sexta-feira, 9 de maio de 2008

AUTORITARISMO DA MEDIOCRIDADE

Portugal é o único país do Ocidente em que o autoritarismo, acompanhado ou não pela insignificância e a mediocridade, é uma recomendação decisiva para o eleitorado. E Portugal é o único país do Ocidente que espera do Estado a sua salvação. A política não criou um português diferente, como tanta gente (boa e má) sonhou: um português tolerante, democrático, solidário, com autonomia e iniciativa. A política mascarou o português que por aí anda com alguns sinais de civilização. No resto não tocou.
VPV, hoje, no Público.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

DECORAR CHÁVENAS DE CAFÉ

Esta tese, necessariamente marcada com uma tonalidade ensaística, é uma tentativa simples e despretensiosa de conseguir algum contentamento num tempo triste. Numa época, em que os versos de Femando Pessoa servem o propósito fácil e comercial de decorar chávenas de café e panos de loiça, sem que deles se colha qualquer outro fruto, nós sentimos a necessidade de pensar alto e partilhar, através da escrita, estes nossos pensamentos.
Este trecho está na introdução da dissertação de mestrado de Sara Massa, intitulada "DIÁLOGOS ABSURDOS - O silêncio traduzido em gritos pelos monstros de Samuel Beckett".
Uma dissertação a ler com muita atenção.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

LEALDADE

Lealdade nunca é subserviência. São duas coisas muito diferentes. E tem mais: os subservientes jamais são leais, pois não passam de cobardes num jogo constante de obediências no objectivo de apurar proveitos, quantas vezes indignos.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

AS ASAS DO PORTUGUÊS

Um excelente artigo de José Eduardo Agualusa intitulado "EÇA DE QUEIRÓS E AS ASAS DO PORTUGUÊS", publicado na revista LER nº 69, deste mês. Artigo que deve ser lido na íntegra. Mas relevo aqui três passagens desse artigo:



Hoje debruço-me sobre Portugal de uma va­randa mais vasta - a Eternidade - e de novo me aflige o desdouro. Não que Portugal esteja pior do que há cem anos; está todavia mais pequeno. Já nem é bem um país – é um resumo.
(...)
Hoje erramos em ponto pequeno, e ainda por cima por imitação. Além disso, sendo minúsculos, ainda guardamos a memória do tempo em que fomos grandes, e isso é pior do que ser pequeno sem jamais ter sido grande. É um destino em tudo idêntico ao da bela mulher que envelhece.
(*)
(...)
Há tempos passeava eu, placidamente, era um fim de tarde lento e melancólico, junto aos fortes portões do Paraíso, quando vi chegar um português. Via-se pela alma que fora um homem sem maldade. Também se via, olhando melhor, que fora inteiramente sem maldade, não por um esfor­ço de vontade, mas por pura preguiça. São Pedro recebeu-o com um fatigado abraço - lembrem-se que findava o dia - e estendeu-lhe um par de asas. O português protestou: «E que farei eu com essas asas?» São Pedro, encolhendo os ombros magros: «Ora, filho, voa!» O português recuou, aterrado: «Ah não! Isso é que não pode ser! Fique lá o senhor com as asas que eu se vim para aqui foi para descansar.» E assim vamos nós.

(*)Sobre este tema da memória do termos sido, já tenho, recorridamente, divagado por aqui. O último, alguns postes abaixo, foi "O passado cabe todo num livro de 600 páginas"


domingo, 4 de maio de 2008

O DESEMPREGO ULTRAPASSA, E MUITO, A FRIEZA DOS NÚMEROS. SÃO PESSOAS.

Sobre o desemprego destaco um trecho de um bom artigo do Pacheco Pereira, retirado do seu blog ABRUPTO.

Mas nem por não se ter qualquer solução a curto prazo, a sociedade, nós todos, devemos deixar de olhar para cada um destes desempregos colectivos de mulheres sem a preocupação de vermos e sentirmos a devastação que ele tem por trás, o atraso social que isto significa para Portugal. Estas mulheres não vão educar os seus filhos da mesma maneira, vão reproduzir melhor o Portugal antigo do que preparar o novo. Elas sentem que falharam, tinham algumas ilusões que perderam. Mas nós falhamos mais se não temos a consciência de fazer alguma coisa. Porque se pode, na acção cívica, no voluntariado, no mundo empresarial, na política, fazer muita coisa por estas mulheres. O que é preciso é vê-las e à sua condição e não as cobrir com o manto diáfano da inevitabilidade. A começar pelo Governo, que mais uma vez se vai voltar para o betão e não para as pessoas.
(Versão do Público, de 3 de Maio de 2008.)

sábado, 3 de maio de 2008

PELOS EX-COMBATENTES

Aqui vai o

DISCURSO DO EXMO. GENERAL VASCO ROCHA VIEIRA, NA COMEMORAÇÃO DO 90.º ANIVERSÁRIO DA BATALHA DE LA LYS, BATALHA - 9 de Abril de 2008, DIA DO COMBATENTE

"Vivemos tempos de crise.
São tempos em que se esquecem valores, em que se afirmam antagonismos sem sentido de comunidade, em que se foge para o individualismo como pretexto para não assumir a responsabilidade de defender a colectividade.
São tempos de máscaras e aparências, em que se esquece o valor do serviço e o respeito pela realidade.
São tempos sem glória.
São tempos em que as lamentações das vítimas esquecem os exemplos dos heróis.
São tempos que ignoram o passado da independência e anunciam um futuro sem liberdade.
São tempos de resignação e de fatalismo.
O que o presente nos mostra exige que se diga que não queremos ir por aí, que não vamos por aí.
Entre a ilusão que nos engana e a realidade que nos interpela e desafia, temos de saber escolher a verdade efectiva das coisas.
Temos de saber construir o futuro com a nossa vontade, enfrentando a verdade das coisas e das forças, vendo-as como elas são, e não como, por ingenuidade ou por desalento, gostaríamos que fossem.
Estes também são tempos para voltarmos aos valores essenciais, para defender a memória dos que construíram Portugal independente, para honrarmos a responsabilidade de deixar aos sucessores mais do que aquilo que herdamos dos que nos antecederam.
É por tudo isto que estes não podem continuar a ser tempos de resignação e de fatalismo.
Perante dois camaradas nossos, tombados em combate em terras da Europa e em terras de África, afirmamos e honramos aqueles que, sujeitos à condição militar, venceram a luta pelo prestígio pagando como preço a própria vida.
Todos os que tombaram em combate, todos os que perderam uma parte da sua vida em nome do dever militar, têm o direito à nossa homenagem.
É isso que distingue os homens livres dos escravos.
Pouco importa se venceram ou perderam a guerra em que morreram.
Quem combate, quando combate, não conhece o fim da História.
Não tem a distância do crítico, nem a serenidade do historiador.
É sujeito da condição militar, prossegue os desígnios da política pelos meios extremos da guerra.
Não teme a morte, porque sabe que só quem não tem medo da morte pode afirmar a vida, para ele e para os seus.
Quem combate não declarou a guerra.
Combate porque essa é a sua condição militar, combate para que a sua pátria não venha a ser terra de escravos.
Combate para que os que detêm a responsabilidade política conduzam os destinos do país até aos tempos de paz, de desenvolvimento e de cooperação.
Combate para que a guerra tenha um fim.
Faz a guerra com a finalidade na paz.
Mas não haverá paz, só haverá escravatura e dependência, se não assumir essa responsabilidade de fazer a guerra.
Foi esse o caminho que escolheu quando aceitou assumir a condição militar.
Todas as sociedades que se organizaram até atingirem a condição de serem independentes, de serem habitadas por homens livres e não por escravos, assentaram em três pilares, em três funções constituintes e integradoras, formadoras da sua identidade: o agricultor, o religioso, o guerreiro – o que trabalha a terra, o que trabalha as ideias, o que trabalha as armas e assume o combate.
A evolução das civilizações e das culturas foi alterando estas designações, mas não alterou os seus conteúdos e os seus valores, não alterou o papel integrador destas três funções.
A subsistência material da comunidade, a condução da evolução da sociedade dentro de uma visão do mundo e realizando o critério da justiça, a defesa dos valores e das liberdades de todos os que vivem nesse território, podem designar-se hoje como economia, como política e como defesa, mas estes três pilares continuam a ser os factores constituintes da independência e da liberdade.
Nenhum desses pilares existe sem os outros, todos são necessários para que a comunidade nacional produza riqueza, afirme a sua independência, garanta a sua liberdade, defenda os seus valores.
Os que esquecem esta interrelação, os que ignoram a necessidade dos três vectores, condenam-se a perder tudo: a autonomia económica, a independência política, a liberdade cívica, o sentido dos valores.Condenam-se à pobreza, à subordinação, à escravatura, à perda do futuro.Estes são riscos reais que se configuram nestes tempos de crise.
Ignorá-los, esquecer a exigência da mobilização para os enfrentar, seria um acto de traição.Traição à Pátria, certamente.Mas também traição a nós próprios, traição ao que nos foi deixado em herança, traição aos nossos valores de independência e de liberdade, traição ao nosso sentido de dignidade.
Perante dois portugueses sem nome, que morreram cumprindo a obrigação da sua condição de militar, devemos-lhes a determinação e a mobilização com que se poderá vencer estes riscos reais com que estamos confrontados.
Para que o seu sacrifício não tenha sido em vão, somos nós que temos de preservar os valores da condição militar, aceitando o combate quando isso é inevitável para não sermos condenados a um destino de escravos.
Escravos de outros poderes ou escravos das ilusões, escravos de ideologias ou escravos de fantasias, escravos de compradores ou escravos de credores, mas sempre sem liberdade, sem identidade e sem dignidade, sem voz e sem direitos.
Os combatentes que se reúnem aqui, hoje, vindos das mais diversas partes de Portugal, renovam o seu compromisso de honra para com a Pátria, prestando homenagem aos que morreram em seu nome para que haja liberdade e independência.
Os que aqui estão, combatentes do nosso tempo, ganharam o direito, pelo seu sacrifício e pela sua lealdade, a que lhes seja reconhecido o mérito, a coragem e a dedicação de quem soube assumir as suas responsabilidades.
Nos tempos de crise, como são os que vivemos, tudo parece complexo, intrincado, irresolúvel, irremediável.
Não é assim, não tem de ser assim.
E só será assim se nos faltar a vontade, se perdermos o sentido da dignidade, se abandonarmos o valor da liberdade.
As crises têm uma origem, têm uma trajectória, têm um diagnóstico, têm uma terapêutica, têm um tratamento.
É neste quadro que a condição militar, assumida no juramento que é feito por cada elemento das Forças Armadas, ganha um peso simbólico superior.
A função militar, a responsabilidade pela defesa, é apenas um dos alicerces em que assenta uma sociedade independente e livre.
Não se substitui aos outros alicerces, às outras funções, mas é sua obrigação contribuir para que as outras funções tenham todas as condições para se cumprirem.
Se cada um – produtor, político, soldado – for fiel às obrigações da sua função, se cada um aceitar todas as responsabilidades da sua condição, se cada um respeitar o juramento que faz perante todos os outros de que defenderá a independência e a liberdade, encontraremos as respostas para as dificuldades, seremos capazes de superar a crise.
Esse será o resultado do regular funcionamento das instituições democráticas, conjugando, com inteligência, com realismo e com determinação, o produtor, o político e o soldado – isto é, o crescimento económico, a orientação estratégica na resolução dos conflitos de interesses e a defesa da independência e da liberdade.
E é no estrito respeito pelas normas do regular funcionamento das instituições democráticas que os que são sujeitos da condição militar, por opção de vida e por fidelidade a um juramento de honra, têm legitimidade para esperar dos responsáveis políticos as condições necessárias para o efectivo cumprimento das missões que lhes são atribuídas.
As sociedades precisam da instituição que, na obediência da condição militar, tem por valor superior a sua defesa.
No quadro da sua estrita responsabilidade de defesa da independência e da liberdade nacionais, as Forças Armadas não escolhem as missões que lhes são atribuídas pelos responsáveis políticos.É aos responsáveis políticos que pertence a responsabilidade de fazerem corresponder as missões que atribuem aos militares com os meios que põem a disposição dos que colocam em risco as vidas para as cumprirem.
A unidade das Forças Armadas, condição essencial para que cumpra a sua função de defesa da unidade nacional, não pode, em nenhuma circunstância, ser posta em causa ou em dúvida.
Mas a dignidade das Forças Armadas exige que ao seu quadro de missões corresponda o adequado sistema de meios.
Junto aos túmulos de dois soldados, renovamos o juramento que nos integrou na condição militar.
Como sempre, em tempos de estabilidade e em tempos de crise, a unidade das Forças Armadas é uma condição necessária para a defesa da independência, para a garantia da liberdade e para o regular funcionamento das instituições democráticas.
Outros contribuirão para que a esta condição necessária se juntem as condições suficientes para que os portugueses possam construir o seu futuro por afirmação da sua vontade e dos seus valores.Viva Portugal."

A NOSSA CRUZ SÃO SEMPRE ELES, OS MEDÍOCRES

«Há um ou outro videirinho, um ou outro aventureiro, um ou outro louco - um grande homem ou uma grande mulher não há. Quem vai perder tempo com as mediocridade que, só Deus sabe porquê, nos pastoreiam hoje?E que têm elas para oferecer, além de uma retórica morta e desprezível.
(...)
Quando por acaso "adere" a um partido, a juventude que por aí anda quer, como lhe compete, um emprego. Não se lhe pode pedir que queira diferente ou queira mais.
(...)
Agora, com a democracia estabilizada e a economia de mercado, o indivíduo não pertence a "parte" alguma e não partilha nenhum destino. Aprendeu a desconfiar do Estado e da mítica igualdade que o Estado pretende estabelecer; e, sobretudo, a contar exclusivamente consigo. Não vê a política como um encontro e uma comunidade. Vê a política como um negócio e uma questão de clientelas. Não se interessa? Claro que não se interessa.»
VPV, hoje, no Público.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

E A NOSSA GEOESTRATÉGIA

A propósito do post anterior, este trecho do Prof. Adriano Moreira publicado no DN em 30.12.2003:

No caso português, parece que a relação com o mar está a exigir atenção, e é inquestionável que ela interessa de maneira essencial à identidade nacional. São já muitos os aspectos em que se desdobra o risco de erosão, a começar pelo conflito entre o europeísmo e o americanismo. Não parece dispensável assumir que o afastamento dos mais poderosos Estados da frente marítima europeia de solidariedade atlântica, obrigará os restantes a reflectir sobre a relação entre a sua condição economicamente periférica, e a sua geografia de fronteira entre as duas concepções estratégicas. A questão do mar e da identidade está envolvida no processo, dependente de interesses exógenos que não a terão em conta. O tema das capacidades, e a definição de força naval ganham em relevância e exigência de um conceito estratégico nacional até agora de difícil concretização. Por outro lado, o tema das autonomias e da outra Europa, para um país que tem a nossa estrutura geográfica, exige um empenho que inclui o esforço pela manutenção de uma presença efectiva no mar, e pela defesa e reforço da identidade em resposta a uma conjuntura volátil. Tão volátil, que os efeitos dos compromissos europeus sobre a zona económica exclusiva parecem ter surpreendido até os informados, impondo avaliar com urgência a dimensão que resta da frota pesqueira, a relação desta com a dependência de recursos, e o efeito sobre a consistência da presença do mar na identidade portuguesa.

ESPAÇO VITAL

É um conceito muito caro a quem se interessa por geoestratégia. Hoje, no Público, vem esta notícia sobre uma comunicação feita pelo director da CIA numa universidade, sobre a qual não se pode deixar de reflectir:
O crescimento populacional e a maré cheia da imigração são os novos desafios que os Estados Unidos terão de enfrentar no próximo meio século, considerou o director da CIA, Michael Hayden, num discurso na Universidade do Kansas. Em 2050, o número de seres humanos na Terra deve subir dos actuais 6700 milhões para 9000 milhões. Nos próximos 40 anos, disse Hayden, citado pelo jornal The Washington Post, o crescimento projectado de 33 por cento da população será um dos factores mais significativos para a segurança no século XXI. A pressão populacional reduzirá os recursos e alimentará movimentos extremistas e de insurreição civil em vários pontos do globo, disse Hayden. "A maior parte do crescimento populacional será nos países com menos condições para o suportar." Espera-se que a população do Níger e da Libéria triplique nos próximos 40 anos. A pressão para garantir alimentos, abrigo e emprego para tantos milhões de pessoas "pode fazer com que muitos se sintam atraídos pela violência ou pelo extremismo", considera o director da agência de espionagem norte-americana. Nesta visão da CIA, os países mais ricos, as divisões étnicas e raciais, sublinhadas pela imigração, podem criar problemas de segurança, em especial nos países europeus com muitos imigrantes muçulmanos. Por outro lado, Hayden considera que a Europa e os EUA vão continuar a divergir na forma como lidam com o terrorismo. "Eles [os europeus] tendem a não vê-lo como nós, como um grande desafio internacional. Encaram o terrorismo mais como um problema de vigilância policial." A terceira tendência para os próximos 50 anos identificada por Hayden é a da emergência da China como uma potência económica e militar. Mas isso não tem de ser uma ameaça: "Se Pequim começar a aceitar mais responsabilidades no sistema internacional, manter-nos-emos num caminho competitivo mas construtivo."

segunda-feira, 28 de abril de 2008

sábado, 26 de abril de 2008

25 DE ABRIL É A DATA DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS MEDÍOCRES

A mediocridade instalou-se em Portugal.

domingo, 20 de abril de 2008

O PASSADO CABE TODO NUM LIVRO DE 600 PÁGINAS, ENTALADO NUMA PRATELEIRA.


Um amigo meu não gostou da frase com que terminei o post anterior. Pode-se não gostar, mas é a realidade para onde nos encaminhamos. O nosso passado sobrevive nos discursos de circunstância, para fatalmente referirem que “nós já fomos” isto e aquilo. Fomos, mas nunca que somos ou seremos. Falta a crença. E falta muito o querer. Sobretudo a um povo que vive acossado entre manobras de vigaristas sem escrúpulos.
Por isso o passado já só vive nas páginas de livros e nas saudades nostálgicas de alguns. Que até chegam a ter saudades de si próprios, do que foram face ao que se transformaram, nuns acomodados. E a juventude desligou-se da memória do país. Não lê, não estuda e até já tem professores que são ignorantes. O que era previsível. A ignorância vai reproduzindo-se. E o tal livro cada vez mais entalado na prateleira. E se a juventude não tem memória colectiva, também não tem valores pátrios nem futuro colectivo. Irá ficar, bem como o país, à mercê das contingências externas, mas sem referências que a permitam posicionar-se face a essas contingências. Dramático? Não. A evolução dos povos determina que há sempre uma decadência algures no percurso. Já somos um país velho e sem garra. Se esvaímos a boa seiva, naturalmente que a árvore tenderá a definhar. É da natureza. A não ser que haja um bom tratamento “botânico” por “agrónomo” credível, a árvore definhará sem remissão. Ficará o livro com uma memória encerrada nas suas páginas.

sábado, 19 de abril de 2008

SE O PAÍS NÃO SE ORGULHA DE SI ... ...


É óbvio que não pode passar da cepa torta. Os portugueses estão cada vez mais mesquinhos e pouco solidários. E sempre muito burgessos. Não há forma de evoluir neste quadro. Ou mudam as atitudes perante a vida e perante os outros e a sociedade em geral, ou o futuro será uma triste história.
Há falta de solidariedade entre os portugueses. Existem grupos que têm mais capacidade de reivindicar, exercendo até chantagem, e pouco se importando com os outros, ou com o que os outros terão de pagar para eles poderem viver bem melhor do que os que, obrigatoriamente, têm de os sustentar. E o país também não é uniformemente solidário. Já por aqui o tenho afirmado. Vivemos tempos de egoísmo acérrimo e feroz. A maneira como o país trata o interior é reveladora do mau carácter de uma parte da população portuguesa. Retiram-lhes tudo o que é possível retirar, como escolas, hospitais e demais estruturas necessárias. Depois para irem buscar electricidade destroem-lhes a paisagem e os recursos, danificando o meio ambiente. É o caso da barragem no Tua. Não faz falta nenhuma aos que por lá vivem, mas sim aos de Lisboa. Mas não fazem nenhuma barragem que destrua Lisboa e arredores. Destroem o interior. Lisboa e arredores absorvem tudo o que podem do país. E nada dão em troca. A solidariedade nacional há muito que morreu. Assim como a verdade sobre o estado do país. Bem como a honra que antigamente se fazia questão de se exibir. Assim morreu a esperança no país. Não há nada para se exibir como orgulho. Alguns ainda falam do passado, mas isso fica tudo contido num livro de 400 a 600 páginas, algures numa prateleira, que os mais novos já não lêem.

terça-feira, 15 de abril de 2008

PATRIOTISMO EMOCIONAL

Continuando com António Quadros. Não deixem de ler os dois volumes dessa obra.

O patriotismo emocional é um fogo de palha, que ora se inflama à notícia de um efeito desportivo, ora se afunda por completo ao aceitar sem um assomo de resistência as leis, os actos de governação, as propostas politicas, culturais ou estéticas mais radicalmente avessas aos interesses nacionais, à vontade de regeneração segunda a identidade portuguesa ou às traves mestras da nossa estrutura cultural.”

António Quadros (in, Portugal Razão e Mistério)

Muito adequado aos últimos tempos que se estão vivendo.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

VENCIDA A AUTO-DIVINIZAÇÃO EGOLÁTRICA

Uma reportagem, hoje, da RTP1 sugeria que a Maçonaria iria dialogar com a Igreja Católica. O que me inspirou para transcrever aqui este texto do António Quadros, retirado do blog que lhe é dedicado e com link aí ao lado:
"Meu Eu, meu Deus: vencida a auto-divinização egolátrica, quebrada a casca do ensimesmamento pequenamente lírico e empecido, o eu pode tornar-se espelho de transcendência, caminho de diálogo com algo que o excede «ser mediador» para uma outra e a mesma realidade: a do Deus que nos fala e em nós fala no nosso próprio ideal, no nosso próprio movimento, ainda que o investamos de outros nomes, ou a do Deus que por vezes ao longo da jornada, mais cedo ou mais tarde, dificilmente, penosamente, agraciadamente, aprendemos a reconhecer sob mil máscaras que permitem a nossa liberdade..."

terça-feira, 8 de abril de 2008

FRASES CONEXAS

«Vivemos tempos de crise. São tempos de máscaras e aparências, em que se esquece o valor do serviço e o respeito pela realidade. São tempos que ignoram o passado da independência e anunciam um futuro sem liberdade»

Gen. Rocha Vieira, in Correio da Manhã de 6.4.2008, aqui


«Num mundo menos tolerante e mais pobre o adquirido do Maio de 1968 não sobrevive

Pacheco Pereira, in Público de 5.4.2008, aqui.



«No fim, como é sabido, a Igreja prevaleceu, produziu Salazar e gozou meio século de uma quase absoluta hegemonia.»

VPV, in Público de 6.4.2008, aqui.
Mas o curioso é que a propósito desta frase de VPV se compare com a capa de uma revista de 1918 que coloquei aqui.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

INFANTILIZAÇÃO DA SOCIEDADE

Hoje, no Público, aqui, o dr. Pedro Afonso, médico psiqiatra, publica um artigo com o título "Os alunos, os professores e a infantilização da sociedade", que eu considero excelente, e que põe as coisas na sua devida dimensão. Aqui deixo o trecho que acho muito significativo do artigo:


(...)
A desautorização dos professores e a demissão dos pais do exercício da sua autoridade educativa, para além de conduzir a atitudes e comportamentos anti-sociais, proporciona a estruturação de personalidades imaturas e com falhas na adaptação social.
Verificamos que na educação das crianças e dos jovens há cada vez mais uma ausência de limites. Existe, por vezes, a noção errada de que a tolerância é o maior dos bens e que os limites, impostos pelas regras, são actos de repressão. Porém, a permissividade excessiva e a ausência de limites na educação são também provas de desamor e de abandono. Neste contexto, a família tem um papel fundamental. Educar obriga muitas vezes a dizer "não" e isso leva muitas vezes a reacções, do lado dos filhos, que são difíceis de presenciar.
Evidentemente que muitas vezes torna-se mais fácil dizer "sim" do que ter que lidar com uma briga ou um amuo. Mas quem disse que educar não dá trabalho? Uma das consequências da ausência de limites na educação é a falta de capacidade para lidar com a frustração. Estes jovens tornam-se impulsivos, incapazes de esperar, procurando a todo o custo a gratificação imediata e a satisfação dos seus desejos. Não é pois de estranhar que, diante uma contrariedade imposta por um professor, a agressividade surja como uma reacção natural.
É curioso constatar que, ao contrário daquilo que seria de supor, o excesso de tolerância na educação das crianças e dos jovens transforma-os precisamente em indivíduos pouco tolerantes. Para se viver em sociedade é necessário aprender regras, é necessário perceber que a minha liberdade termina quando atinge a liberdade do outro. Por isso, a inexistência de normas e limites incita ao individualismo e a um narcisismo intolerável.A capacidade de ouvir o outro também se aprende. Com efeito, para assistir convenientemente a uma aula é necessário que haja quietude e silêncio. Ora, uma grande parte dos nossos jovens não suportam o silêncio. Num mudo repleto de estímulos e de excesso de comunicação, os jovens não conseguem largar o telemóvel, não sabem estar consigo próprios, receando o vazio da solidão.
Para alguns jovens, os professores – tal como os pais – são vistos como figuras autoritárias, repressoras e desprezíveis. Esta atitude pueril reflecte uma falta de interesse e um desdém pelo conhecimento que a educação proporciona. Na verdade, muitos são incapazes de compreender que é o seu próprio futuro que está em jogo. De resto, esta imaturidade transfere-se para a vida adulta, levando a que se tornem adultos inconstantes, inadaptados, revoltados, atribuindo frequentemente à sociedade as razões do seu infortúnio.Fala-se muito na necessidade de educação sexual nas escolas, mas fala-se pouco de educação cívica. Esta é uma matéria na qual a escola tem uma palavra a dizer. Penso que deveria obrigatoriamente fazer parte da formação dos jovens nas escolas uma experiência de voluntariado. De outro modo, como é que será possível criar uma consciência social nos jovens, se não se integra a solidariedade como um elemento da sua formação? Esta falha formativa pode criar uma "infantilização da sociedade", em que o Estado é visto como uma espécie de pai que tem que nos proteger, garantir todos os direitos, e o único responsável pelo nosso destino.
Os jovens estão cada vez mais afastados da religião e das ideologias políticas. Há uma pressão enorme, por parte da sociedade, para o consumismo e para o hedonismo. Todavia, sabemos que o Homem tem outras aspirações, além dos aspectos materiais e da procura da satisfação dos desejos imediatos. Existem outros valores que devem ser ensinados e transmitidos aos nossos jovens. Mas, infelizmente, vivemos cada vez mais numa sociedade light, na qual vinga a cultura da superficialidade, a procura do prazer imediato e o individualismo.
(...)

terça-feira, 1 de abril de 2008

SEM

A vida sem fé é um túnel sem fim, mas sem esperança é um corredor às escuras que não leva a parte nenhuma.
Fernanda de Castro, in " Ao Fim da Memória - Ivol."

domingo, 30 de março de 2008

A FORMA PASSIVA

Aliás, a solidão, a grande, a dolorosa, a difícil, não é esta, povoada de sol e mar, de pássaros, de árvores e de arbustos: é a da cidade em que as pessoas se acotovelam, se agridem, se odeiam (a indiferença é a a forma passiva do ódio).
Fernanda de Castro, in " Ao Fim da Memória - Ivol."

sexta-feira, 28 de março de 2008

POR VALES E MONTES

Mas, e as pessoas? Lisboa está longe! O Porto também! Nas encostas até os cemitérios vão ficando desertos.

quinta-feira, 27 de março de 2008

PROCURA DA POESIA

PROCURA DA POESIA


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
Não aquece nem ilumina.


As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.


Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.


Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem: rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.


O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.


Não dramatizes, não invoques, não indagues.
Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.


Não recomponhas tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que .se partiu, cristal não era.


Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.


Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço



Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 25 de março de 2008

ANDEI PELO PRIMEVO EMBRIONÁRIO


Na Serra do Açor, mirando Piódão.

quinta-feira, 13 de março de 2008

ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.

Este poema é, para mim, dos melhores poemas escritos nos últimos anos. Não digo qual é a chave do poema. Mas está na alma. Obrigado Aspásia por me deixar publicá-lo aqui. E visitem a poesia da Aspásia. Vão, de certeza, surpreender-se.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO TRANSMITE TESE,
NÃO FAZ EXEGESE,
NÃO DÁ CATEQUESE,
NÃO DIZ SIM NEM NÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO QUER SER SINCERO,
NÃO TRAZ DESESPERO,
FOI FRUTO DO MERO
VAGUEAR DA MÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO É VERDADEIRO,
NÃO É CORPO INTEIRO,
SAIU DO TINTEIRO
SEM QUALQUER RAZÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO PRETENDE OBTER
DAQUELE QUE O LER,
APLAUSO, OU SEQUER
LEVE APROVAÇÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NÃO SENTE CALOR,
NÃO GRITA DE DOR,
NÃO MORRE DE AMOR,
NÃO VIVE EM PAIXÃO.
ESTE POEMA É ESCRITO EM VÃO.
NUNCA TEVE NORTE,
NEM AZAR, NEM SORTE…
E VAI PARA A MORTE
SEM PEDIR PERDÃO.
***
Aspásia 98

segunda-feira, 10 de março de 2008

LIBERDADE


Tendes, ó homens, a LIBERDADE de vossas ações nunca a de suas consequências. (Pietro Ubaldi)

domingo, 9 de março de 2008

ADMIRO MUITO A MULHER PORTUGUESA


Não só porque também é bonita. Admiro-a mais pelo baluarte que é desta sociedade deslassada. Pela sua capacidade de trabalho, de ternura, de resistência e de paciência. Admiro-a também como amante dedicada. Como mãe sofrida. Admiro o seu sorriso ao fim do dia, como se cada dia fosse excelso de felicidade, apesar de quem aturam. E do que aturam. Sempre resistentes. Sempre pilares. Eu tenho a felicidade de ser casado com uma mulher portuguesa

quinta-feira, 6 de março de 2008

A SOCIEDADE PORTUGUESA DESLASSOU

Ontem ouvi esta frase dita pelo Dr. José Amaral no programa Clube do Jornalista na RTP2. Programa interessante com mais o Dr. Silva Lopes e o Dr. Basilio Horta. Deslassou. O termo traduz bem a quebra de solidariedade no seio da sociedade portuguesa. Os grupos de interesses, ou corporativos, lutam por vantagens sem terem em conta o contexto envolvente, e sem se preocuparem com as consequências negativas que possam ter sobre outros cidadãos. Infelizmente os sucessivos governos, enredando-se nas tramas chantagiosas de grupos de classes, tem contribuído para essa quebra de solidariedade nacional.
A sociedade portuguesa deslassou. Bela frase. Que melhor síntese para o grande problema.

terça-feira, 4 de março de 2008

QUE MAIS A DIZER?

Vasco Pulido Valente escreveu este artigo, no Publico, na passada Sexta-feira. Estava para pôr aqui um trecho. Mas ele só tem nexo na totalidade:
Mal-estar difuso
Alexandre Herculano, o maior "intelectual" do liberalismo, que passara pelo exílio e combatera no cerco do Porto, deixou, já em agonia, um último juízo sobre a Pátria: "Isto dá vontade de morrer." D. Carlos, que foi de facto o último rei e o último reformador da Monarquia, achava Portugal uma "piolheira" e os portugueses, fatalmente, uma "choldra". Os republicanos não estimavam nem o país, nem a República e acabaram, quase sem excepção, "desiludidos". Basta ler uma dúzia de páginas dos Discursos para constatar o infinito desprezo que Salazar tinha por nós. Do PREC ficou o absurdo cadáver do PC. E esta democracia anda agora a chorar abjectamente o seu fracasso. Verdade que a famosa frase de Herculano é apócrifa (inventada por Bulhão Pato) e que D. Carlos só em privado se alargava sobre o seu reino. De qualquer maneira, não há dúvida de que Portugal sempre gostou muito pouco de si próprio.Com uma certa razão, convém admitir. Desde o princípio do século XVIII que Portugal quis ser "como a Europa" e até hoje infelizmente não conseguiu. A cada revolução, a cada guerra civil, a cada regime, o indígena prestável, alfabeto e "modernizante" supunha que chegara "o dia". E "o dia" invariavelmente não chegava. A sociedade ia, como é óbvio, mudando: devagar, com dificuldade, aos sacões. Só que a distância que nos separava da Europa não diminuía. Os modelos não faltavam: ou modelo universal da França (até à República); ou os mais modestos modelos de países pequenos como a Bélgica no século XIX e a Suécia a seguir. O português copiava com devoção o que via "lá fora". Mas não saía da sua inferioridade e do seu atraso. No meio desta persistente desgraça, Portugal julgou três vezes que se aproximava da Europa: durante os primeiros tempos da "Regeneração", durante o "fontismo" e durante o "cavaquismo". Ao todo, trinta e tal anos de uma ordem política "civilizada" e de um crescimento económico razoável. Mesmo assim, os fundamentos destes raríssimos milagres não eram sólidos. Nos três casos (embora com um ligeiro atraso), uma crise financeira pôs fim à festa e voltou a velha angústia nacional, a que por aí se convencionou chamar "mal-estar difuso". O "mal-estar difuso" é simplesmente o regresso à realidade. Portugal não tem meios para o Estado-providência e a espécie de vida que os portugueses reclamam. E, como não tem, toda a gente se agita e ninguém faz nada com sentido. Esta fase também é conhecida.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A POBREZA DE ESPÍRITO É A QUE MAIS NOS AMASSA

Já várias vezes tocamos, por aqui, na questão da pobreza. Agora nos últimos dias reacendeu-se a questão. E cada vez mais premente. O país está num caos. Somos o único país da EU que regrediu, enquanto os outros progridem. Milhões de Euros desbaratados. E esse é outro tema. Mas centremo-nos na pobreza. O injectar dinheiro directo nos pobres não os retira da pobreza. O Rendimento Mínimo Garantido, ou agora Rendimento de Inserção Social (RIS) foram, e é, mais um foco de incremento de pobreza do que resolução de problemas. Havia, e há, todas as razões para se criar meios de se gerar riqueza, de fazer o país progredir. Mas falhou-se redondamente. Estádios de futebol, projectos sobre projectos milionários para obras que nunca foram ou serão feitas. Projectos mal concebidos, cadernos de encargos trouxas e custos de obras que sempre derrapam, normalmente para mais do dobro. Esta é a miséria portuguesa.
Mas depois, por causa de tudo isto, temos baixos salários, pouca qualificação, crianças carentes, com fome e pouco cuidadas. Para não falar, mais uma vez, no desastre que é a instrução pública e da perversidade de todos os seus actores. Injectar dinheiro para não passarem fome não resolve o problema. Ficam dependentes e subservientes dessa migalha. Acomodam-se a isso. E responsabilizam sempre o estado para os manter, mesmo que em péssimas condições. As crianças vão à escola não para se qualificarem, mas sim para que os pais não percam o RIS. Adolescentes grávidas que ficam dependentes do RIS, e que continuam a engravidar. O estado até dá casas. Que depois não podem manter em condições. Continuam sempre a empobrecer. E não vão trabalhar porque, e com razão, os salários são tão baixos que o RIS consegue igualá-los, desvalorizando, assim, o trabalho. Tudo vai empobrecendo. E acalentados pela mediocridade instalada por todo o lado, que, porque medíocres, não são capazes de nada solucionar, vai-se resvalando para o abismo. A classe média também vai empobrecendo. Também já vai ao banco alimentar. Somos todos pobres. Porque incapazes de nos organizarmos e termos um governo eficaz; porque não conseguimos anular os medíocres que nos sufocam; porque não conseguimos contrariar uma inacção que nos deixa letárgicos, como se já estivéssemos debilitados pela fome; porque, estúpidos, admiramos a corrupção e os que enriquecem e se “nobilitam” através dela; e porque estamos prenhes de pobreza de espírito.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

ONDE NOS LEVA O PASSAR DOS ANOS?

O passar dos anos leva-nos sempre a olhar para a nossa juventude. À idade dos sonhos, da esperança e da crença na vida. Todos nós sonhávamos com uma vida. Julgávamos que iríamos ter uma vida que objectivássemos. Todos tínhamos quimeras para além dos amores idílicos. Eu ainda passei a minha juventude no tempo da dita “outra senhora”. E acho esta expressão aberrante. Que raio de senhora. Vivi a minha juventude no fim da 2ª República. Com sonhos e com amores. Como todos os da minha geração. Que era uma geração insatisfeita. Com a República, não com o país. Mas tínhamos esperança num futuro melhor, até já íamos vivendo melhor.
Depois veio o 25 de Abril e esta 3ª República. Uma explosão energética de esperança. Eu acreditei piamente que iríamos ter um país melhor, não rico, mas melhor. Muitos acreditaram. Muitos viveram em esperança. Mas depois começou-se a perceber que muitos queriam acreditar que iríamos ter um país rico e que isso é que era o melhor. De repente destapou-se uma caixa de Pandora. A cupidez saltou no seio dos portugueses. O civismo e a solidariedade eram inexistentes. Passaram todos a tentar ser ricos à custa de qualquer coisa ou à custa de qualquer valor. A grande maioria, como é óbvio, não o conseguiu, bem pelo contrário. Mas admira secretamente, ou mesmo publicamente, os que enriqueceram, sabe Deus como, mas sempre apoiados no erário público, no compadrio, no tráfico de influências, na corrupção, em que todos colaboram nem que seja pela omissão gerada pelo seu silêncio. A subserviência reinstalou-se há muito. Só que se antes ela era imposta, permitia a manutenção de uma dignidade enclausurada. Hoje, num país que se julga livre, essa subserviência ou é cobarde ou interesseira à espera de colher dividendos. Em melhor análise é cobarde e interesseira ao mesmo tempo.
Os portugueses expuseram-se como cidadãos sem carácter. Como cidadãos predispostos a qualquer coisa para alcançarem algo. Nem que seja para trepar por cima doutros. Só que neste caldo ambiental de cidadania tosca só os piores de todos, os mais medíocres se safam. Porque são os piores de todos. Despidos de escrúpulos, de barreiras morais, minaram para destruir o país a um ponto tal que ele ficasse indolente e lerdo, de forma a que o possam sugar do interior, tal como o fazem aqueles insectos que sugam os sucos das suas presas. É neste estado e sugado por medíocres que o país se encontra. E por culpa de todos nós.
Passados todos estes anos onde estão os sonhos? Diluídos na agrura. Mas a ESPERANÇA onde ficou? Perdida ao longo destes meandros todos. E que se diz à juventude de hoje? Que esperança temos nós onde eles possam reflectir? Nenhuma. Nenhuma. As gerações anteriores tinham esperança, e nela nos embebemos. Mas nós onde claudicámos?
No espaço que demos aos medíocres sem carácter.
Os medíocres conseguiram ocupar os lugares todos. Ignorantes, incompetentes, mesmo imbecis, mas estão lá. Só se escolhem uns aos outros. Quantos mais medíocres mais úteis são uns aos outros. Protegem-se, e essa é sem dúvida a sua força. Mas nunca deixam de ser medíocres.
De que resulta que Portugal é um país medíocre.
E os sonhos e os amores? Os sonhos são a alma da nossa descrença e os amores são memórias fotográficas, das que restaram, criando uma ilusão de vida, que teria sido tão amarga como a real, pois os medíocres sempre se encarregaram disso.
E nós cá andamos a cuidar dos medíocres. Devíamos expulsá-los do templo à chicotada, mas em vez disso apaparicamo-los, chamamos-lhes doutores mesmo que só tenham o 11 º ano ou uma licenciatura comprada, veneramo-los, atenciosamente, acatamo-los e tememo-los.
Um país livre? Cheio de medrosos e merdosos?
O olhar para a nossa juventude, já nos magoa. Não porque a perdemos ou porque ficou lá para trás. Mas porque desiludimos. A nós próprios e aos que vieram depois de nós. Afinal os portugueses não passam de uma cambada de sacanas, tentando viver da Chico-espertice (o presidente Sampaio homologou o conceito num seu discurso). E que tentam sempre sacar alguma vantagem, mesmo lambendo os medíocres que os pisam.
Os nossos sonhos, hoje, já não são futuro, já são passado.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

E AGORA VÃO FALAR A VERDADE?


Sobre isto escrevemos em Novembro de 2006, aqui. O título foi “A CARICATA APREENSÃO DE ARMAS EM S. MIGUEL”. Que achámos ridícula. E de facto foi tudo isto. E agora que o processo foi mandado arquivar por inconsequente, e as armas daquele “arsenal bélico” já devolvidas ao proprietário, o que resta? Resta repor a verdade. Houve tanta celeridade em fazer alarido, em fazer exposição mediática exagerando a perigosidade de uma colecção de canivetes e de meia dúzia de armas de colecção, que denotou o ridículo da ignorância de quem deu corpo ao alarido. Só não se viu celeridade, mesmo nenhuma, em repor a verdade, ou pelos menos em noticiar o arquivamento do processo. Denota-se que não houve pudor nenhum em tentar enxovalhar o bom nome de uma pessoa. Tentar. Porque quando uma pessoa é de honra limpa, as tentativas não atingem. De referir que ainda há pouco tempo foi agraciado com a medalha de prata por serviços distintos em cerimónia militar pública no quartel dos Arrifes, pela mão do Comandante Operacional do Exército, General Pina Monteiro. Para todos nós, o visado, a família e os amigos fica a mágoa da bestialidade dos jornalistazecos (nunca confundir com os Jornalistas). O Sr. Coronel continua bem, dedicando-se à História Militar dos Açores. Porque é um Homem de bem. Continua com a sua missão. O que é uma mais valia para os Açores.
Quanto à velhacaria que lhe fizeram, quem o fez que se penitencie ou pela inveja, ou pelo desdém, ou pela cobardia, ou pela deficiência de carácter, mas que não se sinta obrigado a pedir desculpa pessoalmente. Porque se o fez por uma das características que enunciei atrás, entende-se que não tenha estatura moral para pedir desculpa pessoalmente.
E os jornalistazecos vão repor nos jornais onde vomitaram disparates, a verdade?

domingo, 10 de fevereiro de 2008

GEOESTRATÉGIA NÃO É SÓ POSICIONAMENTO

Como alguns aprendizes de feiticeiro vão por aqui debitando. Rowan Williams, por ou sem o querer, demonstra-o. E para mim, mais uma vez, fica evidente que quem não se quer defender, sucumbe. A Europa adormeceu à sombra da protecção dos EUA, e no embalo do primado do direito. Que é bonito, assenta-lhe bem. Mas se outros não considerarem esse primado do direito europeu, como reagirão os europeus? Já uma sociedade envelhecida, amolecida, apática e com uma juventude desnorteada. Reagirão? A partir daqui um exercício teórico sobre geoestratégia e geopolitica, mas feito com a análise das estratégias em curso na actualidade. Para quem gosta, claro.
Como achega um pequeno trecho, logo no início, de "Eurico, o Presbítero" de Alexandre Herculano:
«A civilização, porém, que suavizou a rudeza dos bárbaros era uma civilização velha e corrupta. Por alguns bens que produziu para aqueles homens primitivos, trouxe-lhes o pior dos males, a perversão moral

sábado, 9 de fevereiro de 2008

PENSAR PORTUGAL

A propósito dessa foto 2 posts atrás, não resisto a revisitar António Quadros. Uma das pessoas que pensou Portugal. O link do blog que lhe é dedicado está aí ao lado.

O finalismo e o a-finalismo do nosso sistema educativo

(…) ao estudar, o fim do aluno é hoje «passar o exame», «ter o diploma» - e nada mais. O seu objectivo é quase unicamente utilitarista. Pretende o diploma porque o diploma dá acesso a posições social e economicamente compensadoras. Daí a sua total obediência, para não dizer escravização, à ciência do professor, que pode ser falsa, incompleta, desactualizada, pervertida e burocratizada, mas que não constitui para o aluno mais do que «o obstáculo que é preciso transpor», sem análises nem afirmações de personalidade que estariam deslocadas. Por sua vez, o professor, uma vez instalado na sua posição liceal ou universitária, limita a sua acção ao ensino de um conjunto de conhecimentos especializados, sujeitando inteiramente o aluno, ou a uma preguiça que o impede de actualizar-se constantemente no seu ramo de saber, ou a uma incapacidade intelectual para transcender o «conhecimento do compêndio», ou à especifica direcção cultural do seu espírito (…) observa-se que, ao longo dos anos da sua aprendizagem, o aluno apenas estudou para os sucessivos exames com que pretenderam medir a sua memória e a sua inteligente maleabilidade às atitudes culturais e espirituais mais diversas; e que esta diversidade heteróclita, acumulada nos anos cruciais da sua evolução mental, o levaram a deter-se cepticamente à beira dos grandes problemas da existência, não os vivendo heroicamente, mas, pelo contrário, substituindo, em todas as ocasiões, a verdade pela utilidade e pelo interesse.(…) o aluno universitário sabe mais do que o liceal – mas não sabe melhor. Ao obter, finalmente, o seu diploma de curso superior, o licenciado olha para trás e lamenta o tempo que perdeu em todas as matérias que fogem à sua especialização. Essas matérias assemelham-se às peças de «puzzle»: mas nunca as conseguiu reunir e agora já é tarde. Não se lhe apresentaram como «necessárias», como harmoniosamente ligadas, como tendendo, com a lógica indestrutível dos acordes diferentes, mas unidos, de uma sinfonia, para um mesmo objectivo.Licenciado, pode vir a ser um bom especialista, um bom profissional. Como homem, porém, será o que os caprichos da sua existência extra-univertária dele fizeram: família, cultura literária, influência de formas artísticas, amigos, formação religiosa ou política…E como estes factores sociais sofrem da mesma crise, espelhando a errada formação escolar básica, o resultado é a vida, em todos os seus planos antropológicos, cosmológicos ou teológicos, se reduzir à vida de cada um; cada homem passa a considerar-se o princípio e o fim de todas as coisas, a razão do «ego» domina as outras, a existência é um campo de batalha, não entre o bem e o mal, mas entre o «eu» e os «outros».

António Quadros, in «A Angústia do nosso tempo e a crise da universidade»

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

É A LEI DO ETERNO FUGIR, UNS A NÃO VEREM OUTROS A NÃO SABEREM, TODOS A NÃO SEREM. VIVA PORTUGAL.

Este título é o remate de um artigo do José António Barreiros, no seu blog "A Revolta Das Palavras". Aqui. Mas vale bem a pena ler os três artigos neste blog dedicados ao regicídio.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O DESASTRE DA INSTRUÇÃO PÚBLICA


É um tema recorrente neste blog. Já muito clamei contra as equivalências. Atentem nesta foto e digam-me lá se não tenho razão.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

DANÇA LENTA

Corre na net como tendo sido escrito por uma menina em New York, num hospital .....
Que seja ou não. Aqui fica DANÇA LENTA.

Alguma vez você já observou crianças num carrossel?
Ou ouviu a chuva batendo no chão?

Alguma vez já seguiu o vôo errático de uma borboleta?
...ou fixou o olhar no sol no crepúsculo?

É melhor você diminuir o passo.
Não dance tão depressa......o tempo é curto, a música vai acabar...

Você corre através de cada dia voando?
Quando você pergunta “Como vai?” Você escuta a resposta?

Quando o dia finda, você fica deitado na cama, com os próximos afazeres rolando por sua cabeça?

É melhor você diminuir o passo.
Não dance tão depressa......o tempo é curto, a música vai acabar...

Você disse alguma vez a uma criança: “Vamos deixar para fazer isto amanhã?”
E na sua pressa, não viu a tristeza dela?

Perdeu contato, deixou uma boa amizade morrer porque você nunca tinha tempo para ligar e dizer “Oi” ?

É melhor você diminuir o passo.
Não dance tão depressa......o tempo é curto, a música vai acabar...

Quando você corre tão depressa para chegar a algum lugar,
você perde metade da satisfação de chegar lá.

Quando você se preocupa e se apressa em seu dia todo,
é como se fosse um presente que não foi aberto... um presente jogado fora!

A vida não é uma ... corrida...

Leve-a mais devagar...

... Ouça a música...

... Antes que a canção ACABE!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

A LEITURA GEOESTRATÉGICA IMPLICA PERCEPÇÃO TRIDIMENSIONAL

Recomendo, e muito, a leituta do artigo "Leituras Equívocas" de Adriano Moreira, publicado no DN de 29-01-2008. Aqui fica um trecho:
As leituras respectivas da conjuntura parecem estar a revelar-se equívocas: equívocas quanto à sustentabilidade do unilateralismo assumido pela antiga liderança americana, que dá sinais de uma relação fragilizada entre as capacidades humanas e financeiras disponíveis para apoiar a dimensão dos objectivos assumidos; equívocas quanto à sustentabilidade de que o reassumido nacionalismo do Kremlin necessita para concretizar o conceito estratégico que mais vai revelando pelas acções do que por uma clara enunciação.O resultado inquietante é que as intervenções desenvolvidas por cada uma dessas potências, que foram responsáveis pelo equilíbrio da guerra fria, não podem isolar-se do globalismo estrutural. Ambas terão de reconhecer que as suas decisões soberanas não evitam que esse globalismo, para o qual contribuíram decisivamente, se tenha convertido num condicionamento severo da sua circunstância. Pelo que de novo se cruzam e embaraçam os trajectos que assumiram, pelo que toca ao perigo para a paz geral que nasce das leituras equívocas a servirem de promessa às políticas nacionalistas.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

A VERDADE É FILHA DO TEMPO, NÃO DA AUTORIDADE

Disse-o Francis Bacon. Só que o tempo de cada um, nesta existência, não coincide com o tempo da poeira.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

AQUÉM DE NÓS

EU

"O homem de génio diz: eu sou.
O poderoso afirma: eu posso.
O rico diz: eu tenho.
O ambicioso: eu quero.
Eu! Eu! Eu!
E, afinal,
esses que vivem sós, completamente sós,
quanto dariam para como tu,
ou como eu,
dizerem simplesmente: nós."


Fernanda de Castro, in "Poesia I"

sábado, 19 de janeiro de 2008

A PRUDÊNCIA

Sobretudo depois do fim oficializado da guerra fria, a tendência para reconhecer que a situação mundial corresponde mais a um modelo de anarquia do que de regulação consentida parece crescer de adesões desgostosas mas fundamentadas. Não se trata já da em parte amena conclusão de que nas relações entre Estados continua a vigorar o estado de natureza, de acordo com as palavras de John Locke.Admitindo poder concluir que, pelo menos no Ocidente, todos os indivíduos vivem já numa sociedade civil pautada por regras que definem os modelos de conduta, pergunta-se, sempre com inquietação, que meios assegurariam a vida previsível entre as Nações.A conclusão mais geral, apoiada na infeliz experiência, tem sido a de que, não obstante o acervo de normas de direito internacional, a obediência destas pelas soberanias continua aleatória e voluntária, pelo que continuam a viver um risco só apaziguado pela prudência variável dos governos.
Adriano Moreira, "A Globalização da Justiça", in DN de 18.09.2007

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

A MAIORIA


Chegou-me por mail, entre outras fotografias do autor René Maltête.


sábado, 12 de janeiro de 2008

TURISMO NÃO COMBINA COM VANDALISMO

A destruição da iluminação no calçadão da Praia das Milícias, vulgo Pópulo Grande, foi puro vandalismo. A sociedade local tem de tomar consciência que o vandalismo desbragado, que por aí se vê, compromete as boas intenções do incremento do turismo. Há que lutar por se instalar uma atitude cívica sã na população, e não uma atitude de omissão para não se comprometer votos em eleições. Ser conivente com a boçalidade não benificia ninguém.
P.S. Boas vindas a um novo bom blog, com link ao lado: NOTAS,

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

ANTÓNIO QUADROS É, PARA MIM, AINDA, O MELHOR ANALISTA DE PESSOA

De António Quadros, e copiado, com a devida vénia, daqui, do blogue que lhe é dedicado.
O português quer viver, crescer e de um modo geral ser, mas afeiçoou-se a convicções negativistas, nomeadamente ao nível político e educativo, que o conduzem a um auto-envenenamento mental. É porque não acreditamos em nós próprios, no que somos e valemos, no nosso pensamento e na nossa cultura, que em vez de pensarmos a partir daí a renovação das nossas leis, das nossas instituições ou dos nossos sistemas, constantemente, em sucessivos remendos, nos limitamos a importar, a repetir, a copiar ou a adaptar, ao mesmo tempo que nos autocriticamos sem medida e nos negamos. Disse-o de uma forma lapidar Fernando Pessoa, num pequeno texto que por várias vezes tenho citado: «uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente.» Daí que, acrescentou, « o primeiro passo para uma regeneração, económica ou outra, de Portugal, é criarmos um estado de espírito de confiança – mais, de certeza, nessa regeneração.» Vivemos hoje um período de menoridade e de adolescência regressiva em que, predominando o intelecto passivo, as pessoas se auto-satisfazem e auto-iludem como os lugares-comuns ideológicos, com os discursos demagógicos e com as ideias convencionais de gerações que, para repudiarem um certo tipo histórico de nacionalismo, perderam a própria identidade e já não sabem quem são ou para que são, os portugueses. (…) devido ao cientismo e ao tecnicismos predominantes que o positivismo nos trouxe, sem o acompanhamento de uma educação do intelecto para o desenvolvimento das faculdades superiores do homem, o nosso ensino público dirige-se à mentalidade pueril, não logrando a elevação do intelecto passivo e adolescente até ao intelecto activo e adulto, o que explica a facilidade com que o estudante cai nas mais quiméricas, utópicas ou demagógicas ideologias, com pouca ou nenhuma capacidade de eleição ou de análise.(…).
Conferência proferida em 13 de Dezembro de 1983 subordinada ao tema geral “Que Cultura em Portugal no próximos 25 anos?"

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

NEM TUDO VAI BEM


Daniel Bessa, na sua pequena coluna no Expresso, publicou este trecho no passado Sábado.

Correu mal
A expressão foi várias vezes utilizada por um nosso antigo primeiro-ministro. Detestei-a sempre: era pouco clara, não dizia tudo o que deveria dizer, escondia sempre alguma coisa. E, no entanto...
Correu mal, em Portugal, o final do ano. Pelo que aconteceu e pelo que ficou a saber-se sobre coisas que aconteciam há muito. Soube-se que pelo menos uma grande empresa portuguesa, e os seus accionistas, não dispunham ou não quiseram arriscar o montante indispensável de capitais próprios. Soube-se que, pelo menos, uma entidade de supervisão não conseguiu cumprir integralmente o seu papel. Na hora em que todas ou pelo menos algumas consequências tiveram de ser retiradas, houve excesso de supervisor, excesso de iniciativa pública e falta de iniciativa privada, e, ainda mais, excesso de política.
Ficou a saber, por exemplo, o cidadão comum, mesmo o mais qualificado, que a falta de um cartão partidário pode continuar a inibi-lo para o exercício de cargos profissionais; e ficou a saber-se que, em Portugal, o quadro regulador da concorrência não é dos mais exigentes. Portugal modernizou-se menos, bem menos do que às vezes somos levados a crer. É sempre triste o fim de uma ilusão. Assim acabou 2007
.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

UM PARADOXO ANGUSTIANTE

RECEBIDO POR EMAIL
O MEDO CAUSADO PELA INTELIGÊNCIA
Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar o seu 1.º discurso, na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do seu desempenho naquela assembleia de vedetas políticas.
O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse-lhe em tom paternal: “Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi demasiado brilhante neste seu primeiro discurso. Isso é imperdoável! Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco.
Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos.O talento assusta".
Ali estava uma das melhores lições que um velho sábio pode dar ao pupilo que se inicia numa carreira difícil.
Isso, em Inglaterra. Imaginem aqui, em Portugal.
Vale a pena lembrar uma famosa trova de Ruy Barbosa:
“Há tantos burros a mandar em homens inteligentes que, às vezes, penso que a burrice é uma Ciência”.
A maior parte das pessoas encasteladas em posições políticas é medíocre e tem um indisfarçável medo da inteligência.
Temos de admitir, por outro lado, que, de um modo geral, os medíocres são mais obstinados na conquista de posições importantes.
Sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos displicentes que não revelam o apetite do poder.
Mas, há que ter em consideração que esses medíocres, oportunistas e ambiciosos, têm o hábito de defender bem as posições conquistadas – como que com verdadeiras muralhas de granito por onde talentosos não conseguem passar.
Em todas as áreas encontramos dessas fortalezas inexpugnáveis a quaisquer legiões de lúcidos.
Dentro deste raciocínio, que poderia ser uma extensão do "Elogio da Loucura", de Erasmo de Roterdão, somos forçados a admitir que uma pessoa precisa de fingir que é burra se quer vencer na vida.
É pecado fazer sombra a alguém, até numa conversa social.
Assim como um grupo de senhoras burguesas, bem casadas, boicota, automaticamente, a entrada de uma jovem mulher bonita no seu círculo (com medo de perderem os maridos), também os encastelados medíocres se fecham como ostras à simples aparição de um talentoso jovem que os possa ameaçar.
Eles conhecem bem as suas limitações, sabem como lhes custa desempenhar tarefas que os mais dotados realizam “com uma perna às costas”...
Enfim, na medida em que admiram a facilidade com que os mais lúcidos resolvem problemas, os medíocres repudiam-nos para se defenderem.
É um paradoxo angustiante !
Infelizmente, temos de viver com estas regras absurdas que transformam a inteligência numa espécie de desvantagem perante a vida.
Como é sábio o velho conselho de Nelson Rodrigues... "Finge-te de idiota, e terás o céu e a terra".
O problema é que os inteligentes gostam de brilhar! Que Deus os proteja, então, dos medíocres!...

sábado, 5 de janeiro de 2008

ASSOCIAÇÃO DE SURDOS DA ILHA DE S. MIGUEL

Esta associação criou hoje um blog, o ASISM, cujo endereço é http://asism.blogs.sapo.pt/. Quem quiser contactar esta associação também o pode fazer através deste blog. Sobretudo os surdos das outras ilhas podem utilizar esta via para contacto ou interrogações que queiram fazer à associação. De qualquer modo o link fica ali ao lado.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

A LER COM ATENÇÃO

O post «Voltei a Madrid», aqui, do blog Rititi. Mas aqui destaco algumas passagens.


(...)
Sim, Portugal é um país afogado numa depressão da que não se quer curar, numa depressão que curte e da que se orgulha. Olhei durante uma semana para a televisão do meu país e vi programas para o povo apresentados por mamalhudas analfabetas especializadas em entrevistar famílias de desdentados que se queixam de casas a cair de podres, telejornais feitos de entrevistas de rua a um povão que se queixa da subida do euribor, comentaristas políticos que se queixam da crise do BCP, o líder da oposição que se queixa porque não pode controlar a Caixa Geral de Depósitos. A queixa é líder de audiências na televisão portuguesa.
(...)
Sim, voltei a Madrid, fugida de uma Lisboa que sempre amei e que agora me dá urticárias. Não posso com tanta queixa feita cancro de nós, não posso com este rame-rame obrigatório, com este modo de viver que recompensa a lamúria. Tenho pena e queria desejar-vos Bom Ano, que sejais felizes, mas só se me ocorre pedir-vos para desligar a televisão. Saiam à rua, encham os bares, obriguem os donos dos restaurantes a ligarem o aquecimento, iluminem as ruas de Lisboa com as luzes das vossas árvores de Natal, fujam dos centros comerciais e levem os vossos filhos aos jardins, namorem nos bancos dos parques e esqueçam que somos uma campanha publicitária chamada a Costa Oeste de Europa. Somos um país de gente pouco alegre, bem sei, mas também não merecemos estar sempre a levar nos cornos, caralho.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

AQUI CHEGADOS

Há que continuar. A viver e a reflectir. A amar e a adorar. A rir e a chorar. A derramar sequências e a colher as consequências.

Desejo a todos os que por aqui passam votos para um Ano Novo BOM. Sobretudo porque ireis contribuir para que ele seja bom, pois ireis agir melhor, quer para convosco quer para com os outros. Bem Hajam.


Porque chamamos vivos aos que esperam
a vez, marcando passo?
E mortos aos que se libertam
e são livres no espaço?

Fernanda de Castro «Nascer, Morrer», in Asa no Espaço, 1955.
(através do link do blog António Quadros chega-se ao blog dedicado a esta grande poetisa. E eu recomendo todos estes blogues associados)

OS AVISOS SÃO, DE HÁ MUITO, CLAMOROSOS

Já há muito que por aqui venho chamando a atenção para o facto de que quem não se quer defender, morre. Quem não marca, sofre. Também tenho citado muita gente que, de forma atenta, vai tentando acordar as indolências. Hoje volto aqui a citar uma dessas pessoas, José Cutileiro, que no dia 29/12/2007, no Expresso, publicoi o artigo «Déjà vu», de que destaco o parágrafo final:

Apesar de tudo isto muitos europeus não perceberam ainda duas coisas evidentes. Uma, que só pode querer ser modelo moral do mundo quem tiver força para impor comportamentos alheios quando for preciso se estes não vierem de livre vontade. Outra, que a salvação da pele tem exigências muito diferentes das da prática do bem. No fundo insistem em viver acima das suas posses morais. Se não se emendarem a tempo vão acabar mal.

domingo, 30 de dezembro de 2007

FUTURO

Se calhar nem todos terão oportunidade de ler este artigo, «O Desesejo de Futuro», do ensaista Manuel Gusmão, e publicado hoje no Público. Mas recomendo também os artigos do António Barreto, do Frei Bento Domingues e do VPV.
De há uns tempos para cá, vozes muito dissemelhantes parecem insinuar, se não explicitamente afirmar, que não há futuro para ninguém ou que vivemos tempos em que ninguém se arrisca a qualquer gesto de protensão ou actividade de prognose. Conheceríamos uma era em que teríamos já desistido ou teríamos de desistir de tentar imaginar ou desejar um rosto para o futuro. Esta situação dever-se-ia a um medo que inibe a própria imaginação e de que padeceríamos para além de todo e qualquer pessimismo individual ou grupal. E contudo se não houver futuro, se não tivermos futuro, seremos como dizia o outro, "cadáveres adiados que procriam". Porque aquele medo se torna uma patologia do desejo, uma tão brutal antecipação simbólica da morte que inibiria todo o imaginário, amputaria a capacidade de simbolização e tornaria toda a esperança uma ilusão ou um produto do sono da razão. Ora nós precisamos do futuro como do ar que respiramos. A perda do desejo de futuro seria, segundo alguns, uma lição aprendida com a experiência social e histórica disponível. Pois não é verdade que todas as revoluções acabaram traídas pelos revolucionários? Pois não é verdade que a história do séc. XX é uma história de catástrofes e de massacres, é a história do fim das ideologias emancipatórias? Eis a "experiência histórica disponível" reduzida a essa pobre e desgraçada fórmula da resignação fatalista - "sempre houve pobres e ricos e portanto sempre os há-de haver". Respondamos perguntando o que significa "disponível". Não seria melhor dizer "disponibilizada" pelos senhores da comunicação planetária? E contudo não há experiência histórica, não há história sem a categoria do futuro, mesmo que essa categoria seja a de uma falta ou ausência, que se desloca e move no passado a reconstruir, e no presente que reencena o passado. Porque a história viva, ao reencenar o passado, só o pode articular através da disputa de determinados possíveis, uns que se concretizaram, outros que foram derrotados. Essa disputa interessa ao conflito entre os possíveis do presente em que o historiador ou o sujeito da experiência histórica se inclina sobre o passado, ao mesmo tempo que escrutina o seu presente. O que aconteceu podia não ter acontecido; mas de facto aconteceu. Mas apagar a luta dos possíveis significa fixar, imobilizar ou paralisar o que aconteceu; a história desaparece na repetição do mesmo. Tal paralisia, desencadeando a repetição, tornando fatal todo o acontecido, torna a história uma narrativa profética, uma profecia dos vencedores: será sempre assim, porque sempre assim foi. Aliás, a tese sobre o "fim da história" começa por ser uma história mal contada e, mais do que um diagnóstico, representa uma tentativa de eternização de um presente reduzido e um bloqueamento do futuro por esgotamento dos possíveis. Nós, na "tradição dos oprimidos" (Walter Benjamin), aprendemos a não ceder aos desastres, aprendemos a trabalhar para estoirar o tempo contínuo das derrotas e a perscrutar os momentos em que algo de diferente foi possível, mesmo que por umas semanas ou meses ou décadas. O trabalho da esperança que magoa ensina-nos que o que foi possível, e logo derrotado, será possível (de outra forma) outra vez.Para outros, a ausência de abertura ao futuro seria resultado de uma limitação própria da acção humana orientada por fins gerais e últimos. O sujeito pós-moderno teria finalmente reconhecido que as acções humanas seriam no limite inconsequentes ou, no mínimo, de fraca consequência, quando não perversamente contraproducentes, uma vez que a evolução das sociedades seria um processo de tal forma multivectorial e complexo que seria de facto incomensurável para a inteligência, a consciência e acção humanas. As tentativas de orientar os processos sociais, para além de alguns ajustes e correcções com objectivos à vista, seriam uma tentação voluntarista, própria de um sujeito moderno, que implicaria de raiz uma violência destruidora, desencadeada sobre "o curso natural (= fatal) das coisas" e traria no seu cerne a ameaça do totalitarismo.E contudo tudo se transforma. Transforma-se o mundo em nós e fora de nós. E da mudança dos tempos e das vontades, nós participamos. Não como animais caminhando para o abate, nem como demiurgos incondicionados. Mas como agentes procurando o máximo de consciência possível, estendendo as mãos e tacteando os possíveis; fazendo de acordo com os tempos a vinda de um outro tempo. Não somos adivinhos, nem sabemos rigorosamente prever qual será o rosto do futuro, mas isso não nos impede de o desejar. O carácter profundamente transformador do trabalho humano, o facto de uma criança de dois anos ser capaz de produzir uma frase que nunca ouviu, o facto de a poesia reinventar a língua em que se escreve, o facto de as artes serem construções antropológicas e de os humanos se configurarem e reconfigurarem, segundo uma auto-poiesis histórica, são fundamentos suficientes para que nos possamos, sem mais garantias, prometer um futuro, "uma terra sem amos". Porque nós habitamos o mundo, e o mundo é a nossa tarefa.

FORMALISTAS? NÓS?

Julgo que há em Portugal a ideia de que somos uma gente formalista, preocupada com cerimónias e etiquetas, contrariamente ao que acontece "lá fora". A realidade é talvez outra. No que respeita à expressão das relações entre pessoas, ela mesma ou de diferentes c­amadas sociais, estamos pouco formalizados, e preocupamo-nos com tratamentos e etiquetas porque as não temos suficientemente gerais, estandardizadas e automatizadas. Por exemplo, a nossa gama de tratamentos é extraordinariamente complicada e mati­zada em comparação com a de qualquer outro país do Ocidente europeu, e até com a da nossa vizinha Espanha.
Podemos tratar o interlocutor por tu, por você, por o senhor, por o senhor doutor (e fór­mulas correspondentes: senhor engenheiro, senhor capitão, etc.), por vossência, vocelên­cia ou vossa excelência, por vossemecê, pelo nome próprio usado como sujeito do verbo, pelo nome de parentesco (o primo, o padrinho), sem falar já de tratamentos como a menina, o meu amigo e outros ainda, porque a série não tem limite. Uma das maiores difi­culdades de um mestre de Português no estrangeiro é explicar o significado e sobretu­do o porquê desta enorme variedade de formas.
Cada uma delas corresponde não só a determinadas relações sociais entre os interlo­cutores, mas também a situações independentes da hierarquia social, e a relações de afectividade. Por outro lado, uma mesma forma pode ser usada para diferentes tipos de relações, e uma mesma relação admite mais de uma forma, o que dá uma certa margem ao arbítrio e intervenção do locutor.
António José Saraiva, in "CRÓNICAS", da crónica «Tratamentos e Vocativos».

sábado, 29 de dezembro de 2007

UM REFERENDO É MEU, OUTRO É TEU, OUTRO DE QUEM O APANHAR

No artigo «A Dúvida», publicado no DN de 27 de Novembro de 2007, o Prof. Adriano Moreira rematou assim o seu artigo:
Neste debate, que de certo se vai animar à medida que se aproxima o fim do tempo das hesitações, perde-se talvez a lembrança daquilo que parece ser a principal questão do importantíssimo processo: que os interessados, que são os eleitores, tenham informação suficiente para compreender o que está em causa, no que respeita ao seu país, à sua Europa, à sua vida, ao seu trabalho, ao resto dos seus dias, ao futuro dos seus filhos.Não são porém dificuldades de entender o texto organizado por técnicos versados nas complexidades e minúcias dos acordos e compromissos que justificam a opção entre parlamento e referendo.A tradicional política furtiva, desenvolvida à margem da intervenção dos eleitorados nacionais e dos respectivos parlamentos, não resulta da complexidade dos textos normativos, para o entendimento e desenvolvimento dos quais os próprios governos vão continuar a recorrer a assessorias várias e a lidar com desencontradas interpretações judiciais, para além de as instituições europeias terem de reinventar os usos e costumes que harmonizam as competências, as tradições e as pretensões. Do que se trata, como acontece em todos os processos internos de eleição e mudança, é de seriar os problemas, de avaliar os interesses, de oferecer respostas, uma pregação pública de que todo o corpo de responsáveis políticos, que dependeram de eleições, têm possivelmente mais experiência do que necessitariam. Não parece haver memória de embaraços eleitorais que tenham sido causados pela meditação sobre a complexidade jurídica dos textos em que virão a ser compendiadas as respostas.Aquilo que está em causa não é, em qualquer dos métodos, uma aula de interpretação jurídica ao cuidado dos doutos, é uma pública demonstração dos interesses em causa, dos riscos comparados do conservadorismo e da reforma, dos pontos fortes e fracos averiguados para um auditório que algumas vezes também terá mais experiência do que necessita de exercícios semelhantes. A legitimidade parlamentar não é inferior à legitimidade do referendo, estando a escolha dependente de muitas circunstâncias, entre elas os compromissos assumidos pelas formações políticas. Mas nenhuma destas pode dispensar-se, em tempo suficiente, e neste tema finalmente, de explicar ao eleitorado que interesses nacionais e europeus, que tabela de desafios, que prospectiva do mundo, e de vida vivida de cada um, levam a pedir a adesão a uma mudança proposta. O eleitorado tem experiência e sabedoria demonstradas para compreender isto. Não tem experiência e sabedoria que lhe permitam compreender a política furtiva que tem caracterizado o trajecto europeu.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

AQUI AO LADO TAMBÉM SE QUEIXAM DO MESMO

No "El Mundo" de Domingo passado, do artigo «El Belén de los Tartufos», destaco:

Por muy acostumbra­dos que estemos aI desparpajo, la caradura y la falta de es­crúpulos intelectua­les de nuestros polí­ticos, todo debería tener un límite. Ya que el regla­mento no habilita aI presidente deI Congreso para hacerlo, la Asocia­ción de Periodistas Parlamenta­rios tendría que crear algún tipo de sanción moral para casos verdaderamente extremos, reabriendo una cárcel de papel como la de La Codorniz o, mejor aún, impo­niendo mordazas virtuales duran­te un tiempo determinado, en ho­menaje a la que aI final de cada episodio silencia aI insoportable bardo de Asterix.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

AD UNUM

Mantenho a tradição do poema neste dia. Mas hoje, quando der início ao Jantar de Natal, erguerei o meu copo a todos os que caíram em combate pela pátria, em qualquer época. E lembrarei os ex-combatentes da guerra do ultramar, do Serviço Militar Obrigatório, que sobrevivem neste Portugal maltratado e desbaratado por políticos medíocres, que não lhes reconhecem o denodo. Ex-combatentes também desprezados pelos militares do quadro permanente, duma instituição militar que hoje já nada diz ao país, mas que temos de sustentar para manter as mordomias, que incluem terem hospitais privados para as famílias que os portugueses todos pagam.
A vós irmãos, para que este nosso e vosso sacrifício seja aceite pela memória do esquecimento, pois o Portugal por que lutaram já se perdeu. Hoje já é memória. Hoje já não há homens, nem mulheres, duma estatura tal que nunca pusessem em causa o país. Vós fostes os últimos. Hurra.
Bom Natal a todos
LADAINHA DOS PÓSTUMOS NATAIS

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

In “OBRA POÉTICA” de David Mourão-Ferreira

domingo, 23 de dezembro de 2007

EMPOBRECIMENTO

E só cito o Pacheco Pereira, do seu blog Abrupto, daqui, onde podem ler o post completo.

.Após o esbanjamento de responsabilidade Guterres – Pina Moura, a última oportunidade que tinhamos de andar para a frente, sem grandes custos sociais, oportunidade perdida com tão grande irresponsabilidade que deveria ser inscrita a negro nos anais do nosso pobre país, tem sido sempre a descer.Sócrates consolidou esse empobrecimento, aumentando brutalmente os impostos, mantendo o estado gastador, pagando um preço altíssimo pelo mito ideológico do Estado – Providência que apoia mal quem deve apoiar para manter uma universalidade de gratuitidades para quem delas não necessita. O caminho para o empobrecimento não vai parar, vai continuar. Está escrito no “modelo social português”, variante já débil do “modelo social europeu”, um mecanismo frágil de garantismo para o presente, para as actuais gerações, mas uma certeza de falência no futuro. E como o futuro é sempre maior do que o presente, e, mal eu escrevo uma palavra começa já na próxima, estamos mal.

sábado, 22 de dezembro de 2007

UMA PERGUNTA MUITO REPETIDA

Por que não surgem dirigentes políticos do calibre dos líderes do pós-guerra?

Esta é a pergunta que Luís Campos e Cunha pôs no início do seu artigo «Líder ou representante», publicado ontem no Público. E dele destaco:

As instituições democráticas estão a atravessar uma crise fundamental. Cada vez mais temos representantes e menos líderes a governarem os destinos dos países democráticos.A crise do funcionamento das instituições democráticas e dos seus dirigentes está presente, de forma crescente, pondo em questão a própria liberdade. Não há em toda a Europa dirigentes com visão, com estratégia, com humanismo e cultura. Líderes políticos como C. de Gaulle, Adenauer, W. Brandt, Mitterrand, J. Delors ou H. Kohl (exemplos de várias áreas políticas) desapareceram. Não que eles tivessem tido vidas imaculadas e isentas de crítica, longe disso, mas a sua estatura política é de um nível incomparável à de qualquer dirigente actual.
(...)
Líder é um dirigente político que pode antecipar o seu tempo e é capaz de pôr em risco a sua liderança por objectivos que não são necessariamente populares, como a guerra contra os nazis ou a moeda única e uma Europa mais forte. Representantes, pelo contrário, conduzem os países por sondagens, não antecipam o seu tempo, governam cada dia como se as eleições fossem para a semana.
(...)
Lenta e seguramente, pequenos, mas poderosos, grupos de interesses tomam conta da sociedade. As desigualdades agravam-se, os partidos passam a correias de transmissão de interesses e o povo alheia-se. Somos dirigidos por representantes e não por líderes. A situação tem de ser atalhada enquanto é possível fazê-lo dentro do regime.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

GEOESTRATÉGIA. UMA LIÇÃO.

Não dada por mim, mas pelo Professor Adriano Moreira, uma das mentes mais lúcidas do mundo na análise de geoestratégia. Esta lição é o ínicio de um artigo que ele publicou no DN de 18.12.2007, intitulado "A FALÊNCIA DA PROSPECTIVA" :

Alguns dos mais sérios conflitos que estão em curso, e não parecem dar sinais de regresso à paz, obrigam à modéstia de reconsiderar o rigor das prospectivas que conduziram a decidir e legitimar envolvimentos ocidentais, em nome dos direitos do homem, em nome dos deveres humanitários, em nome de enganos, e naturalmente de interesses económicos e estratégicos.
Uma doutrina tranquilizante dos desvios de uma relação publicável entre o uso da força e a ética de governo é a que apela às avaliações dos efeitos produzidos, e considerados como retribuição justa da acção empreendida, ainda que por vezes violando os normativos em vigor. A destruição do eixo do mal, incluindo a prevenção da ameaçadora posse de armas de destruição maciça, inscreve-se nessa perspectiva consequencial animadora da imposição dos sacrifícios inerentes à subida aos extremos da guerra.
O que não parece comprovado pelos factos é que essa metodologia esteja suficientemente afinada para não ser surpreendida pelos efeitos não previstos, mais cobertos pela lei da incerteza a que todos os fenómenos sociais andam subordinados do que pela suficiência tecnocrática dos decisores.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

AGRADÁVEL JANTAR

Hoje (já ontem), que tive com outros blogers do universo de cá. Malta do Contnente (sic) pensem em vir até cá blogar em convívio. Inibam o medo de voar e ousem mergulhar em pleno Atlântico.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

ANTÓNIO QUADROS

Só hoje reparei que não tinha colocado o link do blog sobre este grande português ali ao lado, na lista. Correcção feita.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

O PAÍS VULNERÁVEL

Excelente artigo de Francisco Sarsfield Cabral , hoje no Público, intitulado «Nevoeiro nos mercados». Nele conclui que "o país da zona euro mais vulnerável à crise do crédito é Portugal".

domingo, 16 de dezembro de 2007

JÁ HÁ MUITA UNANIMIDADE. FALTA A REVOLTA

Hoje, no Público, António Barreto complementa muito bem o que eu disse no post de ontem. No excelente artigo «Armas de Arremesso», com subtitulo "O jogo de espelhos continua. A ilusão vigora. Muitos acreditam nela" descreve, melhor do que eu fiz, o novo leninismo. Não percam a sua leitura.

sábado, 15 de dezembro de 2007

O NOVO LENINISMO


Sem ideologia, o que é óbvio. Também sem personagem de liderança, o que é constatável através da percepção circundante do mundo político.
Mas este novo leninismo (que é global) é o da NOMENKLATURA. A dos militantes dos partidos políticos, gente, actualmente, muito medíocre, sem carácter e de honestidade duvidosa, cujo objectivo pessoal e fim colectivo é apoderarem-se de toda a estrutura do Estado. Para dominarem e dele usufruírem. Os caminhos que trilham são os das suaves ditaduras rumo a formas de estalinismo mais rude. As concentrações de actividades económicas, da posse de bens e matérias, da comunicação social e até do desporto só podem conduzir a ditaduras, sempre auto intituladas de democráticas, e sob a batuta de um conjunto de tiranetes que, sendo medíocres, obedecem seguramente a alguém. Agora perguntem a quem. E o lema deste blog, «mais cedo ou mais tarde, esta mistura explosiva de ignorância e de poder vai rebentar-nos na cara», fará jus ao que venho por aqui divagando.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

CAMBADA DE MEDÍOCRES


A mediocridade cada vez ganha mais pujança. Os medíocres usufruem dos seus tempos de glória. São hoje, em Portugal, uma casta reprodutiva. Dominam em todas áreas. Só não dominam o conhecimento sobre as áreas porque, como medíocres, são incapazes de o fazer.
Mas os portugueses é que têm culpa que eles dominem. Não podem atribuir a culpa a mais ninguém. O que mais me preocupa é se os portugueses começam a ser, na sua maioria, uma cambada de medíocres. Isto, então, já será trágico.
P.S. Ninguém comentou o post anterior sobre a fome que já grassa no seio da classe média. Com sinceridade digo que esta falta de sensibilidade se está a demonstrar, também, trágica. QUO VADIS PORTUGAL

domingo, 9 de dezembro de 2007

CLASSE MÉDIA A PASSAR FOME

Leia aqui

O PRECIPÍCIO DA PAIXÃO

No filme VINICIUS, Tonia Carrero diz que Vinicius de Moraes, para viver a vida em plenitude, precisava “desse precipício da paixão”. Só uma mulher inteligente poderia dizer isto, sobre a percepção do homem com a paixão. De facto a paixão, o seu precipício, é que permite a descida aos infernos para uma ascensão aos céus de plenitude da existência. Ou tudo ou nada. A escalada pela encosta da paixão é sempre titubeante, parca, cheia de escolhos e de sofrimento. Enquanto a vertigem para o precipício nos enreda na voragem do fruir da vida. É intensa. Onde a morte nunca é perspectivada. Não há temores. Vive-se.
Quanta contenção à beira desse precipício não provoca vidas infelizes, temerosas, falidas, enfim, perspectivam a morte porque nunca vivem em pleno.
E depois leiam a poesia de Vinicius, pois está lá tudo.

Assim como viver
Sem ter amor não é viver

Não há você sem mim
E eu não existo sem você
(final do poema EU NÃO EXISTO SEM VOCÊ)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

CONCORDAR OU NÃO CONCORDAR

Mas vale a pena passar pelo blog Quintus, com link aí ao lado. Pelo menos reflecte-se. Pode-se não estar de acordo, mas não se pode deixar de reflectir.

HARMONIA DOS PESSIMISTAS

O VPV, escreveu hoje, no Público, um bom artigo que intitulou «Pessimismo ou realismo».
Destaco, porque ele o diz melhor do que eu, o seguinte trecho:

Para começar, só uma pequena minoria (26 por cento) acredita que vai viver melhor em 2008 e, provavelmente, está muito enganada. Para a maioria (74 por cento), o futuro "imediato" - o dinheiro e o emprego - é a grande preocupação, para não dizer a grande angústia. A propaganda e as promessa de Sócrates não pegaram. Ninguém, ou quase ninguém, acredita no futuro.Segundo o inquérito, os portugueses preferem a honestidade ao poder. Por outras palavras, não querem mudar o mundo, porque desconfiam da mudança. Já lhes basta que não os roubem, iludam ou enganem. É o ponto de vista da vítima. Da vítima da pobreza e da vigarice. Ao próximo (e, sobretudo, ao Estado) só pedem "tolerância social". No fundo, que não se metam com eles, que os deixem pacificamente no seu canto. Gostam da tradição (embora não se perceba qual; suspeito que a do mito salazarista). Não gostam da "modernidade" nem da mania de os "modernizar". E, logicamente, em matéria de marcas, votam pela Mercedes (32 por cento), que simboliza a duração e a solidez; não votam em "novidades" (como a Apple), sem valor seguro ou garantia da experiência.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

ENCONTRAR POSTS COMO ESTE, DÁ ÂNIMO

Aqui, no blog «A BEM DA NAÇAO»
BASTA PUSILÂNIMES !!!
Assusta-me pensar que o povo português esteja indiferente ao que lhe possa acontecer: Tornar-se mais uma das (insatisfeitas) comunidades autónomas espanholas. Será que não se importa em pagar com a independência ao conforto de uma suposta estabilidade económica? Que tipo de português pusilânime é esse, o de agora, que se acovarda e submete às mesquinharias políticas e às dificuldades financeiras? Que se esquece das lutas e bravuras das Odisséias vivenciadas pelos seus antepassados? Que nega para seus filhos o direito herdado de decidir por si, de falar a sua própria língua, de honrar a sua pátria? Será que os homens deste país se esqueceram de mostrar à mocidade que ela tem uma cara e que ela custou caro?


Mesmo que o meu dinheiro esteja no SANTANDER e o DNA dos meus cromossomas tenha o código genético igual do espanhol, aprendi com meus pais que a minha terra, a minha história e a minha alma são portuguesas!

Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 1/12/07

PORTUGAL PRECISA DE SER REINSTAURADO

Disse-o o PROFESSOR AGOSTINHO DA SILVA. E frisou bem que não era restaurado, mas sim reinstaurado. Malta nova ponde mãos à obra. Os velhos já estão deamsiado viciados na madorna, sendo muitos viciosos. Vamos lá a ver se conseguem.

VELEIDADES DA DEMOCRATIZAÇÃO

Se o regime democrático tem a vocação de permitir a todos, pelo menos teoricamente, a igualdade de oportunidades no acesso ao saber, à cultura, à riqueza e ao poder, não tem o condão de tornar iguais pessoas diferentes na educação, no carácter, na iniciativa e até na sorte. Não transforma a vulgaridade em educação, não equipara o preguiçoso e o trabalhador, o ignorante e o ávido de saber, o passivo e o lutador. Em Portugal, o carácter recente da democracia, o grande atraso anterior, a mudança vertiginosa das últimas décadas tornaram as coisas ainda mais complexas: entrou no mercado e em todos os sectores da sociedade uma geração frequentemente deslumbrada com o seu próprio acesso ao poder e ao dinheiro, sem bases culturais e educativas sólidas e sobretudo sem consciência da sua responsabilidade social. Repito: a democratização é uma extraordinária força de desenvolvimento, libertando energias, talentos e criatividade, mas não torna igual o que é diferente, e ainda bem. E não é o grau ou a função de doutor, gestor, catedrático ou ministro que confere, por si só, a qualidade profissional e sobretudo humana. Basta olhar à nossa volta e ficamos esclarecidos...
Esther Mucznik, “Em defesa das elites”, hoje no Público.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

SEM TEMPO

Ando sem tempo. Por isso reflictamos com Frei Bento Domingues, através da sua crónica publicada no Domingo, no Público.
É o tempo que nos devora e não é o tempo que nos consola. Se parece escandaloso ter nascido sem ser consultado, não é com alegria que alguém pode escolher o tempo e o modo de morrer. Nietzsche, no entanto, desafia-nos a dançar nas prisões. Ao aproximar estas imagens contraditórias, evoca as estranhas relações do ser humano com o tempo. Se tivéssemos apenas cadeias, cairíamos no desespero; se não houvesse senão a dança, viveríamos na ilusão. A nossa relação com o tempo vive destas duas evocações: prisão e liberdade, mas a lógica do tempo escapa-nos. Podemos fechar os olhos e criar a ilusão de que o tempo não existe. Logo que os abrimos, o presente está sempre a ir para o passado sem nos poder dizer o futuro. É a nossa condição: viver nesta passagem fugaz e fugidia, onde tudo se inscreve e tudo se apaga.