segunda-feira, 29 de setembro de 2008

UNA NUEVA ARQUITECTURA DE SEGURIDAD EUROPEA

Gorbachov deu uma entrevista ao diário espanhol «EL PAÍS», no dia 9 de Setembro corrente. Uma pequena amostra.
R. Ahora, Rusia actuará con responsabilidad, pero no acepta­rá que sus intereses nacionales sean ignorados. Europa tiene que revisar su posición. Las adminis­traciones de Clinton y de Bush empezaron unos juegos geopolíti­cos que han abierto nuevas lí­neas de división en el continente. Siento que EE UU no haya sido un buen consejero de Europa en estos años. Los europeos debería­mos decir a.los amigos estadouni­denses que reconocemos sus lo­gros y su poder, pero que no acep­tamos su liderazgo. No aceptare­mos instrucciones de política in­ternacional o económica. Las directríces que dio el FMI a Rúsia a principio de los noventa fueron un desastre.
P. ?Hacia dónde habría que ir entonces?
R. Europa debería impulsar una nueva arquitectura de seguri­dad europea con la constitución de un Consejo de Seguridad conti­nental. Un directorio en.el que estén representadas tódas las na­ciones europeas y, por ejemplo, con poderes para acciones de mantenimiento de la paz. Asi sal­dríamos de una situación en la que EE UU domina la agenda. Algo asi estaba sobre la mesa en 1990, pero Occidente creyó que había ganado y decidió no cumplir sus promesas. No sólo EE UU. Es la primera vez que lo digo, pero Alemania también tie­ne que asumir sus responsabilida­des. Cumplíó los tratados bilate­rales con la !JRSS, pero en el foro de la OTAN apoyó la expansión.

(...)

Se puede confiar en una Rusia responsable si se la trata como un socio a la par. Tenemos experiencia, historia, potencial para competir en el mundo. No bailaremos al ritmo de la música de otros. Da igual que sea jazz u otra. Rusia tiene su propria música.


quarta-feira, 24 de setembro de 2008

AGNÓSTICOS DA TEOLOGIA DE MERCADO

Ontem, aqui, no DN, o prof. Adriano Moreira publicou um excelente artigo, como sempre, para ler na integra.
Dele aqui um trecho:
É digno de registo que os anúncios e as análises narrativas da economia real, das suas insuficiências, dos alarmes, e das consequências negativas, de regra são benevolentes ou simplesmente nunca incluem a responsabilidade dos programadores, das tecnocracias supranacionais, da suficiência técnica e científica das instâncias de apoio à governação, dos reguladores dispensados de assumir erros de intervenção em benefício da contribuição para a análise fria dos desastres. A mão invisível é a mais notada dinamizadora da narrativa global, e a conjuntura, de preferência externa, assume a sua parte no que toca aos inconvenientes domésticos. As intervenções da ONU parecem cada vez mais heréticas em relação à teologia de mercado, quando, em nome das "numerosas pessoas" carentes, exigem política, coordenação de políticas, responsabilidades políticas assumidas, mais atenção às realidades do que às teorias de apoio.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

VISÕES

Num artigo também publicado no Journal of Public Economics, deparei com uma visão bastante mais crua sobre o assunto. Francesco Casellia e Massimo Morelli, professores em Harvard e em Ohio, consideram duas dimensões na qualidade de um político: honestidade e competência. Como os cidadãos competentes têm maiores probabilidades de sucesso numa carreira privada do que os incompetentes, é de esperar que os mais inaptos se sintam mais atraídos por uma carreira política. Ou seja, os profissionais capazes têm mais a perder ao abandonar o sector privado. Considerando a outra dimensão, a da honestidade, mais motivos existem para preocupações. Sendo incontestável que ninguém enriquece, honestamente, com a política, também não deixa de ser verdade que é possível auferir grandes dividendos se os cargos forem exercidos desonestamente. Isto significa que, em termos comparativos, os corruptos têm mais a ganhar com uma carreira política.
De Luís Aguiar-Conraria, no blog «A destreza das dúvidas». A ler tudo aqui .

domingo, 21 de setembro de 2008

PRAGA. COME-SE BEM NO PASSEPARTOUT

Praga é sempre uma cidade a visitar. Mas para alternar com a comida checa, que é boa, embora não faça o nosso estilo, há que escolher um restaurante que nos agrade ao apetite e seja acolhedor. Recomendo o Passepartout. Aqui têm o site: http://www.passepartout.cz/ . Especialmente recomendo o “soufflé à la pistache” para sobremesa. Divinal.
O NOSTRESS também é um restaurante recomendável.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

DEMOCRACIAS NÃO CONVENCIDAS

Um dos problemas de implantação de um sistema democrático em qualquer país é que este tem de ser consequência de um desejo sincero do seu povo. Por isso, democracia no Iraque, ou em muitos países africanos, deixa sempre a sensação de um arremedo e de uma farsa. Quando a democracia é imposta por forças ou coacção externas nada parece. Nem será o mesmo.
Por outras palavras, o acto democrático de eleger um governo tem de partir de uma população cujo único compromisso seja para com a política. Se o compromisso é, antes de tudo, com o grupo étnico a que pertence, ou com o deus da religião que professa, então não pode haver votação politicamente válida nem governo verdadeiramente democrático.
Luís Campos e Cunha, hoje no Público, no interessante artigo "Democracia e Deus".

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A AMBICIONADA DEMOCRACIA DIRECTA. MAS IMPROVÁVEL PELO ANDAR DA CARRUAGEM

A ideia de que a democracia directa é inviável e que os cidadãos devem delegar nos representantes a defesa dos seus interesses é desmentida pela corrupção da função dos representantes: de representantes passam a soberanos, alheios aos interesses e vontade de quem os elegeu. A corrupção funcional destruíu a virtude formal da democracia representativa e tornou-a obsoleta. Por isso, agora queremos escolher os candidatos e não apenas os representantes da ementa partidária escolhidos exclusivamente pelos caciques locais, regionais, nacionais. Mas essa é apenas uma medida do novo sistema político que desejamos reforme a democracia. Não é a democracia o problema, mas a forma obsoleta que nos governa.
Outra das medidas da democracia directa é o escrutínio dos representantes pelos eleitores. Além das poucas oportunidades formais que a democracia representativa consente, existe a cidadania activa. Isto é, o cidadão intervém para além do domingo quadrianual que lhe é formalmente autorizado
Daqui retirado do blog «PORTUGAL PROFUNDO». Com a devida vénia.
E não deixem de ler no mesmo blog, aqui, o inevitável. "A economia compensa o desvario político, aproveitando o excesso de oferta de trabalho com salários mais curtos."

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

LEMBRANDO O FIM DA 1ª GUERRA

Para a Rússia, o pior não foi o colapso da URSS, a derrota do comunismo (em que muito pouca gente acreditava), o caos da economia ou mesmo a pilhagem do Estado por umas centenas de cleptocratas, que hoje se passeiam a salvo por aí. O pior foi a humilhação nacional, a arrogância com que o Ocidente tratou o império e se ingeriu durante anos na sua política interna. Putin acabou com isso e o seu sucesso vem, no essencial, da força e da dignidade que ele conseguiu devolver à Rússia. O que significa que nunca permitirá que a NATO estabeleça um "cordão sanitário" do Báltico ao mar Negro, ao longo das fronteiras da Rússia. Para Putin e Medvedev, as loucas viagens da sra. Rice e do sr. Cheney são puras provocações. É preciso que a América compreenda rapidamente esta verdade básica.
VPV, no Público de 13 de Setembro de 2008.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

terça-feira, 9 de setembro de 2008

PENSAR GEOESTRATÉGIA

É o que está claro no artigo de Costa Martins «Guerra surda EUA-UE: um legado envenenado», publicado no Público de 4 de Setembro passado. Eis um trecho.
(...)os EUA definiram como estratégia o controlo das grandes plataformas petrolíferas internacionais para, através do preço do petróleo, condicionarem a competitividade dos produtos da UE (considerada como o seu principal adversário no âmbito económico--financeiro) e travarem o desenvolvimento da China e da Índia, que começava a despertar com visibilidade.Depois do fracasso da invasão do Iraque, foi, recentemente e de forma concertada, anunciado um pretenso ataque ao Irão e, nos bastidores, foi, com o apoio dos EUA segundo tudo indica, decidida uma acção militar da Geórgia, na Ossétia do Sul, e elaborado um acordo entre os EUA e a Polónia, para a instalação de mísseis neste país.
Entretanto, Bush declarou pretender lançar mão da exploração do petróleo nacional para satisfação das necessidades energéticas dos EUA, que, dessa forma, eliminariam a sua dependência relativamente ao petróleo externo, criando, assim, condições para que a economia norte-americana não fosse afectada negativamente pela desestabilização das zonas petrolíferas externas, enquanto outras economias seriam profundamente prejudicadas - particularmente a da UE, por ser bastante dependente do petróleo e gás da região caucasiana e do Médio Oriente.
Uma acção militar da Geórgia na Ossétia do Sul, envolvendo a morte de um número palpável de cidadãos russos, para mais sendo alguns deles militares, levaria, obviamente, a uma intervenção militar da Rússia.
A Administração Bush pensou que uma vigorosa acção diplomática dos EUA, apoiados na NATO, e uma eventual movimentação de forças navais da NATO nas águas territoriais da Geórgia levariam a que a Rússia circunscrevesse a sua intervenção à região da Ossétia do Sul e que uma tal situação permitiria que a Geórgia - entretanto fortemente armada pelos EUA - respondesse militarmente aos russos, originando uma profunda e duradoura desestabilização da zona, por onde passam importantes oleodutos e gasodutos que transportam petróleo e gás caucasiano que abastecem uma boa parte da energia de que a UE necessita.
Se a UE acompanhasse a posição dura pretendida pelos EUA (via NATO), agravada pelo acordo já previamente preparado pelos EUA e pela Polónia para a instalação de mísseis neste país, acintosamente assinado durante o desencadear da crise criada com a acção militar da Geórgia na Ossétia do Sul, provocaria um endurecimento da reacção da Rússia, que, provavelmente, incluiria o corte do fornecimento de gás russo à Europa.
A determinação na acção diplomática e a rapidez na actuação de Sarkozy, em representação da UE, foi determinante para evitar uma maior deterioração nas relações da UE e da própria NATO com a Rússia.Mas o acordo assinado pelos EUA e pela Polónia para a instalação de mísseis neste país constitui um legado envenenado da Administração Bush à próxima Administração americana e à UE (via NATO), perturbador da segurança e cooperação na Europa e da própria coesão e unidade da UE.
Qualquer tentativa de implementação do acordo constituirá um sério factor de perturbação no relacionamento da Rússia com os EUA, com a NATO e com a UE, e do próprio entendimento entre os seus membros, originando conflitos internos que terão tendência a agravar-se e a dificultar seriamente a concretização dos objectivos do Tratado de Lisboa, parecendo lógico interrogarmo-nos se não haverá ligação entre o acordo agora assinado e a inesperada atitude assumida pela Polónia aquando da assinatura do Tratado de Lisboa!
E num agravamento das relações da UE com a Rússia estará sempre presente um eventual corte do fornecimento de energia russa (particularmente gás) à Europa.(...)

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

SINTO-ME ASSIM




Enleado para os céus.


sexta-feira, 5 de setembro de 2008

CLARISSIMO

A economia portuguesa não é dinâmica nem inclusiva. Não é inclusiva, porque deixa muita gente de fora dos benefícios do crescimento, nem é dinâmica, como sabemos. Os grandes grupos económicos não são hoje muito diferentes de há 20 ou 50 anos.
(...)
Argumenta Phelps que uma sociedade justa exige uma economia que funcione bem e esta requer que seja dinâmica e amplamente inclusiva. Mais ainda, como veremos, o dinamismo de uma sociedade não conflitua com a capacidade de inclusão das pessoas, mas, pelo contrário, é complementar. Por último, a exigência moral de uma economia dinâmica e a exigência de uma economia inclusiva decorrem dos mesmos princípios morais de justiça.

Luís Campos e Cunha no seu artigo «Economias dinâmicas e inclusivas», hoje no Público.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

SINTO-ME ASSIM


NUVENS

Que os pássaros da preocupação voem sobre a tua cabeça, isso não consegues mudar.
Mas que eles construam ninhos no teu cabelo, isto podes prevenir.


PROVÉRBIO CHINÊS

domingo, 31 de agosto de 2008

O EVIDENTE

Mas porque será que os actuais dirigentes dos países não conseguem ver, e já não falo em antever, o óbvio, o que está à frente dos olhos? Desde logo por que são medíocres. E depois porque não entendem nada de história. Podem saber, mas, porque são medíocres, não a entendem.

Hoje destaco um trecho do artigo de VPV, ontem, aqui, no Público.

A Rússia nunca teve fronteiras "naturais". Por isso, foi desde o princípio expansionista e criou um império (hoje uma "federação") do Báltico ao mar Negro e da Ucrânia ao Pacífico. Mesmo assim ambicionou sempre chegar aos Dardanelos, para garantir o acesso ao Mediterrâneo. Com o colapso da URSS, a Rússia, pelo menos por um critério "histórico", ficou cercada. Basta notar - coisa que raramente se nota e não se diz - que, na II Guerra, Hitler só, de facto, invadiu 10 por cento do território russo. Tirando por muito pouco tempo na campanha de 1941 e, em 42, na campanha do Cáucaso e do Volga, o exército nazi quase não passou da Ucrânia, da Bielorrússia, da Crimeia e, como é óbvio, da Polónia. Não admira que a Rússia considere ainda a sua antiga "zona de segurança", seja ela independente ou não, interdita a qualquer influência estranha.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O FIM PROGRAMADO DA DEMOCRACIA

Um site para visitar e ler com muita atenção, aqui. É francês. Para quem não souber francês, vale bem a pena fazer um esforço para traduzir. E ao que parece até é fácil na net.
Um trecho para aperitivo:


La mondialisation (ou "globalisation") n'est pas négative en elle-même. Potentiellement, elle peut permettre l'établissement d'une paix mondiale durable et une meilleure gestion des ressources. Mais si elle continue d'être organisée au bénéfice d'une élite et si elle conserve son orientation néo-libérale actuelle, elle ne tardera pas à engendrer un nouveau type de totalitarisme, la marchandisation intégrale des êtres vivants, la destruction totale de la nature, et des formes inédites d'esclavage.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

AS INTERVENÇÕES

Um artigo interessante, aqui, de Raymond Plant, Professor no King’s College, Universidade de Londres e par da Câmara dos Lordes, intitulado «Soberania e intervenção» e publicado no Diário Económico.

sábado, 23 de agosto de 2008

LUCIDEZ DE ANÁLISE

É algo que os agentes políticos da actualidade não têm. Infelizmente. E, com isso, todos perdemos. Aqui deixo um trecho de "Juízo Final", livro sempre a revisitar, de Franco Nogueira, que ilustra a diferença entre agilidade mental e a mediocridade que constitui o horizonte que nos limita.

Ao arrepio das aparências, são mais do que incertos os tempos neste final de século e de milénio. Proliferação possível da capacidade de produzir armas nucleares, surto de novos centros de poder económico, crescimento financeiro e industrial de vários países, crises de energia e ameaças aos pontos de abastecimento – são factores cujas consequências estão longe de esgo­tadas. Não convém que nos façamos ilusões. Em qualquer momento podem surgir novos centros de decisão nuclear. Um Japão, uma Alemanha reuni­ficada, podem converter em potencial militar o seu imenso potencial econó­mico e industrial. Estaria então profundamente alterado o equilíbrio bipolar que, mediante a dissuasão recíproca pelo terror, administrou a paz pre­cária até esta última década do século e até ao colapso da União Soviética. Haverão de multiplicar-se, agora que se diluiu a bipolaridade, os desafios tanto ao poder dos Estados Unidos como ao que restar da União Soviética. Não cabe fazer futurologia, decerto, mas parece útil para todos que os homens de Estado não percam de vista que nada há de mais frágil, nada há de mais fluido, nada há de mais misterioso do que a fronteira entre a paz e a guerra. Esta última é, como disse alguém, a política conduzida por outros meios; e também se dirá que a paz pode ser – e quase sempre é – a guerra conduzida por outros meios que não os militares. Pode surgir a ruptura da paz em qualquer instante; e podem desencadear-se acontecimentos que arrastam a outros e escapam à vontade e controle dos homens. A desin­tegração da União Soviética, o drama dos Balcãs, o enredo do Médio Oriente, legitimam todos os temores. Não pensemos que a afirmação de que a guerra nuclear significa uma catástrofe sem limites garante por si a paz. E ninguém pode prevenir uma súbita descoberta tecnológica que altere a situação existente. Nenhum de nós, ninguém em seu juízo deseja a guerra, e todos devemos acalentar e exprimir a esperança na paz. Mas para colabo­ração na paz ou sustentáculo na guerra, todos os portugueses estarão de acordo em que Portugal deve alinhar as suas pedras, todas as suas pedras, bem colocadas e bem afeiçoadas.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

QUEM OUVIU A REACÇÃO DO GUSTAVO LIMA ENTENDE A INJUSTIÇA QUE A COMUNICAÇÃO SOCIAL FAZ COM AS REFERÊNCIAS AOS ATLETAS.

Os ignorados atletas são agora crucificados por palavrosos que nunca praticaram nenhum desporto, a não ser a de dar uso à má língua, destilando o fel do mau carácter de que são compostos.
Os meus parabéns a todos os atletas olímpicos. Todos os resultados foram bons. Eles conquistaram o passaporte para irem a Pequim. Foram por mérito próprio. Enquanto os jornalistas que lá foram, talvez mais do dobro que o número dos atletas, não foram lá por mérito pessoal de resultados esforçados a correr ou a lutar em estádios desportivos.
E isto já farta. Sempre a denegrirem os atletas, quando o máximo que os portugueses conseguem é estar no sofá a beber minis com tremoços e a deseducar os filhos.

O TRIUNFO DA MEDIOCRIDADE É A CONSTANTE DOS TEMPOS ACTUAIS

Such lamentations can be heard on both poles of the po­litical spectrum. One reason so many Western intellectuals supported Stalin and Mao, or indeed, to a somewhat lesser degree, Hitler and Mussolini, was their disgust with demo­cratic mediocrity.
Ian Buruma & Avishai Margalit, in " OCCIDENTALISM, The West In Eyes Of Its Enemies"
Nada que eu não ande por aqui a expor há muito tempo. O mérito aos medíocres tem sido o grande problema de Portugal e a causa/consequência dos seus males nos últimos 30 anos. Embora seja um problema que afecta quase todos os países ocidentais.

AINDA A PROPÓSITO DO POST ANTERIOR

Do que eu disse no post anterior, queria aqui realçar com o que disse Luís Nunes, treinador de trampolins, e que li no Público, aqui, e que destaco:

A falta de condições dos atletas em Portugal é, segundo o chefe da equipa olímpica portuguesa de trampolins, reflectido nos resultados dos Jogos Olímpicos. Para Luís Nunes este desnível torna irrealista esperar grandes resultados da equipa portuguesa.
"Em Portugal continuamos a brincar um bocadinho ao desporto. Continuamos a ter a sorte de ter uns cogumelos, como alguém disse, atletas que aparecem de vez em quando e que fazem resultados óptimos em alguns desportos", considerou Luís Nunes em conferência de imprensa na Aldeia Olímpica de Pequim.Por isso, conclui o técnico, é irresponsável pôr tantas expectativas em cima da equipa olímpica quando falta seriedade ao desporto nacional. Um exemplo simples é a inexistência da carreira nacional de treinador. “Seria impensável deixarmos de ser professores e deixar os nossos lugares nas escolas para nos dedicarmos exclusivamente aos trampolins. Só se fosse para rir", explicou.O treinador queixou-se dos media, por aumentarem as expectativas das pessoas e pôr os portugueses à espera de medalhas. "Foi escrito, foi dito pelos media que os trampolins são uma das modalidades que não se deve descartar em termos de atingir resultados de excelência. Quem escreveu, quem disse, quem inventou isso deveria ser responsabilizado", afirmou Luís Nunes que treina Ana Rente, Diogo Ganchinho, ambos a representarem Portugal em Pequim. Na quarta-feira, em declarações ao jornal PÚBLICO, o chefe da missão olímpica portuguesa, Manuel Boa de Jesus afirmou que "temos portugueses entre os 16 melhores do mundo, em masculinos e femininos. Qualquer um deles pode ir a uma final".Luís Nunes pediu hoje calma e afirmou que o objectivo da participação portuguesa deve ser "exequível", realçando que com as condições de treino existentes, Portugal não é favorito em trampolins e que se os principais adversários "fizerem o seu melhor e nós fizermos o nosso melhor, eles ganham" "É verdade que estamos entre os melhores do mundo, mas dentro do sistema que está implementado em Portugal estamos longe de ter as mesmas condições que os outros ginastas têm nos outros países", disse. "Quando colocamos as fasquia lá em cima, a falar em números de medalhas a conquistar -- tudo bem, é um discurso ambicioso que fica bem - mas pode depois dar nisto", alertou ainda o chefe da equipa de trampolins.

domingo, 17 de agosto de 2008

PORQUE É QUE SENDO O FUTEBOL O ÚNICO DESPORTO APOIADO, NÃO CONSEGUIU IR ÀS OLIMPÍADAS?

Os atletas portugueses não me desiludiram nas suas prestações nas olimpíadas em Pequim. Muito pelo contrário. E sempre em modalidades que o Estado não apoia. Porque só o futebol e a choldra que se movimenta à sombra do futebol é que é merecedora de apoios milionários. Como a dos tais estádios que iremos pagar com os nossos impostos por mais 20 anos, senão for mais. E o futebol são só escândalos atrás de escândalos, sempre sem consequências. Mas a selecção portuguesa de futebol nunca faz nada. Nem sequer se qualifica para as olimpíadas.
Só que depois temos os jornalistas a falarem em desilusão e decepção quando escrevem ou falam sobre os nossos atletas nas olimpíadas. Mas de quê? Eles fizeram o suficiente para serem qualificados, e o futebol não. Desilusão são os jornalistas que passam anos sem nunca se referirem a essas modalidades, das quais só se lembram aquando das olimpíadas. E depois forçam uma pressão psicológica sobre os atletas, que é indecente.
E Francis Obikwelu pediu desculpa aos portugueses. De quê? Ele está entre os 20 melhores do mundo. Já os jornalistas portugueses que escrevem as barbaridades sobre eles, e durante anos ignoram os atletas portugueses, nunca estão entre os melhores 100 mil do mundo. Nem nunca estarão. Mas enfim, estamos em Portugal e não se pode esperar nada melhor. É a vida.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

MANIFESTO SOBRE A PÁTRIA

Foi publicado no nº2, de Agosto de 1957, da revista «57», de que era Director António Quadros. Que tem um blog que lhe é dedicado, sempre com o link aqui ao lado. António Quadros é a pessoa, talvez única, que tenho pena de não ter conhecido pessoalmente e com ele privado. Do Manifesto escolhi e destaquei algumas passagens para aqui vos deixar à reflexão:

Aboliram a palavra do vocabulário e fecharam-na no recôndito mais profundo do subconsciente. Conhecem-na tanto como a receiam. Sabem que está lá, no seu lugar de exílio, sempre estranhamente viva, sempre estranhamente desperta. Dir-se-ia uma palavra mágica que eles têm medo de pronunciar, não vá ela pôr em movimento insuspeitadas forças. Se a encontram ao acaso de uma leitura, logo a repudiam com um frémito de ódio, de vergonha ou apenas de intranquilidade.
Disse-a Camões e eles deixaram-no morrer na miséria Disse-a António Vieira e eles condenaram-no. Disse-a Bruno e eles tentaram assassiná-lo. Disse-a Junqueiro e eles ridicularizaram-no. Disse-a Pascoais e eles sorriram de indulgência. Disse-a Leonardo e eles taparam os ouvidos. Disse-a Fernando Pessoa e eles não quiseram entender.
(…)
Porque a pátria não é intrusão do passado no presente, não é sentimentalismo atávico, não é resistência do hábito, não é cómoda posição de reacionários (sic) , não é «o conceito mais bestial e menos filosófico». A pátria é apenas a realidade e quem vira costas à realidade em nome de ideais abstractos, cai em utopias ingénuas , como a do «cidadão do mundo», como a dos estetas que explicam as suas frustrações por não viverem em Paris e não falarem francês, como a dos políticos que a todo o momento repetem a pergunta de um provinciano a Sócrates: é preferível ter nascido em Tebas ou em Atenas?
(…)
A pátria é a realidade. Todos têm uma pátria e é possível que um dia a pátria do homem seja o universo. Mas esse dia vem tão longe, é uma utopia tão distante que todo aquele que, nos nossos dias, pretenda desligar-se do condicionalismo do espaço e do tempo e agir e pensar como se não houvesse fronteiras, mais não consegue do que sair da sua pátria de origem e instalar-se numa pátria de adopção onde será sempre um intruso, onde será sempre um homem dividido e impedido de se realizar plenamente.
(…)
Porque esta é a ditosa pátria nossa amada e ao seu serviço aqui colocamos o nosso corpo, a nossa alma e o nosso espírito.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

SE OS COMBATENTES NÃO SÃO PRESTIGIADOS, ENTÃO DE CERTEZA QUE A PÁTRIA ESTÁ DOENTE.

Já me tenho por aqui repetido sobre a injustiça que é o tratamento e a consideração votada aos ex-combatentes. Ou seja, consideração nenhuma e tratamento insultuoso, porque me lembro sempre daquela importância ofensiva que é um tal de subsídio aos que estiveram no ultramar, como complemento às suas reformas. Degradante. Sobretudo se comparado com as reformas chorudas de politicas incompetentes e que nunca fizeram nada pela pátria.
Houve uma cerimónia, na Liga dos Antigos Combatentes, com os condecorados com A Torre e Espada, a propósito dos 200 anos desta condecoração. Sobre ela “passo a palavra” ao general Chitas Rodrigues. E o destaque azulado é da minha responsabilidade.


Este é o editorial de “O COMBATENTE” nº344, assinado pelo Tenente General Chitas Rodrigues

CRITÉRIOS CENSURÁVEIS OU CENSURA CRITICÁVEL?

Um batalhão de fotógrafos, imprensa e televisão compareceu na sede da Liga dos Combatentes no dia 13 de Maio. Visitava a Liga dos Combatentes, por ocasião do Bicentenário da Ordem da Torre e Espada Valor Lealdade e Mérito, Sua Excelência o Presidente da República.
A Liga iria homenagear os cidadãos portugueses condecorados com a Ordem da Torre e Espada e entregar-lhes o Diploma de Membros Honorários. Presentes, para além de alguns convidados, 15 portugueses, a quase totalidade dos cidadãos vivos agraciados e quinze instituições em cujo estandarte reluz a Ordem da Torre e Espada.
Entre os presentes, o General Ramalho Eanes e o Dr. Jorge Sampaio, Grandes Colares da Ordem.
Cerimónia única, de grande dignidade, evocativa de valores históricos e dos feitos dos nossos maiores.
Os órgãos de comunicação social (CS) trabalharam e tudo registaram. Qual foi o destino do produto final desses trabalhadores? Devem sentir-se frustrados! Nada verteu para o papel, o ouvido ou o olhar do cidadão!
Como compreender os critérios de uma CS que omite noticias (imprensa e rádio) ou fá-lo de maneira ofensiva da instituição que a recebe em sua casa (ver noticiários televisivos do dia!), referentes a uma cerimónia de comemoração dos 200 anos da Ordem da Torre e Espada, a que preside Sua Excelência o Presidente da República e onde estiveram presentes três dos quatro Presidentes da República pós 25 de Abril e a esposa do quarto, Jaime Neves, Marcelino da Mata, Lousada e tantos outros. Cerimónia rara onde se reuniu o conjunto de cidadãos que, ostentando a Ordem da Torre e Espada, a condecoração mais prestigiada do país, se perfilam entre os que mais influenciaram a História de Portugal nos últimos 50 anos e alguns deles influenciaram mesmo a História da Humanidade.
Quais os objectivos de certa CS que insiste em trazer aos portugueses os valores do medíocre e do acabrunhante e omite os feitos dos que da lei da morte se libertaram?
Como diz José António Saraiva, no Sol de 17/5/08, acerca da CS "um tema destes 'não' fazer manchete na imprensa dita 'séria' cobre-nos de ridículo e ilustra bem o estado do país".
Se o país vai mal como a dita CS revela sistematicamente aos portugueses, deve-se certamente a muitos de nós, mas em muito maior percentagem a uns do que a outros.
E aos critérios censuráveis ou à censura criticável de alguma CS, começa a dever-se bastante quanto ao actual estado anímico dos portugueses Honra ao Prof. Doutor João Carlos Espada que, na sua crónica do Expresso de 17/5/08, escolheu o tema para testemunhar a importância da Ordem e a dignidade e significado da cerimónia.
Honra à generalidade da imprensa regional do Portugal Profundo.
Estranho nos pareceu o silêncio ensurdecedor que caiu sobre a visita de Sua Excelência o Presidente da República à Liga dos Combatentes com a finalidade referida, sabido que, como diz o editorial do DN de 20 de Maio de 2008 "Cavaco decidiu mostrar o país que faz bem. Pôr os holofotes que ele sabe que o seguem, no que Portugal tem de melhor. Uma bela ideia."
Caros Combatentes e Membros da Liga dos Combatentes:

Só o fogo ardente
Abate o corpo
Que não a alma
Do Combatente!...

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

AUTONOMIA CRÍTICA

O mundo está a transformar-se, e para pior. E esse pior já é bem conhecido. Os filmes vão-se reexibir.
Prepara-se a negação do próprio conceito de fenómeno cultu­ral. Os seus constituintes: conceitos como autonomia, espontanei­dade, critica, sofrem cassação. Autonomia: porque o sujeito, em vez de tomar decisões conscientes, integra-se, por obrigação e gosto, no preexistente; porque o espírito, que segundo a ideia tradicional de cultura deve criar a sua própria lei, experimenta a todo o instante a sua impotência perante as exigências avassaladoras do mero Ser. A espontaneidade retrai-se: porque o planeamento da totalidade subordina a emoção individual, pré-determina-a, rebaixa-a ao esta­tuto de aparência e deixa de tolerar aquele jogo de forças do qual se espera uma nova e livre totalidade. A crítica acaba por extinguir-se, uma vez que no decurso dessa actuação, modelo crescentemente inspirador da esfera cultural, o espírito crítico causa entraves como areia na engrenagem. Ele sugere qualquer coisa de antiquado, arm­chair thinking, irresponsável e sem préstimo. A relação intergeracio­nal inverte-se de forma bizarra: a juventude apela ao princípio da realidade e os mais velhos afundam-se nas delícias dos mundos inte­ligíveis.
Theodor W. Adorno, in " Sobre a Indústria da Cultura"

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

FUNDAMENTALISMOS NÃO RELIGIOSOS, EMBALAGENS DE REFRIGERANTES E COISAS AFINS.

Confesso que os fundamentalismos que varrem este mundo me irritam, e solenemente. Comecemos pela ASAE e similares na Europa, e não só. Tão comichosas que são com a higiene de embalagens e formatações das mesmas, como é que permitem aquelas embalagens de refrigerantes que têm uma forma de abrir que a tampa de abertura é impulsionada para dentro da embalagem ficando em contacto com o líquido? Tampa essa que está em contacto com o exterior e que pode estar contaminada com milhentas hipóteses de contaminação. Sendo a leptospirose a mais comum das perigosas contaminações possíveis. Essas ASAE tão lestas a fechar qualquer estabelecimento por isto e por aquilo, rendem-se ao poder de grandes multinacionais e fecham os olhos? E os organismos de defesa do consumidor? Que silêncio.
E depois as embalagens obrigatórias, sem a consequente implementação de selecção de resíduos. Outro fundamentalismo. De uma maneira geral quase tudo é aproveitável, reciclável. E se se agisse em conformidade diminuiria muito o esforço sobre a extracção de matérias primas. Para onde caminhamos? Que mundo estamos a tentar construir? Ou a destruir. Que Cisne Negro desviará a rota? E quando? E se em vez de um for um bando deles?

segunda-feira, 21 de julho de 2008

EVIDÊNCIA

Numa sociedade miserável, o que se redistribui é sempre a miséria. Em 30 anos, Portugal chegou até onde a realidade e a "Europa" lhe permitiram chegar. Embora com erros, com desperdício, com ineficácia, a Segurança Social, o Serviço de Saúde e mesmo o "sistema educativo" redistribuem mais do que nunca se redistribuiu em toda a nossa a história. Se a desigualdade continua é porque os 20 por cento de pobres não ganham o que deviam ganhar e não porque os 20 por cento de portugueses mais ricos paguem ao Estado menos do que deviam pagar. A desigualdade continua porque o país não produz, não exporta, não investe e não poupa; porque se endivida; e porque o Estado o desorganiza, corrompe e abafa. Isto é a evidência. Infelizmente, de quando em quando, convém repetir a evidência.
VPV, no Público de 18.07.2007

domingo, 20 de julho de 2008

NAS NOSSAS VIDAS PARTICULARES

Mas, se não podemos ser muito optimistas, não tombemos, por outro lado, no absoluto pessimismo. Ao lado de motivos de desânimo, há também motivos de esperança. O homem é e será sempre o homem; capaz do mal, mas também do bem; de matar e de salvar; de destruir e de construir. Há forças, poderes, factores aleatórios, correntes vitais e espirituais que nos ultrapassam e cuja direcção nos não é permitido perscrutar, a não ser por hipótese. Perante o nebuloso futuro deverá importar-nos principalmente o exprimirmos e projectarmos os valores que poderão tornar melhores os dias do porvir: os valores da verdade e de amor, de liberdade e de justiça, de espiritualidade e de beleza, que teremos de assumir estóica e corajosamente nas nossas vidas particulares, antes de os expandirmos e divulgarmos, seja sob que orientação acharmos preferível. E termino com mais uma esplêndida citação de Sampaio Bruno, esse pensador ainda tão mal conhecido dos próprios portugueses: " Tudo o que existe tem de passar, mas as gerações sucedem-se e é maravilhoso que, sendo tudo o mesmo, tudo é diverso."
António Quadros, numa carta a Afonso Cautela. Encontra-se no blog que lhe é dedicado, cujo link está aí ao lado, pelo que podem, e devem, sempre visitar esse blog.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

A DEBILIDADE DAS LIDERANÇAS ACTUAIS É MUITO PREOCUPANTE

Afirmou o Prof. Adriano Moreira, ainda há pouco, logo pelo início da sua intervenção para o «I Fórum Açoriano Franklin D. Roosevelt», organizado pela FLAD. Numa muito interesssante comunicação: "A Reforma da Nato e as Relações Transatlânticas".
Antes, também o Prof. Medeiros Ferreira fez uma brilhante intervenção.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

TODO O MUNDO É COMPOSTO DE MUDANÇA

Foi até o pretexto para romper o Bloco Central. Mas logo a baixa do preço do petróleo e o dinheiro europeu vieram dispensar complicações. Pouco se fez e tudo correu bem. Só que, entretanto, o mundo mudou, e também neste país onde nada acontece algo vai ter de acontecer. Há quem não queira ver: uns por optimismo, outros por pessimismo. Abençoados.
Rui Ramos, ontem, no Público.

SURPRESA?

Foi este segundo caminho que Portugal percorreu, obviamente. E onde é que esse caminho nos levou? O próprio Constâncio o antecipou nesse discurso de Fevereiro de 2000: "Se e quando o endividamento for considerado excessivo, as despesas terão que ser contidas, porque o sistema financeiro limitará o crédito. O equilíbrio restabelece-se espontaneamente, por um mecanismo de deflação das despesas, e não têm que se aplicar políticas de ajustamento. A ressaca após um forte endividamento pode ter consequências recessivas." Esta recessão - que tecnicamente ainda não o é - adivinhava-se há oito anos e nada de relevante fizemos para a evitar. Surpreendidos com quê, afinal?
Do editorial do Público, de hoje, por Paulo Ferreira.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

ACERCA DE OFENSA

Excelente enunciação sobre o que é ofender feita por Luís Campos e Cunha, hoje, no Público, no seu artigo "QUERER NÃO É PODER":

Quarto tipo de reacções: ataques pessoais a mim próprio que sou Presidente da SEDES. A esses não vou responder mas refiro tão só que não ofende quem quer, ofende quem pode. E esses que tentaram, não podem, embora queiram: ser atacado, por certas pessoas e de certa maneira, faz currículo.

RESIGNAÇÃO? APATIA?

Um trecho do artigo "SALVAÇÕES" de VPV, publicado hoje no Público:
E há dia a dia na televisão a tristeza do país, que chora resignadamente a sua vida e fala em emigrar. O pessimismo português não degenerou numa visão apocalíptica da Pátria, nem sequer, como é costume, numa subespécie de messianismo. Ninguém espera do futuro nada de bom? Ninguém. E o medo voltou? Voltou. Só que não se manifesta. Portugal não reage às desgraças que lhe anunciam ou que já sofre. Parece que deixou de se interessar por si e que aceitará, inerme, o que vier. Venha o que vier será sempre tão mau (e tão inconcebível) que não vale a pena pensar nisso.
(...)
Portugal assiste ao seu fracasso (ou ao fracasso deste particular regime) com a mesma equanimidade com que o Ocidente assiste ao aquecimento do planeta, o fim próximo do petróleo, à expansão islâmica ou à real probabilidade de guerra.

terça-feira, 8 de julho de 2008

SÓ O INCERTO É CERTO

A nossa incapacidade de realizar previsões em ambientes sujeitos a Cisnes Negros (*), aliada à generalizada falta de consciência desta reali­dade, leva a que determinados profissionais, apesar de acreditarem ser especialistas, na verdade não o são. Com base no seu registo empírico não sabem mais sobre o seu objecto de estudo que a maioria da popu­lação, mas são muito melhores a dissertar sobre o mesmo – ou, pior, confundir-nos com modelos matemáticos complexos. Há também uma forte probabilidade de que usem gravata.
Nassim Nicholas Taleb, in "O CISNE NEGRO"
Da badana destaco a critica do "The Guardian": « O Cisne Negro é um estudo fascinante de como somos engolidos pelo inesperado.»
(*) Cisne Negro: acontecimento atípico, de impacto extremo e previsibilidade retrospectiva.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O DESCALABRO DE UM PAÍS

Não vou comentar para não nublar as palavras do Prof. Medina Carreira no programa Negócios da Semana da SIC Noticias. Oiçam com muita atenção este programa, aqui.

terça-feira, 1 de julho de 2008

SOBRE O DEVER

Escreve Helena Matos um excelente artigo, hoje no Público, aqui, intitulado «Os juízes não vão ao futebol?». Excelente e a não perder.
Dois trechos a destacar:

A esta mesma hora gostaria de saber onde estão e o que têm para dizer aqueles que, há treze anos, se opuseram à construção da barragem de Foz Côa. A barragem do Sabor tornou-se mais ou menos inevitável desde que se suspendeu Foz Côa. Na época ninguém fez contas aos custos económicos e ambientais da suspensão da barragem de Foz Côa. Um desses custos está agora aí na construção da barragem do Baixo Sabor e no quase apagamento do que aconteceu em Foz Côa.
(...)
Afinal quando foi a última vez que ouvimos um líder político falar de dever e deveres? De brio? E mais raramente ainda o que aconteceu à noção de responsabilidade dos altos cargos da administração pública?

sábado, 28 de junho de 2008

SÉCULO XXI

Mas o mais surpreendente é o facto de grande parte da população deste “Portugal Profundo” viver, de forma atávica, ainda em certa harmonia com o espírito destes lugares e enquadrada numa cosmovisão religiosa do mundo, absolutamente natural para ela. Esta ligação com os lugares é mantida através de tradições, cultos e lendas, mantendo-se ain­da vivos imensos vestígios de uma integração arcaica do ho­mem no cosmos, o que constitui um tesouro inestimável num mundo em fase acelerada de dessacralização (diríamos mesmo bestialização) da vida humana. Todavia, o homem é um ser reli­gioso por natureza (mesmo os sistemas chamados ateus têm os seus ídolos e as suas mitologias) pelo que, actualmente, e como reacção natural, emergem violentamente as chamadas patolo­gias do sagrado sob a forma de superstições religiosas alimen­tadas por líderes 'muito pouco religiosos', e por grupos es­piritualistas que seduzem o homem-exterior em lugar de pro­porcionarem a emergência da alma interior, o que é natural­mente doloroso para os hábitos entrópicos da personalidade. Com clarividência e alguma ironia, Carl Gustav Jung afirmou, em 1944: "Na realidade, não hesitamos em fazer as coisas mais absurdas a fim de escaparmos à nossa própria alma. Pratica-se a ioga indiana de qualquer escola, seguem-se regimes alimenta­res, aprende-se de cor a teosofia, rezam-se mecanicamente os textos místicos da literatura universal - tudo isto porque já não se consegue conviver consigo próprio e porque falta fé em que algo de útil possa brotar de nossa própria alma. Pouco a pouco esta última tomou-se aquela Nazaré da qual nada de bom se pode esperar, vai-se portanto procurá-la nos quatro cantos da terra: quanto mais distante e exótico, melhor". O eminente psicólogo colocou bem o dedo na ferida: o homem do terceiro milénio tem de restabelecer o diálogo com o seu inconsciente, tem de trazer à consciência o seu mundo mítico a fim de se auto-realizar, ou seja, deve levar a bom termo o seu processo de individuação abrindo-se à sua interioridade e dimensão espiri­tual. Por isso, André Malraux afirmou: "o século XXI será espiritual ou não será!".
Paulo Alexandre Loução, in "Portugal - Terra de Mistérios"

sábado, 21 de junho de 2008

O PROBLEMA ACTUAL DA UNIÃO EUROPEIA

O problema da União Europeia é o desfasamento que existe entre os políticos e as populações. A tentativa feita de aprovarem o Tratado de Lisboa à revelia das populações pode redundar no fracasso, a prazo, da União. Se as populações não estiverem envolvidas nos objectivos da União, mais tarde ou mais cedo, o preço vai ser pago. Não consultarem as populações nem auscultarem os seus anseios, determina, sem sombra de dúvidas, que não há sintonia entre as políticas e as aspirações das populações. E que não há confiança das populações nos seus políticos. Por isso estes fogem, como o diabo da cruz, das consultas populares. Mas, a prazo, augura-se o colapso “desta” Europa artificial. E é artificial porque não corresponde às perspectivas das populações europeias. Em boa verdade, sem consulta geral, não se sabe bem o que a população europeia pensa sobre a União Europeia e o que pretende para o futuro dessa União

sexta-feira, 20 de junho de 2008

HÁ FRASES ELUCIDATIVAS DOS DESASTRES

Uns dias depois do início do Euro 2008 ouvi um jornalista, de televisão (o que faz a sua diferença), dizer, em directo, por causa de haver muitos jornalistas não portugueses à volta da selecção portuguesa, que « o mundo estava rendido aos pés de Portugal». Claro que presunção e água benta cada um toma a que quer, mas elucida como há derrotas pré anunciadas. A de ontem só pecou por tardia. Mas a parvoíce dos declamadores de baboseiras vai continuar. Hoje, dia dos discursos de redenção, não vão faltar frases imbecis. Mas um estado que tende, rapidamente, para estado exíguo, nunca tem ninguém rendido a seus pés em nenhum aspecto. Só a mediocridade nacional tem essa capacidade de visão.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

A MEDIOCRIDADE É A CONSTANTE DA EQUAÇÃO PORTUGUESA ACTUAL

O grande problema nacional é a mediocridade e a resignação à mediocridade.

José Saramago, em entrevista ao Público de 15.06.2008.

terça-feira, 17 de junho de 2008

DE GARGALHAR! OU ENTÃO DE CHORAR.

Helena Matos há muito que me habituou a excelentes artigos. Hoje, no Público, o seu artigo "A GARGALHADA" está acutilante. Destaco os seguintes trechos:
Ninguém se levantou, ninguém pediu a palavra para dizer ao secretário de Estado que os presentes, ou pelo menos alguns deles, não consideram que a integração nas escolas comuns seja benéfica para todas as crianças deficientes. Não aconteceu nada daquilo que seria previsível numa democracia. Simplesmente os presentes desataram a rir. Este riso é o mais claro sintoma do descrédito que se instalou na sociedade portuguesa.
(...)
Agora que o sortilégio se quebrou, os outrora beatíficos assistentes riem. Não por falta de educação. Muito menos por desprezo. Riem com aquele riso que se cruza com o choro e que nos diz que já não há nada a fazer.
(...)
Entretanto os cidadãos estão presos entre as gargalhadas de uns e as milícias dos outros. Mas ao contrário do que José Sócrates declarou na Assembleia da República, o Estado não está frágil. O Estado simplesmente esvaziou-se das suas funções tradicionais, o que levou a que os mais fracos não só ficassem ainda mais fracos, como a que se instaurasse um sentimento de impunidade. Este é o Estado que não só não consegue ter uma justiça credível, como fez da negação do crime uma verdade oficial. Um Estado que reduziu os cidadãos à condição de contribuintes. Um Estado que não consegue ter um discurso adulto e claro sobre o papel das suas forças armadas. O Estado que detesta as pequenas e médias empresas, mas que adora atribuir estatutos PIN à meia dúzia dos seus eleitos. O Estado que Sócrates sentiu frágil é o Estado forte que faz andar as suas forças policiais de café em café a ver se alguém está a fumar, mas que depois é de facto incapaz de impedir um bloqueio de estradas. Até há algumas semanas seria mais provável que o Estado português se assanhasse para apurar a cor das facas, a qualidade do carvão, o tipo de grelhadores e a marca dos detergentes usados no churrasco feito pelos camionistas para celebrar o fim do bloqueio do que com o bloqueio propriamente dito. O Estado não só não está frágil, como tem usado e abusado da sua força contra os cidadãos. O que era e é frágil, muito frágil mesmo, são as ideias que residem na cabeça de quem nos tem governado. Na verdade nem são ideias. São simplesmente castelos erguidos pela propaganda. A realidade murcha-os e o sopro duma gargalhada fá-los ruir.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

UMA FRASE A MEDITAR

Os factos estão a confirmar o aviso que a utopia das sociedades afluentes e consumistas fez esquecer. Mas a mensagem da mansidão dificilmente será reverenciada se os factos confirmarem os alarmes.
Adriano Moreira, DN, 10 de Junho de 2008.
A geoestratégia terá de ter sempre em conta os avisos bem ponderados.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

PORTUGAL TERRA DE MILAGRES

No entanto, o que é isso tudo junto, se se confirmar que houve milagre lá para os lados de Vitorino de Piães, Ponte de Lima, a terra de Ana Maria, a funcionária de junta de freguesia que o país todo viu entrevada nas televisões devido a lombalgia e cervicalgia degenerativas. Agora o presidente da junta - haverá em Portugal alguém mais importante do que um presidente da junta? - diz-se desconfiado, porque lhe disseram que a senhora "já anda, conduz e vai à missa". Milagre? Conto do vigário? Efabulação mediática? Abuso de poder?Nada disso.
Hoje, do editorial do Público, por José Manuel Fernandes.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

A DESESPERANÇA DA JUVENTUDE

Muitas vezes temos por aqui divagado sobre o futuro, se é que o futuro seja algo sobre que possamos divagar, sobre os anseios e frustrações da juventude. É um tema recorrente. Ontem o Presidente da República referiu que um país onde as instituições não sejam fiáveis, que não cresça e não inove, criando riqueza e oportunidades para todos, que não tenha uma escola de onde saiam elites capazes de integrar a sociedade do conhecimento e lidar com as tecnologias mais avançadas, nem confia no seu próprio futuro, dificilmente vencerá. Mas ele foi 1º Ministro durante anos e teve um Ministro da Educação que foi o Couto dos Santos. Já o devia ter entendido então.
E lembrei-me de Lawrence Grossberg. Da Actual do Expresso, de Sábado passado, de um texto de António Guerreiro, destaco um trecho significativo:
Hoje, as pessoas não só acham que não vale a pena gastar dinheiro com os jovens como há mesmo uma ideia bastante difundida de que são potencial­mente criminosos. A imagem idealizada da juventude dissociou-se dos próprios jo­vens.» E acrescenta: «O futuro entrou em colapso, desapareceu ou já só existe como imagem catastrófica. Os estudantes, e os jo­vens em geral, têm um grande receio, quan­to ao seu futuro, coisa que não acontecia na minha geração. E esta luta pelo futuro con­some tudo. O problema, hoje, é o da sobrevi­vência, não há espaço nem tempo para a imaginação.»

sábado, 7 de junho de 2008

ESTA ATÉ DÓI

'A penalização por não participares na política, é acabares a ser governado pelos teus inferiores'.



Platão

quinta-feira, 5 de junho de 2008

POLÍTICA

A política foi primeiro a arte de impedir as pessoas de se intrometerem naquilo que lhes diz respeito. Em época posterior, acrescentaram-lhe a arte de forçar as pessoas a decidir sobre o que não entendem.
Paul Valéry, in "Olhares Sobre o Mundo Moderno"

sexta-feira, 30 de maio de 2008

O NOSSO PATRIOTISMO

O patriotismo emocional é um fogo de palha, que ora se inflama à notícia de um efeito desportivo, ora se afunda por completo ao aceitar sem um assomo de resistência as leis, os actos de governação, as propostas polí­ticas, culturais ou estéticas mais radicalmente avessas aos interesses nacio­nais, à vontade de regeneração segundo a identidade portuguesa ou às tra­ves mestras da nossa estrutura cultural.
O patriotismo familiar, habitual e espontâneo não é suficiente para fundamentar uma convicção patriótica resistente, coerente e à prova de todos os exteriores, modas e ideologias deformadoras. Ele exige na verdade, ao seu nível e para além dele, a religação àquilo a que poderíamos chamar o patriotismo racional de elites conscientes do significado dos valores que nele se representam. A comunhão colectiva do patriotismo, para não degenerar em fanatismo, em psicologia de rebanho ou em vacuidade sentimen­tal à flor da pele, depende da capacidade intelectual de uma geração para formular a sua própria patriosofia: religação a um centro axiológico, inte­lectual e criacionista do qual derivem, como em círculos que se esbatem quanto mais dele se afastem, as formas mais ou menos despertas de tal convicção.O que na realidade se esbateu ou desapareceu quase por completo entre nós não foi o patriotismo emocional que, por ser insuficiente, é muitas vezes manipulado por ideólogos e demagogos de má fé, foi a relação fun­damental da substância e dos princípios da identidade pátria com a sua razão teleológica em movimento, relação que um dia corporizou no projecto áureo português, centro vital e motor de tradição lusíada, e que aguarda a reactivação ou a renovação sempre possíveis desde que se cumpram as imprescindíveis condições.
António Quadros, in "PORTUGAL, Razão e Mistério - I"
O muito que eu devo a este português, que nunca conheci. Infelizmente, julgo que a grande maioria dos portugueses não conhece nada da sua obra. O que faz de todos nós um povo paupérrimo.

NINGUÉM

Ninguém, das dezenas de pessoas que por este blog passou, colocou um comentário ao facto de um bébé de 15 dias ter ido para Lisboa sem a sua mãe, para o hospital D. Estefânia. Eu já sabia que a fome, as guerras, as misérias e os desplantes servidos a acompanhar o jantar pelos telejornais, estupidificam as populações. Mas não esperava que retirassem a capacidade de se indignarem. Estava enganado. Já se perdeu essa capacidade. Paciência. É a vida.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

HOJE, UM BÉBÉ ...

Foi para Lisboa, para o Hospital da Estefânia. Tem 15 dias. A mãe não foi, por falta de capacidade económica, e a ajuda da assistência social é insuficiente para estar em Lisboa. Um bebé de 15 dias foi sem a sua mãe. Quando, no continente, criticarem algumas coisas nas ilhas, e algumas até serão justas, pensem primeiro no que é a insularidade, sobretudo num país como o nosso. Em que os deputados se auto-aumentam nas despesas de representação. Mas representam o quê?

segunda-feira, 26 de maio de 2008

E PORQUE É QUE NÃO SE FALA DE QUEM CONDUZIU O PAÍS PARA O DÉFICE EXCESSIVO?


Todo o mundo fala dos sacrifícios que o país tem de fazer, em reduzir o défice, etc.. Mas dos culpados que, por políticas totalmente erradas e desajustadas da realidade, conduziram o pais para esse beco, ninguém fala. Todos assobiam para o lado como se não fosse nada com eles. É a vida, foi a única resposta que ouvi sobre o assunto. Podem fazer asneiras que o povo só pode julgar nas eleições. E asneira feita, paciência. Culpados? Que é isso? E o país não se revolta? “Gentinha morna”, como nos classificou Mercia Eliade, no seu «Diário Português».

sexta-feira, 23 de maio de 2008

ESBOROAR

É, quanto a mim, o termo que melhor define o Portugal actual. As pontes caem. O interior despovoa-se. Não há nenhuma estratégia nacional seja para o que for. E internacional é melhor nem falar. A ignorância passou a ser apanágio do ensino. Dos professores e dos alunos. Não temos frota. Não temos governantes capazes. Não se faz manutenção eficaz das estruturas existentes. Já não temos vergonha. Temos 1/5 da população mergulhada na pobreza absoluta. E mais 2/5 a caminho dela. Os ministros mentem e os portugueses já acham normal. Portugal está em guerra civil nas estradas. Mas não com a corrupção. Os monumentos, parcos e serôdios estão no desmazelo. Um tribunal, relativamente novo tem de ser abandonado por que pode desmoronar. Não há culpas, e nunca responsáveis. Os orçamentos é que derrapam. O país está a esboroar-se. É o termo certo. ESBOROAR. E só me lembrei de um pai chinês que desfazia em pó, esboroando, com as suas mãos, os materiais com que a escola, que sepultou o seu filho, tinha sido construída. O que falta para os pais portugueses fazerem o mesmo?

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O CAMINHO

Andamos sempre a deambular à volta da grandeza ou da pequenez de Portugal. No fundo o máximo que podemos aspirar é discutir se somos ou não o último dos 25. Que caminhos percorremos até aqui chegar? VPV deu uma excelente resposta a esta deambulação no seu último artigo no Público Domingo passado:
Um dia, em 1977 ou 1978, Diogo Freitas do Amaral, um jovem patriota de grande fervor, disse que um povo - como o nosso -, que tinha descoberto o caminho marítimo para a Índia, era com certeza capaz de descobrir o caminho para o desenvolvimento. Nunca me esqueci desta frase, porque, no fundo, se descobrimos o caminho marítimo para a Índia, foi precisamente porque não descobrimos o caminho para o desenvolvimento.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

NOS TEMPOS DO ABSURDO

Continuando na linha que venho desenvolvendo não posso deixar de colocar aqui um trecho de uma entrevista, no Expresso do passado Sábado, a D. Manuel Martins.

A forma de actuar da Igreja mudou...
Hoje, a nossa Igreja é um arquipélago. Vive-se para a liturgia, não é evangeliza­dora. Acho que a Igreja não está a «funcionar», a comportar-se como Jesus quer. Já ninguém sai da missa «incomo­dado» na sua consciência com a litur­gia... A Igreja perdeu a capacidade de «sujar» as mãos com a vida dos homens. A Igreja deveria manifestar-se mais. Por vezes, acredita mais no Belmiro de Azevedo e outros, anda pendurada em dependências... A Igreja evangeliza por sinais e a nossa, em Portugal, não tem dado sinais.

Que sinais são precisos?
Que a Igreja seja pobre. Gostava de uma Igreja que não condenasse, que dialogas­se, que derrubasse muros, que comungas­se os problemas do mundo, que ouvisse os clamores das pessoas e lhes soubesse responder. Quero uma Igreja que apren­da com o mundo e descubra uma maneira nova de estar.

Como é que a Igreja deveria estar no mundo?
No ano 2000 (Ano do Jubileu do Cristianismo), os bispos queriam dar um sinal; Achei que deveríamos ter encerrado as igrejas para fazer uma reflexão de renovação. Senão enquista-se, torna-se empresa. Gostava, que os pobres notassem que a Igreja está incomodada com a sua situação... Os bispos deveriam reunir-se para reflectir os problemas que existem, como deveríamos sensibilizar as comunidades. Mas nas assembleias episcopais vão discutir mais um catecismo, mais uma edição da Bíblia. O arcebispo de Braga (presidente g Conferência Episcopal) lamenta-se que o Governo quer a Igreja na sacristia; só quando se sente que «tocam» na Igreja é que se diz alto que não está bem... É preciso que Igreja se converta ela mesma à dignidade humana. Nas homilias fala-se dos marginais, mas não se faz nada com eles.

E porquê tanta inacção?
Preferimos andar «nisto», que não incomoda da ninguém... As pessoas da Igreja já perderam capacidade de protesto. Por exemplo perante a lei de trabalho que querem colocar em vigor, não percebo como é que a Igreja se cala, diante de uma agressão tão grande aos direitos da pessoa humana! É iníquo a Igreja calar-se. Dói-me que a Igreja ande entretida com coisas outras e não se empenhe numa questão tão importante para a vida da população, do país. Antes de tudo, é preciso que a Igreja se converta a ela mesma. A Igreja tem de estar num esforço permanente de reconversão. Depois Ela tem de sair para a rua, para que povo note que está ao serviço do Homem. Toda esta descoberta da dignidade funda-se na democracia, que passa pela vivência e pelo testemunho de uma descoberta de valores e estamos muito longe de qualquer coisa a que se possa chamar de democracia

terça-feira, 13 de maio de 2008

SEMPRE CONSTANTE

O tempo é constante mudança. A percepção que temos desse tempo, da intuição dessa constância e da inflexibilidade dessa mudança é que nos predispõe para o futuro. Se distinguimos o suficiente, então vamos na onda. Senão, vamos empurrados pelas vagas sucessivas das ondas. Arreigados a um conservadorismo de tempos estáveis, seremos arrastados pela avalanche determinada pelo fluir das pressões acumuladas, e resultantes dos egoísmos de partilha. Eterno é o tempo, mas constante nessa eternidade é a mudança. Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar. Assim se badalava na década de 60. Mas ignorámos. Era mais cómodo. Diria mesmo que era mais aconchegante, mais fetal. Não ousámos e nem lutámos pela defesa de princípios. Agora parece que já ninguém tem coragem para o fazer. Defenderam princípios, mas quiseram enriquecer. Ou simplesmente enriqueceram descurando os princípios. O eterno antagonismo. Princípios e enriquecimento não são compatíveis.

(Como não fazem comentários, apesar de por aqui passarem a ler, julgo que estes temas não são agradáveis. Julgo que futebol facilitaria mais.)

E hoje volta a citar uma excelente dissertação, "DIÁLOGOS ABSURDOS - O silêncio traduzido em gritos pelos monstros de Samuel Beckett", de Sara Massa. Espero que seja a última citação dela. A próxima será a minha crítica sobre a excelente dissertação.
As personagens beckettianas revelam-se através do seu próprio discurso, na primeira pessoa (segundo um modelo autodiegético), de modo fragmentário e de difícil compreensão, estendendo o seu discurso por tempos e espaços indefinidos, e esquecendo-se, ainda que propositadamente, de agir. A verdade é que todas parecem estar conscientes do absurdo que está subjacente à nossa existência e, por conseguinte, buscam, incessantemente, mas com naturalidade, o silêncio e o nada. O que Beckett nos mostra é, em última análise, um reflexo daquilo que realmente somos, mas aquilo que mais nos espanta ao lê-lo, hoje, é a dificuldade que a humanidade manifesta em se rever naquelas personagens monstruosamente belas.
É hora de nos olharmos com coragem neste espelho que são as obras de Samuel Beckett. Só quem se conhece pode conhecer os outros e pode permitir-se sonhar compreender melhor o mundo. Deixarmo-nos esquecer, alienarmo-nos das reflexões mais sérias e, por isso, mais exigentes sobre a natureza e responsabilidade humanas, e ignorarmos que a nossa dignidade reside única e exclusivamente na capacidade de pensar o tempo é o mesmo que desumanizarmo-nos, embrutecermo­ -nos, deixarmos de ser um belo monstro, para nos transformarmos em mais um dos autómatos amontoados nas sucatas deste planeta. Não o faremos. Tentaremos compreendere-nos). Beckett acredita que temos de continuar. Continuemos...

sábado, 10 de maio de 2008

A FOME INFAME

Este é o título do artigo de Boaventura de Sousa Santos, publicado na Visão de 8/5/2008. Muito pertinente. Eis aqui um trecho:
O escândalo, finalmente, estalou na opinião pública: a substituição da agricul­tura familiar, camponesa, orientada para a auto­-suficiência alimentar e os mercados locais, pela grande agro-indús­tria, orientada para a monocultura de pro­dutos de exportação (flores ou tomates), longe de resolver o problema alimentar do mundo, agravou-o. Cerca de um sexto da humanidade passa fome; segundo o Banco Mundial, 33 países estão à beira de uma crise alimentar grave; mesmo nos países mais desenvolvidos, os bancos alimen­tares estão a perder as suas reservas; e voltaram as revoltas da fome.
A opinião pública está a ser desinforma­da sobre esta matéria, para que se não dê conta do que se está a passar.
Porque é explosivo: a fome do mundo é a nova grande fonte de lucros do grande capital finan­ceiro e os lucros aumentam na mesma proporção que a fome. A fome no mundo não é um fenómeno novo. Ficaram fa­mosas na Europa as revoltas da fome, desde a Idade Média até ao século XIX. O que é novo são as suas causas e o modo como as principais são ocultadas.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

A CUPIDEZ DO LUCRO

Reparei que a sociedade aberta estava ameaçada nos Estados Unidos por outra tendência: as actividades que costumavam ser vistas como profissões estavam a transformar-se em negócios. Isto aplicava-se a profis­sões como o direito e a medicina - já para não falar da política. Quando as profissões se transformam em negócios concentrados no lucro, as exigências profis­sionais ficam em perigo; isto, por sua vez, reforça a falta de valores característica das sociedades abertas. A minha preocupação derivava directamente da minha estrutura conceptual. Levou-me a criar projectos sobre as profissões ligadas ao direito e à medicina. Os pro­jectos ganharam então vida própria e foram aplicados em várias actividades importantes, mas não contribuí­ram muito para resolver o problema que levara à sua criação. A justiça criminal acabou por ser o campo onde a fundação americana mostrou realmente o seu vigor, por causa do historial da sua liderança em ter­mos de direitos humanos e liberdades civis e também por haver tanto que fazer.
Mas a falta de respeito pelos valores profissionais tornou-se ainda mais pronunciada do que era quando alargámos os nossos projectos às profissões ligadas à ciência e à academia. Os direitos de propriedade inte­lectual tinham transformado o pensamento em pro­priedade. A investigação é feita mais com o objectivo de gerar riqueza do que puro conhecimento, e a aca­demia está a perder a sua identidade como um fim em si mesmo. A corrida aos direitos de propriedade inte­lectual inibe a busca da verdade.
Para piorar as coisas, a ciência e a academia estão a sofrer ataques motivados por ideologias. Na ciência, os defensores da concepção inteligente* exploraram a tolerância de hipóteses alternativas reivindicando a mesma importância para a sua teoria não científica; na academia, um grupo de direita aproveitou a luta por um melhor equilíbrio racial e sexual para exigir a diversidade política, introduzindo assim os partidos políticos no recrutamento académico. As universidades têm dificuldade em resistir porque as quotas raciais e sexuais debilitaram o princípio de recrutamento baseado exclusivamente no mérito.
Tal como a mentalidade dos negócios entrou em áreas a que não pertence propriamente, a política faz agora o mesmo. Estas tendências colocam em perigo a sociedade aberta.
George Soros, in " A ERA DA FALIBILIDADE"

AUTORITARISMO DA MEDIOCRIDADE

Portugal é o único país do Ocidente em que o autoritarismo, acompanhado ou não pela insignificância e a mediocridade, é uma recomendação decisiva para o eleitorado. E Portugal é o único país do Ocidente que espera do Estado a sua salvação. A política não criou um português diferente, como tanta gente (boa e má) sonhou: um português tolerante, democrático, solidário, com autonomia e iniciativa. A política mascarou o português que por aí anda com alguns sinais de civilização. No resto não tocou.
VPV, hoje, no Público.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

DECORAR CHÁVENAS DE CAFÉ

Esta tese, necessariamente marcada com uma tonalidade ensaística, é uma tentativa simples e despretensiosa de conseguir algum contentamento num tempo triste. Numa época, em que os versos de Femando Pessoa servem o propósito fácil e comercial de decorar chávenas de café e panos de loiça, sem que deles se colha qualquer outro fruto, nós sentimos a necessidade de pensar alto e partilhar, através da escrita, estes nossos pensamentos.
Este trecho está na introdução da dissertação de mestrado de Sara Massa, intitulada "DIÁLOGOS ABSURDOS - O silêncio traduzido em gritos pelos monstros de Samuel Beckett".
Uma dissertação a ler com muita atenção.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

LEALDADE

Lealdade nunca é subserviência. São duas coisas muito diferentes. E tem mais: os subservientes jamais são leais, pois não passam de cobardes num jogo constante de obediências no objectivo de apurar proveitos, quantas vezes indignos.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

AS ASAS DO PORTUGUÊS

Um excelente artigo de José Eduardo Agualusa intitulado "EÇA DE QUEIRÓS E AS ASAS DO PORTUGUÊS", publicado na revista LER nº 69, deste mês. Artigo que deve ser lido na íntegra. Mas relevo aqui três passagens desse artigo:



Hoje debruço-me sobre Portugal de uma va­randa mais vasta - a Eternidade - e de novo me aflige o desdouro. Não que Portugal esteja pior do que há cem anos; está todavia mais pequeno. Já nem é bem um país – é um resumo.
(...)
Hoje erramos em ponto pequeno, e ainda por cima por imitação. Além disso, sendo minúsculos, ainda guardamos a memória do tempo em que fomos grandes, e isso é pior do que ser pequeno sem jamais ter sido grande. É um destino em tudo idêntico ao da bela mulher que envelhece.
(*)
(...)
Há tempos passeava eu, placidamente, era um fim de tarde lento e melancólico, junto aos fortes portões do Paraíso, quando vi chegar um português. Via-se pela alma que fora um homem sem maldade. Também se via, olhando melhor, que fora inteiramente sem maldade, não por um esfor­ço de vontade, mas por pura preguiça. São Pedro recebeu-o com um fatigado abraço - lembrem-se que findava o dia - e estendeu-lhe um par de asas. O português protestou: «E que farei eu com essas asas?» São Pedro, encolhendo os ombros magros: «Ora, filho, voa!» O português recuou, aterrado: «Ah não! Isso é que não pode ser! Fique lá o senhor com as asas que eu se vim para aqui foi para descansar.» E assim vamos nós.

(*)Sobre este tema da memória do termos sido, já tenho, recorridamente, divagado por aqui. O último, alguns postes abaixo, foi "O passado cabe todo num livro de 600 páginas"


domingo, 4 de maio de 2008

O DESEMPREGO ULTRAPASSA, E MUITO, A FRIEZA DOS NÚMEROS. SÃO PESSOAS.

Sobre o desemprego destaco um trecho de um bom artigo do Pacheco Pereira, retirado do seu blog ABRUPTO.

Mas nem por não se ter qualquer solução a curto prazo, a sociedade, nós todos, devemos deixar de olhar para cada um destes desempregos colectivos de mulheres sem a preocupação de vermos e sentirmos a devastação que ele tem por trás, o atraso social que isto significa para Portugal. Estas mulheres não vão educar os seus filhos da mesma maneira, vão reproduzir melhor o Portugal antigo do que preparar o novo. Elas sentem que falharam, tinham algumas ilusões que perderam. Mas nós falhamos mais se não temos a consciência de fazer alguma coisa. Porque se pode, na acção cívica, no voluntariado, no mundo empresarial, na política, fazer muita coisa por estas mulheres. O que é preciso é vê-las e à sua condição e não as cobrir com o manto diáfano da inevitabilidade. A começar pelo Governo, que mais uma vez se vai voltar para o betão e não para as pessoas.
(Versão do Público, de 3 de Maio de 2008.)

sábado, 3 de maio de 2008

PELOS EX-COMBATENTES

Aqui vai o

DISCURSO DO EXMO. GENERAL VASCO ROCHA VIEIRA, NA COMEMORAÇÃO DO 90.º ANIVERSÁRIO DA BATALHA DE LA LYS, BATALHA - 9 de Abril de 2008, DIA DO COMBATENTE

"Vivemos tempos de crise.
São tempos em que se esquecem valores, em que se afirmam antagonismos sem sentido de comunidade, em que se foge para o individualismo como pretexto para não assumir a responsabilidade de defender a colectividade.
São tempos de máscaras e aparências, em que se esquece o valor do serviço e o respeito pela realidade.
São tempos sem glória.
São tempos em que as lamentações das vítimas esquecem os exemplos dos heróis.
São tempos que ignoram o passado da independência e anunciam um futuro sem liberdade.
São tempos de resignação e de fatalismo.
O que o presente nos mostra exige que se diga que não queremos ir por aí, que não vamos por aí.
Entre a ilusão que nos engana e a realidade que nos interpela e desafia, temos de saber escolher a verdade efectiva das coisas.
Temos de saber construir o futuro com a nossa vontade, enfrentando a verdade das coisas e das forças, vendo-as como elas são, e não como, por ingenuidade ou por desalento, gostaríamos que fossem.
Estes também são tempos para voltarmos aos valores essenciais, para defender a memória dos que construíram Portugal independente, para honrarmos a responsabilidade de deixar aos sucessores mais do que aquilo que herdamos dos que nos antecederam.
É por tudo isto que estes não podem continuar a ser tempos de resignação e de fatalismo.
Perante dois camaradas nossos, tombados em combate em terras da Europa e em terras de África, afirmamos e honramos aqueles que, sujeitos à condição militar, venceram a luta pelo prestígio pagando como preço a própria vida.
Todos os que tombaram em combate, todos os que perderam uma parte da sua vida em nome do dever militar, têm o direito à nossa homenagem.
É isso que distingue os homens livres dos escravos.
Pouco importa se venceram ou perderam a guerra em que morreram.
Quem combate, quando combate, não conhece o fim da História.
Não tem a distância do crítico, nem a serenidade do historiador.
É sujeito da condição militar, prossegue os desígnios da política pelos meios extremos da guerra.
Não teme a morte, porque sabe que só quem não tem medo da morte pode afirmar a vida, para ele e para os seus.
Quem combate não declarou a guerra.
Combate porque essa é a sua condição militar, combate para que a sua pátria não venha a ser terra de escravos.
Combate para que os que detêm a responsabilidade política conduzam os destinos do país até aos tempos de paz, de desenvolvimento e de cooperação.
Combate para que a guerra tenha um fim.
Faz a guerra com a finalidade na paz.
Mas não haverá paz, só haverá escravatura e dependência, se não assumir essa responsabilidade de fazer a guerra.
Foi esse o caminho que escolheu quando aceitou assumir a condição militar.
Todas as sociedades que se organizaram até atingirem a condição de serem independentes, de serem habitadas por homens livres e não por escravos, assentaram em três pilares, em três funções constituintes e integradoras, formadoras da sua identidade: o agricultor, o religioso, o guerreiro – o que trabalha a terra, o que trabalha as ideias, o que trabalha as armas e assume o combate.
A evolução das civilizações e das culturas foi alterando estas designações, mas não alterou os seus conteúdos e os seus valores, não alterou o papel integrador destas três funções.
A subsistência material da comunidade, a condução da evolução da sociedade dentro de uma visão do mundo e realizando o critério da justiça, a defesa dos valores e das liberdades de todos os que vivem nesse território, podem designar-se hoje como economia, como política e como defesa, mas estes três pilares continuam a ser os factores constituintes da independência e da liberdade.
Nenhum desses pilares existe sem os outros, todos são necessários para que a comunidade nacional produza riqueza, afirme a sua independência, garanta a sua liberdade, defenda os seus valores.
Os que esquecem esta interrelação, os que ignoram a necessidade dos três vectores, condenam-se a perder tudo: a autonomia económica, a independência política, a liberdade cívica, o sentido dos valores.Condenam-se à pobreza, à subordinação, à escravatura, à perda do futuro.Estes são riscos reais que se configuram nestes tempos de crise.
Ignorá-los, esquecer a exigência da mobilização para os enfrentar, seria um acto de traição.Traição à Pátria, certamente.Mas também traição a nós próprios, traição ao que nos foi deixado em herança, traição aos nossos valores de independência e de liberdade, traição ao nosso sentido de dignidade.
Perante dois portugueses sem nome, que morreram cumprindo a obrigação da sua condição de militar, devemos-lhes a determinação e a mobilização com que se poderá vencer estes riscos reais com que estamos confrontados.
Para que o seu sacrifício não tenha sido em vão, somos nós que temos de preservar os valores da condição militar, aceitando o combate quando isso é inevitável para não sermos condenados a um destino de escravos.
Escravos de outros poderes ou escravos das ilusões, escravos de ideologias ou escravos de fantasias, escravos de compradores ou escravos de credores, mas sempre sem liberdade, sem identidade e sem dignidade, sem voz e sem direitos.
Os combatentes que se reúnem aqui, hoje, vindos das mais diversas partes de Portugal, renovam o seu compromisso de honra para com a Pátria, prestando homenagem aos que morreram em seu nome para que haja liberdade e independência.
Os que aqui estão, combatentes do nosso tempo, ganharam o direito, pelo seu sacrifício e pela sua lealdade, a que lhes seja reconhecido o mérito, a coragem e a dedicação de quem soube assumir as suas responsabilidades.
Nos tempos de crise, como são os que vivemos, tudo parece complexo, intrincado, irresolúvel, irremediável.
Não é assim, não tem de ser assim.
E só será assim se nos faltar a vontade, se perdermos o sentido da dignidade, se abandonarmos o valor da liberdade.
As crises têm uma origem, têm uma trajectória, têm um diagnóstico, têm uma terapêutica, têm um tratamento.
É neste quadro que a condição militar, assumida no juramento que é feito por cada elemento das Forças Armadas, ganha um peso simbólico superior.
A função militar, a responsabilidade pela defesa, é apenas um dos alicerces em que assenta uma sociedade independente e livre.
Não se substitui aos outros alicerces, às outras funções, mas é sua obrigação contribuir para que as outras funções tenham todas as condições para se cumprirem.
Se cada um – produtor, político, soldado – for fiel às obrigações da sua função, se cada um aceitar todas as responsabilidades da sua condição, se cada um respeitar o juramento que faz perante todos os outros de que defenderá a independência e a liberdade, encontraremos as respostas para as dificuldades, seremos capazes de superar a crise.
Esse será o resultado do regular funcionamento das instituições democráticas, conjugando, com inteligência, com realismo e com determinação, o produtor, o político e o soldado – isto é, o crescimento económico, a orientação estratégica na resolução dos conflitos de interesses e a defesa da independência e da liberdade.
E é no estrito respeito pelas normas do regular funcionamento das instituições democráticas que os que são sujeitos da condição militar, por opção de vida e por fidelidade a um juramento de honra, têm legitimidade para esperar dos responsáveis políticos as condições necessárias para o efectivo cumprimento das missões que lhes são atribuídas.
As sociedades precisam da instituição que, na obediência da condição militar, tem por valor superior a sua defesa.
No quadro da sua estrita responsabilidade de defesa da independência e da liberdade nacionais, as Forças Armadas não escolhem as missões que lhes são atribuídas pelos responsáveis políticos.É aos responsáveis políticos que pertence a responsabilidade de fazerem corresponder as missões que atribuem aos militares com os meios que põem a disposição dos que colocam em risco as vidas para as cumprirem.
A unidade das Forças Armadas, condição essencial para que cumpra a sua função de defesa da unidade nacional, não pode, em nenhuma circunstância, ser posta em causa ou em dúvida.
Mas a dignidade das Forças Armadas exige que ao seu quadro de missões corresponda o adequado sistema de meios.
Junto aos túmulos de dois soldados, renovamos o juramento que nos integrou na condição militar.
Como sempre, em tempos de estabilidade e em tempos de crise, a unidade das Forças Armadas é uma condição necessária para a defesa da independência, para a garantia da liberdade e para o regular funcionamento das instituições democráticas.
Outros contribuirão para que a esta condição necessária se juntem as condições suficientes para que os portugueses possam construir o seu futuro por afirmação da sua vontade e dos seus valores.Viva Portugal."

A NOSSA CRUZ SÃO SEMPRE ELES, OS MEDÍOCRES

«Há um ou outro videirinho, um ou outro aventureiro, um ou outro louco - um grande homem ou uma grande mulher não há. Quem vai perder tempo com as mediocridade que, só Deus sabe porquê, nos pastoreiam hoje?E que têm elas para oferecer, além de uma retórica morta e desprezível.
(...)
Quando por acaso "adere" a um partido, a juventude que por aí anda quer, como lhe compete, um emprego. Não se lhe pode pedir que queira diferente ou queira mais.
(...)
Agora, com a democracia estabilizada e a economia de mercado, o indivíduo não pertence a "parte" alguma e não partilha nenhum destino. Aprendeu a desconfiar do Estado e da mítica igualdade que o Estado pretende estabelecer; e, sobretudo, a contar exclusivamente consigo. Não vê a política como um encontro e uma comunidade. Vê a política como um negócio e uma questão de clientelas. Não se interessa? Claro que não se interessa.»
VPV, hoje, no Público.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

E A NOSSA GEOESTRATÉGIA

A propósito do post anterior, este trecho do Prof. Adriano Moreira publicado no DN em 30.12.2003:

No caso português, parece que a relação com o mar está a exigir atenção, e é inquestionável que ela interessa de maneira essencial à identidade nacional. São já muitos os aspectos em que se desdobra o risco de erosão, a começar pelo conflito entre o europeísmo e o americanismo. Não parece dispensável assumir que o afastamento dos mais poderosos Estados da frente marítima europeia de solidariedade atlântica, obrigará os restantes a reflectir sobre a relação entre a sua condição economicamente periférica, e a sua geografia de fronteira entre as duas concepções estratégicas. A questão do mar e da identidade está envolvida no processo, dependente de interesses exógenos que não a terão em conta. O tema das capacidades, e a definição de força naval ganham em relevância e exigência de um conceito estratégico nacional até agora de difícil concretização. Por outro lado, o tema das autonomias e da outra Europa, para um país que tem a nossa estrutura geográfica, exige um empenho que inclui o esforço pela manutenção de uma presença efectiva no mar, e pela defesa e reforço da identidade em resposta a uma conjuntura volátil. Tão volátil, que os efeitos dos compromissos europeus sobre a zona económica exclusiva parecem ter surpreendido até os informados, impondo avaliar com urgência a dimensão que resta da frota pesqueira, a relação desta com a dependência de recursos, e o efeito sobre a consistência da presença do mar na identidade portuguesa.

ESPAÇO VITAL

É um conceito muito caro a quem se interessa por geoestratégia. Hoje, no Público, vem esta notícia sobre uma comunicação feita pelo director da CIA numa universidade, sobre a qual não se pode deixar de reflectir:
O crescimento populacional e a maré cheia da imigração são os novos desafios que os Estados Unidos terão de enfrentar no próximo meio século, considerou o director da CIA, Michael Hayden, num discurso na Universidade do Kansas. Em 2050, o número de seres humanos na Terra deve subir dos actuais 6700 milhões para 9000 milhões. Nos próximos 40 anos, disse Hayden, citado pelo jornal The Washington Post, o crescimento projectado de 33 por cento da população será um dos factores mais significativos para a segurança no século XXI. A pressão populacional reduzirá os recursos e alimentará movimentos extremistas e de insurreição civil em vários pontos do globo, disse Hayden. "A maior parte do crescimento populacional será nos países com menos condições para o suportar." Espera-se que a população do Níger e da Libéria triplique nos próximos 40 anos. A pressão para garantir alimentos, abrigo e emprego para tantos milhões de pessoas "pode fazer com que muitos se sintam atraídos pela violência ou pelo extremismo", considera o director da agência de espionagem norte-americana. Nesta visão da CIA, os países mais ricos, as divisões étnicas e raciais, sublinhadas pela imigração, podem criar problemas de segurança, em especial nos países europeus com muitos imigrantes muçulmanos. Por outro lado, Hayden considera que a Europa e os EUA vão continuar a divergir na forma como lidam com o terrorismo. "Eles [os europeus] tendem a não vê-lo como nós, como um grande desafio internacional. Encaram o terrorismo mais como um problema de vigilância policial." A terceira tendência para os próximos 50 anos identificada por Hayden é a da emergência da China como uma potência económica e militar. Mas isso não tem de ser uma ameaça: "Se Pequim começar a aceitar mais responsabilidades no sistema internacional, manter-nos-emos num caminho competitivo mas construtivo."

segunda-feira, 28 de abril de 2008

sábado, 26 de abril de 2008

25 DE ABRIL É A DATA DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS MEDÍOCRES

A mediocridade instalou-se em Portugal.

domingo, 20 de abril de 2008

O PASSADO CABE TODO NUM LIVRO DE 600 PÁGINAS, ENTALADO NUMA PRATELEIRA.


Um amigo meu não gostou da frase com que terminei o post anterior. Pode-se não gostar, mas é a realidade para onde nos encaminhamos. O nosso passado sobrevive nos discursos de circunstância, para fatalmente referirem que “nós já fomos” isto e aquilo. Fomos, mas nunca que somos ou seremos. Falta a crença. E falta muito o querer. Sobretudo a um povo que vive acossado entre manobras de vigaristas sem escrúpulos.
Por isso o passado já só vive nas páginas de livros e nas saudades nostálgicas de alguns. Que até chegam a ter saudades de si próprios, do que foram face ao que se transformaram, nuns acomodados. E a juventude desligou-se da memória do país. Não lê, não estuda e até já tem professores que são ignorantes. O que era previsível. A ignorância vai reproduzindo-se. E o tal livro cada vez mais entalado na prateleira. E se a juventude não tem memória colectiva, também não tem valores pátrios nem futuro colectivo. Irá ficar, bem como o país, à mercê das contingências externas, mas sem referências que a permitam posicionar-se face a essas contingências. Dramático? Não. A evolução dos povos determina que há sempre uma decadência algures no percurso. Já somos um país velho e sem garra. Se esvaímos a boa seiva, naturalmente que a árvore tenderá a definhar. É da natureza. A não ser que haja um bom tratamento “botânico” por “agrónomo” credível, a árvore definhará sem remissão. Ficará o livro com uma memória encerrada nas suas páginas.

sábado, 19 de abril de 2008

SE O PAÍS NÃO SE ORGULHA DE SI ... ...


É óbvio que não pode passar da cepa torta. Os portugueses estão cada vez mais mesquinhos e pouco solidários. E sempre muito burgessos. Não há forma de evoluir neste quadro. Ou mudam as atitudes perante a vida e perante os outros e a sociedade em geral, ou o futuro será uma triste história.
Há falta de solidariedade entre os portugueses. Existem grupos que têm mais capacidade de reivindicar, exercendo até chantagem, e pouco se importando com os outros, ou com o que os outros terão de pagar para eles poderem viver bem melhor do que os que, obrigatoriamente, têm de os sustentar. E o país também não é uniformemente solidário. Já por aqui o tenho afirmado. Vivemos tempos de egoísmo acérrimo e feroz. A maneira como o país trata o interior é reveladora do mau carácter de uma parte da população portuguesa. Retiram-lhes tudo o que é possível retirar, como escolas, hospitais e demais estruturas necessárias. Depois para irem buscar electricidade destroem-lhes a paisagem e os recursos, danificando o meio ambiente. É o caso da barragem no Tua. Não faz falta nenhuma aos que por lá vivem, mas sim aos de Lisboa. Mas não fazem nenhuma barragem que destrua Lisboa e arredores. Destroem o interior. Lisboa e arredores absorvem tudo o que podem do país. E nada dão em troca. A solidariedade nacional há muito que morreu. Assim como a verdade sobre o estado do país. Bem como a honra que antigamente se fazia questão de se exibir. Assim morreu a esperança no país. Não há nada para se exibir como orgulho. Alguns ainda falam do passado, mas isso fica tudo contido num livro de 400 a 600 páginas, algures numa prateleira, que os mais novos já não lêem.

terça-feira, 15 de abril de 2008

PATRIOTISMO EMOCIONAL

Continuando com António Quadros. Não deixem de ler os dois volumes dessa obra.

“O patriotismo emocional é um fogo de palha, que ora se inflama à notícia de um efeito desportivo, ora se afunda por completo ao aceitar sem um assomo de resistência as leis, os actos de governação, as propostas politicas, culturais ou estéticas mais radicalmente avessas aos interesses nacionais, à vontade de regeneração segunda a identidade portuguesa ou às traves mestras da nossa estrutura cultural.”

António Quadros (in, Portugal Razão e Mistério)

Muito adequado aos últimos tempos que se estão vivendo.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

VENCIDA A AUTO-DIVINIZAÇÃO EGOLÁTRICA

Uma reportagem, hoje, da RTP1 sugeria que a Maçonaria iria dialogar com a Igreja Católica. O que me inspirou para transcrever aqui este texto do António Quadros, retirado do blog que lhe é dedicado e com link aí ao lado:
"Meu Eu, meu Deus: vencida a auto-divinização egolátrica, quebrada a casca do ensimesmamento pequenamente lírico e empecido, o eu pode tornar-se espelho de transcendência, caminho de diálogo com algo que o excede «ser mediador» para uma outra e a mesma realidade: a do Deus que nos fala e em nós fala no nosso próprio ideal, no nosso próprio movimento, ainda que o investamos de outros nomes, ou a do Deus que por vezes ao longo da jornada, mais cedo ou mais tarde, dificilmente, penosamente, agraciadamente, aprendemos a reconhecer sob mil máscaras que permitem a nossa liberdade..."

terça-feira, 8 de abril de 2008

FRASES CONEXAS

«Vivemos tempos de crise. São tempos de máscaras e aparências, em que se esquece o valor do serviço e o respeito pela realidade. São tempos que ignoram o passado da independência e anunciam um futuro sem liberdade»

Gen. Rocha Vieira, in Correio da Manhã de 6.4.2008, aqui


«Num mundo menos tolerante e mais pobre o adquirido do Maio de 1968 não sobrevive.»

Pacheco Pereira, in Público de 5.4.2008, aqui.



«No fim, como é sabido, a Igreja prevaleceu, produziu Salazar e gozou meio século de uma quase absoluta hegemonia.»

VPV, in Público de 6.4.2008, aqui.
Mas o curioso é que a propósito desta frase de VPV se compare com a capa de uma revista de 1918 que coloquei aqui.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

INFANTILIZAÇÃO DA SOCIEDADE

Hoje, no Público, aqui, o dr. Pedro Afonso, médico psiqiatra, publica um artigo com o título "Os alunos, os professores e a infantilização da sociedade", que eu considero excelente, e que põe as coisas na sua devida dimensão. Aqui deixo o trecho que acho muito significativo do artigo:


(...)
A desautorização dos professores e a demissão dos pais do exercício da sua autoridade educativa, para além de conduzir a atitudes e comportamentos anti-sociais, proporciona a estruturação de personalidades imaturas e com falhas na adaptação social.
Verificamos que na educação das crianças e dos jovens há cada vez mais uma ausência de limites. Existe, por vezes, a noção errada de que a tolerância é o maior dos bens e que os limites, impostos pelas regras, são actos de repressão. Porém, a permissividade excessiva e a ausência de limites na educação são também provas de desamor e de abandono. Neste contexto, a família tem um papel fundamental. Educar obriga muitas vezes a dizer "não" e isso leva muitas vezes a reacções, do lado dos filhos, que são difíceis de presenciar.
Evidentemente que muitas vezes torna-se mais fácil dizer "sim" do que ter que lidar com uma briga ou um amuo. Mas quem disse que educar não dá trabalho? Uma das consequências da ausência de limites na educação é a falta de capacidade para lidar com a frustração. Estes jovens tornam-se impulsivos, incapazes de esperar, procurando a todo o custo a gratificação imediata e a satisfação dos seus desejos. Não é pois de estranhar que, diante uma contrariedade imposta por um professor, a agressividade surja como uma reacção natural.
É curioso constatar que, ao contrário daquilo que seria de supor, o excesso de tolerância na educação das crianças e dos jovens transforma-os precisamente em indivíduos pouco tolerantes. Para se viver em sociedade é necessário aprender regras, é necessário perceber que a minha liberdade termina quando atinge a liberdade do outro. Por isso, a inexistência de normas e limites incita ao individualismo e a um narcisismo intolerável.A capacidade de ouvir o outro também se aprende. Com efeito, para assistir convenientemente a uma aula é necessário que haja quietude e silêncio. Ora, uma grande parte dos nossos jovens não suportam o silêncio. Num mudo repleto de estímulos e de excesso de comunicação, os jovens não conseguem largar o telemóvel, não sabem estar consigo próprios, receando o vazio da solidão.
Para alguns jovens, os professores – tal como os pais – são vistos como figuras autoritárias, repressoras e desprezíveis. Esta atitude pueril reflecte uma falta de interesse e um desdém pelo conhecimento que a educação proporciona. Na verdade, muitos são incapazes de compreender que é o seu próprio futuro que está em jogo. De resto, esta imaturidade transfere-se para a vida adulta, levando a que se tornem adultos inconstantes, inadaptados, revoltados, atribuindo frequentemente à sociedade as razões do seu infortúnio.Fala-se muito na necessidade de educação sexual nas escolas, mas fala-se pouco de educação cívica. Esta é uma matéria na qual a escola tem uma palavra a dizer. Penso que deveria obrigatoriamente fazer parte da formação dos jovens nas escolas uma experiência de voluntariado. De outro modo, como é que será possível criar uma consciência social nos jovens, se não se integra a solidariedade como um elemento da sua formação? Esta falha formativa pode criar uma "infantilização da sociedade", em que o Estado é visto como uma espécie de pai que tem que nos proteger, garantir todos os direitos, e o único responsável pelo nosso destino.
Os jovens estão cada vez mais afastados da religião e das ideologias políticas. Há uma pressão enorme, por parte da sociedade, para o consumismo e para o hedonismo. Todavia, sabemos que o Homem tem outras aspirações, além dos aspectos materiais e da procura da satisfação dos desejos imediatos. Existem outros valores que devem ser ensinados e transmitidos aos nossos jovens. Mas, infelizmente, vivemos cada vez mais numa sociedade light, na qual vinga a cultura da superficialidade, a procura do prazer imediato e o individualismo.
(...)

terça-feira, 1 de abril de 2008

SEM

A vida sem fé é um túnel sem fim, mas sem esperança é um corredor às escuras que não leva a parte nenhuma.
Fernanda de Castro, in " Ao Fim da Memória - Ivol."