terça-feira, 1 de julho de 2008

SOBRE O DEVER

Escreve Helena Matos um excelente artigo, hoje no Público, aqui, intitulado «Os juízes não vão ao futebol?». Excelente e a não perder.
Dois trechos a destacar:

A esta mesma hora gostaria de saber onde estão e o que têm para dizer aqueles que, há treze anos, se opuseram à construção da barragem de Foz Côa. A barragem do Sabor tornou-se mais ou menos inevitável desde que se suspendeu Foz Côa. Na época ninguém fez contas aos custos económicos e ambientais da suspensão da barragem de Foz Côa. Um desses custos está agora aí na construção da barragem do Baixo Sabor e no quase apagamento do que aconteceu em Foz Côa.
(...)
Afinal quando foi a última vez que ouvimos um líder político falar de dever e deveres? De brio? E mais raramente ainda o que aconteceu à noção de responsabilidade dos altos cargos da administração pública?

sábado, 28 de junho de 2008

SÉCULO XXI

Mas o mais surpreendente é o facto de grande parte da população deste “Portugal Profundo” viver, de forma atávica, ainda em certa harmonia com o espírito destes lugares e enquadrada numa cosmovisão religiosa do mundo, absolutamente natural para ela. Esta ligação com os lugares é mantida através de tradições, cultos e lendas, mantendo-se ain­da vivos imensos vestígios de uma integração arcaica do ho­mem no cosmos, o que constitui um tesouro inestimável num mundo em fase acelerada de dessacralização (diríamos mesmo bestialização) da vida humana. Todavia, o homem é um ser reli­gioso por natureza (mesmo os sistemas chamados ateus têm os seus ídolos e as suas mitologias) pelo que, actualmente, e como reacção natural, emergem violentamente as chamadas patolo­gias do sagrado sob a forma de superstições religiosas alimen­tadas por líderes 'muito pouco religiosos', e por grupos es­piritualistas que seduzem o homem-exterior em lugar de pro­porcionarem a emergência da alma interior, o que é natural­mente doloroso para os hábitos entrópicos da personalidade. Com clarividência e alguma ironia, Carl Gustav Jung afirmou, em 1944: "Na realidade, não hesitamos em fazer as coisas mais absurdas a fim de escaparmos à nossa própria alma. Pratica-se a ioga indiana de qualquer escola, seguem-se regimes alimenta­res, aprende-se de cor a teosofia, rezam-se mecanicamente os textos místicos da literatura universal - tudo isto porque já não se consegue conviver consigo próprio e porque falta fé em que algo de útil possa brotar de nossa própria alma. Pouco a pouco esta última tomou-se aquela Nazaré da qual nada de bom se pode esperar, vai-se portanto procurá-la nos quatro cantos da terra: quanto mais distante e exótico, melhor". O eminente psicólogo colocou bem o dedo na ferida: o homem do terceiro milénio tem de restabelecer o diálogo com o seu inconsciente, tem de trazer à consciência o seu mundo mítico a fim de se auto-realizar, ou seja, deve levar a bom termo o seu processo de individuação abrindo-se à sua interioridade e dimensão espiri­tual. Por isso, André Malraux afirmou: "o século XXI será espiritual ou não será!".
Paulo Alexandre Loução, in "Portugal - Terra de Mistérios"

sábado, 21 de junho de 2008

O PROBLEMA ACTUAL DA UNIÃO EUROPEIA

O problema da União Europeia é o desfasamento que existe entre os políticos e as populações. A tentativa feita de aprovarem o Tratado de Lisboa à revelia das populações pode redundar no fracasso, a prazo, da União. Se as populações não estiverem envolvidas nos objectivos da União, mais tarde ou mais cedo, o preço vai ser pago. Não consultarem as populações nem auscultarem os seus anseios, determina, sem sombra de dúvidas, que não há sintonia entre as políticas e as aspirações das populações. E que não há confiança das populações nos seus políticos. Por isso estes fogem, como o diabo da cruz, das consultas populares. Mas, a prazo, augura-se o colapso “desta” Europa artificial. E é artificial porque não corresponde às perspectivas das populações europeias. Em boa verdade, sem consulta geral, não se sabe bem o que a população europeia pensa sobre a União Europeia e o que pretende para o futuro dessa União

sexta-feira, 20 de junho de 2008

HÁ FRASES ELUCIDATIVAS DOS DESASTRES

Uns dias depois do início do Euro 2008 ouvi um jornalista, de televisão (o que faz a sua diferença), dizer, em directo, por causa de haver muitos jornalistas não portugueses à volta da selecção portuguesa, que « o mundo estava rendido aos pés de Portugal». Claro que presunção e água benta cada um toma a que quer, mas elucida como há derrotas pré anunciadas. A de ontem só pecou por tardia. Mas a parvoíce dos declamadores de baboseiras vai continuar. Hoje, dia dos discursos de redenção, não vão faltar frases imbecis. Mas um estado que tende, rapidamente, para estado exíguo, nunca tem ninguém rendido a seus pés em nenhum aspecto. Só a mediocridade nacional tem essa capacidade de visão.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

A MEDIOCRIDADE É A CONSTANTE DA EQUAÇÃO PORTUGUESA ACTUAL

O grande problema nacional é a mediocridade e a resignação à mediocridade.

José Saramago, em entrevista ao Público de 15.06.2008.

terça-feira, 17 de junho de 2008

DE GARGALHAR! OU ENTÃO DE CHORAR.

Helena Matos há muito que me habituou a excelentes artigos. Hoje, no Público, o seu artigo "A GARGALHADA" está acutilante. Destaco os seguintes trechos:
Ninguém se levantou, ninguém pediu a palavra para dizer ao secretário de Estado que os presentes, ou pelo menos alguns deles, não consideram que a integração nas escolas comuns seja benéfica para todas as crianças deficientes. Não aconteceu nada daquilo que seria previsível numa democracia. Simplesmente os presentes desataram a rir. Este riso é o mais claro sintoma do descrédito que se instalou na sociedade portuguesa.
(...)
Agora que o sortilégio se quebrou, os outrora beatíficos assistentes riem. Não por falta de educação. Muito menos por desprezo. Riem com aquele riso que se cruza com o choro e que nos diz que já não há nada a fazer.
(...)
Entretanto os cidadãos estão presos entre as gargalhadas de uns e as milícias dos outros. Mas ao contrário do que José Sócrates declarou na Assembleia da República, o Estado não está frágil. O Estado simplesmente esvaziou-se das suas funções tradicionais, o que levou a que os mais fracos não só ficassem ainda mais fracos, como a que se instaurasse um sentimento de impunidade. Este é o Estado que não só não consegue ter uma justiça credível, como fez da negação do crime uma verdade oficial. Um Estado que reduziu os cidadãos à condição de contribuintes. Um Estado que não consegue ter um discurso adulto e claro sobre o papel das suas forças armadas. O Estado que detesta as pequenas e médias empresas, mas que adora atribuir estatutos PIN à meia dúzia dos seus eleitos. O Estado que Sócrates sentiu frágil é o Estado forte que faz andar as suas forças policiais de café em café a ver se alguém está a fumar, mas que depois é de facto incapaz de impedir um bloqueio de estradas. Até há algumas semanas seria mais provável que o Estado português se assanhasse para apurar a cor das facas, a qualidade do carvão, o tipo de grelhadores e a marca dos detergentes usados no churrasco feito pelos camionistas para celebrar o fim do bloqueio do que com o bloqueio propriamente dito. O Estado não só não está frágil, como tem usado e abusado da sua força contra os cidadãos. O que era e é frágil, muito frágil mesmo, são as ideias que residem na cabeça de quem nos tem governado. Na verdade nem são ideias. São simplesmente castelos erguidos pela propaganda. A realidade murcha-os e o sopro duma gargalhada fá-los ruir.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

UMA FRASE A MEDITAR

Os factos estão a confirmar o aviso que a utopia das sociedades afluentes e consumistas fez esquecer. Mas a mensagem da mansidão dificilmente será reverenciada se os factos confirmarem os alarmes.
Adriano Moreira, DN, 10 de Junho de 2008.
A geoestratégia terá de ter sempre em conta os avisos bem ponderados.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

PORTUGAL TERRA DE MILAGRES

No entanto, o que é isso tudo junto, se se confirmar que houve milagre lá para os lados de Vitorino de Piães, Ponte de Lima, a terra de Ana Maria, a funcionária de junta de freguesia que o país todo viu entrevada nas televisões devido a lombalgia e cervicalgia degenerativas. Agora o presidente da junta - haverá em Portugal alguém mais importante do que um presidente da junta? - diz-se desconfiado, porque lhe disseram que a senhora "já anda, conduz e vai à missa". Milagre? Conto do vigário? Efabulação mediática? Abuso de poder?Nada disso.
Hoje, do editorial do Público, por José Manuel Fernandes.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

A DESESPERANÇA DA JUVENTUDE

Muitas vezes temos por aqui divagado sobre o futuro, se é que o futuro seja algo sobre que possamos divagar, sobre os anseios e frustrações da juventude. É um tema recorrente. Ontem o Presidente da República referiu que um país onde as instituições não sejam fiáveis, que não cresça e não inove, criando riqueza e oportunidades para todos, que não tenha uma escola de onde saiam elites capazes de integrar a sociedade do conhecimento e lidar com as tecnologias mais avançadas, nem confia no seu próprio futuro, dificilmente vencerá. Mas ele foi 1º Ministro durante anos e teve um Ministro da Educação que foi o Couto dos Santos. Já o devia ter entendido então.
E lembrei-me de Lawrence Grossberg. Da Actual do Expresso, de Sábado passado, de um texto de António Guerreiro, destaco um trecho significativo:
Hoje, as pessoas não só acham que não vale a pena gastar dinheiro com os jovens como há mesmo uma ideia bastante difundida de que são potencial­mente criminosos. A imagem idealizada da juventude dissociou-se dos próprios jo­vens.» E acrescenta: «O futuro entrou em colapso, desapareceu ou já só existe como imagem catastrófica. Os estudantes, e os jo­vens em geral, têm um grande receio, quan­to ao seu futuro, coisa que não acontecia na minha geração. E esta luta pelo futuro con­some tudo. O problema, hoje, é o da sobrevi­vência, não há espaço nem tempo para a imaginação.»

sábado, 7 de junho de 2008

ESTA ATÉ DÓI

'A penalização por não participares na política, é acabares a ser governado pelos teus inferiores'.



Platão

quinta-feira, 5 de junho de 2008

POLÍTICA

A política foi primeiro a arte de impedir as pessoas de se intrometerem naquilo que lhes diz respeito. Em época posterior, acrescentaram-lhe a arte de forçar as pessoas a decidir sobre o que não entendem.
Paul Valéry, in "Olhares Sobre o Mundo Moderno"

sexta-feira, 30 de maio de 2008

O NOSSO PATRIOTISMO

O patriotismo emocional é um fogo de palha, que ora se inflama à notícia de um efeito desportivo, ora se afunda por completo ao aceitar sem um assomo de resistência as leis, os actos de governação, as propostas polí­ticas, culturais ou estéticas mais radicalmente avessas aos interesses nacio­nais, à vontade de regeneração segundo a identidade portuguesa ou às tra­ves mestras da nossa estrutura cultural.
O patriotismo familiar, habitual e espontâneo não é suficiente para fundamentar uma convicção patriótica resistente, coerente e à prova de todos os exteriores, modas e ideologias deformadoras. Ele exige na verdade, ao seu nível e para além dele, a religação àquilo a que poderíamos chamar o patriotismo racional de elites conscientes do significado dos valores que nele se representam. A comunhão colectiva do patriotismo, para não degenerar em fanatismo, em psicologia de rebanho ou em vacuidade sentimen­tal à flor da pele, depende da capacidade intelectual de uma geração para formular a sua própria patriosofia: religação a um centro axiológico, inte­lectual e criacionista do qual derivem, como em círculos que se esbatem quanto mais dele se afastem, as formas mais ou menos despertas de tal convicção.O que na realidade se esbateu ou desapareceu quase por completo entre nós não foi o patriotismo emocional que, por ser insuficiente, é muitas vezes manipulado por ideólogos e demagogos de má fé, foi a relação fun­damental da substância e dos princípios da identidade pátria com a sua razão teleológica em movimento, relação que um dia corporizou no projecto áureo português, centro vital e motor de tradição lusíada, e que aguarda a reactivação ou a renovação sempre possíveis desde que se cumpram as imprescindíveis condições.
António Quadros, in "PORTUGAL, Razão e Mistério - I"
O muito que eu devo a este português, que nunca conheci. Infelizmente, julgo que a grande maioria dos portugueses não conhece nada da sua obra. O que faz de todos nós um povo paupérrimo.

NINGUÉM

Ninguém, das dezenas de pessoas que por este blog passou, colocou um comentário ao facto de um bébé de 15 dias ter ido para Lisboa sem a sua mãe, para o hospital D. Estefânia. Eu já sabia que a fome, as guerras, as misérias e os desplantes servidos a acompanhar o jantar pelos telejornais, estupidificam as populações. Mas não esperava que retirassem a capacidade de se indignarem. Estava enganado. Já se perdeu essa capacidade. Paciência. É a vida.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

HOJE, UM BÉBÉ ...

Foi para Lisboa, para o Hospital da Estefânia. Tem 15 dias. A mãe não foi, por falta de capacidade económica, e a ajuda da assistência social é insuficiente para estar em Lisboa. Um bebé de 15 dias foi sem a sua mãe. Quando, no continente, criticarem algumas coisas nas ilhas, e algumas até serão justas, pensem primeiro no que é a insularidade, sobretudo num país como o nosso. Em que os deputados se auto-aumentam nas despesas de representação. Mas representam o quê?

segunda-feira, 26 de maio de 2008

E PORQUE É QUE NÃO SE FALA DE QUEM CONDUZIU O PAÍS PARA O DÉFICE EXCESSIVO?


Todo o mundo fala dos sacrifícios que o país tem de fazer, em reduzir o défice, etc.. Mas dos culpados que, por políticas totalmente erradas e desajustadas da realidade, conduziram o pais para esse beco, ninguém fala. Todos assobiam para o lado como se não fosse nada com eles. É a vida, foi a única resposta que ouvi sobre o assunto. Podem fazer asneiras que o povo só pode julgar nas eleições. E asneira feita, paciência. Culpados? Que é isso? E o país não se revolta? “Gentinha morna”, como nos classificou Mercia Eliade, no seu «Diário Português».

sexta-feira, 23 de maio de 2008

ESBOROAR

É, quanto a mim, o termo que melhor define o Portugal actual. As pontes caem. O interior despovoa-se. Não há nenhuma estratégia nacional seja para o que for. E internacional é melhor nem falar. A ignorância passou a ser apanágio do ensino. Dos professores e dos alunos. Não temos frota. Não temos governantes capazes. Não se faz manutenção eficaz das estruturas existentes. Já não temos vergonha. Temos 1/5 da população mergulhada na pobreza absoluta. E mais 2/5 a caminho dela. Os ministros mentem e os portugueses já acham normal. Portugal está em guerra civil nas estradas. Mas não com a corrupção. Os monumentos, parcos e serôdios estão no desmazelo. Um tribunal, relativamente novo tem de ser abandonado por que pode desmoronar. Não há culpas, e nunca responsáveis. Os orçamentos é que derrapam. O país está a esboroar-se. É o termo certo. ESBOROAR. E só me lembrei de um pai chinês que desfazia em pó, esboroando, com as suas mãos, os materiais com que a escola, que sepultou o seu filho, tinha sido construída. O que falta para os pais portugueses fazerem o mesmo?

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O CAMINHO

Andamos sempre a deambular à volta da grandeza ou da pequenez de Portugal. No fundo o máximo que podemos aspirar é discutir se somos ou não o último dos 25. Que caminhos percorremos até aqui chegar? VPV deu uma excelente resposta a esta deambulação no seu último artigo no Público Domingo passado:
Um dia, em 1977 ou 1978, Diogo Freitas do Amaral, um jovem patriota de grande fervor, disse que um povo - como o nosso -, que tinha descoberto o caminho marítimo para a Índia, era com certeza capaz de descobrir o caminho para o desenvolvimento. Nunca me esqueci desta frase, porque, no fundo, se descobrimos o caminho marítimo para a Índia, foi precisamente porque não descobrimos o caminho para o desenvolvimento.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

NOS TEMPOS DO ABSURDO

Continuando na linha que venho desenvolvendo não posso deixar de colocar aqui um trecho de uma entrevista, no Expresso do passado Sábado, a D. Manuel Martins.

A forma de actuar da Igreja mudou...
Hoje, a nossa Igreja é um arquipélago. Vive-se para a liturgia, não é evangeliza­dora. Acho que a Igreja não está a «funcionar», a comportar-se como Jesus quer. Já ninguém sai da missa «incomo­dado» na sua consciência com a litur­gia... A Igreja perdeu a capacidade de «sujar» as mãos com a vida dos homens. A Igreja deveria manifestar-se mais. Por vezes, acredita mais no Belmiro de Azevedo e outros, anda pendurada em dependências... A Igreja evangeliza por sinais e a nossa, em Portugal, não tem dado sinais.

Que sinais são precisos?
Que a Igreja seja pobre. Gostava de uma Igreja que não condenasse, que dialogas­se, que derrubasse muros, que comungas­se os problemas do mundo, que ouvisse os clamores das pessoas e lhes soubesse responder. Quero uma Igreja que apren­da com o mundo e descubra uma maneira nova de estar.

Como é que a Igreja deveria estar no mundo?
No ano 2000 (Ano do Jubileu do Cristianismo), os bispos queriam dar um sinal; Achei que deveríamos ter encerrado as igrejas para fazer uma reflexão de renovação. Senão enquista-se, torna-se empresa. Gostava, que os pobres notassem que a Igreja está incomodada com a sua situação... Os bispos deveriam reunir-se para reflectir os problemas que existem, como deveríamos sensibilizar as comunidades. Mas nas assembleias episcopais vão discutir mais um catecismo, mais uma edição da Bíblia. O arcebispo de Braga (presidente g Conferência Episcopal) lamenta-se que o Governo quer a Igreja na sacristia; só quando se sente que «tocam» na Igreja é que se diz alto que não está bem... É preciso que Igreja se converta ela mesma à dignidade humana. Nas homilias fala-se dos marginais, mas não se faz nada com eles.

E porquê tanta inacção?
Preferimos andar «nisto», que não incomoda da ninguém... As pessoas da Igreja já perderam capacidade de protesto. Por exemplo perante a lei de trabalho que querem colocar em vigor, não percebo como é que a Igreja se cala, diante de uma agressão tão grande aos direitos da pessoa humana! É iníquo a Igreja calar-se. Dói-me que a Igreja ande entretida com coisas outras e não se empenhe numa questão tão importante para a vida da população, do país. Antes de tudo, é preciso que a Igreja se converta a ela mesma. A Igreja tem de estar num esforço permanente de reconversão. Depois Ela tem de sair para a rua, para que povo note que está ao serviço do Homem. Toda esta descoberta da dignidade funda-se na democracia, que passa pela vivência e pelo testemunho de uma descoberta de valores e estamos muito longe de qualquer coisa a que se possa chamar de democracia

terça-feira, 13 de maio de 2008

SEMPRE CONSTANTE

O tempo é constante mudança. A percepção que temos desse tempo, da intuição dessa constância e da inflexibilidade dessa mudança é que nos predispõe para o futuro. Se distinguimos o suficiente, então vamos na onda. Senão, vamos empurrados pelas vagas sucessivas das ondas. Arreigados a um conservadorismo de tempos estáveis, seremos arrastados pela avalanche determinada pelo fluir das pressões acumuladas, e resultantes dos egoísmos de partilha. Eterno é o tempo, mas constante nessa eternidade é a mudança. Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar. Assim se badalava na década de 60. Mas ignorámos. Era mais cómodo. Diria mesmo que era mais aconchegante, mais fetal. Não ousámos e nem lutámos pela defesa de princípios. Agora parece que já ninguém tem coragem para o fazer. Defenderam princípios, mas quiseram enriquecer. Ou simplesmente enriqueceram descurando os princípios. O eterno antagonismo. Princípios e enriquecimento não são compatíveis.

(Como não fazem comentários, apesar de por aqui passarem a ler, julgo que estes temas não são agradáveis. Julgo que futebol facilitaria mais.)

E hoje volta a citar uma excelente dissertação, "DIÁLOGOS ABSURDOS - O silêncio traduzido em gritos pelos monstros de Samuel Beckett", de Sara Massa. Espero que seja a última citação dela. A próxima será a minha crítica sobre a excelente dissertação.
As personagens beckettianas revelam-se através do seu próprio discurso, na primeira pessoa (segundo um modelo autodiegético), de modo fragmentário e de difícil compreensão, estendendo o seu discurso por tempos e espaços indefinidos, e esquecendo-se, ainda que propositadamente, de agir. A verdade é que todas parecem estar conscientes do absurdo que está subjacente à nossa existência e, por conseguinte, buscam, incessantemente, mas com naturalidade, o silêncio e o nada. O que Beckett nos mostra é, em última análise, um reflexo daquilo que realmente somos, mas aquilo que mais nos espanta ao lê-lo, hoje, é a dificuldade que a humanidade manifesta em se rever naquelas personagens monstruosamente belas.
É hora de nos olharmos com coragem neste espelho que são as obras de Samuel Beckett. Só quem se conhece pode conhecer os outros e pode permitir-se sonhar compreender melhor o mundo. Deixarmo-nos esquecer, alienarmo-nos das reflexões mais sérias e, por isso, mais exigentes sobre a natureza e responsabilidade humanas, e ignorarmos que a nossa dignidade reside única e exclusivamente na capacidade de pensar o tempo é o mesmo que desumanizarmo-nos, embrutecermo­ -nos, deixarmos de ser um belo monstro, para nos transformarmos em mais um dos autómatos amontoados nas sucatas deste planeta. Não o faremos. Tentaremos compreendere-nos). Beckett acredita que temos de continuar. Continuemos...

sábado, 10 de maio de 2008

A FOME INFAME

Este é o título do artigo de Boaventura de Sousa Santos, publicado na Visão de 8/5/2008. Muito pertinente. Eis aqui um trecho:
O escândalo, finalmente, estalou na opinião pública: a substituição da agricul­tura familiar, camponesa, orientada para a auto­-suficiência alimentar e os mercados locais, pela grande agro-indús­tria, orientada para a monocultura de pro­dutos de exportação (flores ou tomates), longe de resolver o problema alimentar do mundo, agravou-o. Cerca de um sexto da humanidade passa fome; segundo o Banco Mundial, 33 países estão à beira de uma crise alimentar grave; mesmo nos países mais desenvolvidos, os bancos alimen­tares estão a perder as suas reservas; e voltaram as revoltas da fome.
A opinião pública está a ser desinforma­da sobre esta matéria, para que se não dê conta do que se está a passar.
Porque é explosivo: a fome do mundo é a nova grande fonte de lucros do grande capital finan­ceiro e os lucros aumentam na mesma proporção que a fome. A fome no mundo não é um fenómeno novo. Ficaram fa­mosas na Europa as revoltas da fome, desde a Idade Média até ao século XIX. O que é novo são as suas causas e o modo como as principais são ocultadas.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

A CUPIDEZ DO LUCRO

Reparei que a sociedade aberta estava ameaçada nos Estados Unidos por outra tendência: as actividades que costumavam ser vistas como profissões estavam a transformar-se em negócios. Isto aplicava-se a profis­sões como o direito e a medicina - já para não falar da política. Quando as profissões se transformam em negócios concentrados no lucro, as exigências profis­sionais ficam em perigo; isto, por sua vez, reforça a falta de valores característica das sociedades abertas. A minha preocupação derivava directamente da minha estrutura conceptual. Levou-me a criar projectos sobre as profissões ligadas ao direito e à medicina. Os pro­jectos ganharam então vida própria e foram aplicados em várias actividades importantes, mas não contribuí­ram muito para resolver o problema que levara à sua criação. A justiça criminal acabou por ser o campo onde a fundação americana mostrou realmente o seu vigor, por causa do historial da sua liderança em ter­mos de direitos humanos e liberdades civis e também por haver tanto que fazer.
Mas a falta de respeito pelos valores profissionais tornou-se ainda mais pronunciada do que era quando alargámos os nossos projectos às profissões ligadas à ciência e à academia. Os direitos de propriedade inte­lectual tinham transformado o pensamento em pro­priedade. A investigação é feita mais com o objectivo de gerar riqueza do que puro conhecimento, e a aca­demia está a perder a sua identidade como um fim em si mesmo. A corrida aos direitos de propriedade inte­lectual inibe a busca da verdade.
Para piorar as coisas, a ciência e a academia estão a sofrer ataques motivados por ideologias. Na ciência, os defensores da concepção inteligente* exploraram a tolerância de hipóteses alternativas reivindicando a mesma importância para a sua teoria não científica; na academia, um grupo de direita aproveitou a luta por um melhor equilíbrio racial e sexual para exigir a diversidade política, introduzindo assim os partidos políticos no recrutamento académico. As universidades têm dificuldade em resistir porque as quotas raciais e sexuais debilitaram o princípio de recrutamento baseado exclusivamente no mérito.
Tal como a mentalidade dos negócios entrou em áreas a que não pertence propriamente, a política faz agora o mesmo. Estas tendências colocam em perigo a sociedade aberta.
George Soros, in " A ERA DA FALIBILIDADE"

AUTORITARISMO DA MEDIOCRIDADE

Portugal é o único país do Ocidente em que o autoritarismo, acompanhado ou não pela insignificância e a mediocridade, é uma recomendação decisiva para o eleitorado. E Portugal é o único país do Ocidente que espera do Estado a sua salvação. A política não criou um português diferente, como tanta gente (boa e má) sonhou: um português tolerante, democrático, solidário, com autonomia e iniciativa. A política mascarou o português que por aí anda com alguns sinais de civilização. No resto não tocou.
VPV, hoje, no Público.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

DECORAR CHÁVENAS DE CAFÉ

Esta tese, necessariamente marcada com uma tonalidade ensaística, é uma tentativa simples e despretensiosa de conseguir algum contentamento num tempo triste. Numa época, em que os versos de Femando Pessoa servem o propósito fácil e comercial de decorar chávenas de café e panos de loiça, sem que deles se colha qualquer outro fruto, nós sentimos a necessidade de pensar alto e partilhar, através da escrita, estes nossos pensamentos.
Este trecho está na introdução da dissertação de mestrado de Sara Massa, intitulada "DIÁLOGOS ABSURDOS - O silêncio traduzido em gritos pelos monstros de Samuel Beckett".
Uma dissertação a ler com muita atenção.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

LEALDADE

Lealdade nunca é subserviência. São duas coisas muito diferentes. E tem mais: os subservientes jamais são leais, pois não passam de cobardes num jogo constante de obediências no objectivo de apurar proveitos, quantas vezes indignos.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

AS ASAS DO PORTUGUÊS

Um excelente artigo de José Eduardo Agualusa intitulado "EÇA DE QUEIRÓS E AS ASAS DO PORTUGUÊS", publicado na revista LER nº 69, deste mês. Artigo que deve ser lido na íntegra. Mas relevo aqui três passagens desse artigo:



Hoje debruço-me sobre Portugal de uma va­randa mais vasta - a Eternidade - e de novo me aflige o desdouro. Não que Portugal esteja pior do que há cem anos; está todavia mais pequeno. Já nem é bem um país – é um resumo.
(...)
Hoje erramos em ponto pequeno, e ainda por cima por imitação. Além disso, sendo minúsculos, ainda guardamos a memória do tempo em que fomos grandes, e isso é pior do que ser pequeno sem jamais ter sido grande. É um destino em tudo idêntico ao da bela mulher que envelhece.
(*)
(...)
Há tempos passeava eu, placidamente, era um fim de tarde lento e melancólico, junto aos fortes portões do Paraíso, quando vi chegar um português. Via-se pela alma que fora um homem sem maldade. Também se via, olhando melhor, que fora inteiramente sem maldade, não por um esfor­ço de vontade, mas por pura preguiça. São Pedro recebeu-o com um fatigado abraço - lembrem-se que findava o dia - e estendeu-lhe um par de asas. O português protestou: «E que farei eu com essas asas?» São Pedro, encolhendo os ombros magros: «Ora, filho, voa!» O português recuou, aterrado: «Ah não! Isso é que não pode ser! Fique lá o senhor com as asas que eu se vim para aqui foi para descansar.» E assim vamos nós.

(*)Sobre este tema da memória do termos sido, já tenho, recorridamente, divagado por aqui. O último, alguns postes abaixo, foi "O passado cabe todo num livro de 600 páginas"


domingo, 4 de maio de 2008

O DESEMPREGO ULTRAPASSA, E MUITO, A FRIEZA DOS NÚMEROS. SÃO PESSOAS.

Sobre o desemprego destaco um trecho de um bom artigo do Pacheco Pereira, retirado do seu blog ABRUPTO.

Mas nem por não se ter qualquer solução a curto prazo, a sociedade, nós todos, devemos deixar de olhar para cada um destes desempregos colectivos de mulheres sem a preocupação de vermos e sentirmos a devastação que ele tem por trás, o atraso social que isto significa para Portugal. Estas mulheres não vão educar os seus filhos da mesma maneira, vão reproduzir melhor o Portugal antigo do que preparar o novo. Elas sentem que falharam, tinham algumas ilusões que perderam. Mas nós falhamos mais se não temos a consciência de fazer alguma coisa. Porque se pode, na acção cívica, no voluntariado, no mundo empresarial, na política, fazer muita coisa por estas mulheres. O que é preciso é vê-las e à sua condição e não as cobrir com o manto diáfano da inevitabilidade. A começar pelo Governo, que mais uma vez se vai voltar para o betão e não para as pessoas.
(Versão do Público, de 3 de Maio de 2008.)

sábado, 3 de maio de 2008

PELOS EX-COMBATENTES

Aqui vai o

DISCURSO DO EXMO. GENERAL VASCO ROCHA VIEIRA, NA COMEMORAÇÃO DO 90.º ANIVERSÁRIO DA BATALHA DE LA LYS, BATALHA - 9 de Abril de 2008, DIA DO COMBATENTE

"Vivemos tempos de crise.
São tempos em que se esquecem valores, em que se afirmam antagonismos sem sentido de comunidade, em que se foge para o individualismo como pretexto para não assumir a responsabilidade de defender a colectividade.
São tempos de máscaras e aparências, em que se esquece o valor do serviço e o respeito pela realidade.
São tempos sem glória.
São tempos em que as lamentações das vítimas esquecem os exemplos dos heróis.
São tempos que ignoram o passado da independência e anunciam um futuro sem liberdade.
São tempos de resignação e de fatalismo.
O que o presente nos mostra exige que se diga que não queremos ir por aí, que não vamos por aí.
Entre a ilusão que nos engana e a realidade que nos interpela e desafia, temos de saber escolher a verdade efectiva das coisas.
Temos de saber construir o futuro com a nossa vontade, enfrentando a verdade das coisas e das forças, vendo-as como elas são, e não como, por ingenuidade ou por desalento, gostaríamos que fossem.
Estes também são tempos para voltarmos aos valores essenciais, para defender a memória dos que construíram Portugal independente, para honrarmos a responsabilidade de deixar aos sucessores mais do que aquilo que herdamos dos que nos antecederam.
É por tudo isto que estes não podem continuar a ser tempos de resignação e de fatalismo.
Perante dois camaradas nossos, tombados em combate em terras da Europa e em terras de África, afirmamos e honramos aqueles que, sujeitos à condição militar, venceram a luta pelo prestígio pagando como preço a própria vida.
Todos os que tombaram em combate, todos os que perderam uma parte da sua vida em nome do dever militar, têm o direito à nossa homenagem.
É isso que distingue os homens livres dos escravos.
Pouco importa se venceram ou perderam a guerra em que morreram.
Quem combate, quando combate, não conhece o fim da História.
Não tem a distância do crítico, nem a serenidade do historiador.
É sujeito da condição militar, prossegue os desígnios da política pelos meios extremos da guerra.
Não teme a morte, porque sabe que só quem não tem medo da morte pode afirmar a vida, para ele e para os seus.
Quem combate não declarou a guerra.
Combate porque essa é a sua condição militar, combate para que a sua pátria não venha a ser terra de escravos.
Combate para que os que detêm a responsabilidade política conduzam os destinos do país até aos tempos de paz, de desenvolvimento e de cooperação.
Combate para que a guerra tenha um fim.
Faz a guerra com a finalidade na paz.
Mas não haverá paz, só haverá escravatura e dependência, se não assumir essa responsabilidade de fazer a guerra.
Foi esse o caminho que escolheu quando aceitou assumir a condição militar.
Todas as sociedades que se organizaram até atingirem a condição de serem independentes, de serem habitadas por homens livres e não por escravos, assentaram em três pilares, em três funções constituintes e integradoras, formadoras da sua identidade: o agricultor, o religioso, o guerreiro – o que trabalha a terra, o que trabalha as ideias, o que trabalha as armas e assume o combate.
A evolução das civilizações e das culturas foi alterando estas designações, mas não alterou os seus conteúdos e os seus valores, não alterou o papel integrador destas três funções.
A subsistência material da comunidade, a condução da evolução da sociedade dentro de uma visão do mundo e realizando o critério da justiça, a defesa dos valores e das liberdades de todos os que vivem nesse território, podem designar-se hoje como economia, como política e como defesa, mas estes três pilares continuam a ser os factores constituintes da independência e da liberdade.
Nenhum desses pilares existe sem os outros, todos são necessários para que a comunidade nacional produza riqueza, afirme a sua independência, garanta a sua liberdade, defenda os seus valores.
Os que esquecem esta interrelação, os que ignoram a necessidade dos três vectores, condenam-se a perder tudo: a autonomia económica, a independência política, a liberdade cívica, o sentido dos valores.Condenam-se à pobreza, à subordinação, à escravatura, à perda do futuro.Estes são riscos reais que se configuram nestes tempos de crise.
Ignorá-los, esquecer a exigência da mobilização para os enfrentar, seria um acto de traição.Traição à Pátria, certamente.Mas também traição a nós próprios, traição ao que nos foi deixado em herança, traição aos nossos valores de independência e de liberdade, traição ao nosso sentido de dignidade.
Perante dois portugueses sem nome, que morreram cumprindo a obrigação da sua condição de militar, devemos-lhes a determinação e a mobilização com que se poderá vencer estes riscos reais com que estamos confrontados.
Para que o seu sacrifício não tenha sido em vão, somos nós que temos de preservar os valores da condição militar, aceitando o combate quando isso é inevitável para não sermos condenados a um destino de escravos.
Escravos de outros poderes ou escravos das ilusões, escravos de ideologias ou escravos de fantasias, escravos de compradores ou escravos de credores, mas sempre sem liberdade, sem identidade e sem dignidade, sem voz e sem direitos.
Os combatentes que se reúnem aqui, hoje, vindos das mais diversas partes de Portugal, renovam o seu compromisso de honra para com a Pátria, prestando homenagem aos que morreram em seu nome para que haja liberdade e independência.
Os que aqui estão, combatentes do nosso tempo, ganharam o direito, pelo seu sacrifício e pela sua lealdade, a que lhes seja reconhecido o mérito, a coragem e a dedicação de quem soube assumir as suas responsabilidades.
Nos tempos de crise, como são os que vivemos, tudo parece complexo, intrincado, irresolúvel, irremediável.
Não é assim, não tem de ser assim.
E só será assim se nos faltar a vontade, se perdermos o sentido da dignidade, se abandonarmos o valor da liberdade.
As crises têm uma origem, têm uma trajectória, têm um diagnóstico, têm uma terapêutica, têm um tratamento.
É neste quadro que a condição militar, assumida no juramento que é feito por cada elemento das Forças Armadas, ganha um peso simbólico superior.
A função militar, a responsabilidade pela defesa, é apenas um dos alicerces em que assenta uma sociedade independente e livre.
Não se substitui aos outros alicerces, às outras funções, mas é sua obrigação contribuir para que as outras funções tenham todas as condições para se cumprirem.
Se cada um – produtor, político, soldado – for fiel às obrigações da sua função, se cada um aceitar todas as responsabilidades da sua condição, se cada um respeitar o juramento que faz perante todos os outros de que defenderá a independência e a liberdade, encontraremos as respostas para as dificuldades, seremos capazes de superar a crise.
Esse será o resultado do regular funcionamento das instituições democráticas, conjugando, com inteligência, com realismo e com determinação, o produtor, o político e o soldado – isto é, o crescimento económico, a orientação estratégica na resolução dos conflitos de interesses e a defesa da independência e da liberdade.
E é no estrito respeito pelas normas do regular funcionamento das instituições democráticas que os que são sujeitos da condição militar, por opção de vida e por fidelidade a um juramento de honra, têm legitimidade para esperar dos responsáveis políticos as condições necessárias para o efectivo cumprimento das missões que lhes são atribuídas.
As sociedades precisam da instituição que, na obediência da condição militar, tem por valor superior a sua defesa.
No quadro da sua estrita responsabilidade de defesa da independência e da liberdade nacionais, as Forças Armadas não escolhem as missões que lhes são atribuídas pelos responsáveis políticos.É aos responsáveis políticos que pertence a responsabilidade de fazerem corresponder as missões que atribuem aos militares com os meios que põem a disposição dos que colocam em risco as vidas para as cumprirem.
A unidade das Forças Armadas, condição essencial para que cumpra a sua função de defesa da unidade nacional, não pode, em nenhuma circunstância, ser posta em causa ou em dúvida.
Mas a dignidade das Forças Armadas exige que ao seu quadro de missões corresponda o adequado sistema de meios.
Junto aos túmulos de dois soldados, renovamos o juramento que nos integrou na condição militar.
Como sempre, em tempos de estabilidade e em tempos de crise, a unidade das Forças Armadas é uma condição necessária para a defesa da independência, para a garantia da liberdade e para o regular funcionamento das instituições democráticas.
Outros contribuirão para que a esta condição necessária se juntem as condições suficientes para que os portugueses possam construir o seu futuro por afirmação da sua vontade e dos seus valores.Viva Portugal."

A NOSSA CRUZ SÃO SEMPRE ELES, OS MEDÍOCRES

«Há um ou outro videirinho, um ou outro aventureiro, um ou outro louco - um grande homem ou uma grande mulher não há. Quem vai perder tempo com as mediocridade que, só Deus sabe porquê, nos pastoreiam hoje?E que têm elas para oferecer, além de uma retórica morta e desprezível.
(...)
Quando por acaso "adere" a um partido, a juventude que por aí anda quer, como lhe compete, um emprego. Não se lhe pode pedir que queira diferente ou queira mais.
(...)
Agora, com a democracia estabilizada e a economia de mercado, o indivíduo não pertence a "parte" alguma e não partilha nenhum destino. Aprendeu a desconfiar do Estado e da mítica igualdade que o Estado pretende estabelecer; e, sobretudo, a contar exclusivamente consigo. Não vê a política como um encontro e uma comunidade. Vê a política como um negócio e uma questão de clientelas. Não se interessa? Claro que não se interessa.»
VPV, hoje, no Público.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

E A NOSSA GEOESTRATÉGIA

A propósito do post anterior, este trecho do Prof. Adriano Moreira publicado no DN em 30.12.2003:

No caso português, parece que a relação com o mar está a exigir atenção, e é inquestionável que ela interessa de maneira essencial à identidade nacional. São já muitos os aspectos em que se desdobra o risco de erosão, a começar pelo conflito entre o europeísmo e o americanismo. Não parece dispensável assumir que o afastamento dos mais poderosos Estados da frente marítima europeia de solidariedade atlântica, obrigará os restantes a reflectir sobre a relação entre a sua condição economicamente periférica, e a sua geografia de fronteira entre as duas concepções estratégicas. A questão do mar e da identidade está envolvida no processo, dependente de interesses exógenos que não a terão em conta. O tema das capacidades, e a definição de força naval ganham em relevância e exigência de um conceito estratégico nacional até agora de difícil concretização. Por outro lado, o tema das autonomias e da outra Europa, para um país que tem a nossa estrutura geográfica, exige um empenho que inclui o esforço pela manutenção de uma presença efectiva no mar, e pela defesa e reforço da identidade em resposta a uma conjuntura volátil. Tão volátil, que os efeitos dos compromissos europeus sobre a zona económica exclusiva parecem ter surpreendido até os informados, impondo avaliar com urgência a dimensão que resta da frota pesqueira, a relação desta com a dependência de recursos, e o efeito sobre a consistência da presença do mar na identidade portuguesa.

ESPAÇO VITAL

É um conceito muito caro a quem se interessa por geoestratégia. Hoje, no Público, vem esta notícia sobre uma comunicação feita pelo director da CIA numa universidade, sobre a qual não se pode deixar de reflectir:
O crescimento populacional e a maré cheia da imigração são os novos desafios que os Estados Unidos terão de enfrentar no próximo meio século, considerou o director da CIA, Michael Hayden, num discurso na Universidade do Kansas. Em 2050, o número de seres humanos na Terra deve subir dos actuais 6700 milhões para 9000 milhões. Nos próximos 40 anos, disse Hayden, citado pelo jornal The Washington Post, o crescimento projectado de 33 por cento da população será um dos factores mais significativos para a segurança no século XXI. A pressão populacional reduzirá os recursos e alimentará movimentos extremistas e de insurreição civil em vários pontos do globo, disse Hayden. "A maior parte do crescimento populacional será nos países com menos condições para o suportar." Espera-se que a população do Níger e da Libéria triplique nos próximos 40 anos. A pressão para garantir alimentos, abrigo e emprego para tantos milhões de pessoas "pode fazer com que muitos se sintam atraídos pela violência ou pelo extremismo", considera o director da agência de espionagem norte-americana. Nesta visão da CIA, os países mais ricos, as divisões étnicas e raciais, sublinhadas pela imigração, podem criar problemas de segurança, em especial nos países europeus com muitos imigrantes muçulmanos. Por outro lado, Hayden considera que a Europa e os EUA vão continuar a divergir na forma como lidam com o terrorismo. "Eles [os europeus] tendem a não vê-lo como nós, como um grande desafio internacional. Encaram o terrorismo mais como um problema de vigilância policial." A terceira tendência para os próximos 50 anos identificada por Hayden é a da emergência da China como uma potência económica e militar. Mas isso não tem de ser uma ameaça: "Se Pequim começar a aceitar mais responsabilidades no sistema internacional, manter-nos-emos num caminho competitivo mas construtivo."

segunda-feira, 28 de abril de 2008

sábado, 26 de abril de 2008

25 DE ABRIL É A DATA DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS MEDÍOCRES

A mediocridade instalou-se em Portugal.

domingo, 20 de abril de 2008

O PASSADO CABE TODO NUM LIVRO DE 600 PÁGINAS, ENTALADO NUMA PRATELEIRA.


Um amigo meu não gostou da frase com que terminei o post anterior. Pode-se não gostar, mas é a realidade para onde nos encaminhamos. O nosso passado sobrevive nos discursos de circunstância, para fatalmente referirem que “nós já fomos” isto e aquilo. Fomos, mas nunca que somos ou seremos. Falta a crença. E falta muito o querer. Sobretudo a um povo que vive acossado entre manobras de vigaristas sem escrúpulos.
Por isso o passado já só vive nas páginas de livros e nas saudades nostálgicas de alguns. Que até chegam a ter saudades de si próprios, do que foram face ao que se transformaram, nuns acomodados. E a juventude desligou-se da memória do país. Não lê, não estuda e até já tem professores que são ignorantes. O que era previsível. A ignorância vai reproduzindo-se. E o tal livro cada vez mais entalado na prateleira. E se a juventude não tem memória colectiva, também não tem valores pátrios nem futuro colectivo. Irá ficar, bem como o país, à mercê das contingências externas, mas sem referências que a permitam posicionar-se face a essas contingências. Dramático? Não. A evolução dos povos determina que há sempre uma decadência algures no percurso. Já somos um país velho e sem garra. Se esvaímos a boa seiva, naturalmente que a árvore tenderá a definhar. É da natureza. A não ser que haja um bom tratamento “botânico” por “agrónomo” credível, a árvore definhará sem remissão. Ficará o livro com uma memória encerrada nas suas páginas.

sábado, 19 de abril de 2008

SE O PAÍS NÃO SE ORGULHA DE SI ... ...


É óbvio que não pode passar da cepa torta. Os portugueses estão cada vez mais mesquinhos e pouco solidários. E sempre muito burgessos. Não há forma de evoluir neste quadro. Ou mudam as atitudes perante a vida e perante os outros e a sociedade em geral, ou o futuro será uma triste história.
Há falta de solidariedade entre os portugueses. Existem grupos que têm mais capacidade de reivindicar, exercendo até chantagem, e pouco se importando com os outros, ou com o que os outros terão de pagar para eles poderem viver bem melhor do que os que, obrigatoriamente, têm de os sustentar. E o país também não é uniformemente solidário. Já por aqui o tenho afirmado. Vivemos tempos de egoísmo acérrimo e feroz. A maneira como o país trata o interior é reveladora do mau carácter de uma parte da população portuguesa. Retiram-lhes tudo o que é possível retirar, como escolas, hospitais e demais estruturas necessárias. Depois para irem buscar electricidade destroem-lhes a paisagem e os recursos, danificando o meio ambiente. É o caso da barragem no Tua. Não faz falta nenhuma aos que por lá vivem, mas sim aos de Lisboa. Mas não fazem nenhuma barragem que destrua Lisboa e arredores. Destroem o interior. Lisboa e arredores absorvem tudo o que podem do país. E nada dão em troca. A solidariedade nacional há muito que morreu. Assim como a verdade sobre o estado do país. Bem como a honra que antigamente se fazia questão de se exibir. Assim morreu a esperança no país. Não há nada para se exibir como orgulho. Alguns ainda falam do passado, mas isso fica tudo contido num livro de 400 a 600 páginas, algures numa prateleira, que os mais novos já não lêem.

terça-feira, 15 de abril de 2008

PATRIOTISMO EMOCIONAL

Continuando com António Quadros. Não deixem de ler os dois volumes dessa obra.

“O patriotismo emocional é um fogo de palha, que ora se inflama à notícia de um efeito desportivo, ora se afunda por completo ao aceitar sem um assomo de resistência as leis, os actos de governação, as propostas politicas, culturais ou estéticas mais radicalmente avessas aos interesses nacionais, à vontade de regeneração segunda a identidade portuguesa ou às traves mestras da nossa estrutura cultural.”

António Quadros (in, Portugal Razão e Mistério)

Muito adequado aos últimos tempos que se estão vivendo.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

VENCIDA A AUTO-DIVINIZAÇÃO EGOLÁTRICA

Uma reportagem, hoje, da RTP1 sugeria que a Maçonaria iria dialogar com a Igreja Católica. O que me inspirou para transcrever aqui este texto do António Quadros, retirado do blog que lhe é dedicado e com link aí ao lado:
"Meu Eu, meu Deus: vencida a auto-divinização egolátrica, quebrada a casca do ensimesmamento pequenamente lírico e empecido, o eu pode tornar-se espelho de transcendência, caminho de diálogo com algo que o excede «ser mediador» para uma outra e a mesma realidade: a do Deus que nos fala e em nós fala no nosso próprio ideal, no nosso próprio movimento, ainda que o investamos de outros nomes, ou a do Deus que por vezes ao longo da jornada, mais cedo ou mais tarde, dificilmente, penosamente, agraciadamente, aprendemos a reconhecer sob mil máscaras que permitem a nossa liberdade..."

terça-feira, 8 de abril de 2008

FRASES CONEXAS

«Vivemos tempos de crise. São tempos de máscaras e aparências, em que se esquece o valor do serviço e o respeito pela realidade. São tempos que ignoram o passado da independência e anunciam um futuro sem liberdade»

Gen. Rocha Vieira, in Correio da Manhã de 6.4.2008, aqui


«Num mundo menos tolerante e mais pobre o adquirido do Maio de 1968 não sobrevive.»

Pacheco Pereira, in Público de 5.4.2008, aqui.



«No fim, como é sabido, a Igreja prevaleceu, produziu Salazar e gozou meio século de uma quase absoluta hegemonia.»

VPV, in Público de 6.4.2008, aqui.
Mas o curioso é que a propósito desta frase de VPV se compare com a capa de uma revista de 1918 que coloquei aqui.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

INFANTILIZAÇÃO DA SOCIEDADE

Hoje, no Público, aqui, o dr. Pedro Afonso, médico psiqiatra, publica um artigo com o título "Os alunos, os professores e a infantilização da sociedade", que eu considero excelente, e que põe as coisas na sua devida dimensão. Aqui deixo o trecho que acho muito significativo do artigo:


(...)
A desautorização dos professores e a demissão dos pais do exercício da sua autoridade educativa, para além de conduzir a atitudes e comportamentos anti-sociais, proporciona a estruturação de personalidades imaturas e com falhas na adaptação social.
Verificamos que na educação das crianças e dos jovens há cada vez mais uma ausência de limites. Existe, por vezes, a noção errada de que a tolerância é o maior dos bens e que os limites, impostos pelas regras, são actos de repressão. Porém, a permissividade excessiva e a ausência de limites na educação são também provas de desamor e de abandono. Neste contexto, a família tem um papel fundamental. Educar obriga muitas vezes a dizer "não" e isso leva muitas vezes a reacções, do lado dos filhos, que são difíceis de presenciar.
Evidentemente que muitas vezes torna-se mais fácil dizer "sim" do que ter que lidar com uma briga ou um amuo. Mas quem disse que educar não dá trabalho? Uma das consequências da ausência de limites na educação é a falta de capacidade para lidar com a frustração. Estes jovens tornam-se impulsivos, incapazes de esperar, procurando a todo o custo a gratificação imediata e a satisfação dos seus desejos. Não é pois de estranhar que, diante uma contrariedade imposta por um professor, a agressividade surja como uma reacção natural.
É curioso constatar que, ao contrário daquilo que seria de supor, o excesso de tolerância na educação das crianças e dos jovens transforma-os precisamente em indivíduos pouco tolerantes. Para se viver em sociedade é necessário aprender regras, é necessário perceber que a minha liberdade termina quando atinge a liberdade do outro. Por isso, a inexistência de normas e limites incita ao individualismo e a um narcisismo intolerável.A capacidade de ouvir o outro também se aprende. Com efeito, para assistir convenientemente a uma aula é necessário que haja quietude e silêncio. Ora, uma grande parte dos nossos jovens não suportam o silêncio. Num mudo repleto de estímulos e de excesso de comunicação, os jovens não conseguem largar o telemóvel, não sabem estar consigo próprios, receando o vazio da solidão.
Para alguns jovens, os professores – tal como os pais – são vistos como figuras autoritárias, repressoras e desprezíveis. Esta atitude pueril reflecte uma falta de interesse e um desdém pelo conhecimento que a educação proporciona. Na verdade, muitos são incapazes de compreender que é o seu próprio futuro que está em jogo. De resto, esta imaturidade transfere-se para a vida adulta, levando a que se tornem adultos inconstantes, inadaptados, revoltados, atribuindo frequentemente à sociedade as razões do seu infortúnio.Fala-se muito na necessidade de educação sexual nas escolas, mas fala-se pouco de educação cívica. Esta é uma matéria na qual a escola tem uma palavra a dizer. Penso que deveria obrigatoriamente fazer parte da formação dos jovens nas escolas uma experiência de voluntariado. De outro modo, como é que será possível criar uma consciência social nos jovens, se não se integra a solidariedade como um elemento da sua formação? Esta falha formativa pode criar uma "infantilização da sociedade", em que o Estado é visto como uma espécie de pai que tem que nos proteger, garantir todos os direitos, e o único responsável pelo nosso destino.
Os jovens estão cada vez mais afastados da religião e das ideologias políticas. Há uma pressão enorme, por parte da sociedade, para o consumismo e para o hedonismo. Todavia, sabemos que o Homem tem outras aspirações, além dos aspectos materiais e da procura da satisfação dos desejos imediatos. Existem outros valores que devem ser ensinados e transmitidos aos nossos jovens. Mas, infelizmente, vivemos cada vez mais numa sociedade light, na qual vinga a cultura da superficialidade, a procura do prazer imediato e o individualismo.
(...)

terça-feira, 1 de abril de 2008

SEM

A vida sem fé é um túnel sem fim, mas sem esperança é um corredor às escuras que não leva a parte nenhuma.
Fernanda de Castro, in " Ao Fim da Memória - Ivol."

domingo, 30 de março de 2008

A FORMA PASSIVA

Aliás, a solidão, a grande, a dolorosa, a difícil, não é esta, povoada de sol e mar, de pássaros, de árvores e de arbustos: é a da cidade em que as pessoas se acotovelam, se agridem, se odeiam (a indiferença é a a forma passiva do ódio).
Fernanda de Castro, in " Ao Fim da Memória - Ivol."

sexta-feira, 28 de março de 2008

POR VALES E MONTES

Mas, e as pessoas? Lisboa está longe! O Porto também! Nas encostas até os cemitérios vão ficando desertos.

quinta-feira, 27 de março de 2008

PROCURA DA POESIA

PROCURA DA POESIA


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
Não aquece nem ilumina.


As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.


Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.


Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem: rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.


O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.


Não dramatizes, não invoques, não indagues.
Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.


Não recomponhas tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que .se partiu, cristal não era.


Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.


Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço



Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 25 de março de 2008

ANDEI PELO PRIMEVO EMBRIONÁRIO


Na Serra do Açor, mirando Piódão.

quinta-feira, 13 de março de 2008

ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.

Este poema é, para mim, dos melhores poemas escritos nos últimos anos. Não digo qual é a chave do poema. Mas está na alma. Obrigado Aspásia por me deixar publicá-lo aqui. E visitem a poesia da Aspásia. Vão, de certeza, surpreender-se.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO TRANSMITE TESE,
NÃO FAZ EXEGESE,
NÃO DÁ CATEQUESE,
NÃO DIZ SIM NEM NÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO QUER SER SINCERO,
NÃO TRAZ DESESPERO,
FOI FRUTO DO MERO
VAGUEAR DA MÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO É VERDADEIRO,
NÃO É CORPO INTEIRO,
SAIU DO TINTEIRO
SEM QUALQUER RAZÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO PRETENDE OBTER
DAQUELE QUE O LER,
APLAUSO, OU SEQUER
LEVE APROVAÇÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO SENTE CALOR,
NÃO GRITA DE DOR,
NÃO MORRE DE AMOR,
NÃO VIVE EM PAIXÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NUNCA TEVE NORTE,
NEM AZAR, NEM SORTE…
E VAI PARA A MORTE
SEM PEDIR PERDÃO.
***
Aspásia 98

segunda-feira, 10 de março de 2008

LIBERDADE


Tendes, ó homens, a LIBERDADE de vossas ações nunca a de suas consequências. (Pietro Ubaldi)

domingo, 9 de março de 2008

ADMIRO MUITO A MULHER PORTUGUESA


Não só porque também é bonita. Admiro-a mais pelo baluarte que é desta sociedade deslassada. Pela sua capacidade de trabalho, de ternura, de resistência e de paciência. Admiro-a também como amante dedicada. Como mãe sofrida. Admiro o seu sorriso ao fim do dia, como se cada dia fosse excelso de felicidade, apesar de quem aturam. E do que aturam. Sempre resistentes. Sempre pilares. Eu tenho a felicidade de ser casado com uma mulher portuguesa

quinta-feira, 6 de março de 2008

A SOCIEDADE PORTUGUESA DESLASSOU

Ontem ouvi esta frase dita pelo Dr. José Amaral no programa Clube do Jornalista na RTP2. Programa interessante com mais o Dr. Silva Lopes e o Dr. Basilio Horta. Deslassou. O termo traduz bem a quebra de solidariedade no seio da sociedade portuguesa. Os grupos de interesses, ou corporativos, lutam por vantagens sem terem em conta o contexto envolvente, e sem se preocuparem com as consequências negativas que possam ter sobre outros cidadãos. Infelizmente os sucessivos governos, enredando-se nas tramas chantagiosas de grupos de classes, tem contribuído para essa quebra de solidariedade nacional.
A sociedade portuguesa deslassou. Bela frase. Que melhor síntese para o grande problema.

terça-feira, 4 de março de 2008

QUE MAIS A DIZER?

Vasco Pulido Valente escreveu este artigo, no Publico, na passada Sexta-feira. Estava para pôr aqui um trecho. Mas ele só tem nexo na totalidade:
Mal-estar difuso
Alexandre Herculano, o maior "intelectual" do liberalismo, que passara pelo exílio e combatera no cerco do Porto, deixou, já em agonia, um último juízo sobre a Pátria: "Isto dá vontade de morrer." D. Carlos, que foi de facto o último rei e o último reformador da Monarquia, achava Portugal uma "piolheira" e os portugueses, fatalmente, uma "choldra". Os republicanos não estimavam nem o país, nem a República e acabaram, quase sem excepção, "desiludidos". Basta ler uma dúzia de páginas dos Discursos para constatar o infinito desprezo que Salazar tinha por nós. Do PREC ficou o absurdo cadáver do PC. E esta democracia anda agora a chorar abjectamente o seu fracasso. Verdade que a famosa frase de Herculano é apócrifa (inventada por Bulhão Pato) e que D. Carlos só em privado se alargava sobre o seu reino. De qualquer maneira, não há dúvida de que Portugal sempre gostou muito pouco de si próprio.Com uma certa razão, convém admitir. Desde o princípio do século XVIII que Portugal quis ser "como a Europa" e até hoje infelizmente não conseguiu. A cada revolução, a cada guerra civil, a cada regime, o indígena prestável, alfabeto e "modernizante" supunha que chegara "o dia". E "o dia" invariavelmente não chegava. A sociedade ia, como é óbvio, mudando: devagar, com dificuldade, aos sacões. Só que a distância que nos separava da Europa não diminuía. Os modelos não faltavam: ou modelo universal da França (até à República); ou os mais modestos modelos de países pequenos como a Bélgica no século XIX e a Suécia a seguir. O português copiava com devoção o que via "lá fora". Mas não saía da sua inferioridade e do seu atraso. No meio desta persistente desgraça, Portugal julgou três vezes que se aproximava da Europa: durante os primeiros tempos da "Regeneração", durante o "fontismo" e durante o "cavaquismo". Ao todo, trinta e tal anos de uma ordem política "civilizada" e de um crescimento económico razoável. Mesmo assim, os fundamentos destes raríssimos milagres não eram sólidos. Nos três casos (embora com um ligeiro atraso), uma crise financeira pôs fim à festa e voltou a velha angústia nacional, a que por aí se convencionou chamar "mal-estar difuso". O "mal-estar difuso" é simplesmente o regresso à realidade. Portugal não tem meios para o Estado-providência e a espécie de vida que os portugueses reclamam. E, como não tem, toda a gente se agita e ninguém faz nada com sentido. Esta fase também é conhecida.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A POBREZA DE ESPÍRITO É A QUE MAIS NOS AMASSA

Já várias vezes tocamos, por aqui, na questão da pobreza. Agora nos últimos dias reacendeu-se a questão. E cada vez mais premente. O país está num caos. Somos o único país da EU que regrediu, enquanto os outros progridem. Milhões de Euros desbaratados. E esse é outro tema. Mas centremo-nos na pobreza. O injectar dinheiro directo nos pobres não os retira da pobreza. O Rendimento Mínimo Garantido, ou agora Rendimento de Inserção Social (RIS) foram, e é, mais um foco de incremento de pobreza do que resolução de problemas. Havia, e há, todas as razões para se criar meios de se gerar riqueza, de fazer o país progredir. Mas falhou-se redondamente. Estádios de futebol, projectos sobre projectos milionários para obras que nunca foram ou serão feitas. Projectos mal concebidos, cadernos de encargos trouxas e custos de obras que sempre derrapam, normalmente para mais do dobro. Esta é a miséria portuguesa.
Mas depois, por causa de tudo isto, temos baixos salários, pouca qualificação, crianças carentes, com fome e pouco cuidadas. Para não falar, mais uma vez, no desastre que é a instrução pública e da perversidade de todos os seus actores. Injectar dinheiro para não passarem fome não resolve o problema. Ficam dependentes e subservientes dessa migalha. Acomodam-se a isso. E responsabilizam sempre o estado para os manter, mesmo que em péssimas condições. As crianças vão à escola não para se qualificarem, mas sim para que os pais não percam o RIS. Adolescentes grávidas que ficam dependentes do RIS, e que continuam a engravidar. O estado até dá casas. Que depois não podem manter em condições. Continuam sempre a empobrecer. E não vão trabalhar porque, e com razão, os salários são tão baixos que o RIS consegue igualá-los, desvalorizando, assim, o trabalho. Tudo vai empobrecendo. E acalentados pela mediocridade instalada por todo o lado, que, porque medíocres, não são capazes de nada solucionar, vai-se resvalando para o abismo. A classe média também vai empobrecendo. Também já vai ao banco alimentar. Somos todos pobres. Porque incapazes de nos organizarmos e termos um governo eficaz; porque não conseguimos anular os medíocres que nos sufocam; porque não conseguimos contrariar uma inacção que nos deixa letárgicos, como se já estivéssemos debilitados pela fome; porque, estúpidos, admiramos a corrupção e os que enriquecem e se “nobilitam” através dela; e porque estamos prenhes de pobreza de espírito.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

ONDE NOS LEVA O PASSAR DOS ANOS?

O passar dos anos leva-nos sempre a olhar para a nossa juventude. À idade dos sonhos, da esperança e da crença na vida. Todos nós sonhávamos com uma vida. Julgávamos que iríamos ter uma vida que objectivássemos. Todos tínhamos quimeras para além dos amores idílicos. Eu ainda passei a minha juventude no tempo da dita “outra senhora”. E acho esta expressão aberrante. Que raio de senhora. Vivi a minha juventude no fim da 2ª República. Com sonhos e com amores. Como todos os da minha geração. Que era uma geração insatisfeita. Com a República, não com o país. Mas tínhamos esperança num futuro melhor, até já íamos vivendo melhor.
Depois veio o 25 de Abril e esta 3ª República. Uma explosão energética de esperança. Eu acreditei piamente que iríamos ter um país melhor, não rico, mas melhor. Muitos acreditaram. Muitos viveram em esperança. Mas depois começou-se a perceber que muitos queriam acreditar que iríamos ter um país rico e que isso é que era o melhor. De repente destapou-se uma caixa de Pandora. A cupidez saltou no seio dos portugueses. O civismo e a solidariedade eram inexistentes. Passaram todos a tentar ser ricos à custa de qualquer coisa ou à custa de qualquer valor. A grande maioria, como é óbvio, não o conseguiu, bem pelo contrário. Mas admira secretamente, ou mesmo publicamente, os que enriqueceram, sabe Deus como, mas sempre apoiados no erário público, no compadrio, no tráfico de influências, na corrupção, em que todos colaboram nem que seja pela omissão gerada pelo seu silêncio. A subserviência reinstalou-se há muito. Só que se antes ela era imposta, permitia a manutenção de uma dignidade enclausurada. Hoje, num país que se julga livre, essa subserviência ou é cobarde ou interesseira à espera de colher dividendos. Em melhor análise é cobarde e interesseira ao mesmo tempo.
Os portugueses expuseram-se como cidadãos sem carácter. Como cidadãos predispostos a qualquer coisa para alcançarem algo. Nem que seja para trepar por cima doutros. Só que neste caldo ambiental de cidadania tosca só os piores de todos, os mais medíocres se safam. Porque são os piores de todos. Despidos de escrúpulos, de barreiras morais, minaram para destruir o país a um ponto tal que ele ficasse indolente e lerdo, de forma a que o possam sugar do interior, tal como o fazem aqueles insectos que sugam os sucos das suas presas. É neste estado e sugado por medíocres que o país se encontra. E por culpa de todos nós.
Passados todos estes anos onde estão os sonhos? Diluídos na agrura. Mas a ESPERANÇA onde ficou? Perdida ao longo destes meandros todos. E que se diz à juventude de hoje? Que esperança temos nós onde eles possam reflectir? Nenhuma. Nenhuma. As gerações anteriores tinham esperança, e nela nos embebemos. Mas nós onde claudicámos?
No espaço que demos aos medíocres sem carácter.
Os medíocres conseguiram ocupar os lugares todos. Ignorantes, incompetentes, mesmo imbecis, mas estão lá. Só se escolhem uns aos outros. Quantos mais medíocres mais úteis são uns aos outros. Protegem-se, e essa é sem dúvida a sua força. Mas nunca deixam de ser medíocres.
De que resulta que Portugal é um país medíocre.
E os sonhos e os amores? Os sonhos são a alma da nossa descrença e os amores são memórias fotográficas, das que restaram, criando uma ilusão de vida, que teria sido tão amarga como a real, pois os medíocres sempre se encarregaram disso.
E nós cá andamos a cuidar dos medíocres. Devíamos expulsá-los do templo à chicotada, mas em vez disso apaparicamo-los, chamamos-lhes doutores mesmo que só tenham o 11 º ano ou uma licenciatura comprada, veneramo-los, atenciosamente, acatamo-los e tememo-los.
Um país livre? Cheio de medrosos e merdosos?
O olhar para a nossa juventude, já nos magoa. Não porque a perdemos ou porque ficou lá para trás. Mas porque desiludimos. A nós próprios e aos que vieram depois de nós. Afinal os portugueses não passam de uma cambada de sacanas, tentando viver da Chico-espertice (o presidente Sampaio homologou o conceito num seu discurso). E que tentam sempre sacar alguma vantagem, mesmo lambendo os medíocres que os pisam.
Os nossos sonhos, hoje, já não são futuro, já são passado.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

E AGORA VÃO FALAR A VERDADE?


Sobre isto escrevemos em Novembro de 2006, aqui. O título foi “A CARICATA APREENSÃO DE ARMAS EM S. MIGUEL”. Que achámos ridícula. E de facto foi tudo isto. E agora que o processo foi mandado arquivar por inconsequente, e as armas daquele “arsenal bélico” já devolvidas ao proprietário, o que resta? Resta repor a verdade. Houve tanta celeridade em fazer alarido, em fazer exposição mediática exagerando a perigosidade de uma colecção de canivetes e de meia dúzia de armas de colecção, que denotou o ridículo da ignorância de quem deu corpo ao alarido. Só não se viu celeridade, mesmo nenhuma, em repor a verdade, ou pelos menos em noticiar o arquivamento do processo. Denota-se que não houve pudor nenhum em tentar enxovalhar o bom nome de uma pessoa. Tentar. Porque quando uma pessoa é de honra limpa, as tentativas não atingem. De referir que ainda há pouco tempo foi agraciado com a medalha de prata por serviços distintos em cerimónia militar pública no quartel dos Arrifes, pela mão do Comandante Operacional do Exército, General Pina Monteiro. Para todos nós, o visado, a família e os amigos fica a mágoa da bestialidade dos jornalistazecos (nunca confundir com os Jornalistas). O Sr. Coronel continua bem, dedicando-se à História Militar dos Açores. Porque é um Homem de bem. Continua com a sua missão. O que é uma mais valia para os Açores.
Quanto à velhacaria que lhe fizeram, quem o fez que se penitencie ou pela inveja, ou pelo desdém, ou pela cobardia, ou pela deficiência de carácter, mas que não se sinta obrigado a pedir desculpa pessoalmente. Porque se o fez por uma das características que enunciei atrás, entende-se que não tenha estatura moral para pedir desculpa pessoalmente.
E os jornalistazecos vão repor nos jornais onde vomitaram disparates, a verdade?

domingo, 10 de fevereiro de 2008

GEOESTRATÉGIA NÃO É SÓ POSICIONAMENTO

Como alguns aprendizes de feiticeiro vão por aqui debitando. Rowan Williams, por ou sem o querer, demonstra-o. E para mim, mais uma vez, fica evidente que quem não se quer defender, sucumbe. A Europa adormeceu à sombra da protecção dos EUA, e no embalo do primado do direito. Que é bonito, assenta-lhe bem. Mas se outros não considerarem esse primado do direito europeu, como reagirão os europeus? Já uma sociedade envelhecida, amolecida, apática e com uma juventude desnorteada. Reagirão? A partir daqui um exercício teórico sobre geoestratégia e geopolitica, mas feito com a análise das estratégias em curso na actualidade. Para quem gosta, claro.
Como achega um pequeno trecho, logo no início, de "Eurico, o Presbítero" de Alexandre Herculano:
«A civilização, porém, que suavizou a rudeza dos bárbaros era uma civilização velha e corrupta. Por alguns bens que produziu para aqueles homens primitivos, trouxe-lhes o pior dos males, a perversão moral.»

sábado, 9 de fevereiro de 2008

PENSAR PORTUGAL

A propósito dessa foto 2 posts atrás, não resisto a revisitar António Quadros. Uma das pessoas que pensou Portugal. O link do blog que lhe é dedicado está aí ao lado.

O finalismo e o a-finalismo do nosso sistema educativo

(…) ao estudar, o fim do aluno é hoje «passar o exame», «ter o diploma» - e nada mais. O seu objectivo é quase unicamente utilitarista. Pretende o diploma porque o diploma dá acesso a posições social e economicamente compensadoras. Daí a sua total obediência, para não dizer escravização, à ciência do professor, que pode ser falsa, incompleta, desactualizada, pervertida e burocratizada, mas que não constitui para o aluno mais do que «o obstáculo que é preciso transpor», sem análises nem afirmações de personalidade que estariam deslocadas. Por sua vez, o professor, uma vez instalado na sua posição liceal ou universitária, limita a sua acção ao ensino de um conjunto de conhecimentos especializados, sujeitando inteiramente o aluno, ou a uma preguiça que o impede de actualizar-se constantemente no seu ramo de saber, ou a uma incapacidade intelectual para transcender o «conhecimento do compêndio», ou à especifica direcção cultural do seu espírito (…) observa-se que, ao longo dos anos da sua aprendizagem, o aluno apenas estudou para os sucessivos exames com que pretenderam medir a sua memória e a sua inteligente maleabilidade às atitudes culturais e espirituais mais diversas; e que esta diversidade heteróclita, acumulada nos anos cruciais da sua evolução mental, o levaram a deter-se cepticamente à beira dos grandes problemas da existência, não os vivendo heroicamente, mas, pelo contrário, substituindo, em todas as ocasiões, a verdade pela utilidade e pelo interesse.(…) o aluno universitário sabe mais do que o liceal – mas não sabe melhor. Ao obter, finalmente, o seu diploma de curso superior, o licenciado olha para trás e lamenta o tempo que perdeu em todas as matérias que fogem à sua especialização. Essas matérias assemelham-se às peças de «puzzle»: mas nunca as conseguiu reunir e agora já é tarde. Não se lhe apresentaram como «necessárias», como harmoniosamente ligadas, como tendendo, com a lógica indestrutível dos acordes diferentes, mas unidos, de uma sinfonia, para um mesmo objectivo.Licenciado, pode vir a ser um bom especialista, um bom profissional. Como homem, porém, será o que os caprichos da sua existência extra-univertária dele fizeram: família, cultura literária, influência de formas artísticas, amigos, formação religiosa ou política…E como estes factores sociais sofrem da mesma crise, espelhando a errada formação escolar básica, o resultado é a vida, em todos os seus planos antropológicos, cosmológicos ou teológicos, se reduzir à vida de cada um; cada homem passa a considerar-se o princípio e o fim de todas as coisas, a razão do «ego» domina as outras, a existência é um campo de batalha, não entre o bem e o mal, mas entre o «eu» e os «outros».

António Quadros, in «A Angústia do nosso tempo e a crise da universidade»

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

É A LEI DO ETERNO FUGIR, UNS A NÃO VEREM OUTROS A NÃO SABEREM, TODOS A NÃO SEREM. VIVA PORTUGAL.

Este título é o remate de um artigo do José António Barreiros, no seu blog "A Revolta Das Palavras". Aqui. Mas vale bem a pena ler os três artigos neste blog dedicados ao regicídio.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O DESASTRE DA INSTRUÇÃO PÚBLICA


É um tema recorrente neste blog. Já muito clamei contra as equivalências. Atentem nesta foto e digam-me lá se não tenho razão.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

DANÇA LENTA

Corre na net como tendo sido escrito por uma menina em New York, num hospital .....
Que seja ou não. Aqui fica DANÇA LENTA.

Alguma vez você já observou crianças num carrossel?
Ou ouviu a chuva batendo no chão?

Alguma vez já seguiu o vôo errático de uma borboleta?
...ou fixou o olhar no sol no crepúsculo?

É melhor você diminuir o passo.
Não dance tão depressa......o tempo é curto, a música vai acabar...

Você corre através de cada dia voando?
Quando você pergunta “Como vai?” Você escuta a resposta?

Quando o dia finda, você fica deitado na cama, com os próximos afazeres rolando por sua cabeça?

É melhor você diminuir o passo.
Não dance tão depressa......o tempo é curto, a música vai acabar...

Você disse alguma vez a uma criança: “Vamos deixar para fazer isto amanhã?”
E na sua pressa, não viu a tristeza dela?

Perdeu contato, deixou uma boa amizade morrer porque você nunca tinha tempo para ligar e dizer “Oi” ?

É melhor você diminuir o passo.
Não dance tão depressa......o tempo é curto, a música vai acabar...

Quando você corre tão depressa para chegar a algum lugar,
você perde metade da satisfação de chegar lá.

Quando você se preocupa e se apressa em seu dia todo,
é como se fosse um presente que não foi aberto... um presente jogado fora!

A vida não é uma ... corrida...

Leve-a mais devagar...

... Ouça a música...

... Antes que a canção ACABE!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

A LEITURA GEOESTRATÉGICA IMPLICA PERCEPÇÃO TRIDIMENSIONAL

Recomendo, e muito, a leituta do artigo "Leituras Equívocas" de Adriano Moreira, publicado no DN de 29-01-2008. Aqui fica um trecho:
As leituras respectivas da conjuntura parecem estar a revelar-se equívocas: equívocas quanto à sustentabilidade do unilateralismo assumido pela antiga liderança americana, que dá sinais de uma relação fragilizada entre as capacidades humanas e financeiras disponíveis para apoiar a dimensão dos objectivos assumidos; equívocas quanto à sustentabilidade de que o reassumido nacionalismo do Kremlin necessita para concretizar o conceito estratégico que mais vai revelando pelas acções do que por uma clara enunciação.O resultado inquietante é que as intervenções desenvolvidas por cada uma dessas potências, que foram responsáveis pelo equilíbrio da guerra fria, não podem isolar-se do globalismo estrutural. Ambas terão de reconhecer que as suas decisões soberanas não evitam que esse globalismo, para o qual contribuíram decisivamente, se tenha convertido num condicionamento severo da sua circunstância. Pelo que de novo se cruzam e embaraçam os trajectos que assumiram, pelo que toca ao perigo para a paz geral que nasce das leituras equívocas a servirem de promessa às políticas nacionalistas.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

A VERDADE É FILHA DO TEMPO, NÃO DA AUTORIDADE

Disse-o Francis Bacon. Só que o tempo de cada um, nesta existência, não coincide com o tempo da poeira.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

AQUÉM DE NÓS

EU

"O homem de génio diz: eu sou.
O poderoso afirma: eu posso.
O rico diz: eu tenho.
O ambicioso: eu quero.
Eu! Eu! Eu!
E, afinal,
esses que vivem sós, completamente sós,
quanto dariam para como tu,
ou como eu,
dizerem simplesmente: nós."


Fernanda de Castro, in "Poesia I"

sábado, 19 de janeiro de 2008

A PRUDÊNCIA

Sobretudo depois do fim oficializado da guerra fria, a tendência para reconhecer que a situação mundial corresponde mais a um modelo de anarquia do que de regulação consentida parece crescer de adesões desgostosas mas fundamentadas. Não se trata já da em parte amena conclusão de que nas relações entre Estados continua a vigorar o estado de natureza, de acordo com as palavras de John Locke.Admitindo poder concluir que, pelo menos no Ocidente, todos os indivíduos vivem já numa sociedade civil pautada por regras que definem os modelos de conduta, pergunta-se, sempre com inquietação, que meios assegurariam a vida previsível entre as Nações.A conclusão mais geral, apoiada na infeliz experiência, tem sido a de que, não obstante o acervo de normas de direito internacional, a obediência destas pelas soberanias continua aleatória e voluntária, pelo que continuam a viver um risco só apaziguado pela prudência variável dos governos.
Adriano Moreira, "A Globalização da Justiça", in DN de 18.09.2007

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

A MAIORIA


Chegou-me por mail, entre outras fotografias do autor René Maltête.


sábado, 12 de janeiro de 2008

TURISMO NÃO COMBINA COM VANDALISMO

A destruição da iluminação no calçadão da Praia das Milícias, vulgo Pópulo Grande, foi puro vandalismo. A sociedade local tem de tomar consciência que o vandalismo desbragado, que por aí se vê, compromete as boas intenções do incremento do turismo. Há que lutar por se instalar uma atitude cívica sã na população, e não uma atitude de omissão para não se comprometer votos em eleições. Ser conivente com a boçalidade não benificia ninguém.
P.S. Boas vindas a um novo bom blog, com link ao lado: NOTAS,

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

ANTÓNIO QUADROS É, PARA MIM, AINDA, O MELHOR ANALISTA DE PESSOA

De António Quadros, e copiado, com a devida vénia, daqui, do blogue que lhe é dedicado.
O português quer viver, crescer e de um modo geral ser, mas afeiçoou-se a convicções negativistas, nomeadamente ao nível político e educativo, que o conduzem a um auto-envenenamento mental. É porque não acreditamos em nós próprios, no que somos e valemos, no nosso pensamento e na nossa cultura, que em vez de pensarmos a partir daí a renovação das nossas leis, das nossas instituições ou dos nossos sistemas, constantemente, em sucessivos remendos, nos limitamos a importar, a repetir, a copiar ou a adaptar, ao mesmo tempo que nos autocriticamos sem medida e nos negamos. Disse-o de uma forma lapidar Fernando Pessoa, num pequeno texto que por várias vezes tenho citado: «uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente.» Daí que, acrescentou, « o primeiro passo para uma regeneração, económica ou outra, de Portugal, é criarmos um estado de espírito de confiança – mais, de certeza, nessa regeneração.» Vivemos hoje um período de menoridade e de adolescência regressiva em que, predominando o intelecto passivo, as pessoas se auto-satisfazem e auto-iludem como os lugares-comuns ideológicos, com os discursos demagógicos e com as ideias convencionais de gerações que, para repudiarem um certo tipo histórico de nacionalismo, perderam a própria identidade e já não sabem quem são ou para que são, os portugueses. (…) devido ao cientismo e ao tecnicismos predominantes que o positivismo nos trouxe, sem o acompanhamento de uma educação do intelecto para o desenvolvimento das faculdades superiores do homem, o nosso ensino público dirige-se à mentalidade pueril, não logrando a elevação do intelecto passivo e adolescente até ao intelecto activo e adulto, o que explica a facilidade com que o estudante cai nas mais quiméricas, utópicas ou demagógicas ideologias, com pouca ou nenhuma capacidade de eleição ou de análise.(…).
Conferência proferida em 13 de Dezembro de 1983 subordinada ao tema geral “Que Cultura em Portugal no próximos 25 anos?"

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

NEM TUDO VAI BEM


Daniel Bessa, na sua pequena coluna no Expresso, publicou este trecho no passado Sábado.

Correu mal
A expressão foi várias vezes utilizada por um nosso antigo primeiro-ministro. Detestei-a sempre: era pouco clara, não dizia tudo o que deveria dizer, escondia sempre alguma coisa. E, no entanto...
Correu mal, em Portugal, o final do ano. Pelo que aconteceu e pelo que ficou a saber-se sobre coisas que aconteciam há muito. Soube-se que pelo menos uma grande empresa portuguesa, e os seus accionistas, não dispunham ou não quiseram arriscar o montante indispensável de capitais próprios. Soube-se que, pelo menos, uma entidade de supervisão não conseguiu cumprir integralmente o seu papel. Na hora em que todas ou pelo menos algumas consequências tiveram de ser retiradas, houve excesso de supervisor, excesso de iniciativa pública e falta de iniciativa privada, e, ainda mais, excesso de política.
Ficou a saber, por exemplo, o cidadão comum, mesmo o mais qualificado, que a falta de um cartão partidário pode continuar a inibi-lo para o exercício de cargos profissionais; e ficou a saber-se que, em Portugal, o quadro regulador da concorrência não é dos mais exigentes. Portugal modernizou-se menos, bem menos do que às vezes somos levados a crer. É sempre triste o fim de uma ilusão. Assim acabou 2007
.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

UM PARADOXO ANGUSTIANTE

RECEBIDO POR EMAIL
O MEDO CAUSADO PELA INTELIGÊNCIA
Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar o seu 1.º discurso, na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do seu desempenho naquela assembleia de vedetas políticas.
O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse-lhe em tom paternal: “Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi demasiado brilhante neste seu primeiro discurso. Isso é imperdoável! Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco.
Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos.O talento assusta".
Ali estava uma das melhores lições que um velho sábio pode dar ao pupilo que se inicia numa carreira difícil.
Isso, em Inglaterra. Imaginem aqui, em Portugal.
Vale a pena lembrar uma famosa trova de Ruy Barbosa:
“Há tantos burros a mandar em homens inteligentes que, às vezes, penso que a burrice é uma Ciência”.
A maior parte das pessoas encasteladas em posições políticas é medíocre e tem um indisfarçável medo da inteligência.
Temos de admitir, por outro lado, que, de um modo geral, os medíocres são mais obstinados na conquista de posições importantes.
Sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos displicentes que não revelam o apetite do poder.
Mas, há que ter em consideração que esses medíocres, oportunistas e ambiciosos, têm o hábito de defender bem as posições conquistadas – como que com verdadeiras muralhas de granito por onde talentosos não conseguem passar.
Em todas as áreas encontramos dessas fortalezas inexpugnáveis a quaisquer legiões de lúcidos.
Dentro deste raciocínio, que poderia ser uma extensão do "Elogio da Loucura", de Erasmo de Roterdão, somos forçados a admitir que uma pessoa precisa de fingir que é burra se quer vencer na vida.
É pecado fazer sombra a alguém, até numa conversa social.
Assim como um grupo de senhoras burguesas, bem casadas, boicota, automaticamente, a entrada de uma jovem mulher bonita no seu círculo (com medo de perderem os maridos), também os encastelados medíocres se fecham como ostras à simples aparição de um talentoso jovem que os possa ameaçar.
Eles conhecem bem as suas limitações, sabem como lhes custa desempenhar tarefas que os mais dotados realizam “com uma perna às costas”...
Enfim, na medida em que admiram a facilidade com que os mais lúcidos resolvem problemas, os medíocres repudiam-nos para se defenderem.
É um paradoxo angustiante !
Infelizmente, temos de viver com estas regras absurdas que transformam a inteligência numa espécie de desvantagem perante a vida.
Como é sábio o velho conselho de Nelson Rodrigues... "Finge-te de idiota, e terás o céu e a terra".
O problema é que os inteligentes gostam de brilhar! Que Deus os proteja, então, dos medíocres!...

sábado, 5 de janeiro de 2008

ASSOCIAÇÃO DE SURDOS DA ILHA DE S. MIGUEL

Esta associação criou hoje um blog, o ASISM, cujo endereço é http://asism.blogs.sapo.pt/. Quem quiser contactar esta associação também o pode fazer através deste blog. Sobretudo os surdos das outras ilhas podem utilizar esta via para contacto ou interrogações que queiram fazer à associação. De qualquer modo o link fica ali ao lado.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

A LER COM ATENÇÃO

O post «Voltei a Madrid», aqui, do blog Rititi. Mas aqui destaco algumas passagens.


(...)
Sim, Portugal é um país afogado numa depressão da que não se quer curar, numa depressão que curte e da que se orgulha. Olhei durante uma semana para a televisão do meu país e vi programas para o povo apresentados por mamalhudas analfabetas especializadas em entrevistar famílias de desdentados que se queixam de casas a cair de podres, telejornais feitos de entrevistas de rua a um povão que se queixa da subida do euribor, comentaristas políticos que se queixam da crise do BCP, o líder da oposição que se queixa porque não pode controlar a Caixa Geral de Depósitos. A queixa é líder de audiências na televisão portuguesa.
(...)
Sim, voltei a Madrid, fugida de uma Lisboa que sempre amei e que agora me dá urticárias. Não posso com tanta queixa feita cancro de nós, não posso com este rame-rame obrigatório, com este modo de viver que recompensa a lamúria. Tenho pena e queria desejar-vos Bom Ano, que sejais felizes, mas só se me ocorre pedir-vos para desligar a televisão. Saiam à rua, encham os bares, obriguem os donos dos restaurantes a ligarem o aquecimento, iluminem as ruas de Lisboa com as luzes das vossas árvores de Natal, fujam dos centros comerciais e levem os vossos filhos aos jardins, namorem nos bancos dos parques e esqueçam que somos uma campanha publicitária chamada a Costa Oeste de Europa. Somos um país de gente pouco alegre, bem sei, mas também não merecemos estar sempre a levar nos cornos, caralho.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

AQUI CHEGADOS

Há que continuar. A viver e a reflectir. A amar e a adorar. A rir e a chorar. A derramar sequências e a colher as consequências.

Desejo a todos os que por aqui passam votos para um Ano Novo BOM. Sobretudo porque ireis contribuir para que ele seja bom, pois ireis agir melhor, quer para convosco quer para com os outros. Bem Hajam.


Porque chamamos vivos aos que esperam
a vez, marcando passo?
E mortos aos que se libertam
e são livres no espaço?

Fernanda de Castro «Nascer, Morrer», in Asa no Espaço, 1955.
(através do link do blog António Quadros chega-se ao blog dedicado a esta grande poetisa. E eu recomendo todos estes blogues associados)

OS AVISOS SÃO, DE HÁ MUITO, CLAMOROSOS

Já há muito que por aqui venho chamando a atenção para o facto de que quem não se quer defender, morre. Quem não marca, sofre. Também tenho citado muita gente que, de forma atenta, vai tentando acordar as indolências. Hoje volto aqui a citar uma dessas pessoas, José Cutileiro, que no dia 29/12/2007, no Expresso, publicoi o artigo «Déjà vu», de que destaco o parágrafo final:

Apesar de tudo isto muitos europeus não perceberam ainda duas coisas evidentes. Uma, que só pode querer ser modelo moral do mundo quem tiver força para impor comportamentos alheios quando for preciso se estes não vierem de livre vontade. Outra, que a salvação da pele tem exigências muito diferentes das da prática do bem. No fundo insistem em viver acima das suas posses morais. Se não se emendarem a tempo vão acabar mal.