segunda-feira, 13 de novembro de 2006

SE ATÉ CAMÕES O DISSE……….

Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Possam dizer que são pera mandados,
Mais do que pera mandar, os Portugueses.

Lusíadas, Canto X, 152.

Eu tenho vindo a dizer isto, por mim ou através de citações de outros. E ele, Camões, que já estava a sentir e a viver o início da decadência portuguesa, percebeu o que restava para Portugal: ser mandado. E como sempre iria ser, já então se admirava o lá fora.
Lord Palmerston, 300 anos depois dirá: «Aproxima-se o momento em que seremos obrigados a desferir outro golpe na China. Esses governos semicivilizados como os da China, Portugal e América Espanhola precisam todos de uma limpeza cada oito ou dez anos, para os manter em ordem. Os seus cérebros são demasiado ocos para conservarem uma impressão por um período mais longo e de nada serve avisá-los. Pouco se importam com palavras e não só precisam de ver o pau mas também de o sentir nas costas para obedecerem.»

Não sei se repararam, que na Europa só Portugal. Camões precedeu em temor o que Palmerston consagrou, e que nós continuamos sentindo. Está no nosso âmago?

domingo, 12 de novembro de 2006

SÍNTESE DO PROBLEMA

«Perigosamente reduzido a um partido alicerçado na Administração Pública, com sólidas bases ancoradas nos sistemas educativo, de saúde e autárquico, o partido e o governo vêem-se agora obrigados a reduzir efectivos, despedir, congelar recrutamentos, diminuir vencimentos, baixar as pensões e cortar nos privilégios colaterais. Mais uma vez, desfaz o que fez. Se persistir, até ao fim do mandato, nas políticas que tem anunciado, terá de ir muito mais longe e prestará, talvez, insignes serviços às finanças públicas. Mas deixará destroçada a sua clientela, os seus militantes, as suas bases e o seu eleitorado. Pelo contrário, se, como é hábito, não for tão longe quanto é necessário e enveredar pela demagogia prévia ao segundo mandato, tornará inúteis os sacrifícios actuais e voltará a deixar em crise o Estado social. Ou, mais simplesmente, o Estado.»
António Barreto, hoje aqui, no Público

sábado, 11 de novembro de 2006

SE NÃO FORMOS CASTIGADOS PELA IGNORÂNCIA NA ESCOLA, SÊ-LO-EMOS NA VIDA ADULTA

"Se não formos castigados pela ignorância na escola, sê-lo-emos na vida adulta."
Esta frase, de um comentário feito num blog pelo meu amigo Pedro “Noise”, complementa aquela outra: “Ensinar mal custa tanto como ensinar bem, só que sai mais caro”.
Podia divagar por aí abaixo. Apetecia-me bater em muita gente. Mas já me cansa bater tanto nos mesmos temas. Hoje deixo as duas frases para meditação. Meditem. Meditem. Não alcançarão o Nirvana, mas entenderão bem porque é que o país está assim, encalhado num fosso.

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

VAGUEIAM TRISTES, MELANCÓLICOS E INDOLENTES

Os portugueses estão apáticos. Dois partidos, alternadamente, fizeram um somatório de asneiras que pôs o país no estado catastrófico em que se encontra. Dois partidos, alternadamente, prometeram resolver os problemas, aldrabando sempre os eleitores. O que é um facto que está no âmago dos partidos portugueses, aldrabar. E como são constituídos pelo que de pior existe na sociedade portuguesa, que são os aldrabões, outro resultado era impossível. Tarde ou nunca. Parece-me que já é muito tarde. E nunca é a solução dos problemas de Portugal.
Por isso os portugueses andam amargurados, tristes e acabrunhados. Hoje ouvi aqui em S. Miguel, um trabalhador que vai ser despedido, ao pedir 1 mês e meio de indemnização em vez de um, falar em esmola. Para a entidade patronal dar esse meio mês como esmola. Já não são capazes de reivindicar. Não reagem. Não protestam. Não exigem responsabilidades a quem colocou o país neste estado. Aceitam tudo com indolência e acabrunhados. Os portugueses só querem esmolar. Se lhes derem qualquer coisinha acomodam-se. Sempre se acomodaram. Depois queixam-se, ou melhor, nem se queixam, lamuriam. Se se queixarem, queixem-se deles próprios. Quem amocha, aguenta. E merece tudo o que lhe dão.
Ai, se ao menos se revoltassem uma vez na vida …….

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

NEM TODOS SABEM, NEM TODOS.

«Para ensinar há uma formalidade a cumprir – Saber.» Eça de Queiroz

Ele há tanta gente por aí sem cumprir esta formalidade.

Hoje, se fosse vivo, faria anos Carl Sagan, autor da frase que serve de mote a este blog. Ele era um homem de SABER. A sua sabedoria ainda nos permite, e permitirá, tomar conhecimento do saber ou de como o alcançar. Ainda de “Um Mundo Infestado de Demónios” transcrevo mais um trecho.

«Os antigos Jónios foram os primeiros de que temos conhecimento a afirmarem sistematicamente que são as leis e as forças da natureza, e não os deuses, as responsáveis, pela ordem e mesmo pela existência do mundo. Nas palavras de Lucrécio, «A natureza, liberta do jugo dos seus senhores altivos, faz todas as coisas espontaneamente, por si só, sem a interferência dos deuses». Porém, excepto na primeira semana dos cursos de Introdução à Filosofia, os nomes e as ideias dos primeiros jónios quase nunca são mencionados na nossa sociedade. Aqueles que põem de parte os deu­ses tendem a ser esquecidos. Não ansiamos por preservar a memória desses cépticos, e muito menos as suas ideias. Os heróis que tentam explicar o mundo em termos de matéria e de energia podem ter surgido muitas vezes em muitas civilizações, só para serem esquecidos pelos sacerdotes e filósofos que tinham a seu cargo a sabedoria convencio­nal, tal como a abordagem jónica se perdeu quase por completo depois da época de Platão e Aristóteles. Com muitas civilizações e tentativas deste tipo, é possível que só em raras ocasiões a ideia ganhe raízes.
As plantas e os animais foram postos ao serviço do homem e a civilização só teve início há 10000 ou 12000 anos. A abordagem jónica tem 2500 anos. E foi quase eliminada por completo. Podemos ver passos em direcção à ciência na China e na Índia antigas, bem como noutros lugares, embora vacilantes, incompletos e produzindo menos frutos. Mas imagine-se que os Jónios nunca tinham existido e que a ciência e a matemática gregas não se tinham desenvolvido. Seria possível que a ciência não tivesse aparecido na história da espécie humana? Ou, dada a grande quantidade de civilizações e o emaranhado de alternativas históricas, não é provável que a combinação exacta de factores se tivesse verificado noutro sítio qualquer, mais cedo ou mais tarde – nas ilhas da Indonésia, por exemplo, ou nas Caraíbas, nas imediações de uma civilização meso-americana não alcançada pelos con­quistadores, ou em colónias escandinavas nas margens do mar Negro?Julgo que o impedimento ao pensamento científico não é a dificul­dade do tema. Até nas civilizações oprimidas se verificam proezas intelectuais complexas. Os xamãs, os mágicos e os teólogos são alta­mente dotados nas suas artes imbricadas e secretas. Não, o impedi­mento é político e hierárquico. Nas civilizações onde não existem desafios desconhecidos, externos nem internos, onde não é necessária uma alteração fundamental, as ideias novas não precisam de ser enco­rajadas. Na realidade, as heresias podem ser declaradas perigosas, o pensamento pode tomar-se rígido; e podem ser aplicadas sanções con­tra as ideias proibidas – tudo isto sem provocar grandes danos, Mas, em circunstâncias ambientais, biológicas ou políticas que sofreram, alterações e que se encontram em mutação, a simples cópia dos antigos usos já não funciona. Nessa altura há um prémio à espera daqueles que, em vez de se limitarem a seguir a tradição, ou de tentarem impor as suas preferências sobre o universo físico ou social, estão abertos ao que o universo ensina.
Cada sociedade tem de decidir onde se encontra a segurança no continuum entre abertura e rigidez.»

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

SEM ESPERANÇA

Duas pessoas que prezo, professoras, fizeram comentários em blogs sobre a falta de empenho dos seus alunos para com práticas ambientais. Que ao serem confrontados com a informação das consequências futuras das más práticas ambientais, terão respondido que tal já não era para eles.Chocados? Eu não. Só reflectem a falta de esperança. Eles são adolescentes que sempre foram criados num país já em crise profunda, em que os pais já subsistem no desespero, transmitindo-lhes uma ambiência de desesperança. Eles não têm futuro. Eles não têm esperança. A resposta deles exprime isso

terça-feira, 7 de novembro de 2006

NUNCA ALCANÇAREMOS EMENDA

«Em tais condições, diminuída nas fontes produtivas e administrada com desleixo, não podia a exploração do acervo, terra e trabalho humano, em que consistia a indústria régia, manter-se em estado próspero. As receitas cedo deixaram de cobrir as despesas, e foi necessário inventar novos meios de produção. Até à expulsão final dos mouros, o despojo das guerras de conquista, preen­chia a diferença. Faltando este, o recurso imediato e mais favorável, de que se lançou mão, foi o das altera­ções da moeda. Desde o reinado de Afonso III, talvez de antes, trocar a que andava em circulação por outra de menos valor intrínseco, cunhada para o fim, tornou-se fonte de receita ordinária. Para evitar os transtornos e perdas que da extorsão derivavam, conveio-se em Cortes renunciar o monarca à prática, mediante um tributo.Mas o acordo pouco tempo se observou. E foi com des­prezo dele, como se nunca o tivera havido, que D. Fer­nando e D. João I lograram financiar as suas guerras.
Outro manancial de receitas facultavam os pedidos, tributo suplementar eventual, exigido aos povos, quando a necessidade ocorria, e os empréstimos forçados; mas nenhumas das contribuições poderia ser produtiva senão a largos intervalos. Ambas tinham sido imposições locais, dos senhores, em suas terras; constituídas, por fim, em direito exclusivo da coroa, que vedou àqueles, com penas, extorquirem por esse meio quaisquer somas aos povos.De carácter permanente foi o tributo das sisas, imposto de que também o monarca esbulhou em pro­veito da realeza os concelhos.
»
J. Lúcio de Azevedo, in " Épocas de Portugal Económico"

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

EM ORDEM

Não sei. Não sei se está tudo em ordem. Ou na ordem. Também não sei onde está o caos. Eu simplesmente não sei. Assim como não sei se este universo é de único verso. Só conhecemos neste verso um planeta que habitamos. Este universo é, para a nossa sabedoria, um caos ordenado. A sua ordem ultrapassa todas as leis científicas do planeta, ou os habitantes do planeta não ultrapassam a sua capacidade limitada de conhecer. Mas neste verso do universo deste planeta há harmonia. Tudo se coordena em harmonia. Como uma sinfonia perfeita. No princípio era o verbo. No fim a apoteose da execução harmónica.
Neste planeta a caminho de um caos momentâneo, há demasiada verborreia que impede a audição harmónica. A desafinação das cordas tenderá a vibrar num tom telúrico. Após a afinação, então, estará no horizonte a ordem que possibilitará tentar-se tocar harmonia.

domingo, 5 de novembro de 2006

VAGUEAVA

Vagueava por S. Catarina. Sem abrigo das transversais de Santa Catarina ou de outras paragens mais para o lado da Ribeira. Passeava entre casais com os filhos. Sábado de compras. De castanhas assadas. Também já foi casado. Mas sobreveio o divórcio destrutivo. A seguir o desemprego, sem que ele tenha contribuído para a falência da empresa. Deixou de estar, deixou de ter, deixou de ser. Aos quarenta e sete anos a sociedade, o país diagnosticou-lhe velhice. Então é que perdeu mesmo a dignidade, pois essa doença incapacitante para o trabalho, destrói o que resta de auto-estima. Deambula pelo Porto. Já nem sequer tem pachorra para tentar deambular por Lisboa. Alguns que se cruzam com ele fazem por não o reconhecer. Outros não o reconhecem mesmo, tal a transformação que as vicissitudes da vida lhe impuseram. Também já todos lhe são indiferentes. Até a família. Deambula quase abstracto. Nos andares lá de cima estarão muitas pessoas. Todas solitárias. Muitas relacionando-se com as telas dos seus PCs, comentando no tom do politicamente correcto tudo e todos. Vigiando a manutenção dos seus interesses, mas incapazes de um gesto solidário com quem deambula pela cidade sem ter onde se abrigar. Só os voluntários lhes levam algo, incluindo o carinho de uma palavra. Também ele já morou num andar e tinha um PC. Também comentou sem solidariedade nenhuma. Deixou de ter, deixou de ser, deixou de estar. Deixaram-no.

sábado, 4 de novembro de 2006

OS OUTROS

São todos aqueles que nos aborrecem ou nos enternecem. Mas se calhar são-nos indiferentes. A nossa sociedade hoje é egoísta. Hoje vivemos quase todos virados para o nosso umbigo. E somos críticos. Demasiado críticos para os pecados que cometemos. O que faz desta sociedade um conjunto hipócrita. Exigem, mas em nada contribuem. As pessoas tornaram-se demasiado egoístas ao ponto de darem demasiada importância a ninharias que julgam contribuírem para o seu status e valorização social. E desprezam o que é importante para elas e para os outros. Já não são solidárias. Nem para o próximo nem para o distante. Se politicamente correcto, contribuem só com dinheiro, que julgam que compra tudo, incluindo as sua próprias consciências. Nunca contribuem com carinho nem ternura, nem com um gesto de solidariedade. Nem para os seus próximos. Mas criticam, até os seus próximos. E sobretudo desprezam. Sobretudo desprezam.
Até um dia. Aquele em que irão começar a pagar a factura. Porque esse dia vai começar mais cedo do que a voragem do seu exibicionismo social lhes permite apreender. O ângulo do umbigo é demasiado estreito.

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

JÁ ANDO IRRITADO COM ESTA DISCUSSÃO DO ABORTO

Desde logo porque se fala em despenalização e não em descriminalização. Tiram a pena e mantêm o crime. Ridículo. Patético.
Mas quero já dizer que eu, por concepção da moral e princípios de ética, sou contra o aborto, mas sou totalmente a favor de que as pessoas, se assim o entenderem, o façam em plena liberdade.
A Igreja Católica que defende, e bem, por razões doutrinais, a existência da vida e, por isso, é anti-aborto, age mal quando tenta impedir pela força a prática do aborto. A Igreja deveria limitar-se ao seu papel de elucidar sobre o bem e o mal. E depois cada um agiria em consciência. Mas não consegue fugir à sua vocação fundamentalista de obrigar as pessoas a não pecar à força. E desde sempre. Por isso é que para salvar a alma de pecadores lhes destruía o corpo nas fogueiras das inquisições, com ou sem ofício de santo tribunal. Age mal a Igreja e dá sinais errados aos seus seguidores, e aos não seguidores, sobre a bondade no e do Evangelho.
Depois também a hipocrisia de muitas pessoas que não tendo filhos, não tendo intenção de contribuir para os ter, porque é de sua natureza serem avessos a isso, fazem campanha contra o aborto, o que não ajuda nada a clarificar a questão.
Também a hipocrisia geral de quem não toma atitude nenhuma de cidadania, piora a situação. À mistura com uma série de dramas sociais, de vária índole, que vagueiam pelo país.
Finalmente não entendo tanto alvoroço, porque o problema resolve-se bem em Espanha, e ainda por cima É MAIS BARATO do que em Portugal. Deveria ser possível fazer o aborto em Portugal, em sã liberdade e em perfeitas condições, mas seria ou vai ser sempre muito mais caro do que em Espanha. Os actos médicos em Espanha são mais baratos do que em Portugal, apesar de lá se ganhar melhor e a economia ser muitíssimo melhor do que a portuguesa. Vá-se lá a saber porquê.

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

SUPÉRFLUO

«Todo o mal provém não da privação, mas do supérfluo.» Fernando Namora

INDIA

«A Índia é um país difícil de caracterizar e os Indianos não são de defi­nição fácil, sobretudo numa altura em que se assiste a uma transição que os transporta das sombras da História para o esplendor de um mundo no limiar da globalização. Este livro é uma tentativa de dar a perceber quem realmente somos, no contexto do nosso passado e enquadrados no futuro. É uma tarefa difícil e arriscada. A Índia é um país demasiado grande e diversificado para permitir classificações generalistas, por motivos de con­veniência. Todas as generalizações encerram excepções notáveis. Todas as semelhanças encerram diferenças significativas.

(…)

Actualmente, a Índia parece estar no limiar de uma descolagem, mas as razões para tal extravasam a euforia da actual vaga de «bem-estar».,
Ao analisar-se um povo que esteve, durante milénios, no centro da História, não é possível traçar um cenário definitivo. Nem tudo pode ser bom, tal como nem tudo pode ser mau. O desafio consiste em fazer uma espécie de ba­lanço, que tenha como base os pontos fortes basilares de um povo, e em defen­der a tese de que, apesar das evidentes fraquezas, os pontos fortes irão prevalecer. A cultura, a história e a estrutura da sociedade desempenham um papel fundamental neste balanço, bem como a inerente resistência do povo, as suas ambições e asPirações. Há ainda que contar com o nosso inex­plicável talento para vencer dificuldades, embora muitas vezeS de forma atabalhoada, com a nossa capacidade de transformar fraquezas em for­ças e, evidentemente também, com uma sempre necessária dose de sorte.

(…)

O objectivo deste livro é tentar fazer uma análise nova e comple­tamente diferente do que significa ser indiano. Tal análise assume, nos dias de hoje, particular relevância, não apenas para a Índia, mas para o mundo no seu conjunto. No século XXI, um em cada seis seres humanos será indiano. É muito provável que a Índia venha a tornar-se a segunda maior sociedade de consumo do mundo, com uma classe média constituída por mais de 500 milhões de pessoas e dotada de poder de compra. A economia indiana é já a quarta maior do mundo, em termos de paridade do poder de compra. Situa­-se no grupo dos dez países com maior produto interno bruto. Sendo -a maior democracia do mundo, é também uma potência nuclear, estando convicta do seu direito de se tornar membro per­manente do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Além disso, há mudanças significativas a decorrer rapidamente em todo o subcontinente. Dispondo de mais licenciados do que toda a população da França, a Índia está a reconquistar o reconheci­mento mundial das suas competências na área das tecnologias de informação. Prevê-se que a exportação de software proporci9pe uma facturação de mais de 5 O milhares de milhões de dólares ame­ricanos no espaço de poucos anos. A diáspora indiana é, a seguir à chinesa, a segunda maior do mundo. A comunidade indiana emi­grada nos EUA surge como a mais rica de todas e as comunidades de indianos, noutros países, são cada vez maiores, mais importantes e abastados, como sucede no Reino Unido e nos estados do golfo Pérsico. Quer o resto do mundo queira ou não, ser-lhe-á difícil não ter de interagir com indianos, de muitas formas, no novo milénio.»
Pavan K. Varma, in "A Índia no Século XXI"

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

E AINDA MAIS SOBRE O PORTUGAL-ESPANHA

Não posso deixar de incluir neste blog um artigo saído ontem, aqui, no Público. Para reflexão.

«E a Espanha aqui tão perto
sem fronteiras

1.Fernando Neves, o embaixador português que exerceu até Julho passado as responsabilidades de secretário de Estado dos Assuntos Europeus e que, há quase 30 anos, levou a Bruxelas a carta formal com o pedido de adesão de Portugal à então CEE, recordou uma velha história das negociações dos dois países ibéricos que reflecte bem o modo como cada um deles se vê a si próprio e aos outros. Pouco depois dos pedidos formais, uma delegação da Comissão Europeia veio a Madrid e a Lisboa para elaborar o chamado "fresco" da situação dos dois países - primeiro passo para determinar a estratégia negocial. Quando aterrou em Lisboa, vinda de Madrid, a primeira coisa que um dos seus membros disse aos portugueses foi o seguinte: "Acabámos de chegar da primeira sessão das negociações das Comunidades Europeias com a Espanha." Fernando Neves contou esta história em Cáceres, na semana passada, durante uma conferência organizada pela Junta da Extremadura com o lema A Casa Comum Europeia, 20 anos que mudaram Espanha e Portugal. Pouco depois, o seu parceiro de debate, o embaixador Javier Elorza, certamente um dos diplomatas espanhóis com mais experiência europeia, confirmaria, provavelmente sem querer, a moral desta história. Sem sequer pestanejar, Elorza, que esteve em Bruxelas à frente da representação espanhola durante muitos anos, explicou como foram os dois países ibéricos (foi simpático, mas estava certamente a pensar na Espanha) que ofereceram à Europa uma política externa. O mais interessante é que isto nem sequer soa a arrogância, parece apenas reflectir uma ilimitada autoconfiança de um país que, ao libertar-se do franquismo e ao integrar-se na Europa e na NATO, não mais deixou de se sentir determinado, seguro e confiante.
2. A economia corre-lhe bem. Bem demais, quase me atreveria a dizer, depois de ouvir, na mesma conferência de Cáceres, José Luís Malo de Molina, director-geral do Gabinete de Estudos do Banco de Espanha, explicar as razões do longo ciclo de expansão económica da Espanha, que soma e segue. Com um excedente orçamental e uma dívida a rondar os 40 por cento, muito abaixo da média europeia, a economia espanhola está a crescer duas vezes mais do que a média da zona euro, graças sobretudo ao investimento. A redução acentuada do desemprego (que foi muito alto nos anos 90, graças aos ajustamentos estruturais da economia) andou a par com um crescimento muito forte da população, devido sobretudo à imigração (a Espanha passou de 40 milhões para 44 milhões de habitantes entre 1999 e 2005), que representa hoje cerca de 10 por cento da população activa. Como sublinhou o economista do Banco de Espanha, a emigração ajudou a criar emprego e ajudou a aumentar a flexibilidade do mercado de trabalho, reduzindo acentuadamente a taxa de desemprego. O reverso da medalha é um crescimento moderado da produtividade, que exigirá agora novas prioridades políticas. Há sempre um reverso da medalha, mas há medalhas melhores que outras, e a grande conclusão que se pode tirar da exposição de Malo de Molina, mas também da de Felipe González que, com Mário Soares, abriu os trabalhos da conferência, é muito simples: a Espanha soube lucrar enormemente com o euro porque se preparou para ele flexibilizando a sua economia. Colocado perante uma pergunta sobre as razões do sucesso económico prolongado de Espanha, Malo de Molina apontou razões das quais todos nós já suspeitávamos. A continuidade das políticas económicas dos governos González, Aznar e Zapatero e, sobretudo, a continuidade das reformas. "O que foi fundamental foram as transformações das estruturas económicas de Espanha para se adaptar. Em Portugal foi mais lento", diria também Felipe.Foi isso precisamente que nos faltou, prepararmo-nos para o euro. "Portugal não interiorizou as exigências da moeda única. Nem o Estado, nem os sindicatos, nem as empresas", como disse Francisco Sarsfield Cabral, a quem coube a ingrata tarefa de contrapor a situação económica portuguesa à espanhola. E o problema é que continua a ser muito difícil fazer mudanças em Portugal. O debate é pobre, o Estado é omnipresente e paternalista, a sociedade civil fraca.
3. A conferência foi organizada no âmbito da Ágora, uma iniciativa anual da Junta da Extremadura que só por si reflecte o dinamismo de uma região espanhola que é das menos ricas mas que percebe que tem tudo a ganhar abolindo a fronteira que a separa de Portugal. A ideia era justamente comparar os caminhos percorridos pelos dois países - divergências e convergências - e ver se entre ambos havia interesses comuns suficientes e uma visão suficientemente partilhada para poderem pesar positivamente numa Europa hoje mergulhada numa profunda crise de destino.Em muitas coisas, os dois países convergem. Para começar, nalgumas das suas prioridades externas e na vontade de levar a Europa a agir de forma mais convincente e unida no Mediterrâneo ou na América Latina. Ambos têm o mesmo interesse vital em manter-se no "centro" da construção europeia, seja qual for o domínio da integração, da economia à defesa. Ambos procuraram (com a excepção, em parte, de Aznar) alinhar as suas políticas europeias pelo eixo franco-alemão, pelo menos enquanto funcionou como o motor da Europa, ou pela Alemanha, que funciona agora e cada vez mais como o pólo da integração. Mário Soares juntou a este património europeu comum a convergência das políticas internas, graças à identificação ideológica entre os dois primeiros-ministros socialistas, Sócrates e Zapatero, para defender em Bruxelas uma união política assente na coesão do seu modelo social. Há muito de comum entre os dois países ibéricos na forma como vêem a Europa, que radica precisamente na sua experiência feliz de integração europeia. Como sublinhou Álvaro de Vasconcelos, também em Cáceres, ao contrário do que se passa em muitos outros países, não estamos a sofrer dos males da xenofobia e do nacionalismo, não tememos os alargamentos, não somos contra a Turquia, acreditamos na força dos valores europeus. Mas esta crise europeia, como muitos participantes também sublinharam, de Felipe a Carlos Gaspar ou a Gil Robles, não é uma crise como as outras. Nem é, muito menos, apenas uma crise constitucional. A Constituição era boa, disse Felipe, mas não resolveria os problemas de fundo. Que estão mais na "agenda de Lisboa", ou melhor, no relativo fracasso de um bom diagnóstico e de uma boa estratégia, do que nas soluções institucionais.António Vitorino colocaria as coisas do mesmo modo. O problema maior é que não há um acordo sobre o que deve ser a Europa no século XXI. Há duas visões da identidade europeia - uma com Turquia e outra sem Turquia. Há duas visões da Europa sobre a sua relação com o mundo globalizado - uma que a vê como um projecto que nos protege dos ventos da globalização e que transpõe para a União Europeia o velho proteccionismo nacional. Outra que só vê um novo sentido para a Europa se nos permitir agir globalmente, económica e politicamente, com todas as consequências que isso tem nas políticas internas. Europa fortaleza ou Europa aberta? Eis o dilema europeu. Vitorino deixou também um bom conselho: "A melhor maneira de se ser optimista hoje, na Europa, é começar por ser pessimista."

terça-feira, 31 de outubro de 2006

UM PAÍS MENOS ALEGRE

No "SOL", de 14.10.2006, por josé António Saraiva

«A atracção pela morte é um dos sinais da decadência. Portugal deveria estar, neste momento, a discutir o quê? Seguramente, o modo de combater o envelhecimento da população. Um país velho é um país mais doente. Um país mais pessimista. Um país menos alegre. Um país menos produtivo. Um país menos viável - porque aquilo que paga as pensões dos idosos sãoos impostos dos que trabalham. Era esta, portanto, uma das questões que Portugal deveria estar adebater. E a tentar resolver. Como? Obviamente, promovendo os nascimentos.»
Isto é estratégico. Mas como eu venho dizendo, em Portugal nenhum governante tem uma visão de estratégia, nem sequer uma ideiazinha do que isso é.
E o meu amigo Pedro "N" diria que isso é um problema porque há muita mal amada. No que eu também concordo. Se ele fosse ouvido com mais atenção, poupava-se muito dinheiro e muita frustração.

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

EXCEPÇÕES

Já repararam na percentagem de sinais de trânsito, de proibição, que têm acoplado uma tabuleta com excepções à proibição que ostentam? E se julgam que isto não tem nada a var com o país, enganam-se. Tem tudo. Um país onde nada se cumpre e nada é para cumprir.

domingo, 29 de outubro de 2006

PROPONHO UM EXERCÍCIO TEÓRICO


Vamos supor uma estrada a que atribuo um valor de cem mil contos, apenas para poder atribuir, proporcionalmente, valores a outras operações relacionadas. E tudo num quadro sem inflações, para não ter de entrar com grandes cálculos financeiros e económicos de que não sou mestre.
Posto isto passemos ao exercício.
Uma estrada de custo de cem mil contos. Necessitaria de uma manutenção anual de dois mil contos e, em cada dez anos, uma manutenção extraordinária de vinte mil contos. O que daria que, se não houvesse aumento de tráfego rodoviário que justificasse uma expansão, a estrada se mantivesse sempre operacional nas devidas condições.
Mas a realidade em Portugal daria outras contas. Primeiro não custaria cem mil contos,mas sim uns 130 mil contos, porque há as comissões a que as construtoras estão sujeitas pela benesse da adjudicação, que já subiu de 3% para 5%, e por isso se defendem na “derrapagem” dos custos, onde incluem as moras nos pagamentos das tranches.
Depois nunca se orçamenta e se gasta dinheiro nas pequenas manutenções. Há que aplicar noutros foclores, porque para o “povo”. Logo a estrada começaria a deteriorar-se em progressão geométrica, o que levaria a que no sexto ano de vida tivesse de ter uma intervenção de manutenção de 50 mil contos. Se tivesse tido uma manutenção normal o custo no décimo ano seria de 40 mil contos. Mas há que contar também com os prejuízos que todas as viaturas que por lá circulariam iam sofrendo por utilizar a estrada. E também contar com o prejuízo sofrido pelo que ficaria por fazer, porque como não orçamentavam nada para a manutenção, quando fosse inevitável fazê-lo, iriam tirar dinheiro que estava orçamentado para outra função qualquer, prejudicando esses objectivos.
Tudo isto resultaria numa conjugação de prejuízos que, normalmente, não vejo contabilizados.
Isto não passa de um mero exercício teórico, mas com certeza reflecte como em Portugal se gere mal a res publica, ou seja, a coisa pública.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

PAGADOR UTILIZADOR. HÁ DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS?

Rui Moreira escreve hoje um artigo no Público, aqui, onde me suscitou a questão do pagador utilizador. Ele terminou assim:

Fica a ideia que a decisão foi tomada porque promete um encaixe potencial de milhões para os cofres do Estado. Ora, se há um problema orçamental que limita o investimento público, é lícito perguntar por que é que este mesmo Governo insiste em obras faraónicas que não são sequer consensuais. Pior, fica-se com a ideia, numa altura em que as nossas contas públicas não as aconselham, que essas obras induzem esta política precipitada, que escapou a uma análise de custo e benefício global. É pena, porque a questão das Scut é séria e escuda-se no princípio tão em voga do utilizador-pagador que deveria suscitar, por uma vez, uma discussão profunda sobre as funções do Estado.

Ora eu ponho outra questão. A do pagador utilizador. Se os bem pensantes dos governos falam amiúde em utilizador pagador, eu, pensando bem, invoco o conceito de pagador utilizador. Se eu pago impostos para o Estado é para ser utilizador de serviços que o Estado me devia prestar. Se quem utiliza deve pagar, logo quem paga deve utilizar. Só que os melros dos governos entendem que devem ser utilizadores dos nossos dinheiros, mas que não nos devem prestar serviços, porque querem utilizar esses dinheiros em mordomias e prebendas, sem serem obrigados a prestar serviços. Entendem que o dinheiro dos impostos é para pagar ordenados e outras coisas lá à malta que vive do Estado e que o cidadão se quiser os serviços porque já pagou, o deve pagar novamente no acto da prestação do serviço. Dois pesos e duas medidas. Ai este país.

terça-feira, 24 de outubro de 2006

PARA REFLECTIR PROFUNDAMENTE

António Barreto, no artigo " SEM FIM À VISTA",que escreveu para o Público, aqui, encerrou assim:

O Ministério da Educação e os sindicatos de professores são os maiores obstáculos e os mais temíveis inimigos da educação. Coligam-se de vez em quando e daí vem prejuízo para os estudantes e seus pais. Guerreiam-se a maior parte do tempo e daí resultam danos para os estudantes e seus pais. Enquanto estes adversários não destroçarem, não conheceremos progresso educativo e cultural.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

REPENSAR. REPENSAR

De uma amiga, no Brasil, recebi, por email, esta carta. E fiquei inquieto. Com a prestação das duas gerações que me precederam, com a minha e com as duas seguintes. Ainda estou a reflectir.

DIGA NÃO A REELEIÇÃO


CARTA PARA O CHICO BUARQUE
28.10, 0h - sugestão para repetir neste dia
por José Danon, no Estadão

Chico, você foi, é e será sempre meu herói. Pelo que você foi, pelo que você é e pelo que creio que continuará sendo. Por isso mesmo, ao ver você declarar que vai votar no Lula "por falta de opção", tomei a liberdade de lhe apresentar o que, na opinião do seu mais devoto e incondicional admirador, pode ser uma opção.

Eu também votei no Lula contra o Collor. Tanto pelo que epresentava o Lula como pelo que representava o Collor. Eu também acreditava no Lula. E até aprendi várias coisas com ele, como citar ditos da mãe. Minha mãe costumava lembrar a piada do bêbado que contava como se tinha machucado tanto.
Cambaleante, ele explicava: "Eu vi dois touros e duas árvores, os que eram e os que não eram. Corri e subi na árvore que não era, aí veio o touro que era e me pegou." Acho que nós votamos no Lula que não era, aí veio o Lula que era e nos pegou.

Chico, meu mestre, acho que nós, na nossa idade, fizemos a nossa parte. Se a fizemos bem feita ou mal feita, já é uma outra história. Quando a fizemos, acreditávamos que era a correta. Mas desconfio que nossa geração não foi tão bem-sucedida, afinal. Menos em função dos valores que temos defendido e mais em razão dos resultados que temos obtido. Creio que hoje nossa principal função será a de disseminar a mensagem adequada aos jovens que vão gerenciar o mundo a partir de agora. Eles que façam mais e melhor do que fizemos, principalmente porque o que deixamos para eles não foi grande coisa.
Deixamos um governo que tem o cinismo de olimpicamente perdoar os
companheiros que erraram" quando a corrupção é descoberta.

Desculpe, senhor, acho que não entendi. Como é, mesmo? Erraram? Ora, Chico.
O erro é uma falha acidental, involuntária, uma tentativa frustrada ou malsucedida de acertar. Podemos dizer que errou o Parreira na estratégia de jogo, que erramos nós ao votarmos no Lula, mas não que tenham errado os zésdirceus, os marcosvalérios, os genoinos, dudas, gushikens, waldomiros, delúbios, paloccis, okamottos, adalbertos das cuecas, lulinhas, beneditasdasilva, burattis, professoresluizinhos, silvinhos, joãopaulocunhas berzoinis, hamiltonlacerdas, lorenzettis, bargas, expeditovelosos, vedoins,
freuds e mais uma centena de exemplares dessa espécie tão abundante, desafortunadamente tão preservada do risco de extinção por seu tratador.
Esses não erraram. Cometeram crimes. Não são desatentos ou equivocados. São criminosos. Não merecem carinho e consolo, merecem cadeia.

Obviamente, não perguntarei se você se lembra da ditadura militar. Mas perguntarei se você não tem uma sensação de déjà vu nos rompantes de nosso presidente, na prepotência dos companheiros, na irritação com a imprensa quando a notícia não é a favor. Não é exagero, pergunte ao Larry Rother do New York Times, que, a propósito, não havia publicado nenhuma mentira. Nem mesmo o Bush, com sua peculiar e texana soberba, tem ousado ameaçar jornalistas por publicarem o que quer que seja. Pergunte ao Michael Moore. E
olhe que, no caso do Bush, fazem mais que simples e despretensiosas alusões aos seus hábitos ou preferências alcoólicas no happy hour do expediente.

Mas devo concordar plenamente com o Lula ao menos numa questão em especial:
quando acusa a elite de ameaçá-lo, ele tem razão. Explica o Aurélio Buarque de Hollanda que elite, do francês élite, significa "o que há de melhor em uma sociedade, minoria prestigiada, constituída pelos indivíduos mais aptos"
Poxa! Na mosca. Ele sabe que seus inimigos são as pessoas do povo mais informadas, com capacidade de análise, com condições de avaliar a eficiência e honestidade de suas ações. E não seria a primeira vez que essa mesma elite faz esse serviço. Essa elite lutou pela independência do Brasil, pela República, pelo fim da ditadura, pelas diretas-já, pela defenestração do Collor e até mesmo para tirar o Lula das grades da ditadura em 1980, onde
passou 31 dias. Mas ela é a inimiga de hoje. E eu acho que é justamente aí que nós entramos.

Nós, que neste país tivemos o privilégio de aprender a ler, de comer diariamente, de ter pais dispostos a se sacrificar para que pudéssemos ser capazes de pensar com independência, como é próprio das elites - o que, a propósito, não considero uma ofensa -, não deveríamos deixar como herança para os mais jovens presentes de grego como Lula, Chávez, Evo Morales, Fidel - herói do Lula, que fuzila os insatisfeitos que tentam desesperadamente escapar de sua "democracia". Nossa herança deveria ser a experiência que acumulamos como justo castigo por admitirmos passivamente ser governados pelo Lula, pelo Chávez, pelo Evo e pelo Fidel, juntamente com a sabedoria de poder fazer dessa experiência um antídoto para esse globalizado veneno.
Nossa melhor herança será o sinal que deixaremos para quem vem depois, um claro sinal de que permanentemente apoiaremos a ética e a honestidade e repudiaremos o contrário disto. Da mesma forma que elegemos o bom, destronamos o ruim, mesmo que o bom e o ruim sejam representados pela mesma pessoa em tempos distintos.

Assim como o maior mal que a inflação causa é o da supressão da referência dos parâmetros do valor material das coisas, o maior mal que a impunidade causa é o da perda de referência dos parâmetros de justiça social. Aceitar passivamente a livre ação do desonesto é ser cúmplice do bandido, condenando a vítima a pagar pelo malfeito. Temos opção. A opção é destronar o ruim. Se o oposto será bom, veremos depois. Se o oposto tampouco servir, também o destronaremos. A nossa tolerância zero contra a sacanagem evitará que as passagens importantes de nossa História, nesse sanatório geral, terminem por desbotar-se na memória de nossas novas gerações.

Aí, sim, Chico, acho que cada paralelepípedo da velha cidade, no dia 29 de
outubro, vai se arrepiar.

Seu admirador número 1,

Zé Danon


José Danon é economista e consultor de empresas