidos, globalmente, apreendem. Cores, contrastes, colapsos,
recônditos e muitos pormenores que há muito perderam o interesse dos ilhéus.
Captam ali, além, mas sempre o que lhes motiva o idílico. As pessoas,
abstraindo os próprios, não constam das fotografias porque não se coadunam com
o entendimento do idílico pelo forasteiro. As paisagens e os animais, sim. O
forasteiro consumirá o seu tempo de estadia sem se aperceber da realidade da
vivência do ilhéu. Este tudo fará para que o forasteiro, se resuma à paisagem,
se embriague de beleza e de ténue, sem que possa estabelecer contacto com toda
a dramatologia insular. De forma estranha, também o, reduzido, contacto que
estabelecem, forçosamente, entre eles, flutua, tal qual a ilha, esgaçando as neblinas.
Uma aberta nunca corresponde a um solarengo duradoiro. E tudo o que, ao
forasteiro, é permitido observar se passa sempre entre neblinas, dependendo da
sorte a oportunidade de uma boa observação.
O forasteiro
retornará, encantado, num avião que romperá as brumas para atingir a limpidez
das alturas. Regressa encantado para mergulhar no desencanto das rotinas da sua
vida, tentando não esquecer que, durante o tempo de uma semana, ou duas, viveu
um encanto.
Os forasteiros
que vão restando por mais tempo têm a oportunidade de, muito lentamente, saírem
do encantatório e viverem a rotina das suas vidas. Diluem-se no seio das brumas
com os demais ilhéus com que se fundem.
sexta-feira, 20 de julho de 2018
RETORNO. HÁ O PERIGO DE FALHARMOS?
Reactivei hoje. Passaram 7 anos de interregno. Desde o último post muita água passou debaixo da ponte. Portugal não melhorou e o mundo muito menos. Retorno hoje por causa uma reflexão do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, actual Presidente da República. Julgo que ele já se apercebeu que com tanta exposição e tanta afectividade, deixou de ser ouvido. É o que acontece quando uma pessoa aparece demasiado e dá palpites sobre qualquer coisa e sobre tudo. Já não lhe ligam, e só o querem para abrilhantar eventos. Também já canta em eventos musicais. Mas por tudo isto, e porque reflectiu preocupações, viu-se impelido a escrever um artigo de opinião no Jornal Público, em 16 de Junho de 2018 sobre as assimetrias entre o resto do país e a Grande Zona Metropolitana de Lisboa, a falta de solidariedade entre nacionais e a viabilidade do país. Podem ler o artigo aqui. O Professor Marcelo Rebelo de Sousa está muito
consciente da ameaça que paira sobre a viabilidade de Portugal, e teme, com
muita pertinência, que o país claudique no seu desempenho. Destaco aqui duas passagens do artigo: “Até ao
fim da próxima legislatura se perceberá se somos ou não capazes de corrigir as
assimetrias existentes, de ultrapassar as desigualdades que teimam em
permanecer” ; “ Se formos
capazes de fazer reviver até 2023 o que importa que reviva, Portugal será
diferente. Se não formos capazes perdemos uma oportunidade histórica e
condenamos alguns portugáis a
serem muito ignorados, muito esquecidos, muito menosprezados e isso significa
que falhámos como país”. Será que vamos falhar? Eu não sou um optimista. Mas também não vejo optimismo no artigo do Presidente. Só uma chamada de atenção, onde nem esperança vislumbro.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
ENTRE A GRÉCIA E PORTUGAL O FOSSO TEM MUITO DE COMUM
Ao passar pela Grécia, e comparando-a com Portugal, Ferreira De Castro diz: «Os pequenos povos, que não são ricos, sabem mais geografia e sentem melhor o universo do que os grandes; mas, em geral, grandeza é, para eles, apenas uma sensação. Sonham muito alto, mas só sabem realizar mediocremente. Às vezes dá-se, porém como que uma explosão de todas as ansiedades recalcadas e, então, eles superam, em isolados feitos, não só o próprio meio físico em que vivem, mas, até, os actos dos grandes povos.»
Ferreira de Castro, A Volta ao Mundo, I Volume.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
ENTRE A HONESTIDADE E A ILUSÃO
Mas vocês próprios não estão certos do que realmente querem: querem conforto, consolação, compensação, e no entanto, ao mesmo tempo, querem algo que é infinitamente maior que a compensação e o conforto. A vossa mente está tão confusa que num momento vocês confiam numa autoridade que lhes oferece compensação e conforto e, no momento seguinte, voltam-se para outra que lhes nega conforto. A vossa vida portanto torna-se numa refinada e hipócrita existência, uma vida de confusão. Tentem descobrir o que realmente pensam; não finjam pensar o que acham que devem pensar; então, se estiverem conscientes, totalmente vivos no que estão a fazer, saberão por vocês próprios, sem auto-análise, o que realmente desejam. Se forem totalmente responsáveis nos vossos actos, saberão então sem auto-análise o que realmente procuram. Este processo de descoberta não precisa de grande força de vontade, de grande vigor, mas apenas de interesse em descobrir o que pensam, descobrir se realmente são honestos ou se vivem numa ilusão.
Jiddu Krishnamurti in " A ARTE DE ESCUTAR"
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Jiddu Krishnamurti in " A ARTE DE ESCUTAR"
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domingo, 19 de junho de 2011
APENAS DURAMOS
Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe. Portanto, só existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos, apenas duramos.
Padre António Vieira.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
A CRISE NÃO É SÓ FINANCEIRA! HÁ MUITA CRISE PARA LÁ DA FINANÇA
La guerra en Libia, que está poniendo de manifiesto los reducidos límites del poderío militar europeo, ha servido de pretexto al secretario estadounidense de Defensa, Robert Gates, para advertir en tono testamentario y frontal a los aliados de Estados Unidos de que la OTAN puede acabar convertida, más pronto que tarde, en una alianza militar irrelevante y sin futuro.
Interessante artigo do EL PAÍS, aqui,sobre a falência da NATO, ou do entendimento político sobre a NATO, que no fundo espelha o descalabro da Europa. É o resultado da incapacidade da Europa em não encontrar políticos capazes, nem ter um projecto válido, credível e execuível de futuro comum.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
domingo, 29 de maio de 2011
TALENTOS PUJANTES
Sebo subentendia obtusidade... Ora neste Ministério sobrava c talento. Incontestavelmente havia aí talentos pujantes...
- Essa é outra! - gritou Ega atirando os braços ao ar.
- E extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm «imenso talento», a oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparate que fazem, um «talento de primeira ordem»! Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de «robustíssimos talentos»! De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este facto supracómico: um país governado «com imenso talento», que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!
O conde sorria com bonomia e superioridade a estes exageros de fantasista. E Carlos, ansioso por ser amável, atalhou acendendo o charuto no dele:
- Que pasta preferia você, Gouvarinho, se os seus amigos subissem? A dos Estrangeiros, está claro ...
O conde fez um largo gesto de abnegação. Era pouco natural que os seus amigos necessitassem da sua experiencia política, Ele tornara-se sobretudo num homem de estudo e de teoria. Além disso não sabia bem se as ocupações da sua casa, a sua saúde, os seus hábitos lhe permitiriam tomar 0 fardo do governo. Em todo o caso, decerto a pasta dos Estrangeires não o tentava ...
- Essa nunca! - prosseguiu ele, muito compenetrado. Para se poder falar de alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, é necessário ter por trás um exército de duzentos mil homens e uma esquadra com torpedos. Nós, infelizmente, somos fracos ... E eu, para papéis subalternos, para que venha um Bismarck, um Gladstone, dizer-me «há-de ser assim», não estou! .. Pois não acha, Steinbroken?
- Essa é outra! - gritou Ega atirando os braços ao ar.
- E extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm «imenso talento», a oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparate que fazem, um «talento de primeira ordem»! Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de «robustíssimos talentos»! De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este facto supracómico: um país governado «com imenso talento», que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!
O conde sorria com bonomia e superioridade a estes exageros de fantasista. E Carlos, ansioso por ser amável, atalhou acendendo o charuto no dele:
- Que pasta preferia você, Gouvarinho, se os seus amigos subissem? A dos Estrangeiros, está claro ...
O conde fez um largo gesto de abnegação. Era pouco natural que os seus amigos necessitassem da sua experiencia política, Ele tornara-se sobretudo num homem de estudo e de teoria. Além disso não sabia bem se as ocupações da sua casa, a sua saúde, os seus hábitos lhe permitiriam tomar 0 fardo do governo. Em todo o caso, decerto a pasta dos Estrangeires não o tentava ...
- Essa nunca! - prosseguiu ele, muito compenetrado. Para se poder falar de alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, é necessário ter por trás um exército de duzentos mil homens e uma esquadra com torpedos. Nós, infelizmente, somos fracos ... E eu, para papéis subalternos, para que venha um Bismarck, um Gladstone, dizer-me «há-de ser assim», não estou! .. Pois não acha, Steinbroken?
Eça de Queiróz, in "Os Maias"
terça-feira, 17 de maio de 2011
A ÚNICA OCUPAÇÃO É COBRAR O IMPOSTO E FAZER O EMPRÉSTIMO
- Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... 0 empréstimo faz-se ou não se faz?
E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico.
O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que 0 empréstimo tinha de se realizar «absolutamente». Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta - «cobrar 0 imposto» e «fazer 0 empréstimo». E assim se havia de continuar...
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, 0 país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.
- Num galopezinho muito seguro e muito a direito disse 0 Cohen, sorrindo. - Ah, sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável: é como quem faz uma soma.. ,
Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hem!
E todos escutavam 0 Cohen. Ega, depois de lhe encher 0 cálice de novo, fincara os cotovelos na mesa para lhe beber melhor as palavras.
- A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela - continuava 0 Cohen - que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir 0 país ...
In "Os Maias" de Eça de Queiróz.
E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico.
O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que 0 empréstimo tinha de se realizar «absolutamente». Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta - «cobrar 0 imposto» e «fazer 0 empréstimo». E assim se havia de continuar...
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, 0 país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.
- Num galopezinho muito seguro e muito a direito disse 0 Cohen, sorrindo. - Ah, sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável: é como quem faz uma soma.. ,
Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hem!
E todos escutavam 0 Cohen. Ega, depois de lhe encher 0 cálice de novo, fincara os cotovelos na mesa para lhe beber melhor as palavras.
- A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela - continuava 0 Cohen - que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir 0 país ...
In "Os Maias" de Eça de Queiróz.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
O FUTURO ESTÁ MUITO NUBLADO
Vejam aqui, analisado por quem sabe e tem competência para o fazer. O Blog que cito é o DESMITOS com link aí ao lado.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
A DEBILIDADE DA PALAVRA
Quer nos EUA quer na Europa, a crise económica e financeira tem presença evidente na debilidade da palavra com que, mudados agora os tempos, lideravam os consensos ou intervinham com poder e resultados. Ao mesmo tempo que os europeus, aos quais pertence governar em época de debilidade efectiva, os americanos estão ainda a sofrer essa debilitação, mas nos dois casos a referência a efeitos colaterais vindos do exterior faz parte do discurso oficial, prejudicando a capacidade de ver e assumir que partilham a crise do Ocidente em decadência.
In «A debilidade partilhada» no DN, por Adriano Moreira, aqui.
terça-feira, 26 de abril de 2011
A SOCIEDADE PORTUGUESA ESTÁ FRACTURADA
Em Portugal vive-se a política como se vive o futebol: com paixão e nenhuma racionalidade. O meu clube ou partido é o melhor e está absolutamente certo, é a atitude comum da maioria dos cidadãos. Que denotam uma incapacidade democrática porque são incapazes de entender o outro, e de perceber que a riqueza democrática está no convívio das diversidades em prol do bem comum e na persecução de uma boa gestão da res publica. Há uma tendência ditatorial para imporem os seus pontos de vista, para ditarem as regras que gostariam que os outros fossem obrigados a cumprir. Ao acharem-se donos de verdades absolutas e prenhes de certezas blindadas comportam-se como potenciais ditadorezinhos demonstrando, em simultâneo, uma ignorância política e democrática.
Nos últimos tempos apercebi-me, e os comentários de hoje aos discursos de ontem, bem como às reacções pífias de ontem, reforçaram essa minha percepção, que a sociedade portuguesa está fracturada radicalmente. Tal como o está no futebol. Temo, por isso, que estejamos a rumar para uma mini guerra civil onde os custos vão ser muito pesados, incluindo a perda numerosa de vidas humanas.
Nos últimos tempos apercebi-me, e os comentários de hoje aos discursos de ontem, bem como às reacções pífias de ontem, reforçaram essa minha percepção, que a sociedade portuguesa está fracturada radicalmente. Tal como o está no futebol. Temo, por isso, que estejamos a rumar para uma mini guerra civil onde os custos vão ser muito pesados, incluindo a perda numerosa de vidas humanas.
domingo, 24 de abril de 2011
O EXERCÍCIO CÍVICO DA CIDADANIA
O exercício da democracia não pode ser feito sem partidos ou qualquer outra forma de associação cívica para exercer a cidadania de forma organizada. O problema das democracias ocidentais, e não só ocidentais, na actualidade, é que os partidos têm a identidade actual forjada no pós guerra mundial, e consubstanciada sobretudo pelas gerações universitárias da década de sessenta. Criaram casulos que permitiram que os partidos fossem tomados a partir do interior, por pessoas sem idoneidade, ou por grupos com interesses obscuros ou, simplesmente, por oportunistas ambiciosos prontos a venderem-se a quem mais pagasse. Este é o drama da vulnerabilidade da democracia, que é o uso das regras democráticas para se usurpar o poder democrático para fins contrário à boa gestão da «res publica». Na década de 80 iniciou-se, em grande escala, uma alteração no equilíbrio mundial, na ordem mundial, com a difusão da informática e a queda do muro de Berlim. São dois vértices que impunham uma renovação de estratégias, objectivos e práticas, agora com uma identidade forjada a partir destes vértices e com o abandono da visão partidária do pós guerra. Infelizmente tal não aconteceu e os partidos e as democracias viram-se embrulhados num vórtice de evoluções tecnológicas, sociais e económicas que os deixaram mais frágeis, e cada vez mais sujeitos a pessoas menos preparadas para cargos governativos e submetidas ao jugo das pressões partidárias e económicas. As populações, por várias razões, alhearam-se no empenho do exercício da cidadania. O resultado está à vista. Estamos à beira, com uma margem de segurança já muito estreita, de um colapso social e político com custos enormes de vidas humanas, representando um retrocesso social e político sobre o alcançado após duas grandes guerras no século XX. Mas sem organização associativa para o exercício da cidadania não há democracia que resista. Tem é de haver formas de não deixar que as regras democráticas possam ser pervertidas a partir do âmago da democracia.
sábado, 23 de abril de 2011
UMA CRISE ANTECIPADAMENTE ANUNCIADA
Hoje é Sábado de Páscoa. Amanhã dia da ressurreição. Mas para este país não há ressurreição. A crise não vai levar a uma renovação do país. O país está com demasiadas feridas, para além das dívidas que estes governos fizeram. Eu diria que o país está ferido de morte. Criaram-se demasiadas assimetrias. Há muitas diferenças de tratamento para com os cidadãos. Há cidadãos de primeira, de terceira e de quarta. Isto vai fazer com que a aplicação das medidas de austeridade leve a revoltas e a ódios. Há cidadãos que partem já em desvantagem, não têm defesas nenhumas para aguentar a crise. Estes políticos actuais, por quem não se pode ter respeito nem consideração, continuam a candidatar-se para governar o país, com capacidade que demonstraram não ter, e não vão ter. Porque se tivessem não tinham conduzido o país para o buraco. O futuro não é auspicioso. Temo que Portugal acabe por mergulhar numa guerra civil. E tudo será inútil porque esta crise já tinha sido anunciada há vários anos, porque viam que a rota era para o abismo. E viram e denunciaram isso Medina Carreira, Hernâni Lopes, Vitor Bento, Silva Lopes, Braga de Macedo, e muitos mais em jornais, revistas, rádios e televisões. E alguns escreveram livros que estão publicados. Este primeiro-ministro, enquanto conduzia o país para esta situação, chamava-os de catastrofistas e bota abaixistas. Viu-se quem tinha razão. E não vamos ressurgir. Vai-nos faltar muita coisa, sobretudo a juventude que se sente ludibriada e que está a abandonar o país. Vão-nos faltar cérebros muito em breve. Foi um crime o que fizeram a Portugal. E aos portugueses.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
AGORA TODOS VAMOS PAGAR A FACTURA DAS NOSSAS NEGLIGÊNCIAS CÍVICAS
Retomo hoje a escrita neste blog, passados 3 meses. Com este comentáro que fiz num outro blog
A história do nosso país, desde 1850 (+/-) versa em continuo sobre maus políticos, desastrosos gestores da res (coisa) pública. Também de um povo incapaz de fazer as melhores opções, quase sempre pela ignorância. Este é o povo de que todos falamos como se não fizéssemos parte dele, e que criticamos as opções eleitorais deles, como se não fossemos também culpados pelas nossas opções ou pelas nossas demissões. Somos todos bons treinadores de bancada incapazes de fazer uma boa jogada no campo, ou mesmo de perceber as regras na sua plenitude. Sempre fomos nos acomodando, ninguém se quer aborrecer, sempre criticamos no café ou na paragem do autocarro, mas nunca intervimos civicamente nem solidariamente. Somos todos, MAS TODOS, uns acachapados. Tentamos sempre viver sem esforço cívico, esperando que a coisa corra bem. Nunca corre. Analisem a história, desde 1850. Vivemos sempre com a corda na garganta e nunca fazemos nada para mudar a estrutura do país e sairmos desse ciclo vicioso. Só houve um período mais longo sem o espectro da bancarrota, que infelizmente foi um período ditatorial, que sem ser dos piores do século XX, não deixou de ter custos tremendos. A pergunta que se põe sempre é se aprendemos alguma coisa com a história. Pois não aprendemos. Se sairmos desta crise é uma questão de tempo para voltarmos às mesmas asneiras. Não temos emenda. Nós todos. Não é só criticar e ficar de fora. Estamos todos dentro. Quando eu critico os portugueses, incluo-me. Nós não nos esforçámos para fazer o país melhor. Nós todos deixámos que alguns dirigissem o barco sem estarem habilitados para o fazerem. Nós todos aceitámos passivamente que a corrupção grassasse. Nós todos ficámos no aconchego de um doce embalo a ver tudo a ruir ao longo de anos na educação, na justiça, etc., e nada fizemos para travar a queda. Os avisos foram sendo feitos e ninguém quis ouvir. Agora todos vamos pagar a factura das nossas negligências cívicas. Mas está tudo na história.
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